domingo, 24 de janeiro de 2016

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Alguém tem que melhorar! Sejamos nós!



Neste texto, compartilho o conteúdo de uma entrevista concedida a um aluno do curso de formação de oficiais da academia da Polícia Militar do Mato Grosso.

Para o senhor, o que é a sobrevivência policial?

Sobrevivência policial é a capacidade de permanecer vivo nas situações adversas. Essa capacidade pode ser nata, pelo simples desejo de continuar vivo, ou pode ser aprendida através do treinamento mental, físico, comportamental e técnico.

Qual a visão (política, social e legal) que o senhor tem sobre a violência contra policiais?

A violência tem sido uma via de mão dupla e um círculo vicioso. Quer dizer, o desamparo institucional e governamental que sugerem que a polícia é “um mal necessário”, uma “fonte de problemas” e a única culpada pela insegurança pública; a aparente dissintonia entre os Poderes; a parcialidade da imprensa, muitas vezes descompromissada com a verdade e a justiça; e a desconfiança por parte dos bons cidadãos impedem que o profissional de segurança compreenda e internalize que seu dever é PROTEGER e SERVIR o cidadão. Então, a primeira ideia que todo policial incorpora é que ele deve somente COMBATER o crime, mas como se TODAS as pessoas fossem inimigas ou dignas de desconfiança. Ele tem aprendido, pela prática, que está sozinho, sem liderança e sem apoio. Ainda que o CRIMINOSO seja um inimigo, o trabalho policial é consequência da necessidade de se proteger os inocentes e os indefesos.

Infelizmente, o resultado da omissão, da incompetência e do amadorismo com que a segurança pública e o homem de polícia (principalmente aquele que está na base da pirâmide) são tratados ficam visíveis nas interações entre o público e a polícia. Estranhamente, a primeira vítima desse desamparo é o próprio policial. Sem que perceba, ele transfere para a comunidade toda carga negativa que recebe, sendo insensível aos problemas dos cidadãos ou utilizando a violência sem necessidade. A segunda vítima (e vítima duas vezes) é o bom cidadão, igualmente abandonado, sozinho e indefeso diante do criminoso. A situação do cidadão é ainda pior, já que seu direito à autodefesa, por meio da arma de fogo, não é respeitado pelo Estado.

Desse modo, o cidadão não enxerga o policial como um protetor, e isso reforça sua rejeição ao aparato policial. A falta de reconhecimento social, então, reforça o abandono experimentado pelo policial. Assim, ele continua seu trabalho acreditando que seu objetivo principal não é a salvaguarda social, mas apenas o combate. O combate é necessário, mas sua razão principal é a proteção das pessoas indefesas.

Seria interessante uma disciplina que abordasse esse assunto nos Centros de Formação profissional? Por quê?

Sim, seria interessante. Porém, mais que interessante, a disciplina “sobrevivência policial” e os aspectos envolvidos na violência contra policiais deveriam ser obrigatórios em qualquer curso de formação profissional.

A inclusão dessas disciplinas reforçaria o entendimento de que o trabalho policial é perigoso por natureza, mesmo quando não se está “trabalhando”. Também poderia contribuir para o início de ESTUDOS DE CASOS NACIONAIS referentes à atuação dos policiais durante e fora do serviço, bem como a coleta e análise de dados estatísticos sobre a vitimização de policiais no Brasil. Tudo visando estabelecer normas, técnicas e procedimentos para a salvaguarda do policial.

Dados estatísticos são produzidos todos os dias, ano após ano, sempre que o policial sai para o trabalho. Entretanto, não conseguimos extrair os ensinamentos deixados por aqueles que foram feridos ou mortos. Fala-se sobre a letalidade da polícia, mas nada é dito sobre a morte de centenas de policiais todos os anos. Nem mesmo as instituições policiais se preocupam em descobrir o que deu errado e o que precisa ser melhorado na atividade policial.

Muito é feito para tornar a vida do criminoso melhor, contudo quase nada é realizado para tornar a vida do policial e do cidadão menos sofrida e perigosa.

