domingo, 7 de fevereiro de 2010

O que eu faço quando alguém está atirando?


A resposta para esta pergunta é: depende.

Depende de onde você está, com quem você está, quem está atirando, quais opções você tem, e da sua habilidade.

De qualquer modo, os resultados mais comuns quando alguém está atirando em você são:

1) Você morre;
2) Você vai para o hospital;
3) Você foge;
4) Você atira de volta e o agressor foge;
5) Você atira com tanta concentração na tarefa e tão bem que o agressor é ferido ou morto;
6) Outra pessoa aparece e também atira, resultando num dos itens acima.

E as pessoas que querem matar alguém normalmente não param até que:

1) Tenham sucesso;
2) Acreditem que foram bem sucedidas;
3) O perigo aparece e elas têm que parar.

Então, a primeira questão é se o atirador está disparando especificamente em você ou se ele está atirando em outra pessoa e os projéteis estão indo noutra direção. Estes dois cenários são relevantes para a escolha da melhor estratégia de reação. De qualquer modo, seus objetivos devem ser:

1) Sair da linha de tiro;
2) Sair da visão do atirador;
3) Sair da área.

Enquanto estes objetivos também se apliquem para quando alguém está tentando matá-lo, devido à gravidade da situação, você provavelmente precisará fazer algo mais para se salvar. Mas quando o atirador está disparando noutra pessoa, provavelmente ele vai estar muito ocupado para se preocupar com você. De qualquer forma, as estratégias mencionadas são padrões de comportamento muito eficazes.

Agora observe a ilustração ao lado. Imagine que as setas que formam o V representam a fatia de um bolo e que o atirador está na ponta mais estreita (o vértice). Assim, quanto mais distante do atirador, mais larga é a fatia, e do ponto de vista dele, menor é o alvo (perspectiva). Do modo contrário, quanto mais perto do atirador, mais estreita é a fatia, e maior o alvo.

A distância é um fator importante porque se o atirador não apontar a arma direito, mesmo que ele queira atirar no alvo, existe uma boa chance dele errar. Desse modo, quanto mais longe do atirador, maior a margem de erro. Assim, o problema aqui não é o tamanho da arma ou do calibre, mas o tamanho do alvo que você representa para o criminoso. Voltando à ilustração, se você se distancia do atirador, isto significa que seu corpo preenche apenas ¼ da fatia (representada pela figura oval de linha pontilhada), e não um inteiro (se você estiver próximo demais). Quer dizer, quanto mais você se afasta do atirador, mesmo dentro da fatia, menor a chance de você ser atingido.

Mas não interessa só se você está perto ou longe, porque o que importa também é que você ainda está dentro da fatia, e os projéteis lá dentro só vão parar quando atingirem alguma coisa ou alguém. E enquanto correr pode ajudar, o que você precisa fazer é sair da fatia.

Por isso é importante saber se o criminoso está atirando noutra pessoa. Se ele está disparando contra você, há uma grande chance de que ele se mova para colocar você dentro da fatia de novo.

Então, a segunda questão que vai determinar sua conduta é: você está dentro ou fora da fatia? Você está em uma área ampla e aberta ou num local onde existe uma cobertura (quando você não pode ser visto) ou um abrigo (quando os projéteis não podem lhe atingir)? Aqui também há uma diferença.

Se você está num local fechado com um atirador, SAIA JÁ! Infelizmente, muitas pessoas se abaixam ou tentam se esconder atrás de mesas e portas. Se for preciso jogar uma cadeira na janela para criar uma saída, faça isso! Correr para outro ambiente pode lhe fornecer tempo para criar outra rota de fuga também.

Outra coisa que você precisa fazer quando estiver saindo de um tiroteio em um ambiente fechado é NÃO PARAR. Quando mais longe você estiver, menor a chance de ser atingido por um tiro.

Mas se você está num local aberto e um tiroteio começa, ENTRE EM ALGUM LUGAR, mas não pare para ver o que está acontecendo. Entre no prédio e ganhe distância da entrada. Fazendo isso, você sai da linha de tiro, da visão do atirador e está coberto e abrigado.

Se você está um local aberto e muito amplo onde não existe cobertura ou abrigo, CORRA! Aumente ao máximo a distância entre você e o atirador. Lembre-se sobre o que foi dito a respeito da distância. Se no meio do caminho, você encontrar algo que possa protegê-lo, continue correndo, e coloque o objeto entre você e o atirador para que sua fuga fique protegida.

Talvez o mais importante seja saber o que não fazer. Portanto, quando alguém estiver atirando não fique parado de pé para ver o que está ocorrendo. O som típico dos tiros já diz que alguma coisa complicou. Ficar parado de pé faz você um alvo estacionário que pode ser visto pelo atirador.

A terceira consideração é se o criminoso está realmente querendo matar você. Se ele está decidido em fazer isso, então ele vai rastrear você até colocá-lo dentro da fatia do bolo e se aproximar o máximo para acertar o maior número de tiros. E é aqui que os seis resultados mais comuns de quando alguém está atirando em você ocorrem.

Se você for atingido uma vez, mas socorrido com qualidade e rapidez, sua chance de sobrevivência é muita grande. Mas se você ficar parado suas chances diminuem à medida que você leva mais tiros à queima-roupa.

O quarto aspecto se refere às pessoas que estão com você. Ser capaz de proteger a própria família é um item importante na decisão de ter e usar uma arma de fogo.

Desse modo, você precisa reconhecer que sua tarefa se assemelha ao trabalho de segurança de dignitário, no qual a primeira prioridade é conduzir a pessoa para longe do perigo ao invés de ficar parado trocando tiros com os agressores. Ou seja, você leva a pessoa para a primeira entrada disponível, para dentro do carro ou do edifício, mas sempre para longe do perigo.

