terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Policiais mortos não protegem ninguém.


Em fevereiro de 1999, quatro policiais do Departamento de Polícia de Nova Iorque (NYPD) estavam procurando por um suspeito de estupro. Era noite e quando eles encontraram Amadou Diallo, que se encaixava na descrição do homem que procuravam, os policiais desceram da viatura e pediram para que ele ficasse parado. Quando o suspeito começou a correr para entrar num prédio, os policiais iniciaram a aproximação rapidamente. Assim que o suspeito alcançou a entrada de um edifício de apartamentos, o nível de estresse aumentou e os policiais começaram a gritar: “Pare! Polícia!”

Mas Amadou Diallo, de 22 anos, imigrante africano e vendedor ambulante, recusou-se a atender aos comandos. E quando ele chegou à principal escadaria do prédio, os policiais o viram dar meia volta e colocar a mão direita no bolso da calça – sob intenso medo, os policiais pensaram que seriam baleados.

Como qualquer policial que tenha enfrentado situação semelhante sabe, a hesitação pode ser um erro fatal. Para um suspeito que ignora os comandos, força uma perseguição a pé, escapa para dentro de um prédio e repentinamente dá meia volta e leva a mão até o bolso como se fosse pegar uma arma, só existe uma resposta para aqueles policiais que desejam sobreviver. Dessa forma, Amadou Diallo acabou morto em função dos disparos efetuados pelos policiais.

Amadou Diallo deu início à reação de sobrevivência dos policiais quando fugiu durante a tentativa deles em abordá-lo, e assim começou a perseguição (Talvez ele fosse o estuprador!). O estresse se intensificou quando Amadou se recusou a obedecer às ordens policiais. Ele entrou em um prédio ignorando as ordens legais para parar. Ele correu para a escadaria e continuou não obedecendo às ordens para parar (Talvez ele tivesse uma arma!). O estresse se elevou ainda mais quando o suspeito se virou de repente para os policiais, colocou a mão no bolso e agarrou alguma coisa (O que ele tinha?). Sua mão tirou algo do bolso. Era um objeto escuro. Alguém gritou: “Arma!” (Isso já foi visto antes, o suspeito não coopera e a polícia usa a força. Ele tenta matar o policial para não ser preso).

O suspeito realizou todos os movimentos corporais e deu todas as dicas que sugeriam que ele tentaria reagir. Um policial percebeu isso, e tentando proteger o colega e a si mesmo, gritou que o homem tinha uma arma. Esse policial, mais vulnerável e próximo da ameaça, disparou 16 tiros em menos de quatro segundos à medida que se afastava de Amadou Diallo caminhando de costas escada abaixo, o que é extremamente difícil durante situações de estresse. O policial caiu e se machucou. O outro policial que estava ao lado deste primeiro, e que ouviu o aviso sobre a arma, também disparou 16 vezes. Os policiais que estavam atrás desses dois viram que um deles caiu de costas. Eles também dispararam para salvar os colegas. Até aqui, nenhum dos policiais podia ouvir bem. Em função da exclusão auditiva e a quantidade de tiros disparados, eles não podiam distinguir entre os tiros disparados por eles daqueles disparados pelo suspeito. Os três policiais ao verem o colega cair na escada pensaram que ele tinha sido atingido. Alguns projéteis estavam passando por eles confirmando que eles estavam sob ameaça mortal. Até aqui o suspeito não tinha sido incapacitado porque nenhum tiro atingira qualquer parte vital. Os policiais pensaram: “Os tiros o estão atingindo?” O caos se instalou e os policiais tinham que salvar uns aos outros e não serem mortos durante o confronto. Finalmente Amadou Diallo caiu e o tiroteio parou. Tudo isso em quatro segundos.

Os dois policiais mais próximos à ameaça dispararam 16 tiros cada um – a capacidade da pistola usada pela polícia de Nova Iorque –, esvaziando suas armas. Os outros dois policiais, mais afastados, não dispararam mais que seis tiros. O confronto ocorreu à noite. E a escuridão, combinada com a visão em túnel, reduziu drasticamente a capacidade de enxergar bem. O suspeito subiu alguns degraus e se colocou em um ponto de maior vantagem em relação aos quatro policiais. Os degraus de alvenaria possibilitaram que os projéteis ricocheteassem em direção aos atiradores.

