sexta-feira, 13 de abril de 2012

Onde eu escondo isso?!

O artigo "Acho que perdi minha arma!" mal foi publicado e mais três pistolas Glock foram perdidas. Num dos casos, a policial também perdeu a carteira funcional. Ligando uma coisa à outra, deduzi que ela ainda perdeu a bolsa (onde estavam a arma e a carteira). Além disso, deduzi que a ocorrência pode ter sido um caso de furto ou roubo. Também já estou considerando que se o ritmo de perdas das pistolas Glock continuar como está, em breve voltaremos a usar revólveres .38 SPL.

Todo policial sabe que uma arma de fogo é um instrumento para a autodefesa que deve estar ao alcance das mãos. O Código Penal Brasileiro determina o que é furto e o que é roubo com base nas ações do criminoso. Mas é possível diferenciar uma coisa da outra de acordo com as ações do policial e a distância entre ele e a arma que lhe foi confiada. Grosso modo, se o policial não tem contato visual com a arma ou a mantém fora de alcance no momento da ocorrência, é furto. Se a arma está onde deve, ou seja, junto ao corpo, é roubo.

A arma junto ao corpo indica dois modos distintos de porte: no corpo e fora do corpo. O porte num coldre preso ao corpo permite que você carregue a arma sob suas roupas todo o tempo e onde quer que vá, enquanto o porte fora do corpo permite que você leve a arma numa bolsa, mochila, pochete ou maleta.

À primeira vista, o porte fora do corpo parece excelente já que não é preciso nenhuma mudança no seu estilo de vestir ou o acréscimo de equipamentos ao corpo. Além disso, esse tipo de porte é mais apreciado pelas mulheres, considerando que a maioria carrega uma bolsa diariamente. Do mesmo modo, os homens também utilizam mochilas e pochetes.

Mas antes que você decida carregar sua arma desta forma, é preciso considerar e entender os problemas que este tipo de porte acarreta.

Clint Smith, instrutor norte-americano, afirma que o porte de arma não é para ser confortável, mas para ser confortante. De fato, portar uma arma nunca é socialmente confortável, não importa o modo como você a transporta. Talvez, o porte fora do corpo seja o mais preocupante e perigoso, pois poucas pessoas têm o hábito de ficar sempre com a bolsa junto ao corpo em todos os lugares. Por exemplo, a maioria das mulheres deixa a bolsa sobre um móvel e esquece que ela existe até o fim da visita. Se uma arma de fogo está escondida dentro da bolsa, deixá-la assim não é uma opção. Mas, mantê-la continuamente pendurada no ombro ou sobre o colo também é extremamente incômodo para a policial e estranho para a outras pessoas.

E não importa quão cuidadosa você seja, o fato é que o porte numa bolsa simplesmente não é tão seguro quanto o porte no corpo. Bolsas são frequentemente deixadas no chão, sobre o sofá, encostadas na parte de trás de cadeiras, no assoalho do carro ou em guarda-volumes de academias. Se você deixa sua bolsa onde alguém pode pegá-la, a probabilidade é de essa pessoa descobrir que você carrega uma arma (perigo de furto).

Bolsas, mochilas e pochetes são frequentemente alvos de ladrões. Em algumas situações, a melhor tática de sobrevivência é simplesmente entregar o que você tem para o assaltante. Mas portar uma arma nesses lugares elimina qualquer outra opção de autodefesa, caso você precise reagir, principalmente se o roubo se transformou num sequestro relâmpago ou estupro. Além disso, muitos criminosos reconhecem uma pochete "policial" ou uma bolsa "tática" pelo que ela é, e durante o ataque o elemento surpresa está contra você. Nem é preciso mencionar que o saque duma arma a partir de bolsas convencionais é DEMASIADAMENTE LENTO.

