segunda-feira, 21 de outubro de 2013

O dilema da sobrevivência

Matar ou morrer? A resposta para essa pergunta parece óbvia, principalmente quando NÃO é preciso decidir e agir REALMENTE.
Por isso, a maioria das pessoas, inclusive policiais, considera que na luta pela sobrevivência matar alguém seja simples demais. Mas ao avaliar a situação de um amigo próximo, que precisou matar para não morrer, ficou claro que essa decisão não foi das mais fáceis.
De fato, para quem vive no submundo criminoso, matar é algo banal, pois se trata apenas de um capricho momentâneo e de um pouco mais de pressão no gatilho da arma. E apesar de integrarem a espécie humana, criminosos talvez façam parte de um grupo separado, quase uma “subespécie”.
Mas é preciso tratar do ser humano normal. Para ele, desde cedo e a todo instante, vozes internas dizem o que fazer ou não fazer, o que é certo ou errado. Elas o guiam em direção à convivência saudável e à paz de espírito. Entretanto, existem circunstâncias nas quais não há opções. Nelas, o homem normal precisa sobrepujar sua resistência natural em matar alguém da própria espécie para ser capaz de existir mais um dia. As rotas de escape simplesmente desaparecem quando um delinquente aponta uma arma para você ou para alguém que ama.
Muitas religiões, se não todas, propõem que homens e mulheres vivam pacificamente. Mesmo assim, elas conseguem homenagear seus heróis, seus guerreiros e suas vitórias. No mundo caótico em que viveram, esses heróis existiram como protetores divinos, como agentes do bem sobre o mal. Certamente, eles não estavam comprometidos com o louvor, a cura, a alegria e o amor, mas possuíam lanças, espadas e adagas para seguir adiante.
Apesar de os Dez Mandamentos proibirem o assassinato, não se proibiu a autodefesa ou o cumprimento do dever, principalmente na salvaguarda de vidas inocentes. A ideia do perdão e o mandamento “de oferecer a outra face”, conforme narram os evangelhos de Mateus e Lucas, possuem caráter moral PESSOAL. Porém, quando alguém age em nome de outra pessoa, não existe autoridade moral para perdoar em seu nome ou para permitir que o mal se sobressaia em razão da tolerância. A resistência pacífica não é viável quando alguém está tentando matar um policial.
Como a polícia representa todos os cidadãos, seu distintivo, arma, corpo e espírito estão a serviço deles. Permitir uma agressão ao policial é permitir uma agressão ao cidadão. Para honrar seu compromisso e continuar seu trabalho, o policial precisa e DEVE sobreviver. Quando ele se defende, ele também defende milhares de pessoas inocentes.
No Livro dos Espíritos de Allan Kardec, no capítulo VI - Da Lei de Destruição, a questão do assassinato é tratada da seguinte forma:
"É sempre do mesmo grau a culpabilidade em todos os casos de assassínio? 'Já o temos dito: Deus é justo, julga mais pela intenção do que pelo fato."
"Em caso de legítima defesa, escusa Deus o assassínio? 'Só a necessidade o pode escusar. Mas, desde que o agredido possa preservar sua vida, sem atentar contra a de seu agressor, deve fazê-lo."
"Tem o homem culpa dos assassínios que pratica durante a guerra? 'Não, quando constrangido pela força; mas é culpado das crueldades que cometa, sendo-lhe também levado em conta o sentimento de humanidade com que proceda.'"
Aqui, a questão crucial é a intenção assassina e do abuso da capacidade de matar. Por outro lado, se o policial está agindo apropriadamente dentro dos limites estabelecidos, inclusive pelas leis humanas, então ele está realizando um trabalho nobre e necessário para preservar aquilo que é mais importante no momento: sua própria vida e a vida de terceiros. A lei divina e a do homem não impedem a resistência à agressão injusta, muito menos proíbe que se lute contra o mal.
Infelizmente, apesar de as guerras e a morte serem temas comuns nas escrituras, não existe uma prescrição específica para lidar com a morte provocada por nossas próprias mãos em termos do nosso estado emocional, mental, físico e espiritual. Pode haver remorso, ódio, culpa, alegria ou um vazio interior onde se espera algum sentimento. Todas essas reações são normais e aceitáveis, e acredita-se que podem ser assimiladas com o passar do tempo.
As reações ao ato de matar alguém não precisam ser completamente formadas e compreendidas antes que o gatilho seja pressionado, já que, de qualquer modo, as pessoas normais sentem alguma tristeza em relação à morte alheia. Contudo, na luta pela sobrevivência contra um criminoso, estar agradecido porque o sujeito morreu e você ainda está vivo não é moralmente errado.
Como a morte de um ser humano por outro é impensável para a maioria das pessoas, e para muitos policiais também, um policial que é obrigado a matar carrega o fardo dessa ansiedade coletiva. Assim, não há como imaginar que a morte, mesmo de um bandido, vá agradar a todos.
O sentimento por ter causado a morte de outra pessoa não é algo que se extingue com o arquivamento do processo criminal. Você sente o que sente. E faz o que tem que fazer. Portanto, respire fundo, tire uma licença e tente dormir um pouco. SE VOCÊ SOBREVIVEU, É PORQUE FEZ A COISA CERTA.

Humberto Wendling é Agente Especial, Professor de Armamento e Tiro da Polícia Federal e autor do livro Autodefesa Contra o Crime e a Violência – Um guia para civis e policiais.
E-mail: humberto.wendling@gmail.com
Blog: www.comunidadepolicial.blogspot.com
Livro: www.editorabarauna.com.br