Mas o pior pesadelo para esses quatro policiais se tornou realidade quando eles descobriram que Amadou estava desarmado.
Policiais costumam dizer que matar alguém durante o cumprimento do dever é o evento mais estressante que pode ocorrer durante a carreira policial. Mas quando esses policiais descobrem que a pessoa que eles mataram está desarmada e que a percepção da ameaça foi um erro de julgamento, a angústia se torna insuportável.

Infelizmente, a polícia de Nova Iorque ainda estava realizando testes para determinar uma mudança de munição quando a morte de Amadou Diallo ocorreu. Na época do tiroteio, os policiais usavam munição com projétil encamisado total ogival (ETOG) que tende a ricochetear com mais freqüência que o projétil expansivo ponta oca (EXPO). Talvez, os policiais envolvidos na ocorrência tenham confundido os projéteis de suas próprias armas que estavam ricocheteando ao atingirem a escadaria e as paredes com possíveis disparos efetuados pelo fugitivo.

Após uma completa apuração do caso e um pouco de percepção sobre o que ocorre em um confronto dinâmico e violento, não é difícil imaginar como o tiroteio ocorreu. Os efeitos da reação de sobrevivência, as considerações sobre o ambiente da ocorrência (escadaria, corredor estreito, pouca iluminação, ou seja, locais onde o tempo de exposição do policial deve ser o menor possível, devido à desvantagem tática), a percepção dos policiais baseada no comportamento do suspeito, a proximidade da ameaça e o tempo mínimo para reagir, o fato de um policial ter caído e se ferido dando a impressão de ter sido baleado e o desempenho da munição (falha em incapacitar imediatamente o agressor e ricochetes), tudo se combinou para esse desastre.

Enquanto 41 tiros parecem excessivos, na verdade não são. Havia quatro policiais atirando, mas somente 19 projéteis acertaram Amadou Diallo – um percentual de acerto de 46% –, e apenas um foi fatal. A maioria dos disparos atingiu as pernas e os braços de Amadou Diallo. Isso demonstra um cenário mais próximo da realidade do que aqueles mostrados pela TV. Infelizmente muitas pessoas são educadas pelos tiroteios e confrontos violentos dos filmes mostrados na televisão. Na TV o criminoso é sempre incapacitado com apenas um tiro, voa para trás e fica impossibilitado de continuar a luta.

Os policiais que confrontaram Amadou Diallo pararam outros possíveis suspeitos antes de tentarem interrogá-lo. A diferença é que eles não encontraram resistência por parte dos outros suspeitos. Uma pessoa ponderada colabora com a polícia quando parada e entrevistada, mesmo que a ordem não faça sentido imediatamente.

Descobriu-se mais tarde que Amadou Diallo havia pedido asilo nos Estados Unidos, mas mentiu ao preencher o requerimento no Serviço de Imigração e Naturalização e, apesar de sua permanência legal no país, seu visto para trabalho expiraria em abril de 1999. Talvez ele estivesse com medo de ser deportado pelos policiais que o abordaram; talvez achasse que seria assaltado, uma vez que os policiais estavam à paisana e saíram de uma viatura descaracterizada; mas se ele ficasse parado e respondesse as perguntas dos policiais o incidente terminaria pacificamente. Qualquer atitude diferente da cooperação aumentará a suspeita e o medo no policial, causando a escalada da força. Pessoas agressivas freqüentemente não seguem as ordens policiais. Aqueles com armas ou objetos roubados correm ou atiram contra o policial, percebendo que estão prestes a serem presos. A abordagem a uma pessoa calma e cooperativa tende a gerar certa tranqüilidade no policial. Mas quando se confronta uma pessoa resistente, extremamente nervosa ou agressiva, é normal que o nível de alerta do policial aumente. E é isso que ajuda o policial a sobreviver.

A segurança das pessoas e dos policiais é mais importante que a segurança dos criminosos. O agressor toma a decisão de resistir ou cooperar. Os policiais envolvidos no caso Amadou Diallo pensaram que estavam na iminência de serem baleados por um suspeito armado. Evidentemente, demonstrou-se que Amadou estava desarmado. Contudo, a percepção dos policiais era a de que ele tinha uma arma. Se um policial pensa ter visto uma arma e grita que o suspeito está armado, todos os policiais envolvidos irão naturalmente pensar que, de fato, existe uma arma.