Pessoalmente, eu não acredito que o porte fora do corpo seja o ideal para o uso diário, pois existem muitas coisas que podem dar errado. Contudo, (Argh! Custa-me dizer isso!) existem momentos e lugares onde o porte de arma numa bolsa faz algum sentido. Por essa razão, toda mulher que porta uma arma deve possuir, pelo menos, uma bolsa própria para o porte da arma, assim ela pode estar minimamente preparada para as RARAS circunstâncias onde o porte no corpo não é viável. Além do mais, muitas mulheres não irão portar uma arma a menos que possam carregá-la na bolsa, e muitas destas mulheres simplesmente não tentarão o porte no corpo de forma nenhuma. E isso tem relação com a estrutura corporal da mulher e com a moda, uma vez que diferente dos homens, as mulheres não podem simplesmente vestir uma calça jeans e uma camisa para fora.

Enquanto as vantagens do porte no corpo são maiores, eu prefiro ver policiais femininas portando suas armas de modo não tão ideal (naquelas raras circunstâncias) a vê-las totalmente desarmadas. Portanto, considerando que muitas policiais escolhem levar a arma na bolsa, elas precisam de informações sobre este método de porte. Porém, é necessária uma reflexão: pense sobre os custos de lutar com um ladrão para proteger seus pertences. Realmente vale a pena arriscar sua vida para proteger a bolsa onde está a arma (que você carrega para proteger sua vida)? Considerando que você não vai conseguir sacar sua arma a tempo, o benefício de lutar pela posse da bolsa não vale o risco de morrer. E entregar “gentilmente” sua bolsa com a possibilidade de sua arma ser encontrada não é algo que se aceite com facilidade. Então, não seria melhor portar a arma no corpo? Se um criminoso tomar sua bolsa e descobrir que você tem uma arma, seguramente ele irá matá-la.

De qualquer modo, você precisa de um coldre (de couro rígido ou cordura), mesmo que tenha escolhido uma arma pequena como a Glock 26. Você precisa de um coldre que proteja o gatilho e impeça que uma caneta, um batom, suas chaves ou seu próprio dedo pressione o gatilho e provoque um disparo acidental.

Obviamente, bolsas femininas não foram projetadas para o porte de armas de fogo e, de modo geral, a maioria delas possui apenas um grande compartimento no qual ficam todos os objetos. Nessa configuração, ou seja, sem um local adequado, a arma representa apenas mais um objeto perdido dentro da bolsa e cujo acesso e empunhadura estão fora de questão na maioria dos casos.

Sua bolsa precisa de um lugar específico para a arma. Este local pode ser o próprio coldre, desde que ele fique preso à estrutura interna da bolsa numa posição ergonômica e adequada ao saque. Ao prender o coldre à parte interna da bolsa, toda a estrutura interna deve ser bem reforçada para impedir que a arma se incline devido ao peso e dificulte a empunhadura e o saque em situações de estresse. Um coldre dedicado mantém a arma sempre na mesma posição, com o cano apontado para uma direção conhecida e com a empunhadura disponível de forma natural. Assim, você não precisa vasculhar o interior da sua bolsa à procura da arma no momento em que sua atenção deve estar voltada para a ameaça que se aproxima.

O acesso ao coldre deve ser feito sempre por um fecho de zíper na parte superior ou frontal da bolsa. A inclinação do coldre vai depender da posição de acesso. Quer dizer, num acesso superior, o coldre deve ficar mais na vertical (a presilha do coldre é opcional). Já no acesso frontal, o coldre deve permanecer mais na horizontal. Ainda no acesso frontal, o fecho deve ser aberto movimentando-se o zíper de cima para baixo. Se preferir, você pode dividir sua bolsa em duas partes: a maior para os itens comuns e com acesso superior; e o menor para a arma e com acesso exclusivo pela frente (como mostra a imagem no início deste artigo). A abertura de acesso deve ser AMPLA o suficiente para permitir que você coldreie e saque sua arma com facilidade e rapidez. Nunca use velcro para fechar o compartimento que dá acesso à arma ou na presilha do coldre.

