quarta-feira, 27 de maio de 2015

Ninguém morre antes da hora!




Há uma crença popular que diz que ninguém morre antes da hora. Algumas pessoas ainda acreditam que a forma como a morte se dá também faz parte do destino ou dos desígnios divinos. Talvez essa ideia sirva apenas para amansar a mente e a alma daqueles que sofrem a perda repentina de alguém muito querido. Ao transferir a responsabilidade pela forma e hora da morte para a esfera da fé, aqueles que ficam podem sentir algum alívio da dor causada pela morte, mas também pela insensibilidade da justiça dos homens.

Se a vida e a morte fazem parte de um destino imutável, e se a forma como se morre também, então não há livre escolha, nem mesmo homens culpados. Todas as peças estão conectadas e sincronizadas como num relógio de ponteiros. Assim, se uma pessoa TEM que morrer numa determinada data e de uma maneira específica, nada pode ser feito para salvá-la. Por exemplo, um motorista decide realizar uma ultrapassagem sobre uma ponte numa curva na BR-262. O motorista que segue no sentido contrário se assusta com a manobra, perde o controle do carro e cai num barranco. O veículo fica parcialmente submerso no rio que corre debaixo da ponte. Nesse acidente, morrem o pai do motorista, o motorista e sua filha pequena. O veículo que causa o acidente segue viagem e não é localizado. Imprudência?! Não! É o destino, pois ninguém morre de véspera!

Além disso, se a vida de um homem é parte desse destino inabalável, logo, suas misérias e suas reações diante delas são igualmente inflexíveis. São as forças do Universo conspirando para formar uma pessoa capaz de interferir na vida de outra. Alguém pode até afirmar que apesar dessa força, ainda existe o livre arbítrio para que o suposto “algoz” possa frear seu ímpeto. Mas se ele for capaz de fazer isso, onde fica o destino da suposta vítima? Considerando a possibilidade do livre arbítrio, e a capacidade do “algoz” não cometer o “crime”, talvez o destino permita que outras pessoas sejam testadas até que o mais fraco cometa o “crime” e conclua o destino da “vítima”.

O que estou tentando dizer é que existem centenas de milhares de seres humanos que foram escolhidos para uma tarefa difícil e ingrata: dar fim a sua vida para que seu destino chegue a bom termo.

Portanto, aquele que mata não está agindo com livre arbítrio. Está apenas exercendo a vontade de Deus, a vontade implícita da própria vítima e o destino do qual não possui força para se esquivar. Que dizer, o “criminoso” que mata não é culpado, mas auxiliar de Deus ou vítima do destino alheio. Pode-se afirmar, inclusive, que é o destino do homem assassinado uma força irresistível que transforma uma pessoa em alguém fora da lei. Assim, a culpa é da vítima, pois se ela não sangrasse após esfaqueada; se não tivesse escolhido tal destino; se não estivesse no “lugar errado e na hora errada”; se tivesse, simplesmente, não nascido...

Vale lembrar alguns casos dessa simbiose à brasileira*:

Em 1992, uma atriz morreu porque seu destino era receber 18 tesouradas. Em 1996, o destino de um homem foi ter braços, pernas e genitália amputados com uma motosserra. Em 1997, o carma de um menino de oito anos foi ser sequestrado, sedado e morto com dois tiros no rosto. Entre 1997 e 1998, oito mulheres foram estupradas e mortas num parque de Diadema/SP. Em 1999, um calouro de Medicina se afogou durante um trote na USP. Ainda em 1999, três pessoas encontraram o mesmo destino quando um estudante invadiu uma sala de cinema e disparou uma arma contra os espectadores. Em 2000, um homem sequestrou um ônibus no Rio de Janeiro/RJ e manteve vários reféns; ao perceber a aproximação de um policial, o homem disparou três vezes contra a professora que ele usava como escudo. Também em 2000, uma jornalista encontrou seu destino quando foi baleada duas vezes nas costas pelo ex-namorado. Em 2002, outro jornalista seguiu seu destino ao ser torturado, esquartejado e incinerado numa comunidade carioca. Em 2003, um cirurgião matou e esquartejou a ex-paciente e amante. No mesmo ano, um casal de adolescentes foi acampar num sítio abandonado; o garoto morreu com um tiro na nuca e a menina foi torturada e estuprada durante três dias antes de ser morta. Entre 2003 e 2004, 12 meninos encontraram o destino ao serem abusados sexualmente e mortos por um único homem no Rio Grande do Sul. Em 2005, uma missionária foi morta com sete disparos na cidade de Anapu/PA. Em 2006, uma facção “criminosa” matou mais de 100 pessoas no Estado de São Paulo em apenas três dias. Em 2006, dois “assaltantes” amarraram uma gerente comercial, o marido dela, o filho e uma funcionária, colocaram todos em um carro e atearam fogo. Em 2007, um menino de seis anos foi arrastado por sete quilômetros do lado de fora de um carro no Rio de Janeiro/RJ. Em 2008, uma menina de cinco anos foi jogada pela janela de um apartamento no sexto andar. Em 2011, o ex-aluno de uma escola carioca disparou sua arma e matou 12 estudantes. Em 2015, um cardiologista foi esfaqueado e encontrou seu destino enquanto pedalava sua bicicleta. Crimes?! Talvez o destino!

Bem, se você acha que eu sou louco, vou reproduzir três citações capazes de mostrar quão são eu sou.

“Se vocês querem uma resposta jurídica da coisa, para dizer que vocês não tenham nenhuma consequência, não atirem! VOCÊS SÓ PODEM ATIRAR A PARTIR DO MOMENTO QUE VOCÊS FOREM ALVEJADOS. Vocês não têm uma arma para atacar. Vocês têm uma arma para se defender! Não coloquem a vida de vocês em risco nem a vida de terceiros em risco para pegar um criminoso! Eu acho que a arma é defesa!” Palestrante da área jurídica.

“Para mim, ESSE ADOLESCENTE TAMBÉM É UMA VÍTIMA. Se as pessoas virem o local onde ele mora, vão entender o problema social.” Comentário relacionado à apreensão do menor suspeito de matar o médico Jaime Gold.

“Quando o bandido entra no supermercado armado, pelo simples fato dele entrar armado, o policial já acredita que pode atirar. Só que o Direito não abarca essa situação.” Comentário relacionado à ação de um PM durante uma tentativa de assalto num supermercado.

“Ainda de acordo com o delegado, como a ação do policial militar não é amparada pela lei, acabou beneficiando os bandidos. OS ASSALTANTES PODEM ALEGAR LEGÍTIMA DEFESA.” Conclusão da apresentadora do telejornal.

As prisões brasileiras estão cheias de vítimas sociais. Estão repletas de inocentes contumazes cujos supostos crimes foram ajudar pessoas desconhecidas (ou conhecidas) a concluírem seus destinos. Ali estão seres humanos que se dispuseram a atuar no destino de milhões de brasileiros. Alguns agindo várias vezes ao longo dos anos, inclusive. São os nossos profissionais do destino alheio, sempre dispostos a fazerem algo para o próximo, mesmo que suas ações estejam descritas no Código Penal (que já foi anotado, interpretado, esquematizado, reformado e comentado), mesmo que suas ações contrariem o bom senso do mais idiota dos homens e mesmo que suas ações tragam medo, pavor, dor física e moral, desesperança, raiva, ódio, saudade, lágrimas, impotência, vazio, tristeza e luto.

Pensando melhor... Prefiro o livre arbítrio, O MEU DIREITO DE VIVER E LUTAR com todas as forças, O MEU DIREITO DE PORTAR UMA ARMA DE FOGO, ainda que eu tenha fé em Deus!

Fonte: http://noticias.terra.com.br/brasil/crimes-que-abalaram-o-brasil/

Humberto Wendling é Agente Especial, Professor de Armamento e Tiro da Polícia Federal e autor do livro Autodefesa Contra o Crime e a Violência – Um guia para civis e policiais, 2ª edição.
E-mail: humberto.wendling@ig.com.br
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