No mês de março do mesmo ano os quatro policiais foram acusados pelo homicídio e poderiam ser condenados a uma pena de 25 anos, mas em fevereiro de 2000 todos eles foram absolvidos. Eles não receberam qualquer punição do Departamento de Polícia de Nova Iorque, pois agiram da forma como foram treinados.

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG e Instrutor de Armamento e Tiro.
E-mail: humberto.wendling@ig.com.br

Eu vou atirar na perna dele!


Discute-se bastante no meio policial sobre o uso da força letal na autodefesa, mas uma idéia surge quase universalmente. É o conceito chamado Síndrome do Tiro na Perna. Essa síndrome é expressa pelas opiniões do tipo: “Eu não vou atirar para matar, mas vou mirar na perna do bandido!”. “Precisava matar com três tiros no peito? Por que não atiraram na perna?”*.

Eu acredito que tais pensamentos tenham origem na boa índole das pessoas que possuem armas de fogo para a defesa pessoal, contudo jamais imaginaram com seria um tiroteio real com um criminoso violento, nem o que elas fariam se tivessem que atirar em alguém. Essas boas pessoas não saem por aí roubando, seqüestrando ou matando as outras, elas nem mesmo pensam ou querem fazer algo parecido. Outra origem é a crença equivocada daquelas pessoas que sequer estão presentes quando a violência ocorre, mas que não deixam de emitir um “parecer” baseado em considerações pessoais baseadas em filmes de ação, e não nas circunstâncias que envolvem o horror de um confronto armado real.

Assim, o que acontece é que aquele criminoso que momentos antes apontava uma arma engatilhada para uma pessoa honesta, agora que está morto é transformado – num passe de mágica – em vítima por aqueles que acreditam que o policial deveria ter atirado na perna. Os papéis se invertem: o bandido vira mocinho, e o policial vira executor.

Existem muitas razões para o porquê desse “conceito” não ser plausível no campo da autodefesa. Algumas dessas razões são jurídicas, algumas são táticas e outras são morais.

Uma arma de fogo é um instrumento letal por natureza. Diferente de uma bomba de efeito moral, um spray de pimenta, uma tonfa ou um taser, não existe um modo “menos letal” de usar uma arma de fogo contra outro ser humano. A lei não faz distinção entre um tiro na cabeça ou um tiro no peito de uma pessoa. Se a ação do suspeito colocar você sob risco de grave ferimento físico ou morte, o uso da sua arma para repelir essa agressão e preservar sua vida é um motivo legalmente justificável (apesar de ser ainda um homicídio).

Além disso, o projétil não pode ser trazido de volta uma vez que tenha deixado o cano da arma, e o que ele faz ao penetrar o corpo de uma pessoa não pode ser determinado pelo policial. Existem grandes vasos sangüíneos nas pernas, nos quadris e nos ombros de um ser humano, que uma vez atingidos podem matar alguém tão rapidamente quanto um tiro no coração.

Além do mais, manusear taticamente uma arma sob condições de estresse extremo é muito difícil, pois não há tempo para sequer raciocinar, muito menos para mirar. Pergunte a si mesmo: é possível determinar perfeitamente se você está ou não amparado pelo instituto da legítima defesa, e fazer pontaria com precisão durante uma situação de vida ou morte que não leva poucos segundos para começar e terminar?

Informações sobre confrontos armados indicam que um policial acerta um em cada seis tiros disparados contra o alvo. Isso produz cerca de 17% de aproveitamento, e se já parece ruim, espere até você analisar outro dado que demonstra que aproximadamente 50% dos tiroteios ocorrem em distâncias de até 1,70 m entre o policial e o suspeito. Outros 20% ocorrem em distâncias entre 2 e 3,40 metros. Agora, um homem com uma faca – e com o caminho livre – é capaz de correr 5 m em apenas 1.28 segundo. Assim, não importa quantos disparos sejam feitos, você vai errar a maioria deles, mesmo à queima roupa. Então, quão realista seria se muitas das pessoas que tiveram a sorte de acertar o criminoso em ação tivessem que calmamente mirar e disparar contra uma das menores partes do corpo? E se essa área ainda tivesse grande chance de estar em movimento?