A presilha do coldre, se houver, nunca deve envolver a armação da pistola. Se a presilha estiver na posição incorreta (sobre a armação) quando você empunhar a arma, sua mão cobrirá a presilha impedido sua liberação. Portanto, a presilha deve sempre envolver o ferrolho passando sobre o cão ou sobre a placa de cobertura do ferrolho (no caso da Glock). O botão de liberação da presilha deve ser acionado pelo polegar da mão que empunha a arma (a mão forte).

Preso no interior da bolsa, o coldre manterá o formato criado pela arma, que poderá ser sacada e coldreada quando quiser. Isso não significa que você deve esperar até o último instante para sacar a arma. Se você julgar uma situação ou um lugar perigoso (um estacionamento mal iluminado, por exemplo), pode discretamente abrir o compartimento e empunhar a arma antecipadamente sem tirá-la da bolsa.

Você também pode reforçar as costuras das alças de sua bolsa para dificultar a ação de trombadinhas. Se as alças da bolsa forem longas ou ajustáveis, mesmo que não sejam reforçadas, você pode cruzá-las no corpo para aumentar o controle da bolsa quando estiver em locais onde há muitas pessoas. Entretanto, o reforço das alças não impede a ação do ladrão, mas dificulta o trabalho dele. Neste caso, você pode ter que lutar com o criminoso pela posse da bolsa já que terá dificuldade de se livrar dela com rapidez. Isso significa que reforçar as alças ou cruzar a bolsa no corpo é uma ideia ruim? De jeito nenhum! Significa apenas que você deve compreender que sua escolha de porte implica na necessidade de treinamento de saque considerando as situações mais perigosas.

Se você empunha a arma com a mão direita, sua bolsa deve ficar pendurada no ombro esquerdo ou debaixo do braço esquerdo (se cruzada no corpo). O zíper do compartimento exclusivo da arma deve estar voltado para frente (acesso frontal), permitindo que a mão direita alcance a arma com facilidade. Para o saque, você firma a bolsa com a mão esquerda enquanto baixa o zíper e pega a arma com a mão direita. Este modo de sacar a arma se assemelha ao utilizado com os coldres axilares.

Muitas bolsas possuem um lado decorado com fechos, bolsos extras e outros ornamentos que ficam voltados para fora quando elas são carregadas. Se você é destra, mas pendurar sua bolsa no ombro direito com o lado decorado para fora, saiba que o compartimento da arma e o coldre ficarão voltados para trás. Isso inviabiliza qualquer tentativa de saque. Portanto, SEMPRE mantenha sua bolsa do lado contrário ao da mão forte. Porém, você pode pendurar a bolsa no ombro direito com o compartimento da arma para frente desde que o lado decorado fique voltado para dentro, certo? Correto! Mas sendo destra, você não vai conseguir sacar a arma com a mão esquerda. Por quê? Porque uma bolsa adaptada para o porte de arma é projetada para ser usada APENAS com a mão forte e o polegar desta mão (responsável pela soltura do botão da presilha do coldre).

Dentre todas as bolsas que você possui, pelo menos uma deve ser adaptada para atender os requisitos de porte de arma. Uma bolsa grande acomoda facilmente uma Glock 19 ou mesmo uma Glock 17, mas elas pesam mais que o modelo 26. Esse peso adicional, aliado aos outros objetos DESNECESSÁRIOS que talvez você queira acondicionar na bolsa devido ao espaço extra, pode induzi-la a colocar a bolsa num canto qualquer sempre que possível, aumentando o risco da arma não estar disponível quando você mais precisar.

Lembretes úteis

O porte de uma arma no corpo é superior em todos os aspectos e recomendado para qualquer situação. Se você insiste em portar sua arma na bolsa, então a mantenha fora do alcance de crianças e curiosos, e sempre ao alcance das suas mãos. Saque e coldreie a arma com o dedo fora do gatilho. Se for necessário ganhar tempo para sacar a arma, CORRA para se distanciar do suspeito enquanto você abre a bolsa. Treine bastante “em seco”, mas antes verifique se a arma está vazia e em segurança. Sugiro que você consulte o link http://www.youtube.com./watch?v=ogGBPVk5GQk. Neste vídeo você pode encontrar boas ideias para o porte dissimulado feminino. Mas o mais importante: fique atenta para não ser atacada de surpresa.

