segunda-feira, 23 de maio de 2011

Dando sorte para o azar!


Talvez este seja o menor texto que eu escreva. Talvez seja apenas a necessidade de desabafar ou um sintoma do cansaço. Felizmente, porém, ainda me resta a possibilidade de desenvolver e aplicar treinamentos de tiro para os amigos policiais, pois não consigo imaginar nenhum deles caído com o rosto no chão em meio ao próprio sangue ou curvado e imóvel dentro da viatura perfurada por balas. E se um dia eu novamente estiver diante do cano duma arma, sei que após o confronto as primeiras pessoas a quem pedirei ajuda serão estes policiais!

Contudo, cada treino é, na verdade, um exercício de perseverança em respeito aos policiais que desejam aprender, aprimorar suas habilidades e corrigir velhos e péssimos hábitos. Esta é a compensação pelo árduo e invisível trabalho de projetar (durante as madrugadas), desenvolver (nas horas de folga) e aplicar os treinos de tiro (sob o sol e a poeira). Até porque, para cada indivíduo que se nega a treinar (e as desculpas para isso são muitas), existem milhares que vibram apenas com a possibilidade do treino ocorrer; para cada policial que se arrasta até o estande reclamando do calor, da terra ou da chuva, existem outros tantos que sorriem sob estas condições; e enquanto há aquele que acha que sabe tudo, existe alguém que, mesmo conhecendo muito, não perde a chance de ouvir e aplicar as técnicas propostas no treinamento.

Eu sei que nenhum policial é ingênuo a ponto de acreditar que existe a técnica perfeita para todas as situações, sendo que o mesmo princípio se aplica ao policial designado como instrutor. Além disso, reclamar e observar pontos falhos num equipamento, treino ou técnica é um comportamento comum aos policiais que acreditam que algo pode melhorar. Afinal, cada produto deve funcionar no pior momento da vida de um policial, e os treinamentos devem simular, até onde a segurança permitir, as situações reais encontradas no cotidiano policial.

Entretanto, quanto mais técnicas básicas ou avançadas, comuns ou diferenciadas o policial aprende, mais opções ele tem para desenvolver seu trabalho e se livrar dos riscos que corre diariamente. Também sei que as pessoas adquirem hábitos que julgam eficazes (porte sem coldre, arma descarregada, ausência do carregador sobressalente, etc), e se adaptam melhor com determinadas armas, produtos, procedimentos e técnicas. Não é à toa que o mercado de equipamentos policiais (pelo menos o mercado internacional) oferece uma variedade desses itens e cada Organização Policial, mundo afora, ensina técnicas distintas.

Mas se um policial acredita que já sabe tudo, então ele não precisa de treinamento orientado. Basta que ele dê uns “pipocos” numa lata de tinta no sítio de um amigo. Certamente, sua vaga e sua munição serão mais bem aproveitadas por alguém que queira se aperfeiçoar. E ele também não serve para ensinar, porque não há benefício naquele que não consegue ampliar o próprio horizonte.

Se mesmo num dos setores mais especializados da PF, que é o Serviço de Armamento e Tiro (SAT), jamais encontrei alguém sem disposição para aprender, por que não me incomodar com os policiais que insistem em fazer certas coisas do modo incorreto? É neste momento que ouço a maior parte das explicações sobre o porquê alguém se comporta do modo errado. Normalmente a explicação padrão é “Eu já me acostumei deste jeito!” ou “Eu sempre fiz assim e funcionou!” Mas uma coisa é fazer algo certo de modo particular, e outra é fazer a coisa errada sempre do mesmo jeito.

Durante um treinamento recente, os policiais foram orientados a realizar a inspeção das armas. O procedimento, que visa evitar disparos acidentais e que desde 2006 segue a orientação do SAT, consiste numa inspeção visual (quando o atirador retira o carregador da pistola, observa se ele está vazio, passa a palma da mão fraca por baixo do alojamento do carregador para verificar se ele foi mesmo retirado e observa se a câmara da arma está vazia), numa inspeção tátil (quando ele insere o dedo indicador na câmara de explosão para se certificar sobre a ausência, de fato, de um cartucho na arma) e numa inspeção material (quando o policial fecha o ferrolho, aponta a arma para o alvo e pressiona o gatilho). O processo é reduntante, e é assim que deve ser, pois do contrário, um disparo acidental é bem provável. Certa vez, fiz a inspeção ensinada pelo Exército: retirei o carregador, manobrei o ferrolho três vezes e apertei o gatilho. E até hoje me recordo do meu primeiro disparo acidental! Porém, o que eu não entendo é por que os policiais insistiam em fazer a inspeção do modo incorreto, mesmo tendo visto e executado, momentos antes, a verificação da arma do modo certo. Pode ser desleixo ou excesso de confiança do policial! Talvez a insistência em fazer determinadas coisas do modo errado só se resolva quando um disparo não intencional ocorrer. O problema é que aí alguém pode morrer simplesmente pela teimosia do policial.

No mesmo treino, os policiais receberam instruções de como portar os carregadores adicionais de suas pistolas nos porta-carregadores. Ou seja, cada carregador deveria ser inserido de cabeça para baixo e com os cartuchos apontando para frente. Desse modo, no caso de uma troca de carregador, ele seria retirado do porta-carregador e inserido na arma rapidamente, desde que sua retirada fosse realizada no modo correto. Mas alguns policiais persistiam em portar os carregadores invertidos (com os cartuchos apontando para trás). Então, quando o policial retirava o carregador do jeito certo (em forma de pinça), ele não entrava na arma, pois era impossível inserí-lo voltado para trás. Desse modo, o colega perdia tempo girando o carregador até ele ficar na posição correta. Aí veio a brilhante solução típica do Professor Pardal: retirar o carregador com as pontas dos dedos enquanto o pulso era torcido para ajustar o carregador à arma. Pra que simplificar, né?

Não seria mais fácil aproveitar os ensinamentos para corrigir o erro principal? E não seria mais simples aproveitar o treino para praticar o modo correto de se fazer as coisas?

Outro problema diz respeito ao entendimento das regras de segurança e condutas no estande. Todo mundo sabe quando é só um treino, mas talvez ainda reste alguma dúvida sobre os perigos de se manusear ARMAS DE FOGO E MUNIÇÃO REAIS. Infelizmente, é possível que alguém só perceba que o perigo não faz distinção entre um treino e a vida real quando outra pessoa for baleada sem querer. Por isso, antes da atividade, foi informado que era proibido manusear qualquer arma de fogo atrás da linha de tiro, e ainda assim, alguns colegas fizeram exatamente o que não era permitido. E o pior: enquanto sacavam as armas, eles diziam que elas estavam descarregadas. O sujeito, que já errou o procedimento de inspeção, aponta a arma pra você e ainda tem coragem de dizer que ela não apresenta risco.

Finalmente, quando o colega instrutor percebe que os demais policiais fazem o melhor que podem e interagem para aperfeiçoar suas habilidades pessoais e o próprio treino, ele entende que seu trabalho é útil e que existe campo fértil para desenvolver novos treinamentos com total segurança para todos. Mas quando ele precisa trabalhar com os “sabichões”, aí é osso duro de roer!

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal e Professor de Armamento e Tiro lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG.
E-mail: humberto.wendling@ig.com.br
Blog: www.comunidadepolicial.blogspot.com