Contudo, se você sente que tem de atirar também, a primeira coisa que precisa fazer é se mover para uma posição diferente. Fazendo isso, você vai forçar o atirador a mover a fatia do bolo para reenquadrá-lo. Por quê? Porque o criminoso perceberá que a resistência (e o perigo) vem da sua parte e não da sua família. Assim, sua família ficará fora da área de ação do criminoso e poderá se salvar.

Porém, se o criminoso estiver atirando em você de propósito e você estiver sozinho... é para esta situação que serve seu treinamento de tiro de combate, de autodefesa, em ambiente confinado, tático, defensivo, etc. Não importa o nome que se dê para isso, pois você ainda precisa se afastar dele, sair da fatia e não parar de atirar até que o perigo desapareça. Aí você vai ficar surpreso com a rapidez com que o criminoso irá fugir quando você estiver atirando nele.

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal e professor de Armamento e Tiro lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG.
E-mail: humberto.wendling@ig.com.br
Blog: www.comunidadepolicial.blogspot.com

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Pelo menos faça a sua parte!


Quem determina o destino? Talvez esta seja a mais antiga indagação de todo ser humano!

Muitas pessoas acreditam que o destino é imutável porque é controlado por uma força maior. Uns chamam esta força de Energia, alguns chamam de Natureza, e outros avocam Deus. “Ele é um predestinado!”, “Ninguém morre antes da hora!” e “Morreu porque sua hora chegou!” são expressões que exemplificam esta crença.

Outros indivíduos creem que o homem vive como pode até que seu destino se mostre e o guie nos momentos decisivos da sua existência. E eles dizem: “Meu anjo da guarda é forte!”

E alguns ainda entendem que o destino nada mais é do que o resultado das escolhas e do comportamento de cada pessoa, não obstante a presença divina. Estes afirmam: “Ele fez por merecer o melhor!” e “Morreu porque quis!”

Apesar da diversidade de crenças e das frases feitas, só uma coisa é realmente certa: ninguém conhece verdadeiramente o próprio destino; ninguém sabe previamente o resultado final de uma escolha, seja ela boa ou ruim.

Mas imagine que todas as vítimas do crime e da violência pudessem, horas antes de serem atacadas, visualizar o futuro por um breve momento. Quantas pessoas se salvariam? Agora pense quantos policiais seriam salvos se eles pudessem conhecer o futuro. Se isto fosse possível, com certeza cada um de nós teria um, dois ou, quem sabe, dez amigos policiais ao nosso lado novamente.

Assim, o detetive da Polícia Civil de Minas Gerais A.B.A.S (32 anos) não perseguiria o suspeito que o emboscaria numa rua escura e o mataria com um tiro na cabeça em 23 de janeiro de 2003 na cidade de Belo Horizonte/MG.

Se soubessem que um dos presos, levado para a 25ª DP do Engenho Novo, conseguiria se livrar da algema descartável, desarmar, atirar e matar um dos colegas, os policiais do 3º BPMRJ teriam contido o criminoso com uma algema convencional e mantido a segurança do armamento durante todo o tempo em que preenchessem o boletim de ocorrência em 07 de agosto de 2008.

Em 28 de maio de 2008, o policial civil do Estado de São Paulo C.P.S. (57 anos) não teria ido sozinho ao Morro do Kibom para entregar uma intimação se soubesse que a pessoa que assinaria o documento aguardaria que ele virasse de costas para esfaqueá-lo, tomar-lhe a arma, abrir fogo, e depois arrastar seu corpo por cerca de 100 metros até a viatura na tentativa de incendiá-la junto com seus restos mortais.

Os instrutores da Academia de Polícia do Barro Branco não realizariam a instrução de tiro do dia 20 de janeiro de 2004 se soubessem que um disparo acidental ceifaria a vida do soldado PMSP 2ª classe F.G. (23 anos).

Os policiais federais F.L.F (42 anos) e J.G.R não permaneceriam horas à fio dentro de uma viatura descaracteriza durante uma campana se soubessem que quatro criminosos armariam uma emboscada que mataria F.L.F com um tiro no tórax, em 13 de dezembro de 1989, na cidade de Campo Grande/MS.

E com certeza, na manhã do dia 17 de janeiro de 2010, o soldado D.A.W. e o 3º sargento W.A.C. (41 anos), ambos da Polícia Militar do Rio de Janeiro, não estacionariam a viatura na região central da cidade e ficariam dentro dela se tivessem a convicção de que em 30 minutos, três ou quatro criminosos se aproximariam num carro preto, sairiam do veículo e disparariam ininterruptamente contra os dois, provocando ferimentos no primeiro e a morte imediata do segundo.

Não há dúvida de que o treinamento e o trabalho policial seriam mais fáceis e seguros se existisse esta tal vidência. Afinal, bastaria treinar continuamente e à exaustão cada aluno predestinado ao confronto com criminosos ou alocar estes policiais em outras atividades. Mas isso é pura ficção, e a realidade é tão dura quanto o chão no qual tombaram estes heróis.

Por isso, você precisa considerar sua crença, seja ela qual for, e se perguntar se ela encoraja ou não sua capacidade para se defender; se ela impõe a aceitação incondicional de que tudo na vida é obra de um destino inflexível ou se o estimula a aceitar total responsabilidade por sua segurança pessoal.

Por que isto é importante? Porque alguém que acredita que seu destino é controlado por uma força externa tende a relaxar e não ser bem sucedido em uma situação de sobrevivência se comparado a um indivíduo inclinado a confiar em sua própria capacidade para decidir e tomar uma atitude. Aquele que se considera no controle das coisas boas e ruins que experimenta tem mais chance de superar situações difíceis do que aquele que acredita que as coisas ocorrem por acaso. Este último se entrega facilmente às adversidades, pois seu destino não lhe pertence, não importando o que ele faça para estar a salvo.

