sábado, 19 de janeiro de 2013

Lar, doce lar! (Parte 1)


"Eis meu lar, minha casa, meus amores" (Casimiro de Abreu, No lar, 1859).
 
Nada resume melhor a importância do lar como a frase de Casimiro de Abreu, já que o lar é uma das coisas mais valiosas que se pode ter.
 
O lar é o oásis no deserto; é a proteção contra a inveja, a intriga, a maledicência, o azedume. É o refúgio contra as tolices e intransigências típicas das frágeis relações no ambiente de trabalho. Mais ainda, é o lugar onde se guardam as preciosidades da vida: a família, as lembranças e os sonhos. Portanto, o lar é o santuário do homem e o local onde ele guarda sua privacidade. Decerto é o lugar onde também se guardam os objetos conquistados com o esforço do trabalho diário.
 
A casa é tão fundamental que a própria Constituição Federal a considera um local INVIOLÁVEL. O texto informa que “a casa é o asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial.” (Constituição da República Federativa do Brasil, Artigo 5º, Inciso XI).
 
Assim, com tamanho significado, a casa é o lugar mais sagrado e protegido que pode existir. Talvez esse seja o único conceito compartilhado democraticamente por todos os seres humanos, considerando que até no sistema prisional, o novo preso deve pedir licença aos demais antes de entrar na cela. E se a regra funciona com indivíduos de espíritos e mentes elementares, também funciona com pessoas melhores.
 
O grau de violência que um arrombador pretende usar quando entra numa casa vazia é totalmente diferente do nível de violência daquele criminoso que força a entrada numa residência ocupada. O gatuno talvez desista da ação e fuja ao primeiro sinal de presença humana. Contudo, o assaltante que invade uma casa habitada está mais que disposto a usar toda a força física para conseguir o que quer. Na verdade, numa situação assim o aumento no grau de violência é apenas uma questão de capricho pessoal, sadismo e um pouco mais de pressão no gatilho do revólver. E não resta dúvida de que algo planejado para ser um simples assalto pode se tornar uma sessão de tortura, abuso e morte. Por isso, o arrombamento de uma casa é um crime sério e com consequências perigosas para seus habitantes.
 
Mas e quanto à casa de um policial? Bem, é tudo isso e mais um pouco, pois é a fortaleza que o separa e protege contra seus VERDADEIROS inimigos: golpistas, ladrões, assaltantes, assassinos, estupradores, etc. É o local onde ele pode finalmente baixar a guarda e experimentar a merecida paz, certo!? Infelizmente, parece que não!
 
Na noite de 03/01/2013, dois homens foram baleados após invadirem a casa de um Agente Federal. Ele estava no escritório da residência quando sua esposa chegou do trabalho. Ela estacionou o carro na garagem, abriu a porta da sala, entrou em casa e acionou o controle remoto para fechar o portão. Enquanto o portão era fechado, o policial ouviu um barulho forte vindo da garagem e o grito da esposa. Por ser um policial extremamente experiente e perspicaz, ele logo deduziu tratar-se de um assalto. Daí ele pegou sua arma e seguiu em direção a sala. O policial visualizou os dois assaltantes armados com revólveres no instante em que o primeiro delinquente apontava a arma para a sua esposa. Assim que os projéteis .45 ACP Hidra-Shok começaram a voar pela sala a uma velocidade de 980 km/h, os criminosos começaram uma fuga desesperada, conhecida como a “corrida da morte” (quando deixam para trás bonés, carteiras, armas, chinelos, comparsas). Os assaltantes correram para a garagem, mas como o portão já estava fechado, eles escalaram um muro alto e arrebentaram a cerca eletrificada. De acordo com testemunhas, lá fora um terceiro bandido deu fuga aos criminosos e os levou ao pronto socorro da cidade.
 
A notícia no jornal local informou que “após um cerco na região, policiais interceptaram um veículo com outros três suspeitos que teriam auxiliado no crime e no socorro aos baleados. Os policiais fizeram uma busca na casa dos suspeitos e encontraram diversos objetos sem procedência comprovada, além de um revólver que teria sido usado na ação. O primeiro criminoso ferido foi atingido no olho esquerdo, mão direita e cotovelo esquerdo. O outro foi baleado nos dois braços.”
 
Os dois estão vivos e se recuperam dos ferimentos no sistema prisional. Ao ser perguntado por que invadiu a casa de um policial, o criminoso cego disse: “Sou bandido, mas não sou burro! Dei mole, entrei na casa errada, na casa de um ‘cana’ bravo!”
 
Certa vez, outro Agente Federal disse que quando criminosos trazem o caos para sua vida, você deve retribuir do mesmo modo. É aí que a caça vira o caçador!
 
Mesmo com informações preliminares, é possível afirmar que o policial não cometeu qualquer erro. Ao ouvir o barulho vindo da garagem e o grito da esposa, ele imediatamente deduziu que era um assalto e agiu antes que fosse rendido. Ele fez a única coisa viável naquele momento: disparou sua arma até se livrar do perigo. Se ele fizesse diferente, se não acreditasse no perigo, se fosse obediente e tentasse negociar para poupar a vida de sua família, certamente a notícia seria outra.
 
Agora adivinhem onde estava a arma do policial enquanto ele permanecia no escritório? AO ALCANCE DAS MÃOS. É incrível, mas milhares de policiais quando chegam em casa logo se livram do excesso de peso que representa a arma, o coldre, o carregador sobressalente, o canivete tático e a carteira. É como se o policial desligasse o interruptor do seu estado de alerta justo no lugar mais sagrado que existe: o lar, doce lar. É óbvio que ninguém anda o dia inteiro pela casa com a arma na cintura; talvez alguns policiais ainda levem a arma para o banheiro quando estão sozinhos. Mas é só!
 
Então, você precisa enxergar a sua casa através dos olhos (ou do olho) do criminoso. Muitas vezes, você torna o trabalho do bandido mais fácil já que ele nem sequer precisa usar a força para entrar na sua casa - ele simplesmente entra por um portão, porta ou janela aberta.
 
Sempre que você está num lugar familiar a impressão que se tem é de total segurança. Isso acontece na delegacia de polícia, no quartel, dentro da viatura, do carro particular e em casa. Só que isso é uma ilusão, pois ninguém está 100% seguro em todas as ocasiões. Portanto, fique alerta, tranque sua casa o mais rápido que puder SEMPRE e mantenha sua arma de fogo à mão nos momentos que considera mais críticos (enquanto dorme ou espera alguém da família chegar).
 
Este artigo é uma homenagem ao Agente Federal pela reação marcante que salvou sua família e pela admiração e respeito.
 
Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal e Professor de Armamento e Tiro lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG.
E-mail: humberto.wendling@ig.com.br
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Twitter: twitter.com/HumbertoWendlin