quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Você é capaz de atirar em alguém?


No dia 19 de fevereiro de 2008, na cidade de São José do Rio Preto/SP, um Agente de Polícia Federal estacionou seu carro e permaneceu no seu interior, juntamente com sua filha de 12 anos de idade. Ele estava ali aguardando a chegada de sua esposa.

Sem aviso, um homem entrou no carro pela porta traseira, e de arma em punho, ordenou que o Policial dirigisse. Enquanto dava ordens ao Policial, o criminoso apontou a arma para a cabeça dele. Segundos depois, o criminoso saiu correndo do carro e caiu morto 20 metros adiante.

O que disse a imprensa?

“Rodrigo Silva dos Santos, 23 anos, foi morto anteontem por volta das 20 horas pelo agente da Polícia Federal G.A.M.J., 44 anos, durante uma tentativa de assalto. Segundo consta no boletim de ocorrência, o agente estava dentro do carro dele, um Ecosport, em frente à casa da cunhada à espera de sua mulher, quando notou a aproximação de Santos em direção a porta traseira do veículo. O rapaz, que estava a pé, abriu a porta, anunciou o assalto e ordenou que o agente descesse do carro. Nesse momento, G.A.M.J. tirou da cintura uma pistola nove milímetros e efetuou cinco disparos contra o assaltante. Três deles acertaram o braço e o peito do rapaz. Mesmo ferido, Santos saiu do carro e caiu no chão. Compareceram no local profissionais da unidade de Resgate e do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), que constataram o óbito.” (DIÁRIOWEB, 2008).

O que disse o Policial?

“O meliante sacou uma arma de fogo e apontou para minha filha chamando-a de vagabunda, uma criança de 12 anos, que estava no banco traseiro. Eu que estava no banco dianteiro com a arma no colo, empunhei-a e calmamente passei pela frente do meu peito e posicionei-a embaixo do meu braço esquerdo que estava apoiado na coluna do veículo, o conhecido ‘sovaco’. Nesse ínterim, o marginal apontou a arma para minha pessoa e gritava: ‘TOCA PORRA...!’ Nesse momento, ele desviou atenção para fechar a porta da onde se encontrava sentado, instante que efetuei os disparos atingindo-o mortalmente. Graças a DEUS estou aqui contando essa passagem e ainda melhor, podendo beijar minha filha e educá-la para um país melhor, onde o bem vencerá o mal.” (G.A.M.J., 2008).

O que o Policial fez de errado?

O único erro que o Policial cometeu foi ter estacionado na rua e permanecido dentro do carro. Apesar de ter sido o único erro, isso foi o suficiente para o bandido aproveitar a oportunidade para cometer o crime.

Quando você estaciona seu carro e fica dentro dele, você é um alvo fácil. Se alguém se aproxima do carro para furtá-lo, e você está lá dentro, o que seria um simples furto pode se transformar num seqüestro ou assassinato.Esperar dentro do carro é confortável, mas perigoso.

Esperar fora e longe dele é desconfortável, contudo mais seguro. O desconforto sempre passa, mas as conseqüências do crime e da violência duram para sempre. Por isso, nunca espere alguém ou alguma coisa dentro do seu carro. Saia e vá para um local mais seguro.

O que o Policial fez de certo?

Para compensar o fato de estar estacionado na rua e dentro do carro, o Policial sacou sua arma e a colocou no colo para usá-la logo, caso algo ocorresse.

E quando o Policial percebeu que ele e sua filha seriam levados para outro local, reagiu imediatamente. Atirou e continuou a atirar até o criminoso desaparecer.

Pense nisso: roubar alguém é fácil e rápido, mas o sequestro, o estupro, a tortura e o assassinato não seguem a mesma dinâmica. Para que essas atrocidades ocorram o criminoso precisa dominá-lo e levá-lo para outro local.

O único objetivo para levá-lo de um lugar para outro é impedir que o crime seja testemunhado por outras pessoas dificultando que você receba o socorro para continuar vivo. E se você for levado para outro lugar, sua chance de escapar ou lutar é mínima.