Logo, cada policial deve assumir total responsabilidade por sua própria segurança fazendo aquilo que lhe cabe. Ou seja, pelo menos não cometendo os mesmos erros que têm levado as vidas de milhares de policiais em todo o mundo.

No centro deste tema estão o estado de alerta e o comportamento preventivo. O comportamento preventivo começa quando você simplesmente acredita que pode ser o alvo algum dia. O estado de alerta ocorre quando você presta atenção nas pessoas e nos acontecimentos à sua volta.

Mas sabendo que não é possível permanecer 100% alerta 100% do tempo, você pode avaliar quais os momentos da sua vida requerem um nível maior de atenção. Sem dúvida, estar dentro de uma viatura num local perigoso exige um nível de alerta maior do que se você estivesse num supermercado. Ficar na viatura é confortável, mas perigoso. Fora dela é ruim, porém mais seguro. Fora da viatura, você vê o que ocorre na redondeza e pode reagir mais rápido do que se estivesse confinado dentro do veículo.

Com isto em mente, pode-se dizer que a morte não tem hora ou data marcada, a menos que você vacile e faça seu próprio agendamento. Deus deseja o seu bem, contudo certas tarefas são da sua responsabilidade. E ficar vivo é uma delas!

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal e professor de armamento e tiro lotado na Delegacia de Polícia Federal de Uberlândia/MG.
E-mail:
humberto.wendling@ig.com.br
Blog: www.comunidadepolicial.blogspot.com

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Retrospectiva policial: preparando-se para 2010!


O ano de 2009 está acabando e é vital que cada policial faça uma retrospectiva sobre suas ações durante e fora do trabalho.

É importante considerar quantas vezes você se afastou, inocentemente ou não, dos elementos básicos da autodefesa na atividade policial e nas horas de folga. Quantas vezes você permitiu que desconhecidos se aproximassem sem serem notados com antecedência. Quantas vezes você esqueceu ou deixou sua arma em casa ou dentro do carro. Quantas vezes você não algemou o preso porque ele parecia inofensivo. Quantas vezes você trabalhou sozinho. Quantas vezes você deixou de adquirir um equipamento de qualidade porque achou que era caro ou não era importante. Quantas vezes você agiu por impulso sem antes realizar uma análise da ocorrência. Quantas vezes você foi rude com um colega e outras coisas mais.

Sem esta retrospectiva, talvez você possa voltar ao trabalho em 2010 e, dia após dia, cometer os mesmos erros que cometeu no ano anterior. Você pode negligenciar os componentes críticos da sua estratégia de prevenção contra as ameaças à sua vida. Você pode cometer os mesmos erros que outros cometeram desde que a luta pela justiça e pela paz teve início.

Por isso, talvez a falta da lembrança do passado tenha sido um dos ingredientes que conduziu à morte nossos amigos policiais que trabalharam em 2009 em Osasco/SP, Belém/PA, Feira de Santana/BA, Rio das Ostras/RJ, Belo Horizonte/MG, Ji-Paraná/RO, Rio Branco/AC, Recife/PE, Cariacica/ES, Samambaia/DF, Confresa/MT, Foz do Iguaçu/PR, Manaus/AM, Picos/PI, Murici/AL, Porto Alegre/RS, Anápolis/GO, Areia/PB, etc.

Sua experiência e a prática de vida de outros policiais são uma das melhores ferramentas de aprendizado que você pode utilizar, principalmente numa profissão na qual uma decisão incorreta pode matar alguém, inclusive você. Experiências, boas ou ruins, devem ser revistas com o propósito de encontrar aquilo que fez toda diferença para o sucesso da ação quanto para localizar as falhas que conduziram à infelicidade.

Você não precisa mudar (na essência as pessoas não mudam), mas você é capaz de melhorar. E se tudo que você fizer na atividade policial possuir este espírito, então você corre menos riscos. Se você avalia as situações de perigo ocorridas no passado tanto quanto aquilo que foi feito de certo ou errado e o que precisa ser melhorado, então você tem a confiança e a coragem para enfrentar uma ocorrência perigosa.

Portanto, pergunte a si mesmo o que faria em determinadas situações; conte com um ferimento como preço justo pela sobrevivência; treine; permaneça pronto; cuidado com a rotina; saiba quanto vale sua vida; saiba por que você quer viver; porte sua arma; limpe sua arma; estabeleça sua segurança como primeiro objetivo; trate bem o amigo da força policial e diga que se 2010 for o ano em que sua sorte será lançada, então você fará o que precisa ser feito para vencer.

Pense positivo, revise sua conduta e permaneça em alerta, porque ao longo do tempo seus pensamentos se tornam suas ações. Observe suas ações porque elas se tornam hábitos e experiências, boas ou desagradáveis.

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal e Instrutor de Armamento e Tiro lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG.
E-mail:
humberto.wendling@ig.com.br
Blog: www.comunidadepolicial.blogspot.com

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Será que funciona?


A posse de uma arma de fogo impõe uma série de responsabilidades, e após uma divertida sessão de tiros, um treinamento ou mesmo o porte num coldre dissimulado vem àquilo que alguns ainda consideram o trabalho duro, a parte chata, o desnecessário.

Mas a limpeza do armamento é o mais básico e importante item para quem tem uma arma. Com o cuidado e uma limpeza regulares, uma arma de fogo pode durar muitos anos. E isto é especialmente importante se você confia sua vida neste instrumento e pretende se aposentar usando a mesma arma que utiliza hoje no trabalho.

