quarta-feira, 18 de março de 2009

Carregar e ficar pronto! Sua sobrevivência depende de três coisas!


Um policial à paisana caminha em direção a uma casa lotérica. Ele porta uma pistola que está carregada e pronta. Enquanto anda, o policial confere as contas que precisa pagar; ele entra na casa lotérica, e então alguém aponta uma arma para ele e anuncia o assalto.

Enquanto isso, outro policial sai do supermercado empurrando o carrinho de compras. Ele também porta uma pistola que está carregada, mas não pronta. Durante o trajeto até seu carro, este policial observa o ambiente à sua volta. A poucos metros do veículo, ele percebe a aproximação de dois suspeitos. Então, o policial precisa tomar uma decisão e agir.

Agora a pergunta: qual destes policiais está real e completamente pronto para o confronto? A resposta: nenhum. Mas, por quê?

Porque muito da capacidade para se estar a salvo depende de três fatores básicos. Estes três elementos formam um triângulo de autodefesa sustentável. Contudo, basta retirar um dos elementos para que o triângulo se desfaça. Os princípios da autodefesa são o estado de alerta, o preparo mental e a prontidão para reagir rápido e de modo eficaz. Então, uma análise superficial dos eventos mencionados mostra que embora os policiais possuíssem planos de autodefesa, ambos eram falhos, pois faltava um dos elementos. O primeiro policial estava pronto, porém desatento. O segundo estava alerta, mas incapaz de ser rápido o suficiente.

O estado de alerta é provavelmente o atributo mais importante que alguém pode possuir, pois é a capacidade de observar as pessoas e as situações visando à antecipação ao perigo que está à espreita. E quanto mais cedo você detecta e reconhece um problema em potencial, mais opções você tem para decidir como resolvê-lo. Apesar disso, algumas pessoas relatam que criminosos costumam surgir do nada. Mas a verdade é que as vítimas potenciais estão tão desatentas que são incapazes de perceber a presença e a aproximação dos suspeitos. Em outras ocasiões, a falta de atenção conduz você para situações perigosas. E até que você perceba o que está acontecendo, já não há muita esperança. É como se você estivesse caminhando e olhando para os pés, e quando olhasse para frente se deparasse com os becos de uma favela. Então, quão rápido você percebe o que está realmente ocorrendo? Como já disse em outro artigo, quanto mais atento você estiver, menor a sua chance de ser pego de surpresa.

O preparo mental surge da necessidade de não se cometer erros nas situações mais importantes e decisivas. Situações que fazem a diferença entre viver ou morrer. Como o nome já diz, o preparo mental é um treinamento prévio baseado na imaginação. Funciona, grosso modo, da seguinte maneira: um colega lhe conta uma história sobre outro policial que foi assassinado durante um assalto num cruzamento qualquer. E o que você faz? Você vivencia mentalmente esta história como se você fosse a vítima, mas analisando a ocorrência e reagindo de modo que sobreviva ao confronto. É como se você se perguntasse: “O que eu faria de diferente se fosse comigo?” Com este tipo de treinamento, sua mente diz ao corpo o que fazer. Mas, sem esta preparação antecipada, seu corpo hesitará – até mesmo para escapar. Na confusão, descrença e incerteza de uma agressão, você precisa forçar seu corpo para reagir a tempo. E é aí que entra o preparo mental, pois ele diminui o tempo de paralisia.

Você já pensou se seu modo de vida atual e o cuidado com a própria segurança permitem perceber a aproximação do suspeito? Será que sua mente está realmente preparada para ordenar que você saque sua arma daquele coldre barato que está debaixo da camisa, e então carregue e fique pronto antes de receber o primeiro tiro? Quando você imagina um confronto, você normalmente perde ou sobrevive?

Enquanto algumas pessoas escolhem não utilizar a força física como meio de autodefesa, outras não têm tanta delicadeza. Mas, cada uma das escolhas carrega responsabilidades e é preciso pensar e decidir sobre isso antes, e não no momento do confronto.

O terceiro elemento é frequentemente difícil de definir. Significa quão pronto você está para fazer o que tem que ser feito nos poucos segundos que lhe restam. É a capacidade para reagir rápido e de modo eficaz, sendo o esforço, a reação de último momento. Se a situação chegar a esse ponto, você está autorizado a fazer o que for necessário para impedir a ação criminosa.

Como policial, você deve saber quando usar ou não a força, pois mesmo a violência possui diferentes níveis. Sua reação não tem relação com uma disputa insignificante, mas tem relação em não ser ferido ou morto em função da violência. E se a reação é de último momento, então você deve carregar sua arma e ficar pronto – com “bala na agulha” – antes de sair de casa. Quando uma situação chega ao extremo e é hora de usar a força, você deve estar pronto, pois do contrário, o despreparo tomará de você aqueles segundos que você não pode se dar ao luxo de perder.

Alguns policiais acreditam tanto nas técnicas de “tiro israelense” – nas quais se saca a pistola enquanto a mesma é alimentada – que acabam apostando a própria vida na crença de que o tempo gasto para estar realmente pronto é muito curto. Contudo, este tempo não significa simplesmente aquilo que se gasta para carregar uma arma e ficar pronto. Tempo também inclui o período que levará para que sua reação tenha algum efeito, porque mesmo a força letal leva tempo para se manifestar. Assim, você consegue fazer o que precisa ser feito, já?

Não se esqueça que se você falhar em qualquer dos três elementos do triângulo, a chance é de que a pessoa caída no chão seja você.

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal e Instrutor de Armamento e Tiro lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG.
E-mail:
humberto.wendling@ig.com.br

domingo, 15 de março de 2009

Por que policiais portam armas?


No ano de 2007, durante um treinamento realizado na Academia Nacional de Polícia, eu e outro policial saímos do hotel onde estávamos hospedados e caminhamos até um restaurante. Durante o trajeto percebi, apesar da escuridão, que esse policial não portava uma arma de fogo. Assim, para confirmar minha observação, perguntei ao policial se ele estava armado. Ele me respondeu que não!

Parece incrível, mas muitos policiais acreditam que na atividade policial o porte de arma é algo opcional. Talvez esses policiais não queiram ou sequer pensem em ferir outro ser humano. Talvez eles acreditem que não integram uma força policial simplesmente porque trabalham em setores administrativos ou investigam crimes pela Internet, por exemplo. Talvez ainda, eles não queiram assumir a responsabilidade pela própria segurança e carregar o fardo das conseqüências de suas ações de autodefesa.

Infelizmente, esses policiais estão mais predispostos à complacência se comparados aos demais colegas de trabalho. Isso significa que esses policiais, que possivelmente nunca se envolveram em incidentes críticos no trabalho ou fora dele, se acostumaram com a segurança com a qual viveram até hoje, e por isso tendem a acreditar que jamais estarão envolvidos em ocorrências violentas. Acreditar que nada ruim vai acontecer e que sempre se estará a salvo, é o primeiro erro em qualquer estratégia de autodefesa, seja ela armada ou não. E para qualquer policial, o segundo erro é não portar uma arma de fogo. É como costumo dizer: é melhor ter uma arma e não precisar usá-la, do que precisar e não ter uma.

Certamente você conhece algum policial que não porta uma arma de fogo. Alguns argumentam que todo policial deveria ser capaz de escolher se porta ou não uma arma, ou seja, que isso é uma escolha pessoal. Afinal, se um policial desarmado morrer porque não está portando uma arma, o problema é dele.

A questão é que este argumento está errado.

Se alguém permite que um policial se coloque em perigo por não estar armado, outro policial pode ter que arriscar a própria vida para salvar a dele. Isso quer dizer que outros policiais podem morrer porque uma pessoa não quis portar a sua arma. E esta não é uma escolha que se possa fazer.

Surpreendentemente, este tipo de pensamento é encontrado entre alguns jovens alunos das academias de polícia, e também entre policiais mais antigos quando são enviados para os cursos de capacitação. A simples idéia de ter que ingressar em ambientes hostis para realizar prisões de criminosos perigosos preocupa qualquer policial. Muitos aproveitam ao máximo os treinamentos que recebem e se envolvem nestas operações de corpo e alma, mas alguns ainda argumentam que não está escrito no termo de posse ou no contracheque que eles devem entrar em ambientes designados “somente” para os grupos de ações táticas especiais.

Então, por que portar uma arma?

Policiais treinam e portam armas de fogo porque juraram salvar vidas, mas para que estas vidas inocentes sejam poupadas, algumas vezes o policial precisa empregar a força letal como única maneira de fazer uma pessoa violenta parar de cometer um ato abominável. E para isso, o policial precisa estar vivo também.

O objetivo é somente parar, e todo policial gostaria de ser capaz de parar um criminoso sem a possibilidade de matá-lo, no entanto, ainda não existe uma pistola Star Trek Phaser – que pode vaporizar o inimigo ou apenas deixá-lo inconsciente. Obviamente há uma variedade de instrumentos menos letais disponíveis para as situações nas quais é possível seu emprego, mas até agora o único meio concreto para um policial parar imediatamente um criminoso violento é a arma de fogo.

A arma de fogo é apenas uma ferramenta usada para fazer o criminoso parar. A arma nada mais é do que uma “broca sem fio lançada a distância com a ajuda de um produto químico”. Essas “brocas” vêm em diferentes calibres – pessoalmente eu gosto do 9 mm e do .45 ACP, mas todos atingem o mesmo objetivo. Este objetivo é criar um canal de ferida permanente por onde o sangue possa escoar para diminuir o fluxo sanguíneo, o que provocará a inconsciência e a incapacitação. No entanto, algumas vezes a vida do criminoso também escoa, porque sob certas circunstâncias parar requer a morte, mesmo que seja uma morte deliberada por um tiro na cabeça, se esta for a única opção para o policial. Em resumo, antes ele do que eu, um colega policial ou uma vítima inocente.

Desse modo, se um policial não está mentalmente preparado para atirar, ele não deve portar uma arma. E se ele não carrega uma arma, ele não pode ser e agir como um policial. A incapacidade de portar uma arma e ser responsável pela própria segurança, não torna este policial um profissional ruim – não há vergonha nisto. No entanto, eu sugiro outras carreiras no serviço público.

Disparar uma arma é antes de tudo um treinamento mental. Algum tipo de habilidade motora também é necessário, porém a perfeição requer um estado mental adequado. Parte deste estado mental significa certificar-se de que você é capaz de atirar em outro ser humano sob condições legais e morais apropriadas.

Portanto, é necessário um equilíbrio delicado entre a autoconfiança na capacidade de usar a força letal, se for preciso, e o desejo desenfreado de querer usar esta força. Este equilíbrio deve alcançar os novos alunos das academias de polícia quando treinados no uso da força letal, pois a polícia precisa de profissionais capazes de atirar sem hesitação, mas que preferem que isso nunca aconteça, tanto quando deve atingir aquelas pessoas que querem matar e vivem para ver este dia chegar. É preciso se livrar deste tipo de pessoa também.

Se um policial não quer exercitar sua mente e suas habilidades físicas para compreender e aplicar, quando preciso, o conceito do uso da força letal, ele não está realmente armado, mesmo que ele porte uma arma de fogo. E se ele não porta uma arma, ele simplesmente não serve para o trabalho policial.

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG e Instrutor de Armamento e Tiro.
E-mail: humberto.wendling@ig.com.br

quarta-feira, 4 de março de 2009

Faça algo antes que sua vida esteja em perigo!


Se alguém observar a atividade policial, verá que é um trabalho para poucas pessoas. Pense sobre isto: um homem entra em uma loja, saca uma arma, anuncia um assalto (que dá errado), faz reféns e diz que antes de morrer, vai matar o primeiro que aparecer. Um policial recebe esta chamada pelo rádio. E o que ele faz? Ele atende a ocorrência e se dirige às pressas para chegar ao local. Ele corre para chegar lá!

Não é difícil imaginar as pessoas empurrando umas as outras, procurando uma proteção e fugindo aterrorizadas. Em situações assim, essas pessoas têm a idéia certa, mas o policial não dispõe desse luxo. E apesar do medo e do estresse, ele corre contra a multidão em pânico, para chegar o mais próximo daquele que tentará matá-lo.

