sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Retrospectiva policial: preparando-se para 2010!


O ano de 2009 está acabando e é vital que cada policial faça uma retrospectiva sobre suas ações durante e fora do trabalho.

É importante considerar quantas vezes você se afastou, inocentemente ou não, dos elementos básicos da autodefesa na atividade policial e nas horas de folga. Quantas vezes você permitiu que desconhecidos se aproximassem sem serem notados com antecedência. Quantas vezes você esqueceu ou deixou sua arma em casa ou dentro do carro. Quantas vezes você não algemou o preso porque ele parecia inofensivo. Quantas vezes você trabalhou sozinho. Quantas vezes você deixou de adquirir um equipamento de qualidade porque achou que era caro ou não era importante. Quantas vezes você agiu por impulso sem antes realizar uma análise da ocorrência. Quantas vezes você foi rude com um colega e outras coisas mais.

Sem esta retrospectiva, talvez você possa voltar ao trabalho em 2010 e, dia após dia, cometer os mesmos erros que cometeu no ano anterior. Você pode negligenciar os componentes críticos da sua estratégia de prevenção contra as ameaças à sua vida. Você pode cometer os mesmos erros que outros cometeram desde que a luta pela justiça e pela paz teve início.

Por isso, talvez a falta da lembrança do passado tenha sido um dos ingredientes que conduziu à morte nossos amigos policiais que trabalharam em 2009 em Osasco/SP, Belém/PA, Feira de Santana/BA, Rio das Ostras/RJ, Belo Horizonte/MG, Ji-Paraná/RO, