quinta-feira, 9 de outubro de 2014

A sabedoria está na prudência!


12 Naquele tempo, Berodaque-Baladã, filho de Baladã, rei de Babilônia, enviou cartas e um presente a Ezequias; pois ouvira que Ezequias tinha estado doente. 13 E Ezequias passou a escutá-los e a mostrar-lhes toda a sua casa do tesouro, a prata e o ouro, e o óleo de bálsamo, e o óleo bom, e seu arsenal, e tudo o que se achava nos seus tesouros. Não se mostrou haver nada que Ezequias não lhes mostrasse na sua própria casa e em todo o seu domínio. 14 Depois disso entrou Isaías, o profeta, até o Rei Ezequias e lhe disse: ‘Que disseram estes homens e donde vieram para chegar a ti?’ Ezequias disse, pois: ‘Vieram duma terra distante, de Babilônia.’ 15 E ele prosseguiu, dizendo: ‘Que viram na tua casa?’ A isto Ezequias disse: ‘Viram tudo o que há na minha casa. Não se mostrou haver nada nos meus tesouros que não lhes mostrei.’ 16 Isaías disse então a Ezequias: ‘Ouve a palavra de Jeová: 17 ‘Eis que vêm dias, e tudo o que há na tua própria casa e o que os teus antepassados armazenaram até o dia de hoje será realmente levado a Babilônia. Não sobrará nada’, disse Jeová.” (2 Reis 20:12-17).

Antes do Rei Ezequias perder tudo que tinha, ele perdeu a SENSATEZ. Ezequias perdeu o bom senso no momento mais importante e decisivo da sua vida: QUANDO OS INIMIGOS ESTAVAM PRÓXIMOS. O orgulho do rei impediu que ele lembrasse um importante provérbio: “A cobiça, tendo presente o que deseja, nunca se acovarda em procurar seu logro, à custa dos maiores inconvenientes.” Resumindo, o que não é visto, não é cobiçado.

Aproximadamente 2700 anos após a história do Rei Ezequias o Portal G1 publicou a seguinte notícia:

“Dois fuzis foram roubados do carro de policiais xxxxxxxx enquanto eles foram justificar o voto. É uma regra básica, os policiais não podem se separar das suas armas.
Todo mundo sabe e a polícia recomenda que não se deve deixar algo de valor no carro. Imagine, largar dois fuzis. As armas foram recuperadas nesta segunda-feira (6). O furto foi no domingo, de manhã. O carro estava estacionado perto de um shopping de Brasília.
Os dois fuzis furtados em Brasília são uma arma considerada de guerra, de uso exclusivo de militares e da Polícia xxxxxxx.
Imagens de uma câmera de segurança mostram que às 8h05 um homem de roupa escura chega com os fuzis enrolados em um pano preto. Ele coloca na caçamba, e sai calmamente.
Vinte minutos depois, quatro homens se aproximam. Um deles mostra as armas para os outros. Antes das 9h, três homens retornam. Um deles se enrola em um pano. Eles ajeitam os fuzis e vão embora sem pressa.
As armas foram retiradas de um carro da Polícia xxxxxxx descaracterizado, que estava em um estacionamento. Segundo a polícia, o carro foi arrombado pelos bandidos.
Os policiais desceram do carro e foram até um shopping, no centro de Brasília, para justificar o voto. Eles contam que quando voltaram, as armas tinham sumido.
Eles não são de Brasília e estavam na cidade fazendo um curso no xxxxxxx xx xxxxxxxxx xxxxxxx, um grupo de elite da Polícia xxxxxxx. Na noite de segunda-feira (6), quatro pessoas foram presas em uma casa a 35 quilômetros do centro de Brasília. Foram recuperados os dois fuzis e apreendida uma espingarda calibre 12.
Uma outra pessoa também foi presa. No total, são cinco. A Polícia xxxxxxx disse que foi uma fatalidade e que os policiais não serão punidos.” (G1, 2014).

O noticiário gerou grande comoção nos grupos policiais do WhatsApp© e do Facebook©. Muitos policiais recordaram instruções sobre a condução do armamento recebidas nas academias e nos quartéis. Outros sugeriram punição exemplar e o desligamento do curso para os policiais envolvidos no incidente. Alguns foram além e culparam o grupo de ações especiais e seus integrantes como se fossem os responsáveis pelo comportamento dos dois policiais, alunos num curso de formação. Entretanto, justiça precisa ser feita em relação aos colegas do grupo de operações especiais, pois aqueles que os conhecem sabem a seriedade, sacrifício e dedicação com que também trabalham. Apesar de vivenciarem as mesmas desilusões que os demais, eles se agarram à emoção do serviço especializado para que haja uma razão para acordar e ir para o trabalho todos os dias. Infelizmente, muitos se deixam abater pela atual circunstância e enxergam aqueles que ainda resistem como se não fossem merecedores do nosso respeito.