Foto: http://www.gunreports.com/special_reports/accessories/concealed-carry-purse-self-defense-women388-1.html

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal e Professor de Armamento e Tiro lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG.
E-mail: humberto.wendling@gmail.com
Blog: www.comunidadepolicial.blogspot.com
Twitter: twitter.com/HumbertoWendlin

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Bons homens deixam boas lembranças.

Decerto cada um de nós possui a capacidade de mudar a vida de outras pessoas. Nos extremos, há os homens que melhoram apenas a si mesmos (o que já requer forte empenho e vigilância) e os que transformam a história de milhares de pessoas. E entre um ponto e outro existem aquelas pessoas dispostas a ajudar, mesmo sem considerar que isso pode fazer toda diferença.

E enquanto existem aqueles que têm o poder, mas não sonham nem são capazes de transformar aquilo que os rodeia, há, felizmente, os visionários que abnegadamente promovem o bem estar, a justiça, o reconhecimento, o auxílio e a motivação outrora perdida. Ao passo que uns homens fecham portas a tudo e a todos, outros as mantêm abertas. Aliás, é o que lembra a frase: “Quando o anfitrião é amigo, a casa é amiga!” E num ambiente de harmonia e satisfação sinceras só há espaço para a prosperidade. Noutros casos, o que se espera é o egoísmo e a deslealdade, pilares da decadência.

Conquanto o ser humano seja capaz de oferecer o pior ou o melhor de si, de segregar ou unir, de tirar ou oferecer, de abandonar ou instruir; de destruir aspirações ou colaborar para suas conquistas; ainda existem aqueles capazes de trabalhar vislumbrando o melhor indistintamente.

Mas que lição ou lembrança um policial pode deixar? Que é importante receber honrarias, diplomas, homenagens e títulos? Que é importante buscar o poder absoluto sobre as pessoas e as coisas? Que uma ordem conquista uma reverência? Que é preciso ser tratado por pronomes nobres? Que é necessário fazer parte de congregações ou sociedades?

Talvez, por uma lógica estranha aos nossos olhos e incompreensível à nossa inteligência limitada, queira Deus que esses homens (muitos nas galerias de heróis mundo afora) não permaneçam em lugar tão impróprio à união e ao progresso, e os convide ao plano mais elevado onde vivem outras estirpes de homens.

Talvez por isso, em 08 de abril de 2011, uma força irresistível tenha levado mais um policial, Júlio César Domingues Bortolato (41 anos), que mostrou simplicidade, apesar das honrarias e dos títulos; que se propôs melhorar a vida das pessoas e ser leal, embora tivesse poder sobre elas; que conquistou reverências sinceras, apenas pelo respeito recíproco; que mesmo tendo feito parte de corporações ou sociedades, pretendeu o bem comum daqueles que estavam ombro a ombro, promovendo a união e o entendimento ao invés da discórdia.

André Luiz, no livro Nosso Lar, disse:

“Uma existência é um ato.
Um corpo - uma veste.
Um século - um dia.
Um serviço - uma experiência.
Um triunfo - uma aquisição.
Uma morte - um sopro renovador.
Quantas existências, quantos corpos, quantos séculos, quantos serviços, quantos triunfos, quantas mortes necessitamos ainda?” (Nosso Lar, 1944, p. 12).

Então, quanto tempo precisaremos para compreender e praticar os ensinamentos desses homens? Devemos pensar nisso agora, pois amanhã pode ser tarde demais!

Foto: Humberto Wendling, 2008. Júlio César durante treinamento de tiro.

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG.
E-mail: humberto.wendling@gmail.com
Blog: www.comunidadepolicial.blogspot.com
Twitter: twitter.com/HumbertoWendlin