A prática nas academias de polícia ensina os alunos a realizarem dois tiros no centro do alvo a 7 metros de distância e em 2 segundos. Só para constar, um homem é capaz de percorrer 8 metros com uma faca para atacar um policial em 1.79 segundo. Então, quanto tempo sobraria para a visada perfeita na perna, no braço ou no ombro? Nenhum.

De qualquer maneira, a prática nas academias envolve dois conceitos. O primeiro deles refere-se ao centro de massa, significando apontar a arma para que o projétil vá de encontro à área mais ampla do alvo (o tronco) e, obviamente em cujo local as chances de acerto são maiores. O segundo conceito diz respeito à possibilidade de se atingir órgãos internos localizados nesta área e que permitam uma maciça perda de sangue, levando à inconsciência e à incapacitação.

A intenção de incapacitar, em nada tem haver com atirar para matar ou mirar para ferir, pois ambas são irrelevantes, pois sua ação de autodefesa está centralizada na percepção de ameaça grave e na capacidade do criminoso matar ou tentar matar você. Se a simples presença da sua arma detiver a intenção do delinqüente, o trabalho está feito! Se apenas um tiro no centro de massa persuadir o atacante a desistir, está ótimo! Contudo, se forem precisos 10 tiros pelo corpo para impedir que um criminoso mate você, então...!

Eu não estou defendendo o uso da força letal como forma de punição para criminosos. O que eu estou dizendo, é que você é uma pessoa sensata, com um inalienável direito à vida e à liberdade e que não se envolve em questões alheias, ou seja, você vive pacificamente. E então, alguém o ataca, tenta ferí-lo ou matá-lo sem nenhuma razão a não ser com o interesse de tomar aquilo que é seu. Você não está tentando matá-lo, apenas tentando fazê-lo parar. E isso não é errado, é certo! Você tem o direito de fazer o que for necessário para estar a salvo, voltar para casa e para sua família. Mas se você esperar até conseguir a pontaria perfeita e “não letal”, talvez seja tarde demais para você!

*Pergunta feita por um parente de J.F.S., morto por policiais da ROTA paulista, conforme artigo publicado na FENAPEF em 12/06/2008 denominado “Rota mata rapaz que roubou R$ 11”.

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG e Instrutor de Armamento e Tiro.
E-mail: humberto.wendling@ig.com.br

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Você é capaz de atirar em alguém?


No dia 19 de fevereiro de 2008, na cidade de São José do Rio Preto/SP, um Agente de Polícia Federal estacionou seu carro e permaneceu no seu interior, juntamente com sua filha de 12 anos de idade. Ele estava ali aguardando a chegada de sua esposa.

Sem aviso, um homem entrou no carro pela porta traseira, e de arma em punho, ordenou que o Policial dirigisse. Enquanto dava ordens ao Policial, o criminoso apontou a arma para a cabeça dele. Segundos depois, o criminoso saiu correndo do carro e caiu morto 20 metros adiante.

O que disse a imprensa?

“Rodrigo Silva dos Santos, 23 anos, foi morto anteontem por volta das 20 horas pelo agente da Polícia Federal G.A.M.J., 44 anos, durante uma tentativa de assalto. Segundo consta no boletim de ocorrência, o agente estava dentro do carro dele, um Ecosport, em frente à casa da cunhada à espera de sua mulher, quando notou a aproximação de Santos em direção a porta traseira do veículo. O rapaz, que estava a pé, abriu a porta, anunciou o assalto e ordenou que o agente descesse do carro. Nesse momento, G.A.M.J. tirou da cintura uma pistola nove milímetros e efetuou cinco disparos contra o assaltante. Três deles acertaram o braço e o peito do rapaz. Mesmo ferido, Santos saiu do carro e caiu no chão. Compareceram no local profissionais da unidade de Resgate e do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), que constataram o óbito.” (DIÁRIOWEB, 2008).

O que disse o Policial?

