quarta-feira, 20 de maio de 2009

Entre atirar ou morrer!


Em 19 de janeiro de 2009, quatro Policiais foram designados para cumprir mandados de prisão e de busca e apreensão na residência de traficantes de drogas numa cidade mineira.

Eram 6 h da manhã quando a equipe chegou ao local e se dividiu em duplas; dois Policiais entraram pela porta principal da casa e os outros dois seguiram por um corredor lateral até os fundos do lote, cercando o lugar. Um muro de concreto pré-moldado dividia a porta principal daquele corredor; por isso, tão logo as duplas se posicionaram para a entrada, elas ficaram definitivamente separadas.

De repente, a dupla que entrou pelo corredor foi surpreendida por dois indivíduos fisicamente poderosos, resistentes, ágeis, autoconfiantes, altamente inteligentes, capazes de tolerar a dor e com vontade de lutar até o fim. Se isso não bastasse, estes indivíduos carregavam uma herança genética herdada de seus ancestrais que atacavam touros, ursos, cavalos e outros cães em eventos medievais denominados Bull Baiting.

A agilidade desses indivíduos é considerada tão grande que eles são capazes de transpor muros e usar os dentes para escalar cercas de proteção. Quando estão nas ruas, eles devem usar focinheiras, enforcadores ou coleiras resistentes, sendo conduzidos com guias curtas e por pessoas com força física suficiente para contê-los no caso de ficarem violentos.

Local do incidente.Então, ao ver os cães da raça Pit Bull “voando” em sua direção, o Policial A pensou em voltar. Mas, ele percebeu que não teria tempo, e que se fizesse isso, o Policial B ficaria sozinho com os dois cães ferozes. Os Policiais iniciaram os disparos contra os cães agressores, e com os estampidos, o Pit Bull A fugiu, mas o Pit Bull B continuou sua investida até ser incapacitado e tombar a aproximadamente 1,5 m dos Policiais.

Quando caiu, o Pit Bull B ainda estava vivo apesar de ter sido atingido duas vezes no tórax e uma vez na cabeça, numa espécie de Mozambique Drill canino. O Policial A havia disparado oito tiros, enquanto o policial B quatro vezes. Portanto, dos 12 disparos somente três acertaram o alvo, gerando um percentual de aproveitamento de 25%. O Policial A percebeu que em dado momento o animal perdeu o controle motor das patas traseiras e tentou alcançar os Policiais usando as patas dianteiras, mas logo depois tombou e parou. Só então, a dupla prosseguiu até o quintal da residência onde rendeu alguns dos alvos da operação.

Um mês depois foi protocolada na Delegacia de Polícia uma requisição de instauração de Inquérito Policial para apurar possível ocorrência do crime de abuso de autoridade praticada pelos dois Policiais. A requisição foi baseada nas declarações prestadas por uma parenta dos traficantes presos e que era a proprietária dos cães agressores. Ela declarou que os Policiais, sem mandado de busca, chegaram portando armas de fogo de grosso calibre, fazendo vários disparos, inclusive matando um dos três cachorros, sendo morto um cão de pequeno porte. Se o requisitante estivesse do lado dos Policiais vivenciando tal experiência, talvez esta requisição jamais existisse.

Então, vejamos! Especialistas informam que a velocidade que um cão pode atingir depende da idade, do condicionamento físico, do gênero (macho ou fêmea), e também da motivação para correr. Cães desenvolvidos para rinhas não costumam defender seus territórios, mas atacam em função da herança genética. Portanto, não é preciso grande motivação para que um Pit Bull corra em sua direção, ainda mais se você estiver na casa dele. Desse modo, a velocidade que um Pit Bull pode atingir gira em torno de 40 a 48 km/h, isso dá cerca de 11 a 13 m/s.

Quando os Policiais perceberam a iminência do ataque, deu-se início à reação de sobrevivência (luta, fuga ou obediência), e devido às alterações fisiológicas e de comportamento cada um percebeu o tempo e a distância de modo particular. O Policial A estimou em aproximadamente 7 m a distância entre ele e os cães. Já o Policial B percebeu uma distância de 15 m. Uma análise no local do incidente revelou uma distância de quase 12 metros.