Desde o primeiro dia, o policial é informado de que o trabalho dele é ir onde está o problema. Quase tudo o que se aprende está relacionado com o perigo. Infelizmente, outra parte importante do treinamento carece do realismo necessário para fazer com que o policial compreenda, por exemplo, a estranha natureza dos confrontos armados. Mas isso é outro assunto!

De qualquer maneira, embora o policial aprenda maneiras de se aproximar do perigo, nunca lhe é ensinado um modo de fugir.

Mas, por que o policial corre para chegar lá, apesar do medo? Esse assunto é amplo e complexo, no entanto, o treinamento constante em técnicas coerentes com a realidade e o conhecimento sobre como o medo afeta o corpo e a mente podem ajudar você a se tornar mais rápido, mais forte e orientado para um objetivo. Assim, considere as seguintes sugestões antes que sua vida esteja em perigo:

Permaneça atualizado, o melhor possível, nas técnicas policiais e treine regularmente. Nunca perca a oportunidade de participar de treinamentos (táticas defensivas, de sobrevivência, armamento e tiro). Se a corporação não pode custear seu aprimoramento, você deve considerar pagar por isso.

Leia artigos, compre livros e não seja tão orgulhoso a ponto de não fazer perguntas e aprender com os policiais mais antigos, experientes e capacitados.

Avalie as informações relacionadas ao seu trabalho e pesquise por conta própria. Quanto mais você aprende, melhor exerce a sua atividade.

Observe o que você está fazendo na área da autodefesa e pergunte a si mesmo se o seu treinamento está coerente com a realidade. Seu treinamento deve simular situações reais, pois a experiência “real” constrói e aumenta a confiança, reduzindo a “novidade” do trabalho diário.

Compreenda as motivações para o fenômeno de luta ou fuga. O medo não é um tipo de neurose que precisa ser eliminada. É uma importante emoção utilizada pela natureza para informar a você que sua vida está em perigo e que é hora de tomar uma atitude. Para ajudá-lo a agir, o medo produz uma mudança química que lhe dá uma margem de sobrevivência, compelindo-o a instintivamente fazer uma de três coisas para salvar sua vida: lutar, fugir ou obedecer.

Luta – Quando se está lutando pela própria vida, a natureza não espera que você siga regras; ela programou o homem para aniquilar a ameaça da maneira que ele puder. Diante de uma ameaça a vida, muitas pessoas encontram força e ferocidade que jamais imaginam ter. Entretanto, você pode lutar e até usar a força letal com o propósito de se defender, mas deve reagir com controle da situação e de si mesmo com o objetivo de cessar agressão. Isso não é uma tarefa fácil quando alguém está tentando matá-lo.

Fuga – Toda criança sabe como fugir do quarto quando ouve aquele barulho estranho que faz o coração disparar. Ela vai de encontro a tudo que há à sua frente, não importando os possíveis ferimentos, e não pára até chegar ao quarto dos pais. Isso não foi ensinado, mas aprendido instintivamente. Mas, a fuga nem sempre é uma opção, pois você fez um juramento e recebe seu salário para ir até onde está o perigo (a retirada em busca de proteção não é considerada como fuga).

Obediência – Quando não se pode lutar ou fugir, mais uma vez a natureza vem em socorro com um terceiro modo de sobrevivência. Por exemplo, nos Estados Unidos, quando um urso cinzento ataca alguém, enfrentá-lo não é uma opção, nem fugir, uma vez que o urso é mais rápido. Assim, os guardas florestais orientam os visitantes dos parques ecológicos a ficarem imóveis e se fingirem de mortos, para que o urso fique entediado e procure uma presa viva. A menos que você trabalhe com ursos cinzentos, como policial, a obediência raramente é uma boa opção.

Avalie as situações de risco ocorridas no passado tanto quanto o que você fez de certo ou errado e o que precisa ser melhorado. Rever suas ações é uma ferramenta poderosa para o aprendizado, dando a você a confiança para enfrentar outro incidente crítico.

