quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Airsoft: mais importante do que se pensa!




O treinamento com armas de fogo é parte fundamental na atividade policial pela importância da salvaguarda dos cidadãos e dos próprios policiais em todo o mundo. Em mãos criminosas, a arma é um instrumento de ataque. Já nas mãos do cidadão e da polícia é uma ferramenta de defesa.

Mas, só porque o policial tem uma arma, foi ao estande e atirou contra um alvo de papel, não significa que ele seja capaz de perceber o perigo e agir corretamente num confronto real. E isso é um contrassenso! Por quê? Se perguntarmos a qualquer policial que foi forçado a sacar a arma e atirar num agressor, ele vai dizer que as coisas são bem diferentes quando alguém está tentando matá-lo. Apesar disso, essa diferença não enfraquece ou elimina a importância do treino com armas de verdade. Pelo contrário, a distância entre a realidade e o treinamento precisa ser diminuída (considerando os parâmetros de segurança) e o treino com tiro real tem de ser constante, consistente, profissional, técnico e objetivo (uma raridade nas polícias brasileiras).

Então, alguns policiais têm a ideia equivocada de que possuir uma arma e dispará-la algumas vezes é o suficiente para ter EXPERIÊNCIA, saber o quê e quando fazer, e estar protegido contra os criminosos. Por causa da arma na cintura e do treino convencional, eles acreditam que são capazes de usá-la na hora da necessidade, disparando uma quantidade determinada de tiros para incapacitar o agressor e repelir a ameaça com eficácia.

Para diminuir esse perigoso erro de avaliação, outro modelo de treinamento policial, em complemento ao atual, precisa ser utilizado para permitir a interação real entre os participantes e a capacidade de pensar e responder, da melhor maneira possível, ante o IMPREVISTO.

Para isso, já existem as tecnologias do tipo Force-on-Force (Simunition®, Airsoft) e os simuladores virtuais de tiro. O Airsoft está ganhando força no Brasil e, pessoalmente, espero que melhore cada vez mais. Na verdade, desejo que todo cidadão possa portar uma arma de fogo ESTRANGEIRA e comprar munição em boa quantidade; que o esporte de tiro ganhe mais e mais praticantes; que estandes de tiro de excelência propaguem pelo país; e finalmente,  que a compra de material bélico policial seja submetida EXCLUSIVAMENTE à análise de quem faz polícia e está numa guerra verdadeira e diária.

Bem, essas tecnologias obrigam o policial a experimentar a ANSIEDADE de uma ação ou reação policial, os conflitos sobre o uso da força letal, as dificuldades dos confrontos em ambientes confinados e/ou com baixa visibilidade, a viabilidade e dificuldade de emprego de determinados equipamentos (coldres, uniformes, roupas civis, rádios HT, lanternas) e procedimentos (verbalização, técnicas, comportamento, etc.). São instrumentos capazes de ensiná-lo a fazer o que precisa ser feito, a fim de se proteger, mas, sobretudo, SOBREVIVER ao confronto.

Os exercícios Force-on-Force (simulando situações reais, inclusive as vivenciadas por outros colegas policiais, conforme os ESTUDOS DE CASOS – outra raridade nas polícias nacionais) permitem a construção da EXPERIÊNCIA PRÁTICA. Outra forma de construir esse conhecimento é a participação em confrontos armados reais, cujo risco não vale o benefício.

Instrutores e gestores PROFISSIONAIS precisam aprimorar a formação do policial em algumas das seguintes áreas:

Treino sob estresse: treinamento sob estresse é importante porque quando estamos sob estresse sempre recorremos às coisas que conhecemos por instinto, ou seja, aquilo que é básico em nossa formação. Por isso, não conseguimos realizar tarefas complicadas capazes de serem feitas quando estamos calmos ou num ambiente controlado. Além disso, mesmo que estejamos familiarizados com alguma técnica, a quantidade de estresse pode simplesmente destruir nossa capacidade de autodefesa. Nós já escutamos histórias de policiais experientes que foram vítimas de criminosos. Certamente, eles não foram vítimas porque não sabiam lutar, mas porque talvez não soubessem lidar emocional e mentalmente com o estresse da coisa real. Assim, se o policial possui uma arma, ele precisa ser capaz de operar com ela quando o estresse se iniciar. Ele precisa ter ideias e métodos simples de ação/reação armada para praticá-los até que se tornem automáticos. Felizmente, o estresse emocional é facilmente obtido por meio da ansiedade de um treino ou atividade em ambientes ou cenários desconhecidos, a chave das tecnologias Force-on-Force, quando o aluno policial interage com outras pessoas e com a surpresa de cada situação. Além disso, a necessidade de ter que selecionar a melhor opção de reação no menor tempo possível para uma dada situação é o elemento que provoca o estresse emocional que o aluno deve se acostumar.