De fato, a ocorrência foi um acontecimento vergonhoso que deixou evidente um comportamento inadequado, porém comum entre policiais que ainda não aprenderam a lição de casa. Não se deixa uma arma de fogo dentro de uma viatura. E não importa se a viatura é ostensiva, descaracterizada ou veículo particular. Se a arma é curta ou longa. Se está com os carregadores ou não. Aliás, não se deixa NADA dentro de um carro, NADA! Criminosos se expõem e arrombam carros até mesmo para checar se há algo escondido. Com dois fuzis à mostra, o risco vale o benefício até para o bandido mais idiota.

O furto foi, também, um evento de extremo perigo para todos os policiais e cidadãos, pois colocou em circulação, no submundo violento do crime, armas capazes de produzir uma destruição além da compreensão. E apesar de acreditar na eficácia do porte irrestrito de armas para policiais e cidadãos, não é incomum tomar conhecimento de armas e munições furtadas/roubadas de bolsas, porta-luvas, guarda-volumes de academias de ginásticas, reservas de armas de delegacias e quartéis (policiais e militares), de depósitos judiciais, empresas de segurança privada, centros de treinamento de tiro e indústrias bélicas. Isso revela não um problema das armas em si, mas tão somente a negligência com que são protegidas e guardadas nos locais mencionados. É a ideia de que algo ruim nunca vai acontecer – pensamento recorrente das vítimas em potencial.

Talvez o furto dos fuzis tenha sido apenas a ponta do iceberg referente ao comportamento de alguns policiais. Por isso é preciso deixar a emoção de lado para lembrar que existem policiais que “perdem” armas constantemente; que não portam armas quando estão trabalhando; que não portam armas de jeito nenhum; que deliberadamente não participam de treinamentos de tiro, quando existem; que não limpam suas armas; que portam apenas um carregador; que quando portam armas, são obrigados a usarem ferramentas não confiáveis e de baixa qualidade; que não sabem usar suas armas; que não praticam atividades físicas, etc. Tudo isso conspirando para aumentar os riscos para os próprios policiais e para a sociedade.

A questão do comportamento complacente é tão séria para a salvaguarda do policial que deveria ser tratada com mais cuidado. Por exemplo, nos últimos meses, o grupo terrorista denominado “Estado Islâmico” tem divulgado vídeos de emboscadas a postos de controle militar/policial. Os terroristas se aproximam em camionetes, desembarcam e disparam contra as posições militares. Em muitos casos, parece não haver qualquer revide por parte dos militares. Quando o cinegrafista se aproxima dos corpos, a impressão é que todos foram pegos de surpresas, já que estão deitados em colchões, sentados, no banheiro, etc. Como um grupo se coloca em tamanha desvantagem sabendo que pode ser fuzilado a qualquer minuto? Como alguém pode dormir num plantão desse tipo? Por que não estão atentos? Por que não revidam? Estão longe de suas armas? Seus fuzis estão prontos e destravados? É o medo? Se alguém acha que vai morrer, não é melhor mandar um ou dois terroristas pro inferno antes?

Mas voltando ao assunto, se o policial está do lado de fora da viatura e a arma está do lado de dentro, então a arma está sozinha e o policial desarmado, mesmo que ambos estejam próximos um do outro. Uma arma curta tem ficar em contato com o policial, preferencialmente com um coldre de qualidade. Com uma arma longa é a quase mesma coisa (em contato com o policial, obrigatoriamente com uma bandoleira).

Portanto, existem três locais para você manter sua arma curta: na mão (checando, fatiando, apontando para o alvo, atirando), no coldre (acordado) ou na cabeceira da cama (quanto estiver dormindo). E existem três lugares para uma arma longa: nas mãos (checando, fatiando, apontando para o alvo, atirando), na bandoleira (acordado no trabalho) ou na reserva de armamento da instituição (quando estiver dormindo em casa).

Entretanto, como num acidente aéreo, guardadas as devidas proporções, o furto dos fuzis não pode ser creditado a uma só falha. Na verdade, é o agrupamento de pequenos erros que acabam por produzir incidentes deste tipo.

Como o evento ocorreu num domingo, as perguntas que faço são: por que esses policiais estavam na posse dos fuzis? Eles estavam efetivamente no curso ou estavam de folga? Não havia como guardar as armas noutro local? HAVIA UMA RESERVA DE ARMAS SEGURA NA SEDE DO CURSO? POR QUE OS FUZIS NÃO ESTAVAM GUARDADOS LÁ? Por que os policiais não vestiram a camiseta da polícia e foram com os fuzis até a seção eleitoral? Por que um policial não montou guarda do lado de fora da viatura (atento e com fuzil na mão) enquanto o outro justificava seu voto? Havia o receio de serem abordados pela PM ou causar pavor nos clientes do shopping? Então, por que um policial não protegeu a viatura (com a pistola dissimulada) enquanto o outro justificava o voto? Certamente, o leitor tem outras perguntas ou considerações.