Na opinião do senhor, faria diferença na atuação prática do policial, caso seja implementada essa disciplina, nas ocorrências em horário de folga?

Certamente. Os conflitos envolvendo criminosos e policiais em serviço se diferenciam das circunstâncias nas quais os policiais estão de folga. Contudo, os princípios da sobrevivência policial se aplicam ao homem, e não somente ao trabalho policial. Portanto, servem para todos os horários e situações. Desde 2007, todos os treinamentos de tiro que implementei na DPF de Uberlândia tinham relação com a sobrevivência policial, principalmente nas situações fora de serviço.

Hoje, para o senhor, o policial sai de um centro de formação preparado para defender-se nas situações de folga?

É difícil concluir, pois os cursos de formação variam de acordo com a instituição policial, o Estado, o posto ou graduação do aluno, o tempo de formação e os recursos disponíveis. Por isso, é razoável afirmar que os cursos abrangem desde o mais amador até o mais profissional POSSÍVEL.

Pessoalmente, creio que os centros de formação não preparam o policial para sobreviver nas situações de folga e ainda não alcançaram um patamar aceitável para sobrevida durante o serviço. Isso não tem relação apenas com a disciplina “sobrevivência policial”, mas incorpora o comprometimento institucional, o apoio psicológico, o preparo mental e físico do policial, seu treinamento após a formação, a utilização de ARMAS CONFIÁVEIS e de QUALIDADE INTERNACIONAL (eu disse INTERNACIONAL), tecnologias menos letais, treinamento continuado, viaturas e uniformes adequados, produção de dados e informações para elaboração de estudos de casos, etc. Incorporam, acima de tudo, o compromisso do próprio policial e a INTER-RELAÇÃO DE TODAS AS DISCIPLINAS dos cursos de formação (como se fosse apenas uma).

O senhor poderia explanar sobre experiências em casos de violência contra policiais?

A violência contra o policial tem início na própria instituição que ele representa. Abrange desde questões disciplinares como forma de perseguição àqueles que desejam melhores condições de trabalho, baixos salários, divisão em castas, separação e ineficácia do trabalho, imposição de uma obediência cega e subalterna (um contraponto à capacidade de pensar, decidir e agir com autonomia), etc. O policial também protagoniza uma violência contra si mesmo quando se afasta do treinamento físico, do treino de tiro; quando negligencia sua própria segurança por não investir em equipamentos de qualidade, etc. Ainda que não seja uma violência física, essas questões prejudicam o emocional e o psicológico do policial, além de produzir um acentuado grau de desmotivação profissional entre policiais que poderiam representar uma FORTE E POSITIVA LIDERANÇA PARA OS NOVATOS, visando uma mudança cultural e a interrupção daquele círculo vicioso que mencionei. Se isso ocorresse, todos (Estado, cidadãos, instituições policiais e os próprios policiais) compreenderiam o valor da segurança pública e o verdadeiro dever cívico da tarefa que desempenham.

O ambiente de trabalho melhorado para TODOS favoreceria o estreitamento dos laços de amizade e irmandade, e de cuidado e proteção entre os policiais e seus familiares. O apoio da comunidade, da imprensa e do Estado melhoraria a autoestima do policial e a percepção da importância do seu trabalho. Tudo isso seria revertido em benefício do cidadão e do país.

Entretanto, isso está longe de acontecer e a violência que fere e mata aos poucos o policial começa assim que ele se prepara para o trabalho. Já a violência física está estampada nos telejornais e nos altos índices de assassinatos e suicídios de policiais, sem que ninguém se importe com isso!

Um policial desmotivado e abandonado é um policial a menos! Um policial respeitado e ciente da sua função tem valor inestimável!

Foto: Oslaim Britto, 2014.

Humberto Wendling é Agente Especial, Professor de Armamento e Tiro da Polícia Federal e autor do livro Autodefesa Contra o Crime e a Violência – Um guia para civis e policiais, 2ª edição.
E-mail: humberto.wendling@ig.com.br
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