“O meliante sacou uma arma de fogo e apontou para minha filha chamando-a de vagabunda, uma criança de 12 anos, que estava no banco traseiro. Eu que estava no banco dianteiro com a arma no colo, empunhei-a e calmamente passei pela frente do meu peito e posicionei-a embaixo do meu braço esquerdo que estava apoiado na coluna do veículo, o conhecido ‘sovaco’. Nesse ínterim, o marginal apontou a arma para minha pessoa e gritava: ‘TOCA PORRA...!’ Nesse momento, ele desviou atenção para fechar a porta da onde se encontrava sentado, instante que efetuei os disparos atingindo-o mortalmente. Graças a DEUS estou aqui contando essa passagem e ainda melhor, podendo beijar minha filha e educá-la para um país melhor, onde o bem vencerá o mal.” (G.A.M.J., 2008).

O que o Policial fez de errado?

O único erro que o Policial cometeu foi ter estacionado na rua e permanecido dentro do carro. Apesar de ter sido o único erro, isso foi o suficiente para o bandido aproveitar a oportunidade para cometer o crime.

Quando você estaciona seu carro e fica dentro dele, você é um alvo fácil. Se alguém se aproxima do carro para furtá-lo, e você está lá dentro, o que seria um simples furto pode se transformar num seqüestro ou assassinato.Esperar dentro do carro é confortável, mas perigoso.

Esperar fora e longe dele é desconfortável, contudo mais seguro. O desconforto sempre passa, mas as conseqüências do crime e da violência duram para sempre. Por isso, nunca espere alguém ou alguma coisa dentro do seu carro. Saia e vá para um local mais seguro.

O que o Policial fez de certo?

Para compensar o fato de estar estacionado na rua e dentro do carro, o Policial sacou sua arma e a colocou no colo para usá-la logo, caso algo ocorresse.

E quando o Policial percebeu que ele e sua filha seriam levados para outro local, reagiu imediatamente. Atirou e continuou a atirar até o criminoso desaparecer.

Pense nisso: roubar alguém é fácil e rápido, mas o seqüestro, o estupro, a tortura e o assassinato não seguem a mesma dinâmica. Para que essas atrocidades ocorram o criminoso precisa dominá-lo e levá-lo para outro local.

O único objetivo para levá-lo de um lugar para outro é impedir que o crime seja testemunhado por outras pessoas dificultando que você receba o socorro para continuar vivo. E se você for levado para outro lugar, sua chance de escapar ou lutar é mínima.

Um ladrão só precisa de alguns segundos para fazer o trabalho dele e ir embora, mas a tarefa de um maníaco ou assassino cruel leva mais tempo. Assim, o Policial resistiu e reagiu logo antes mesmo que saísse do lugar e chegasse ao seu destino final. Arriscou tudo na hora, porque se ele estivesse com o criminoso num local isolado, só haveria tempo para lamentação e arrependimento por não ter feito nada.
No dia 21 de fevereiro de 2008, tive a satisfação de conversar com esse Policial Federal, e parabenizá-lo pela atitude. Enquanto ele narrava o fato, me disse que quando percebeu a oportunidade de reagir, pensou: “É AGORA!”. Conheço bem esse pensamento, porque foi o mesmo que me ocorreu em 1998 durante uma tentativa de assalto.

Por que esta frase é importante?

Porque é a frase que separa os sobreviventes dos perdedores. Quando alguém diz “É AGORA!”, isso reflete seu comprometimento com a própria segurança e seu condicionamento mental para a sobrevivência.

Quando você assume a responsabilidade por sua própria segurança, isso lhe dá a motivação para fazer o que for necessário para sobreviver caso o pior aconteça, ou seja, alcançar um objetivo determinado por antecipação. Esse condicionamento da mente fundamenta-se numa reação rápida e objetiva. A presença da sua arma não muda nada, pois você ainda precisa estar mentalmente orientado para um propósito (a sua segurança).

Por isso, até que você tenha atingindo esse objetivo e esteja em casa com sua família, você não pode desistir de sobreviver.

No entanto, a polícia costuma dizer que se você não reagir, o criminoso não vai lhe ferir. A verdade é que nenhum policial pode lhe dar essa garantia. Contudo, o quê o criminoso vai fazer com você, só ele sabe. Então, cabe a você decidir o quê vai fazer para salvar a sua vida: acreditar no bandido e fazer o quê ele manda; ou acreditar em você e seguir suas próprias ordens.