Talvez a ausência de local adequado tenha forçado os policiais a levar os fuzis com eles. E talvez, a ideia de que ninguém seria idiota o suficiente para arrombar uma viatura policial tenha gerado a sensação de segurança que permitiu que os policiais deixassem as armas no veículo. O problema é que naquele domingo haviam quatro criminosos, idiotas o suficiente, observando o que acontecia.

Durante um curso de formação de INSTRUTOR de fuzil, um dos alunos esqueceu a arma dentro da sala de aula. Ele só deu falta do armamento quando o ônibus que conduzia os alunos até o local de treinamento já estava distante uns 30km. Quando chegaram, os professores entregaram outro “fuzil” para o aluno: um tronco de madeira que pesava uns 15kg e devia ser carregado o tempo todo. Hoje esse aluno é instrutor de fuzil. E quando soube do furto, ele disse que tentava imaginar o tamanho e o peso dos troncos que os colegas teriam que carregar!

Para finalizar, desejo que os policiais concluam o curso de operações especiais com sucesso e aprendam a lição. Lição que deve servir para todos nós!

Parabéns a todos os policiais envolvidos na recuperação do equipamento.

Fonte: http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2014/10/policiais-federais-tem-fuzis-roubados-enquanto-justificavam-voto-em-brasilia.html

Humberto Wendling é Agente Especial, professor de armamento e tiro da Polícia Federal e autor do livro Autodefesa Contra o Crime e a Violência – Um guia para civis e policiais.
E-mail: humberto.wendling@gmail.com
Blog: www.comunidadepolicial.blogspot.com
Livro: www.autodefesacontraocrime.blogspot.com
Editora: www.editorabarauna.com.br

14 comentários:

  1. Irretocável texto, professor.
    Fico na torcida para que os operadores não respondam um PAD. Já basta o susto.

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  2. esses 2 é o que conhecemos, no jargão militar, como o verdadeiro "apagadão" .

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  3. Saudações! Ótima explanação! Quando comecei a ler seu livro reforcei a minha "tese" sobre todo tipo de segurança.Até eu, mero cidadão, sei dos procedimentos de segurança que deve-se ter com armamento. Os Militares Israelenses vão a praia somente com 3 itens, Roupa de Banho, protetor solar e seu FUZIL, junto ao corpo na bandoleira, pois lá eles são responsáveis absoluto pelo seu armamento. Parabéns pelo texto.

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  4. O que eu gosto dos textos, é que o autor não faz distinção entre polícia e civil, e está certíssimo, não existem ninguém melhor que o outro. Parabéns novamente pelo texto.

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  5. COT é só pra embusteiro! Se acham os The Dickies of Galaxies, querem as melhores VTRs, os melhores armamentos, os melhores treinamentos e as mordomias... Mas na hora do pega-pra-capar, se escondem ou evitam o confronto com se fosse normal e doutrinário!

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    1. Anônimo, não fale besteira. Não sei se é o seu caso, mas já que tomou a liberdade de falar qualquer coisa, eu falarei também.

      Normalmente, quem fala mal de uma equipe de Operações Especiais é aquele candidato que: não conseguiu sequer passar no teste físico para ingressar no curso, não conseguiu concluir o curso ou simplesmente tem inveja dos colegas que têm mais habilidades e, consequentemente, mais emoção durante o trabalho.

      Os operacionais do COT já provaram inúmeras vezes que são bravos guerreiros. Cito um exemplo que presenciei: a atuação deles em um dos locais mais hostis do Brasil - favelas da cidade do Rio de Janeiro.

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  6. Realmente professor, todo o cuidado é pouco. Infelizmente nem todo cidadão (militar, policial ou civil) tem essa doutrina de cuidado com o armamento. Ainda bem que recuperaram os fuzis. Parabéns pelo texto.

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  7. Sem comentários. E o governo sócio comunista diz que estamos seguros e não precisamos de armas como civis por causa da policia bem aparelhada que já eh outra piada...

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  8. Humberto, se tudo ocorrer como o planejado, serei Investigador de Polícia de SP. Já fui aprovado nas duas provas de conhecimento e estou indo para o Psicotécnico.

    Gostaria de dizer que colocarei em prática todos os conhecimentos transmitidos pelo senhor neste blog! Obrigado!

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  9. Excelente texto, só achei um pouco injusto as inicias PM no carro da gravura inicial, um pouco sugestivo tendo em vista que a muxibada não foi de Papa Mike.

    grande abraço

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    1. Você tem razão. A gravura foi alterada. Obrigado e forte abraço.

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  10. Este comentário foi removido pelo autor.

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  11. A PATAMO (PMDF, instituição que me orgulho de fazer parte) foi a grande responsavel pela recuperação das armas. Muito pé na porta e muita vontade dos guerreiros na busca dos fuzis. Abs!

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