Um ladrão só precisa de alguns segundos para fazer o trabalho dele e ir embora, mas a tarefa de um maníaco ou assassino cruel leva mais tempo. Assim, o Policial resistiu e reagiu logo antes mesmo que saísse do lugar e chegasse ao seu destino final. Arriscou tudo na hora, porque se ele estivesse com o criminoso num local isolado, só haveria tempo para lamentação e arrependimento por não ter feito nada.
No dia 21 de fevereiro de 2008, tive a satisfação de conversar com esse Policial Federal, e parabenizá-lo pela atitude. Enquanto ele narrava o fato, me disse que quando percebeu a oportunidade de reagir, pensou: “É AGORA!”. Conheço bem esse pensamento, porque foi o mesmo que me ocorreu em 1998 durante uma tentativa de assalto.

Por que esta frase é importante?

Porque é a frase que separa os sobreviventes dos perdedores. Quando alguém diz “É AGORA!”, isso reflete seu comprometimento com a própria segurança e seu condicionamento mental para a sobrevivência.

Quando você assume a responsabilidade por sua própria segurança, isso lhe dá a motivação para fazer o que for necessário para sobreviver caso o pior aconteça, ou seja, alcançar um objetivo determinado por antecipação. Esse condicionamento da mente fundamenta-se numa reação rápida e objetiva. A presença da sua arma não muda nada, pois você ainda precisa estar mentalmente orientado para um propósito (a sua segurança).

Por isso, até que você tenha atingindo esse objetivo e esteja em casa com sua família, você não pode desistir de sobreviver.

No entanto, a polícia costuma dizer que se você não reagir, o criminoso não vai lhe ferir. A verdade é que nenhum policial pode lhe dar essa garantia. Contudo, o quê o criminoso vai fazer com você, só ele sabe. Então, cabe a você decidir o quê vai fazer para salvar a sua vida: acreditar no bandido e fazer o quê ele manda; ou acreditar em você e seguir suas próprias ordens.

A decisão de ser complacente não o liberta das consequências de um crime violento. Na verdade sua submissão cede total controle ao criminoso, a menos que você reaja depressa e acabe que esse controle. Quando você reagir, verá o desespero estampar-se na cara dele, pois agora você é a ameaça.

Você consegue realmente atirar numa pessoa?

Não é blefar, mas ATIRAR contra alguém que ameaça a sua vida. Lembre-se, você está diante de alguém capaz de lhe matar. Provavelmente ele já tentou fazer isso com outras vítimas. Portanto, você tem que ser curto e grosso. A hesitação ou a compaixão provavelmente vão fazer com que o criminoso lhe tome a arma e a use contra você. E só para você lembrar...O Policial Federal G.A.M.J. está vivo, ao lado da família, e passa bem! Já o criminoso foi enterrado dia 20/02/2008 no cemitério São João Batista.

Ah! Quase me esqueci. A frase dos perdedores (que normalmente estão mortos) é: “AI, MEU DEUS!”

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG e Instrutor de Armamento e Tiro.
E-mail: humberto.wendling@gmail.com

4 comentários:

  1. Acabei de ler este blog por completo, ótimos textos, muito esclarecedores e mostrando de fato situações onde a força é necessária e são mau julgadas pela sociedade.

    Becker

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  2. Fantástico texto! Concordo com cada palavra! Tá na hora de se parar com essa coisa de "não reagir" e de proibir o cidadão de bem de ter armas.

    Os bandidos estão a se fortalecer e parece que se reagimos a culpa é nossa. Claro, os bandidos são super bonzinhos, é só fazer o que eles querem que tudo fica bem!

    Enquanto eu preciso ter 25 anos e preencher inumeros requisitos para ter e portar minha arma, qualquer marginalzinho de bosta de 14, 15 anos (até menos) pode ter seu próprio rifle.

    Gostei muito do blog, li praticamente todo, mas esse texto, em especial, é fantástico! Parabéns!

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  3. Normalmente esse tipo de abordagem existe uma cobertura e que isso foi negligenciado pelo policial.
    Se um outro bandido tivesse nessa função, provavelmente o desfecho teria sido outro.
    Você reagir, estando sozinho tem que ser diferente de uma reação estando acompanhado com uma pessoa despreparada.
    Numa avaliação rápida o que estaria em jogo? O carro ou a vida do policial.
    Como o policial não foi alvejado antes; e poderia ter sido. Melhor acionar o seguro veicular.

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