Mas lembre-se: TREINO SOB ESTRESSE É DIFERENTE DE “PRESEPADA”. Técnica (conhecimento) e fanfarronice são como água e óleo; não se misturam. Onde há técnica não há presepada! E se há fanfarronice, infelizmente o aluno policial está no lugar errado! Vocês entenderam...

Treino com tomada de decisão: nem toda pessoa para quem o policial aponta uma arma, tem de ser baleada. Num ambiente com diversas pessoas e possíveis criminosos armados, ele ainda tem que usar o bom senso. Treinamentos que ensinam o policial a identificar agressores e inocentes são extremamente importantes. Tanto para evitar um problema jurídico quanto a perda de vidas indefesas. Treinamentos com tomada de decisão sobre o uso da força letal são capazes de incutir o pensamento do tipo “eu só atiro quando tenho certeza!”, frase do professor, amigo e Agente Federal Agrelli. Outra vantagem desse tipo de treinamento é que ele exige do policial plena concentração na tarefa. Por sua vez, a concentração e a necessidade de avaliação do cenário no qual o policial se encontra, faz com que ele aplique as técnicas policiais com melhor qualidade e segurança para todos.

Familiarização com o porte e o saque de arma dissimulada: se o policial estiver num confronto com seu adversário e sacar sua arma, ele precisa estar familiarizado com ela e com o método de porte dissimulado que escolheu. Que passos são necessários para que o policial levante a camisa e saque a arma do coldre? Ele está usando equipamentos com travas de segurança? Isso é importante porque as coisas nem sempre são fáceis de fazer durante o estresse. O policial também tem que levar em conta a roupa que está vestindo. Com a camisa que ele está vestindo no treino Force-on-Force, é possível livrar toda a arma sem que parte da roupa se enrosque nela?

Treinamentos sob estresse, com tomada de decisão em cenários realísticos não são permitidos com o uso de armas de fogo sob pena de uma falha do policial provocar um disparo acidental com ferimento. Nenhum desses problemas ocorre com as tecnologias Force-on-Force. Por essas razões, o SEOP/ANP/PF e o COT/PF há anos treinam com um dispositivo denominado Simunition. Entretanto, devido ao alto custo de aquisição dos kits de conversão (que transformam as armas de fogo em instrumentos não letais), o custo da munição, dos equipamentos de proteção individual (para todo o rosto e tronco), da impossibilidade de utilização do aparato em qualquer ambiente, a inovação tecnológica produziu outro instrumento de treino chamado Airsoft.

Em resumo, as armas Airsoft são réplicas de armas de fogo (pistolas, submetralhadoras, fuzis de assalto, rifles, espingardas) que funcionam com gás comprimido ou baterias recarregáveis e lançam pequenas esferas plásticas. Sob todos os aspectos, o Airsoft é mais econômico e fácil de operar se comparado com o Simunition, inclusive permitindo que o policial treine com os mesmos equipamentos que dispõe para a atividade diária (roupa, coldre, lanterna, etc.). O equipamento individual se resume a proteção do rosto (óculos de proteção e mascara para nariz e boca), e o local para o treino não exige especificações técnicas como um estande de tiro, por exemplo. Isso significa que o efetivo policial pode ser treinado no próprio local de trabalho, o que gera ainda mais economia de recursos e nenhuma preocupação com as condições climáticas (calor, frio, chuva). Também permite que o policial mantenha sua agenda de treinamento com elevada carga de disparos e simulações (com baixo custo), impossíveis de serem efetivadas com as armas de fogo ou o Simunition.

Airsoft já é popular entre as forças armadas e policiais de países desenvolvidos e com larga experiência em combate. Entusiastas, em todo o mundo, formam equipes de competidores e simulam conflitos bélicos, inclusive com a participação de militares experientes, devido à semelhança com a realidade. Além do mais, usar Airsoft aumenta o entusiasmo e o desejo de treinar mais vezes quando comparado com os exercícios em seco.

Finalmente, o Airsoft ainda permite o treinamento policial em três frentes: primeiro, auxilia na recuperação dos conceitos relacionados ao tiro daquele policial que se manteve afastado do contato com a arma de fogo; segundo, permite que novos policiais aprendam os fundamentos do tiro (visada, empunhadura, controle do gatilho, base, apresentação, respiração) sem a preocupação com o recuo e o estampido; terceiro, permite o aprimoramento das técnicas de sobrevivência policial sem a possibilidade de um ferimento real causado por um disparo acidental. Em seguida, todos os policiais, novos e antigos, podem graduar para o uso de armas de fogo ou a aplicação de técnicas avançadas no treino convencional.