Contudo, uma breve inspeção durante a manutenção das pistolas usadas por 50 policiais demonstrou que apenas oito delas estavam limpas. Fios de cabelo, poeira, fiapos de pano, terra, cinzas de cigarro, tecido morto e resíduos de pólvora foram alguns dos itens encontrados nas armas. O curioso é que esta displicência abrangeu desde os policiais antigos e experimentados até os mais novos e recém-chegados da Academia Nacional de Polícia. Com certeza não é culpa da inexperiência e nem culpa da formação básica recebida. E o pior é que todos estes policiais sabiam que suas armas estavam em péssimas condições de limpeza. Só para constar, das oito armas em boas condições, quatro estavam assim porque seus usuários só as utilizam durante as operações policiais. Então eu não sei o que é pior: deixar uma arma limpa em casa ou uma arma porca no coldre!

Há alguns anos, os policiais reclamavam da qualidade das poucas armas existentes, da falta de munição, da ausência de treinamento, etc. Doze anos atrás, o policial recebia um revólver .38 SPL, conhecido por “canela seca”; os cartuchos eram contados como se fossem pedras preciosas; e quem desejava treinar pagava pela munição recarregada e pelo aluguel do estande. Hoje, cada Policial Federal recebe uma pistola Glock (cuja qualidade é internacionalmente reconhecida), três carregadores, 400 cartuchos para treinamento anual, além de contar com excelentes instrutores de armamento e tiro formados pela Academia Nacional de Polícia e um programa de treinamento instituído por norma. E o que alguns policiais fazem? Esquecem o passado, deixam as armas sujas e continuam reclamando.

Então será que na hora da verdade sua arma vai funcionar? Será que cada vez que você apertar o gatilho, um projétil será lançado em direção ao alvo ou àquele que quer matar você? Você garante que sua arma, na condição que está agora, é capaz de salvar sua família? Das 50 pistolas analisadas, é possível garantir que quatro funcionariam, pois estavam limpas, alimentadas e no coldre do policial. As outras quatro, apesar de estarem limpas, não funcionariam no momento da necessidade porque seus usuários simplesmente não portam armas. Quanto às demais, não é possível garantir coisa alguma!

Portanto, a primeira coisa que você pode fazer para garantir que sua arma funcione é adquirir um kit para limpeza de armas (que custa cerca de R$ 20). Estes kits estão disponíveis em lojas de acessórios de armas de fogo ou de caça e pesca, e são projetados para tipos específicos de armas (pistolas, fuzis, espingardas). Normalmente cada kit possui três varetas metálicas (com cerdas de latão, nylon e tecido), óleo, solvente e uma flanela. Velhas escovas dentais e pedaços de pano complementam o material. Com este equipamento em mãos, você pode fazer o seguinte:

Passo nº 1 – Certifique-se de que a arma está descarregada.

Passo nº 2 – Desmonte a arma sobre uma mesa plana, limpa e desocupada de modo que possa observar todas as partes e trabalhar com cada item de cada vez. Se você esqueceu como desmontar sua arma, pergunte ao colega instrutor de tiro ou leia o manual de instruções. Após a desmontagem, você terá cinco componentes sobre a mesa (o cano, o ferrolho, o conjunto da mola recuperadora, a armação e o carregador).

Passo nº 3 – Dependendo do nível de sujeira (chumbo e pólvora) grudada no cano, passe um pouco de solvente no interior do mesmo usando um pedaço de tecido. Depois, passe outro pedaço de tecido limpo para retirar o excesso de solvente. Introduza a vareta no cano (a partir da câmara até a boca) e a movimente para frente e para trás no sentido da rotação das raias. Utilize primeiro a vareta de cerdas de latão e depois a de nylon. Continue a passar um tecido limpo até que o cano esteja limpo. Se só houver poeira, dispense o solvente e limpe o interior do cano apenas com a vareta de nylon. Limpe a rampa de alimentação e a câmara até que não haja impurezas. Não lubrifique o interior do cano após a limpeza. Não use escova com cerdas de aço.

Passo nº 4 – Limpe o ferrolho com a escova dental e um pedaço de pano levemente embebido em solvente até remover qualquer depósito de pólvora visível e resistente. Use a flanela para retirar as impressões digitais e qualquer vestígio de óleo/solvente que existir. Lubrifique apenas as partes indicadas no manual de instruções usando uma ligeira camada de óleo.

Passo nº 5 – Use a escova dental e um pedaço de pano levemente embebido em solvente para retirar resíduos de pólvora resistentes encontrados na armação. Na ausência destes resíduos, dispense o solvente e apenas escove a armação para retirar a poeira.

Passo nº 6 – Limpe os carregadores com a escova dental. Se for preciso limpá-los por dentro, desmonte-os observando a posição das peças. Utilize a escova ou a haste de cerda de nylon até remover todos os sinais de sujeira. Remonte os carregadores. Não use óleo ou sprays.
Passo nº 7 – Remonte a arma, evitando o excesso de óleo em qualquer componente. Não use grafite. Não use desengraxantes.

Passo nº 8 – Limpe o kit de limpeza de vez em quando.

Talvez você gaste 15 minutos, e por ser um procedimento tão simples e rápido não há desculpa para não colocá-lo em prática pelo menos uma vez por mês.

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal e Instrutor de Armamento e Tiro lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG.
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terça-feira, 27 de outubro de 2009

Por que evitar o perigo é a melhor estratégia?


“O Policial Civil L.C. foi encontrado morto em Sobradinho/DF com um tiro no coração. A vítima estava em serviço, sozinho, em uma viatura descaracterizada. Houve tentativa de reação por parte do policial, que estava com a arma na mão. Como ele estava em serviço, existe a hipótese de que tenha recebido um chamado de um informante e sido vítima de uma emboscada. L.C. era um policial antigo, experiente, atleta e fazia um excelente trabalho. Ele era um ótimo policial, investigador e linha de frente.” (Tribuna do Brasil, 09/10/2009).