Entenda que mesmo que outro policial tenha feito algo que funcionou, ainda podem existir opções que funcionariam melhor. O melhor colega é aquele com quem você pode discutir os incidentes vivenciados, mesmo que para isso você tenha que demonstrar sua fraqueza.

Entenda e aceite a possibilidade de que você tenha que usar a força letal. É importante considerar o que seria disparar sua arma contra o corpo de uma pessoa e vê-la desabar sem vida como resultado daquilo que você fez.

Conheça as tendências do crime e dos criminosos na cidade onde vive. Quanto mais sintonizado com aquilo que acontece a sua volta, menor sua chance ser pego de surpresa.

Faça um esforço para permanecer em alerta. Isso também reduz a possibilidade de você ser pego de surpresa. Quando você está com “a cabeça no mundo da lua” e é empurrado de repente para uma situação arriscada, existe uma grande chance de que você, assustado e incapaz de entender o que está acontecendo, “congele”. O estado de alerta mantém você concentrado no trabalho, mesmo durante os períodos de tédio.

Confie na sua intuição porque é o acúmulo de conhecimentos a partir de sua experiência de vida e que está trabalhando para você de modo inconsciente.

Acredite na missão. Se você não acreditar na missão para a qual foi indicado, ou se os riscos ultrapassam os benefícios para você ou para a sociedade, então você será complacente e hesitará durante o confronto, e aquele que acha que nada vai acontecer ou hesita nessa circunstância, normalmente perde a vida.

Mantenha-se em forma. Um bom preparo físico melhora sua auto-estima e o ajuda nas situações onde a força física prolongará sua resistência para continuar lutando.

Desenvolva um forte desejo de sobreviver em qualquer tipo de situação. Existem relatos sobre policiais e criminosos que foram gravemente feridos e apesar de tudo continuaram a lutar. Essas pessoas tinham um intenso desejo de sobreviver e foi o que fizeram, embora em muitos casos tenham sido atingidas várias vezes. Passe seu tempo livre dizendo a si mesmo que sobreviverá não importa quão ferido esteja, e que não desistirá até que tenha vencido o confronto.

Pratique o treinamento mental. Esse treinamento é uma atividade que não exige esforço físico. Você pode desenvolvê-lo enquanto dirige a viatura ou está em casa. Basta imaginar uma briga num bar ou um roubo em andamento, e como você responderia a essas ocorrências. Visualize um caso real, coloque-se no lugar do policial que atendeu a ocorrência e imagine sua reação visando sua sobrevivência.

Como a mente não consegue facilmente diferenciar a fantasia da realidade, o treinamento mental é uma ferramenta eficaz, sempre disponível e com a qual você pode “vivenciar” situações perigosas sem se expor aos riscos de um confronto real.

Lembre-se, a vida de uma pessoa é considerada o bem mais precioso. Muitas das leis e condutas morais estão fundamentadas na autoproteção e na preservação do ser humano contra graves ferimentos e a morte. No entanto, em uma situação de legítima defesa, você pode ter que ferir ou mesmo matar outro ser humano (o agressor).

Por fim, saiba que no combate não há lugar para considerações pessoais ou religiosas. É preciso concentração na tarefa e nada mais. Se isso não for feito, você estará em perigo.

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG e Instrutor de Armamento e Tiro.
E-mail: humberto.wendling@ig.com.br

domingo, 1 de março de 2009

Um ferimento nem sempre significa a morte!


Como já se sabe, a atividade policial é perigosa por natureza. E como a Lei de Murphy é freqüentemente uma companheira do trabalho policial, você precisa se preparar para as eventualidades, inclusive a de ser ferido num tiroteio. Então, se algum dia você for ferido, as seguintes dicas podem ajudar:

Termine o confronto! Isso parece óbvio, mas muitos policiais param de lutar simplesmente porque acham que foram feridos. Ser atingido é sempre uma possibilidade, mas essa não é a hora para você desistir. Confirme se o criminoso não é mais uma ameaça. Se ele fugiu, fique onde está. Se ele caiu, observe-o (com sua arma apontada para ele). Se ele ainda se move e representa um ameaça, continue atirando – faça na medida do necessário até que a ameaça seja interrompida.