A decisão de ser complacente não o liberta das conseqüências de um crime violento. Na verdade sua submissão cede total controle ao criminoso, a menos que você reaja depressa e acabe que esse controle. Quando você reagir, verá o desespero estampar-se na cara dele, pois agora você é a ameaça.

Você consegue realmente atirar numa pessoa?

Não é blefar, mas ATIRAR contra alguém que ameaça a sua vida. Lembre-se, você está diante de alguém capaz de lhe matar. Provavelmente ele já tentou fazer isso com outras vítimas. Portanto, você tem que ser curto e grosso. A hesitação ou a compaixão provavelmente vão fazer com que o criminoso lhe tome a arma e a use contra você. E só para você lembrar...O Policial Federal G.A.M.J. está vivo, ao lado da família, e passa bem! Já o criminoso foi enterrado dia 20/02/2008 no cemitério São João Batista.

Ah! Quase me esqueci. A frase dos perdedores (que normalmente estão mortos) é: “AI, MEU DEUS!”

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG e Instrutor de Armamento e Tiro.
E-mail: humberto.wendling@ig.com.br

O desconhecimento que mata...a legítima defesa.


Diante do artigo denominado Disque MP para matar, disponível no site www.fenapef.org.br (Tribuna Livre), envio esta contribuição para conhecimento e reflexão dos colegas policiais. O propósito é colaborar com a compreensão sobre alguns aspectos relacionados aos confrontos armados.

Sempre que um criminoso mata um policial, o assunto é tratado como algo natural tendo em vista que seu trabalho é perigoso, e o policial sabe disso desde o princípio, mas assim mesmo assume o risco. Com esse raciocínio, o criminoso fez seu papel e cometeu o crime; o policial cumpriu seu dever, enfrentou o perigo em benefício do inocente e morreu.

Mas quando um policial, e neste caso um promotor, mata um criminoso, o tema gera polêmica e opiniões sem uma base realista de como ocorrem os confrontos armados e como o corpo humano responde física e psicologicamente diante de situações envolvendo o risco de morte.

Nenhum policial ou promotor deseja possuir uma licença para matar. As responsabilidades pessoais, criminais e espirituais são enormes para aquelas pessoas que, desejando sobreviver a uma agressão injusta, precisam utilizar uma arma de fogo contra um criminoso. O desejo de matar é a característica fundamental que separa as pessoas normais dos sociopatas. No entanto, todos nós temos o direito à legítima defesa.

Nenhum treinamento prepara uma pessoa para reagir de modo eficaz e com equilíbrio emocional quando se está diante de uma arma e de uma pessoa hostil. Na luta pela sobrevivência, a natureza não espera que o homem siga regras quando ele está na iminência de ser morto.

No caso específico do promotor, ao que tudo indica e as notícias relatam, a situação ocorreu à noite, o suspeito se aproximou, anunciou o assalto, exigiu o relógio e fez menção de sacar uma arma. Isso quer dizer que ele deu todas as dicas de que estava realmente armado e que a situação era perigosa.

O fato de, supostamente, não existir uma arma não muda isso. Então, se o promotor esperasse para ver uma arma, e se ela existisse, as chances de defesa seriam nulas.

Infelizmente, muitas pessoas acreditam que o risco de vida não existe até que a ameaça ou agressão seja imediata. Essa idéia perigosa força muitos policiais a esperarem até que os criminosos saquem e apontem suas armas para eles ou para pessoas inocentes antes que esses policiais possam neutralizá-los. Pesquisas americanas demonstram que um criminoso é capaz de sacar uma arma escondida e atirar contra um policial antes que esse policial consiga simplesmente apertar o gatilho de sua arma já apontada para o criminoso (Firearms Response Time by Thomas A. Hontz).

Trocando em miúdos, a ação é mais rápida que a reação. Desse modo, o promotor agiu com base nas informações disponíveis naquela fração de segundo. Entendeu o risco que corria e utilizou seu direito de autodefesa. Uma observação importante é necessária: as informações da imprensa dão conta de que o suspeito FOI ENCONTRADO desarmado. Isso não significa que no momento do assalto ele não estivesse armado. Assim, é plausível a idéia de que após ter sido baleado e incapacitado, a arma do suspeito possa ter sido furtada por alguém depois do assalto e antes da chegada da polícia.