“O Policial Federal F.S. foi morto com sete tiros na madrugada desta quinta-feira. Segundo a polícia, ele teria reagido a um assalto, sendo assassinado com sua própria arma.” (Portal ORM, 08/10/2009). “Elas são garotas de programa e atraíram a vítima. Elas entraram em contato com os assaltantes e eles já estavam à espera do carro, mas não sabiam que ele era policial. As meninas são responsáveis por fazer a ‘casinha’ para atrair as vítimas até o canal, onde posteriormente são abordadas pelos assaltantes. Para disfarçar, as garotas fingem que são vítimas.” (Portal Gterra, 09/10/2009).

Logo após saber sobre os terríveis assassinatos desses policiais, o primeiro em Brasília/DF e o outro em Belém/PA, um colega disse transtornado: “Eles só morreram porque eram policiais!” Mas embora esta afirmativa seja verdadeira em muitos casos de homicídios de policiais, é preciso perceber outro elemento importante nas ocorrências.

Esse outro elemento se combina com a escolha profissional para formar a razão principal pela qual policiais acabam envolvidos em ocorrências perigosas e violentas. E então só é preciso uma fração de segundo para que você seja arrastado para uma situação além do seu controle. E o estrago que você vai sofrer como resultado da violência irá durar a vida toda, de um jeito ou de outro.

A violência é uma situação extrema, e as regras convencionais não se aplicam em situações desse tipo. As prioridades do cotidiano e os conceitos de civilidade que você possui não se aplicam. O importante é reconhecer quando você está se comportando de maneira arriscada para que saiba quando seu modo de vida não é suficiente para mantê-lo protegido. Para estar a salvo, você deve estabelecer uma prioridade maior em relação à sua conduta cotidiana: sua segurança.

Assim, ostentação, vaidade, despreocupação, orgulho, preguiça, falta de tempo, EXCESSO DE AUTOCONFIANÇA e BOEMIA parecem muito importantes até que você esteja diante do cano de uma arma.

Mas se você nunca se viu diante dos horrores da violência, as chances estão contra você reconhecer os sinais de perigo. E sem conhecer sinais óbvios, são boas as chances de que você continue agindo na sua forma habitual. Fazendo isso, você aumenta sua possibilidade de ser vitimado pelo crime e pela violência, pois não está efetivamente evitando o perigo.

Para muitas pessoas, inclusive policiais, a ideia do uso da força física é ao mesmo tempo terrível e repulsiva. Sabendo que muitos não desejam ou não querem usar a força física para se proteger, evitar o perigo se afastando de conflitos e de indivíduos perigosos (homens ou mulheres) é a razão principal para você utilizar o mecanismo da PREVENÇÃO. Estado de alerta, hábitos saudáveis, CONVÍVIO COM PESSOAS DISTINTAS EM AMBIENTES SELECIONADOS e TRABALHO EM DUPLA são estratégias muito mais compensadoras que o uso da força física ou letal. Lembre-se: sua primeira linha de defesa é a prevenção; depois a sua arma de fogo.

Para evitar ser vitimado, você deve ter certo grau de flexibilidade mental. Isso significa permitir a você mesmo fazer o que for necessário para vencer um combate, tanto quanto evitar o confronto violento sempre que possível.

Em resumo, toda vez que você sai de uma situação potencialmente violenta sem ser roubado, espancado ou assassinado, e sem usar a força física, já é uma vitória. E não importa como você evitou a situação.

Mas você está em perigo? A resposta é: DEPENDE. Risco é uma questão de graus. Seu risco aumenta ou diminui dependendo de sua atividade e comportamento.

Existem estilos de vida em que a violência é generalizada. Se você vive de certo modo ou ASSOCIADO A CERTOS TIPOS DE PESSOAS (como garotas de programa das periferias e informantes), seu grau de risco aumenta. Por exemplo, se você frequenta boates, botecos, áreas de prostituição, chega bêbado em casa, namora dentro do carro e se encontra sozinho com um informante numa estrada isolada, então sua chance de ser vitimado um dia é grande. Crime, violência e suas infelizes consequências são o resultado natural de modos particulares de pensamento e comportamento. Dessa maneira, não é uma questão de “se acontecer”, mas “quando”.

Enquanto pesquisadores tentam estabelecer razões sociais, fisiológicas e psicológicas para a criminalidade e a violência, está claro que pessoas violentas e delinquentes tendem a serem violentos. E isso é o que basta para você manter distância desses indivíduos!

Comportamento de risco consiste largamente em se envolver com pessoas ou situações perigosas. Essas situações conduzem você a estar próximo de pessoas predispostas a cometerem atos violentos. De um modo ou de outro, elas estão mais inclinadas a se tornarem violentas com as pessoas que conhecem ou que estão envolvidas com elas. Então, quanto menos você se envolve em certos tipos de comportamento, mais você reduz sua chance de ser selecionado como alvo de criminosos.

Se suas ações ou comportamento não o colocam em uma categoria de risco, então simplesmente seu bom senso pode reduzir a possibilidade de você se tornar uma vítima.

Contudo, se você está envolvido em uma conduta de alto risco, como policial sua arma pode até ajudá-lo em alguma coisa, mas não será suficiente para salvar você. Por quê? Porque é mais fácil fazer algo para evitar a violência do que se safar no meio de um confronto armado repentino e a curta distância.

Sua segurança SEMPRE deve estar em primeiro lugar!

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal e Instrutor de Armamento e Tiro na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG.
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domingo, 20 de setembro de 2009

Como você opera em ambientes com baixa luminosidade?