Na próxima vez que sua organização policial investir em algum equipamento, sugira aquele que pode valorizar o treinamento e trazer o sucesso num conflito.

Humberto Wendling é Agente Especial, Professor de Armamento e Tiro da Polícia Federal e autor do livro Autodefesa Contra o Crime e a Violência – Um guia para civis e policiais, 2ª edição.
E-mail: humberto.wendling@gmail.com
Blog: www.comunidadepolicial.blogspot.com
Blog: www.autodefesacontraocrime.blogspot.com
Livro: www.editorabarauna.com.br
Canal no YouTube: Humberto Wendling

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Nosso treinamento precisa melhorar.




Desde 1987, o FBI, a polícia federal americana, conduz investigações anuais sobre policiais agredidos e mortos nos Estados Unidos. Se você não sabe disso ainda, é hora de se atualizar. E se você se preocupa com a sobrevivência nas ruas, precisa ter uma impressão dos dados mais recentes para aproveitar toda informação capaz de ajudá-lo a continuar a salvo.

Num desses relatórios, 40 confrontos entre 43 criminosos e 50 policiais foram selecionados. Nele, alguns delinquentes admitiram que portavam armas de fogo desde os nove anos de idade. Eles também disseram que andavam armados a maior parte do tempo. Para a maioria dos policiais brasileiros isso não é surpresa, já que muitos criminosos violentos possuem menos de 18 anos de idade.

Mas pense nessa informação em comparação com os novos alunos que chegam às academias de polícia. Quantos já manusearam uma arma? Quantos já dispararam uma arma de fogo antes? Provavelmente uma minoria. Basta observar que até policiais da ativa encontram dificuldades para comprar armas importadas, munição e equipamentos de qualidade. Atiradores profissionais não conseguem viver do esporte e destinam parte do salário dos empregos que possuem para bancar as necessidades do treinamento. Existem poucos estandes de tiro de excelência, sendo comum policiais e militares “treinarem” em alvos improvisados contra barrancos ou pedreiras. Se quem gosta do esporte ou trabalha com armas de fogo encontra tamanha dificuldade, o que dizer do jovem que pisa numa academia de polícia pela primeira vez.

Mas algumas pessoas ainda vão dizer que os novos alunos não precisam estar familiarizados com armas de fogo, pois eles aprenderão o que é preciso durante o treinamento na academia. Até aqui tudo bem, se o treinamento for adequado, com recursos materiais e financeiros suficientes e carga horária farta. A vida do policial é muito importante para ser submetida a treinamentos rudimentares por falta de dinheiro e tempo.

Bem, e o que ocorre quando os policiais recém-formados deixam as academias de polícia? Quanto treinamento eles recebem depois que tomam posse? Com as dificuldades já mencionadas e a cultura desarmamentista, provavelmente a maioria dos policiais jamais receberá outro treinamento. Aqueles que tiverem alguma sorte talvez recebam um ou outro treinamento de tiro antes de se aposentarem. Alguns pagarão por cursos em escolas particulares, e pouquíssimos abençoados participarão de um programa de treinamento contínuo.

Contudo, de acordo com o estudo do FBI, os criminosos “treinam” com suas armas de modo regular. Por incrível que pareça, 80% dos criminosos entrevistados alegaram participar de aproximadamente 25 sessões de “treinamento” por ano. Então, analisando apenas a frequência de treino, quem está mais preparado para um confronto armado: o policial ou o criminoso?

Analisando outros aspectos dos treinamentos, quantos deles envolvem apenas dispor os policiais numa linha de tiro estática e ordenar que disparem contra um alvo de papel ao invés de atirar enquanto se movem e buscam proteção? Se o policial está barricado, ele pode ficar no mesmo lugar enquanto for seguro. Mas se ele não está protegido, então é preciso ensiná-lo a se mover em busca de uma barricada. Quantos agregam posições de tiro incomuns e distâncias variadas? Você precisa experimentar posições diferentes, pois nem sempre vai estar em pé e totalmente de frente para o agressor. É preciso entender que a distância do alvo é que determina a cadência do tiro. O dinamismo num treinamento é fundamental, pois é a regra num tiroteio!