As situações de risco impõem aos envolvidos alterações fisiológicas e mentais que incluem: perda da visão periférica, perda da visão em profundidade, perda do foco, diminuição da capacidade auditiva, distorções na percepção do tempo e do espaço, dificuldade de memória, perda das habilidades motoras finas e complexa, dificuldade de raciocínio lógico.

Dependendo do indivíduo, o estresse pode ser tão elevado que se chega ao estágio de Hipervigilância, que é caracterizado por ações repetitivas (como disparar diversas vezes sem parar e em poucos segundos), fuga irracional (como correr em meio ao trânsito), luta descontrolada ou a rendição à morte sem luta. Por esses motivos, não me parece surpreendente que o promotor tenha disparado dez vezes, pois seus sentidos e percepções estariam alterados e seria um exagero esperar que ele fosse capaz de contar os disparos ou observar se o suspeito fora ou não atingido nos dois primeiros tiros. É por isso que para os leigos, as decisões e ações tomadas no evento crítico de um assalto parecem excessivas ou irracionais. Mas não são.

As reações do medo e do estresse são experimentadas tanto pela vítima como pelo criminoso. E essas reações fisiológicas e mentais inibem a percepção da dor causada por um ferimento. Se o agressor não sente dor, não há razão para ele desistir de lutar. Isso significa que um criminoso, mesmo atingindo por dez projéteis, ainda pode permanecer de pé e atirar contra a vítima (consulte as informações no site do FBI sobre o episódio ocorrido em 1986 e que ficou conhecido como o Tiroteio de Miami).

Nesse episódio, um assaltante de bancos, mesmo atingido 12 vezes por projéteis 9 mm e .38 conseguiu matar dois agentes e ferir gravemente outros cinco antes de morrer em virtude dos ferimentos. Por isso, os policiais do FBI e do DEA são treinados para atirar até que o criminoso caia no chão, pois esse é o único meio imediato que o policial dispõe para saber se o criminoso foi incapacitado. Isso quer dizer que enquanto o agressor estiver de pé, o policial deve continuar atirando.

Nenhum curso "em situação de combate" preparar qualquer pessoa para agir eficazmente durante uma situação de perigo de vida. Esses "treinamentos" não estão de acordo com as alterações mentais e corporais de uma pessoa durante um confronto armado real, e o medo e o estresse não estão incluídos. Esses treinamentos estáticos e tradicionais não permitem a interação com outro ser humano, mas somente com alvos de papel que não reagem.

Não há nenhuma garantia de que dois disparos sejam suficientes para incapacitar um criminoso. Cada indivíduo responderá de modo particular durante um confronto armado. Alguns irão correr ou cair ao ouvirem o disparo, outros serão incapacitados com um ou dois tiros, e outros simplesmente resistirão mais tempo não importando a quantidade dos ferimentos.

A incapacitação imediata do agressor só ocorrerá se ele for atingido, grosso modo, na cabeça, no coração ou na medula espinhal. Além disso, nenhuma munição é 100% eficaz 100% das vezes ao atingir uma pessoa e provocar a incapacitação imediata, e há mais chances da vítima errar os disparos do que acertar. Nenhuma fábrica de munições dá garantias de eficácia de seus produtos em 100% das vezes em se tratando da incapacitação de um ser humano.

As idéias sobre tiroteios veiculadas nos filmes de ação no cinema e na televisão são irreais, pois não se assemelham em nada com a verdade de um confronto. A imagem de uma pessoa voando alguns metros para trás depois de ser atingida por um tiro e seu peito explodindo em sangue só fazem parte do imaginário de quem nunca viu ou precisa fantasiar a realidade para satisfazer o público.

Infelizmente, a sociedade e até mesmo os policiais são influenciados por esse tipo de cenário. E o pior: o cidadão, a imprensa, o judiciário, a promotoria e muitos policiais avaliam e julgam a ação de autodefesa de alguém com base na ficção desses filmes de ação.

Finalmente, atirar duas vezes e esperar para ver se o criminoso, que está tentando matá-lo, foi ou não atingido é um erro primário, grave e que leva muitas pessoas à morte, não obstante ser uma técnica (double tap) ainda ensinada nesses "treinamentos" sem base realista.

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal e Instrutor de Armamento e Tiro lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG.
E-mail: humberto.wendling@ig.com.br