A qualidade da visão dos seres humanos muda pouco entre as pessoas com visão normal. No entanto, qualquer diferença para menos pode ser importante se algum suspeito possuir o mesmo treinamento e a mesma perspicácia que você. Por exemplo, se o suspeito possui uma acuidade visual de 20/20 (visão normal) e você uma de 20/29, então isto significa que seu oponente pode ver você a uma distância 14,5% maior do que você pode vê-lo. Esta diferença é considerável se você imaginar o pouco tempo disponível para reagir a uma agressão iminente, quando é desejável perceber a ameaça com antecedência.

Entretanto, o exemplo citado está fundamentado na Escala Optométrica de Snellen, que infelizmente só analisa a quantidade de visão, e não sua qualidade. Esse teste avalia sua capacidade de ver um objeto preto com extremidades regulares sobre um fundo branco, simulando uma condição de dia claro. E como fica o período noturno ou as situações com baixa luminosidade?

Bem, se você considerar que cerca de 80% de toda informação sensorial é percebida pelo sistema visual, então você deve compreender a importância da capacidade de enxergar bem em qualquer situação, principalmente quando há falta de uma iluminação consistente. Assim, o uso de uma boa lanterna é tão importante quanto à própria arma, porque se você não pode ver, também não pode se defender!

Já há certo avanço no treinamento policial brasileiro no qual se emprega algum tempo na utilização de uma ou outra técnica com lanterna em ambiente com baixa luminosidade. Técnicas com lanternas são importantes e precisam ser compreendidas, contudo, existe mais num ambiente mal iluminado do que simplesmente segurar uma lanterna.

O típico treinamento de tiro em ambiente mal iluminado consiste em aguardar o período noturno e alinhar os atiradores numa linha estática diante dos alvos. A seguir, os atiradores sacam as armas e as lanternas, e atiram nos alvos iluminados. Porém, a questão não é só aprender uma técnica de tiro nesta condição, mas saber como usar a lanterna e se comportar taticamente numa situação na qual o tiro só pode ser realizado depois de você encontrar um agressor potencial, o esconderijo onde ele pode estar e os objetos que ele pode usar para atacá-lo. Quer dizer, isso significa mais do simplesmente juntar a arma com uma lanterna para atirar no escuro.

Como nenhum policial é igual a outro e nenhuma técnica de uso de lanterna é a resposta definitiva para todas as situações com iluminação inconsistente, você precisar aprender e treinar diversas técnicas (Harries, Roger, FBI, Chapman, Ayoob, Marine Corps, Hargreave Lite-Touch, Keller, Neck Index, NYPD, Guisande e outras que surgirem) porque uma pode se adaptar melhor que outra à exigência da circunstância. Ao treinar técnicas variadas você também pode perceber qual delas se adapta melhor ao formato da sua mão e qual lanterna se acomoda melhor à técnica treinada.

Além disso, você precisa compreender de modo sucinto os aspectos fisiológicos e psicológicos que pode encontrar durante uma ação num ambiente mal iluminado. Mais uma vez, a compreensão desses fatores permite que você treine técnicas que funcionam em um ambiente particular e perceba suas limitações e vantagens. Estes são fatores que afetam qualquer pessoa que trabalha num local deste tipo.

Então, o que você precisa saber sobre o olho humano é que ele possui uma estrutura interna denominada retina. Ela recebe a luz que entra no olho e a transforma em estímulos elétricos, os quais são enviados ao cérebro por meio do nervo óptico. A retina possui dois tipos de células fotorreceptoras: os cones e os bastonetes. Os cones, no centro da retina, são responsáveis pela nitidez da imagem, pela riqueza de detalhes e pela distinção das cores. Mas na escuridão, os bastonetes, na periferia da retina, assumem o controle e permitem que você perceba tons de cinza, movimento e imagens com ângulos abrangentes, porém pouco detalhadas. Cones e bastonetes funcionam conjuntamente em todos os níveis de iluminação, mas cada um trabalha até seu limite possível. Infelizmente, os bastonetes não possuem uma resolução visual tão boa, mas são mais sensíveis à luz que os cones. Por isso, em ambientes com baixa luminosidade, sua visão passa a depender exclusivamente deles.

Nos bastonetes existe uma proteína chamada rodopsina, que é o elemento decisivo para a visão noturna. Quando a luz entra no olho humano e atinge a rodopsina, esta se decompõe em diversos compostos intermediários. Estes compostos produzem impulsos elétricos que são transmitidos ao cérebro e interpretados como luz. Finalmente, a rodopsina precisa se recompor para que o processo volte a ocorrer caso haja nova exposição à luz. Esta recomposição segue uma taxa constante e lenta. Então, quando você é exposto à luz intensa toda a rodopsina se decompõe, e ao apagar a luz e tentar ver novamente no escuro, você simplesmente não consegue. Como não há rodopsina, os bastonetes ficam inutilizados devido à fadiga química até que ocorra a recomposição da proteína entre 10 a 15 segundos.

Num teste empírico, coloquei um objeto sobre uma prateleira a um metro de distância. Depois que escureci totalmente o ambiente, direcionei o feixe de luz de uma lanterna convencional para olhos até sentir um desconforto. Desliguei a lanterna, e imediatamente cronometrei o tempo necessário para que, no escuro, eu pudesse perceber o contorno daquele objeto sobre a prateleira. Tempo: 19 segundos. Agora, imagine isso sendo feito com uma lanterna tática de 240 lúmens.

Assim, outro objetivo da lanterna é provocar essa fadiga química por meio do ofuscamento da visão para causar distrações (desatenção, descuido), perturbações (desordem, confusão) e cegueira momentânea. Como a adaptação completa da visão às mudanças de luminosidade é um processo gradual que começa a partir do pôr-do-sol e leva aproximadamente 30 minutos, qualquer exposição à luz intensa, mesmo por dois segundos, força o reinício de todo o processo de adaptação.