Imaginando que os cães estivessem correndo a uma velocidade de 12 m/s, e considerando uma distância de 20 metros, quanto tempo eles teriam para reagir até que os animais os alcançassem? Um segundo e sessenta e seis centésimos (1,66 s). Entretanto, um Policial comum com uma pistola, disparando o mais rápido possível, gasta 31 centésimos de segundo para disparar o primeiro tiro depois de ter percebido uma ameaça. Agora, diminua 0,31 s de 1,66 s, e você terá o tempo disponível para salvar sua vida se algum dia você vivenciar uma situação semelhante à enfrentada por estes dois Policiais, ou seja, 1,35 s. Bem otimista, não é mesmo?

Contudo, eles estavam a 15 m dos cães, de acordo com a percepção do Policial B. Assim, o Pit Bull sobrevivente correndo a 12 m/s cobriria estes 15 m em 1,25 s. Um segundo e vinte e cinco centésimos menos 0,31 s, dá 0,94 s. Agora, faça as contas para a distância de 12 m. Resultado: 0,69 s.

O Policial A atirou o mais rápido que pode com sua pistola (8 tiros), o Policial B, também com uma pistola, disparou tentando acertar (4 tiros), e apesar de nenhum deles saber quem acertou o cão, ambos sabem onde foram parar os tiros que erraram o animal (dentro da igreja vizinha dos fundos). Quem sabe, na sua próxima operação policial, você não leve aquela “velha” espingarda calibre 12!

Porém, há outro detalhe neste incidente: a perspectiva visual. Isto significa que um objeto distante parece ser menor do que um objeto mais próximo, mesmo que eles tenham o mesmo tamanho. Criadores de Pit Bulls informam que a altura da raça é de 51 cm (da cernelha ao solo, ou seja, da omoplata e as partes moles que a revestem até o chão), mas não ultrapassa os 58 cm. Então, os Policiais empunhando suas armas com os braços esticados perceberiam (na massa de mira e na posição de pé) a altura do Pit Bull B da seguinte forma: o animal a 15 m de distância pareceria ter 2,2* cm de altura; a 12 m de distância, o cachorro pareceria ter 2,7* cm de altura; a 10 m o cão teria 3,4* cm; e a 7 m ele teria 4,7* cm. Só para constar, outro Policial recomendou atirar de joelhos em situações assim!

Portanto, pense como seria atirar em algo tão pequeno se movendo rápido o suficiente para lhe alcançar em apenas um segundo. Agora, imagine o recuo da arma elevando cada vez mais o cano durante os tiros sequenciais enquanto você tenta mirar/atirar cada vez mais baixo porque o cão está se aproximando. Como seria se você simplesmente esperasse para ser atacado? Como seria ver essa fera saltando sobre você para morder com toda a força seu rosto, sua cabeça ou seu pescoço? Será que seu colega conseguiria se safar para ajudar você? Você conseguiria ajudar seu colega? Será que no meio dessa confusão, os Policiais não atirariam um no outro sem querer na tentativa de acertar o cachorro?

Infelizmente, no trabalho policial você precisa solucionar problemas violentos num piscar de olhos. Se você falhar, isso pode custar a sua vida; se você sobreviver, talvez custe sua paz de espírito, e se depender de algumas pessoas talvez custe algo mais. Portanto, aqueles que não estão presentes quando o pior acontece e não compreendem as dinâmicas e as dificuldades do trabalho policial jamais deveriam avaliar ou julgar as atitudes legítimas de autodefesa policial que ocorrem numa fração de segundo. E quando você deixar a delegacia para cumprir mandados na residência de alguém, vá preparado e sempre acredite naquela placa que diz “CÃO BRAVO”!

*Medidas aproximadas.

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal e Instrutor de Armamento e Tiro lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG
E-mail:
humberto.wendling@ig.com.br
Blog: www.comunidadepolicial.blogspot.com

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Uma escovadela aqui e um tiro ali!