Fique alerta! Criminosos comumente atacam em bando, por isso fique atento à presença de comparsas. Verifique sua arma – sane as panes e faça a recarga por precaução. Em situações de estresse, ocorre a diminuição da irrigação sanguínea originando a hipoxia retiniana (deficiência de oxigênio nos tecidos orgânicos), o que leva ao encurtamento do campo visual de fora para dentro (perda da visão periférica). Isso é Visão em Túnel. Olhe à sua volta, escaneando o ambiente, para compensar a diminuição do seu campo visual.

Proteja-se! Vá para uma posição barricada se você não fez isso antes. Não coldreie sua arma, apenas proteja-se. Posições protegidas funcionam como um grande colete balístico capaz de oferecer proteção para todo o corpo.

Peça ajuda! Respire fundo algumas vezes, chame pelo rádio HT ou telefone celular de modo simples e direto. Diga seu posto, nome, o local onde está e que foi ferido. Esqueça os códigos e os protocolos de comunicação (código Q, por exemplo), apenas forneça informações vitais de maneira clara. Não perca tempo falando com pessoas que não podem ajudar, ligue somente para o serviço de atendimento de urgência. Confirme se o atendente entendeu as informações. A ajuda já está a caminho, então esqueça o HT e volte sua atenção para a ocorrência.

Avalie seu estado! Se você estiver usando um colete balístico, os impactos nele provocam muita dor, mas são apenas hematomas. Sem o colete, os ferimentos são mais sérios – ache-os rápido. Ferimentos nos músculos podem não doer tanto e, às vezes, não sangram muito devido à vasoconstrição provocada pelo estresse. Se o ferimento doer demais, provavelmente algum osso foi quebrado – mas se calcificarão. Ferimentos na cabeça sangram em abundância, mas se você está consciente o suficiente para notar o sangramento, então o ferimento talvez não seja uma ameaça imediata. Contudo, o impacto grave de um projétil na cabeça deixará você inconsciente.

Faça os primeiros socorros você mesmo! À medida que você se acalma, o sangramento tende a aumentar, assim pressione o ferimento o máximo que puder. Utilize suas mãos, sua camisa ou um lenço – improvise. Você tem aproximadamente cinco litros de sangue no seu corpo. Você pode perder cerca de 20% disso e ainda permanecer consciente. Isso dá quase um litro de sangue, então derrame o conteúdo de uma embalagem Tetra Pak para você ter uma idéia do tamanho da poça que isso representa. Portanto, se você não sangrou esse tanto, você ainda está bem. Caso contrário adicione mais compressas ao ferimento e comprima bem.

Realize a respiração tática ou de combate! Inspire lenta e profundamente pelo nariz, e expire lenta e profundamente pela boca. Isso vai oxigenar seu cérebro e dificultar o desmaio. Continue alerta! Peça ajuda novamente, e forneça dados complementares sobre sua localização.

Acredite que o socorro está chegando e não desista! Quando um policial é ferido, todos os outros policiais correm até o local do incidente. Primeiro para prestar auxílio ao colega baleado, e segundo para iniciar a perseguição. As unidades de resgate provavelmente estarão no local em poucos minutos. Por isso, enquanto aguarda, lembre-se que se você ainda estiver vivo quando o resgate chegar, suas chances de sobrevivência são de aproximadamente 90%. Mantenha a respiração tática para “normalizar” os batimentos cardíacos e o nível de estresse. Para manter suas esperanças e seu moral elevado, converse pelo rádio com outro colega.

Compreendendo essas dicas e as revendo periodicamente, você pode lutar contra o medo e o estresse aumentando sua probabilidade de sobreviver à situação de conflito na qual você foi ferido.

Este é um procedimento que você deve treinar por conta própria, porque até agora nenhum treinamento de tiro inclui instruções para quando se leva um tiro ou se perde um confronto, e infelizmente muitos policiais tendem a pensar que isso nunca vai acontecer. Mas isso acontece e muito! Por isso, treine com sua arma, estude ou faça um curso de primeiros socorros porque isso pode e irá ajudá-lo um dia.

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG e Instrutor de Armamento e Tiro.
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