O inverso segue a mesma dinâmica, ou seja, se você passa imediatamente de um ambiente iluminado para outro escuro, você fica praticamente cego por alguns instantes até que ocorra a adaptação. Você ainda perde a capacidade para estimar distâncias e identificar objetos. Novamente, a lanterna impede que você fique completamente cego devido ao pouco tempo disponível para a adaptação em um ambiente mal iluminado durante uma operação policial; o que é outra vantagem tática.

Além disso, é importante saber que sua visão noturna se deteriora conforme você envelhece, e logo, a quantidade de luz que você precisa em um ambiente mal iluminado é maior com a idade. Isso significa que um criminoso mais jovem enxerga melhor que você nessa situação.

De qualquer forma, é possível afirmar que ninguém enxerga muito bem no escuro. Por isso, seu cérebro tentará preencher as lacunas deixadas por aquilo que seus olhos não conseguem ver. É quando você “enxerga” aquilo que não existe. Isto se torna mais difícil de gerenciar em situações estressantes típicas das operações policiais.

Uma forma de compensar os efeitos das condições de baixa luminosidade é manter a mente focada no objetivo e no seu comportamento durante a ação, mas deixando sua lanterna ligada o suficiente para você identificar o que está vendo antes de assumir o que é ou não uma ameaça letal. De novo, treinos com lanternas não precisam incluir, invariavelmente, o disparo da arma. Aqui, o que você precisa saber é como manobrar sua lanterna (para enxergar melhor) e sua arma (para estar preparado para uma eventualidade) numa situação de busca.

Mas nos treinamentos, os policiais raramente utilizam algum tempo para realizar a identificação do alvo. Eles falham na identificação de um alvo que não pode ser considerado uma ameaça daquele que pode ser. E então, os policiais sempre atiram!

Se você se movimenta, domina o local e identifica o suspeito, então sua lanterna se torna uma opção no uso progressivo da força por causar cegueira momentânea, confusão e receio no suspeito. Um benefício em relação à força letal.

Portanto, imagine que você pode dominar alguém por 10, 15 ou 19 segundos usando apenas a luz da sua lanterna tática, reduzindo a capacidade do indivíduo em vê-lo claramente e estabelecer qualquer tipo de tentativa de ataque ou fuga enquanto você se aproxima.

Temporariamente cego, o suspeito não pode identificar você, determinar se você está sozinho, procurar uma rota de fuga, localizar uma proteção ou uma arma. Então, existe alguma vantagem em colocar um suspeito em uma situação na qual ele precisa de algum tempo para restabelecer a acuidade visual? Claro que sim, e isso é uma vantagem tática diferente de simplesmente atirar com uma arma e uma lanterna.

Se você tem uma lanterna tática de qualidade e sabe como usá-la, você estará em vantagem toda vez que entrar num local mal iluminado. Você saberá o que fazer quando o corredor a ser observado vira para a esquerda ou para a direita; qual técnica deve ser utilizada para uma busca e qual deve ser usada durante o tiro; saberá como se comportar quando outro policial estiver junto com você de modo que o potencial das duas lanternas seja somado para aumentar a vantagem tática, ao invés de um policial iluminar diretamente o outro ou marcar sua silhueta iluminando suas costas; saberá aproveitar a escuridão de modo a ver sem ser visto; saberá quando a luz que entra pela porta ou a própria lanterna está criando uma iluminação indireta no local; saberá como se mover no local e que técnica usar nas várias situações de um mesmo ambiente com baixa luminosidade. Não é preciso dizer que para isso você precisa receber treinamento adequado, ter um equipamento de qualidade e ser confiante para aplicar as técnicas.

Uma das coisas mais importantes que você pode fazer para melhorar sua sobrevivência no trabalho policial é compreender como operar em um ambiente com baixa luminosidade. Você pode ter a lanterna, mas ainda precisa do conhecimento para controlar o ambiente. Você precisa desenvolver o conhecimento, a ferramenta, as técnicas e táticas comportamentais para dominar a escuridão ao invés de simplesmente atirar com uma arma numa mão e a lanterna na outra.

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal e Instrutor de Armamento e Tiro lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG.
E-mail:
humberto.wendling@ig.com.br

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Por que você quer viver?


Não existe um policial sequer que não queira voltar para casa são e salvo depois de um dia de trabalho. E não importa se você é policial federal, rodoviário, civil ou militar; se é policial operacional ou administrador, investigador ou corregedor, aviador ou patrulheiro. A verdade é que todos querem vencer qualquer confronto de vida ou morte que possa surgir.

Também é verdade que aqueles que já lutaram pela própria vida não tiveram tempo ao menos para piscar, e o que dizer então sobre a capacidade de reflexão. Mas como todo treinamento deve começar com o desenvolvimento de uma mente orientada para a vitória e para a superação de obstáculos, uma pergunta torna-se fundamental. E a resposta a esta questão jamais pode ser esquecida ao longo da sua jornada contra o crime e a violência.

Você já pensou sobre o que o motiva para continuar a salvo? O quê alimenta sua vontade de viver?

É da natureza do ser humano fugir ao menor sinal de perigo, e ainda assim você escolheu uma profissão na qual se sente compelido a correr em direção aos tiros, apartar brigas alheias em bares durante as madrugadas, abordar pessoas sem saber o que vai encontrar ou trabalhar em custódias sabendo que cada dia de trabalho será ao lado de criminosos profissionais. Apesar das estatísticas precárias, você sabe que pelo menos 490* colegas policiais serão mortos até a metade de cada ano e que você não vai ficar rico fazendo isso. Mas mesmo assim você volta para o trabalho todos os dias na esperança de ser o vencedor de cada conflito.