O problema com a proteção é que a maioria não pensa sobre isso até que seja tarde ou não exista mais uma barricada disponível. Mais uma vez, as estatísticas do FBI informam que a distância entre os policiais e seus assassinos, em 50% dos casos, ficou entre zero e 1,5 m. O intervalo entre 1,8 e 3 metros representou 19% das ocorrências. Assim, quanta proteção pode existir quando o confronto ocorre a curta distância?

Infelizmente é da natureza da atividade policial estar próximo e lidar com pessoas indesejadas todo o tempo. Você não consegue algemar um criminoso a dez metros de distância. Você não pode realizar uma busca pessoal a cinco metros. Para fazer isso, é preciso estar perto do suspeito; e não existem muitas proteções disponíveis em situações assim. Portanto, o policial precisa aprender a se mover para criar alguma dinâmica que force o criminoso a se adaptar à mudança e perder tempo precioso. E quem perde tempo, tem mais chance de perder o confronto.

Então, é necessário algum treinamento de tiro em movimento. Além disso, você precisa realizar exercícios de tiro a curta distância. O argumento de que um policial que atira bem a 15 metros distância, também consegue acertar o alvo a três metros está em desacordo com as dinâmicas e com as pesquisas sobre o estresse físico e emocional dos confrontos armados. Quantos policiais já não erraram tiros a poucos metros (ou centímetros) do alvo em ocorrências reais?

E quantas vezes você já ouviu isso: “Pressione o gatilho lentamente até que o disparo ocorra de surpresa!” Isso se aplica, e muito, ao aprimoramento dos fundamentos do tiro preciso. Você tem que saber distinguir as coisas. Mas faz sentido num conflito repentino e a curta distância? Claro que não! Primeiro, você está mandando projéteis letais, logo, os disparos não podem pegá-lo de surpresa. Segundo, você realmente acha que vai pressionar o gatilho lentamente enquanto alguém que “treina” 25 vezes por ano está tentando matar você a um metro e meio de distância? Entenda que você pode pressionar o gatilho o mais rápido que puder. O que você não pode fazer é empunhar mal, sacar mal, apresentar mal e apertar o gatilho sem controle como se estivesse com medo da arma.

Portanto, os policiais precisam treinar do mesmo jeito que lutam. É por isso também que técnicas mirabolantes de imobilização não funcionam numa briga real, já que o oponente não vai esticar o braço e esperar que você aplique a imobilização perfeita. Então, aquilo que no estande de tiro ou no tatame algumas vezes parece divertido, não tem a menor graça nas ruas.

Assim, ao considerar qualquer treinamento, você deve se perguntar: “É simples? Faz sentido no mundo real? Oferece um plano B ou C, caso a primeira alternativa não seja viável?”

Por exemplo, algumas dinâmicas não ensinam a atirar recuando, pois a teoria diz que se o policial se move lateralmente, ele consegue sair mais rápido da linha de tiro do criminoso. Agora, faça as três perguntas. O treino é simples? Sim! Faz sentido no mundo real? Depende! Oferece opções? Não!

Suponha que você está progredindo por uma viela. De repente, o suspeito aparece e dispara contra você. Avançar na direção do atirador é uma opção (kadima, como dizem os israelenses), mas não a melhor para esse momento. Você não pode se mover lateralmente porque a viela é estreita. Então recuar enquanto você atira é a melhor opção. Mas isso ninguém ensinou! Limitar o policial a aprender apenas uma forma de fazer as coisas não faz sentido porque no mundo real é importante ter opções.

Entretanto, você não pode colocar toda a culpa no instrutor. Quantas vezes os colegas aparecem para os treinos? Quantos vão ao estande de tiro com comportamentos ruins? Quantos policiais enxergar uma arma de fogo como uma ferramenta qualquer, semelhante a um computador ou uma caneta? Quantos dizem que já sabem atirar porque não querem aprender algo novo.

Você não precisa passar dias estudando os dados do FBI. Basta assistir os vídeos que circulam nos grupos policiais do Whatsapp. Se a realidade não o convencer de levar o treinamento mais a sério; se não fizer as organizações policiais melhorarem o treinamento, então, nada vai fazer!


https://www.fbi.gov/about-us/cjis/ucr/leoka/2014


Foto: http://extra.globo.com/casos-de-policia/bandidos-exibem-fuzis-em-favela-de-realengo-17825425.html

Humberto Wendling é Agente Especial, Professor de Armamento e Tiro da Polícia Federal e autor do livro Autodefesa Contra o Crime e a Violência – Um guia para civis e policiais, 2ª edição.
E-mail: humberto.wendling@gmail.com
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