As armas de fogo são objetos fascinantes. No mundo inteiro, os fabricantes de armas mantêm laboratórios de pesquisa nos quais engenheiros habilidosos aplicam conhecimentos de química, física, matemática, biologia, metalurgia, dentre outras áreas da ciência humana para desenvolver e fabricar seus produtos.

O resultado disso tudo, geralmente, é tão bom que não existe no mundo um exército ou organização policial que não use armas de fogo na defesa do seu território e na proteção da sociedade. Imagine você que até criminosos e terroristas fazem uso delas também!

Por isso, os fabricantes de armas sabem que quando seus clientes apertarem o gatilho, pessoas serão feridas ou mortas. E como não produzem armas para criminosos, essas empresas esperam que você sobreviva ao confronto de vida ou morte que venha a encontrar ao longo da carreira. Assim, essas fábricas projetam, produzem, testam, embalam e entregam a sua arma com certificado de garantia, manual e carregadores avulsos numa maleta acolchoada. E surpresa, as melhores marcas também entregam uma escovinha para limpeza do cano.

Mas, e daí? Bem, e daí que você recebe a arma, municia, põe na cintura e esquece! Quer dizer, sua arma fica no coldre por semanas a fio. “E daí?” E daí que com o passar dos dias sua arma vai sendo contaminada pela poeira e pelas fibras da sua roupa.

Dessa maneira, e com o tempo, essa sujeira pode impedir o funcionamento do armamento, porque ao entrarem na arma, os fiapos de roupa se acumulam na câmara do cano, e o ferrolho não consegue inserir correta ou completamente o cartucho nessa câmara, o que impede o disparo. Este tipo de incidente é chamado de “alimentação incompleta”, e apesar dessa pane ter um nome, infelizmente não tem solução imediata – a não ser que você limpe a arma.

Pode até ser que você consiga realizar alguns disparos, mas eu garanto que cedo ou tarde sua arma irá falhar, quer você acredite ou não. Então, reze para que não seja enquanto você tenta realizar o primeiro tiro.

Para ilustrar o problema, conto o caso de um Policial que realizou 274 tiros em 6 horas de treinamento. Ao longo do treino, esse Policial foi surpreendido sete vezes pelo mesmo tipo de pane, ou seja, alimentação incompleta. Intrigado com a ocorrência que acometeu um dos melhores atiradores da delegacia, pedi que ele desmontasse a pistola. Ao verificar o cano, percebi um grande acúmulo de sujeira e fibras têxteis. Incrivelmente, esse Policial havia treinado com a mesma arma 15 dias antes e sem qualquer problema. Portanto, este foi o tempo necessário para um instrumento sofisticado de autodefesa – desenvolvido para salvar a vida do Policial – se transformar numa peça inconfiável. Mas isso não foi por falha da arma, foi por culpa do Policial!
Alimentação incompleta.

Então, vale a pena relembrar que a Lei de Murphy é uma constante no trabalho policial. E com tantas variáveis que podem dar errado numa troca de tiros, você não pode criar mais uma oportunidade para o fracasso, se permitindo sair de casa sem ter feito algo tão simples e rápido como limpar sua arma. Você não precisa se sentir obrigado a limpar seu armamento todos os dias a ponto dessa tarefa se tornar um fardo, mas você deve se responsabilizar pela manutenção da arma que usa pelo menos quinzenalmente, dependendo do clima da cidade, da forma como porta sua arma e do uso que tenha feito dela.

Limpar sua arma tem outra vantagem: permite que você se mantenha atualizado com as peças e o funcionamento do único instrumento de trabalho que torna sua profissão distinta de todas as outras. E é sempre bom saber como essas coisas funcionam!

Se sua arma falhar devido à sujeira durante um treinamento, vá lá! Basta limpá-la e voltar ao treino. Mas, se isso ocorrer no início ou no meio de um confronto real, você pode dizer adeus!

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal e Instrutor de Armamento e Tiro lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG.
E-mail:
humberto.wendling@ig.com.br
Blog: http://comunidadepolicial.blogspot.com