Nas aulas de sobrevivência policial da Academia Nacional de Polícia, os professores terminam a apresentação dizendo que “Hoje pode ser mais um dia normal na sua vida, ou pode ser o dia em que você será testado sobre tudo o que aprendeu.” Eles não querem que você apenas resista aos encontros mortais. Eles querem que você VENÇA (física, emocional, espiritual e legalmente)! De fato, os professores trabalham muito para conduzir e manter cada futuro policial neste estado mental de vencedor ao longo do curso. Já no primeiro minuto eles mostram uma fotografia dramática de um policial que não venceu e que foi morto em um encontro cruel e sem sentido com criminosos. E então eles prosseguem dizendo: “Prepare-se”.

Mas agora é hora de pensar seriamente no seu próprio motivo para vencer. Você precisa descobrir aquilo que vai lhe deixar mais alerta, mais forte, capaz e orientado para triunfar diante do perigo que ronda sua profissão. Ou seja, o que motiva você quando as coisas saem do controle?

Para o Agente Federal M. A. L. a ideia de não poder presenciar a formatura dos filhos e a lembrança de que seu próprio pai não esteve presente em sua formatura no passado fizeram com que ele reagisse durante um assalto. Ele descarregou sua arma contra dois criminosos que tentavam roubar seu carro e enquanto recebia uma chuva de balas numa luta de vida ou morte. A distância entre eles era de aproximadamente 2,5 m. O policial atingiu três vezes um dos criminosos e conseguiu voltar para casa ileso. (Belo Horizonte/MG).

Já para o Agente Federal G. A. M. estar no banco do motorista enquanto um assaltante armado, também dentro do carro e no assento de trás, apontava uma arma para sua filha de 12 anos era algo inconcebível. Foi esse pensamento combinado com a raiva que ele canalizou como motivação para disparar sua arma e acertar três dos cinco tiros no criminoso que morreu logo depois. No dia seguinte o policial pôde como ele mesmo disse “... beijar minha filha e educá-la para um país melhor, onde o bem vencerá o mal.” (São José do Rio Preto/SP).

Mesmo enquanto estava imóvel e caído dentro de um ônibus, com pouca chance de sobreviver ao tiro à queima roupa que recebeu na nuca depois de reagir a um assalto e matar um dos criminosos, o Delegado Federal E. G. A. tirou forças da sua crença para dizer a si mesmo que sua hora não havia chegado e sair andando do hospital algum tempo após a ocorrência. (Rio de Janeiro/RJ).

Para outro Policial Federal, vítima de sequestro-relâmpago, foi a ameaça de morte feita pelo delinquente que descobriu sua carteira funcional que despertou seu desejo de continuar vivo. Os dois assaltantes foram mortos, mas a última frase de um deles foi “Ele é polícia, vamos levar pra BR e matar”. Certamente ser encontrado morto e jogado num matagal ao longo de uma rodovia não estava no plano do policial. Ele conseguiu acertar todos os cinco tiros disponíveis em seu revólver snub. Talvez ele tenha jurado não morrer de modo tão deprimente. E ele não morreu! (Goiânia/GO).

O Policial Federal G. S. B. F. utilizou sua habilidade de instrutor de tiro para desarmar um homem que apontava um revólver para ele num posto de gasolina. O policial concentrou sua força mental e física a ponto de ver o tambor da arma iniciando seu giro. Ele agarrou a arma, e depois de lutar com o indivíduo, conseguiu tirá-la dele. O policial venceu o confronto porque ele conscientemente treinou para vencer. (Brasília/DF).

E você, já pensou sobre o que o motiva a vencer? O que força você a seguir em frente? Isso é algo que você deve descobrir e treinar mentalmente, e é algo que pode mudar completamente sua carreira policial e sua vida.

A primeira vez que eu achei que ia morrer, eu fui motivado simplesmente pelo egoísmo e pelo orgulho. Eu tinha acabado de comprar uma Glock, a menina dos olhos de qualquer policial na época, e não podia deixar aquele assaltante tomá-la de mim. A arma era minha, e eu precisava ter certeza de que ninguém mais tocaria nela. Além disso, que explicação eu daria aos meus colegas se eu falhasse. Mas isso foi em 1998. Agora eu tenho uma família e são eles que me motivam a vencer, afinal não deve ser bom acordar sabendo que o pai que eles amam não existe mais.

Minha família também é a razão para eu melhorar meu estado de alerta, meus estudos, minha capacidade física, minha confiança e minhas habilidades. Eu preciso vencer os incidentes que encontrar para que a nossa vida siga seu rumo natural.

Então, pense bem sobre o que quer que motive você. Visualize mentalmente uma situação perigosa e hipotética. Lembre-se da sua motivação e treine para que isso faça você melhorar, lutar com todas as forças até o fim e seguir em frente não importando o que aconteça.

Vencer não significa apenas não ser morto, mas também significa vencer o resultado de cada incidente crítico tanto física quanto emocionalmente. Significa saber o que é importante e quem é importante na sua vida.

Se você tem alguma resposta para a frase “Por que você quer viver?”, me diga e comente com seus colegas o que motiva ou motivou sua vitória. Afinal, nesta atividade os policiais aprendem melhor uns com os outros.

*Fonte: Ministério da Justiça. Secretaria Nacional de Segurança Pública. Departamento de Pesquisa, Análise de Informação e Desenvolvimento de Pessoal em Segurança Pública. Pesquisa Perfil Organizacional das Polícias Civis e Militares. 2005. Não contém dados das PC dos Estados de SP, BA, PB, PI, RO e SC. Não contém dados das PM dos Estados de AM, DF, ES, PA, PB, PI e SP.

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal e Instrutor de Armamento e Tiro lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG.
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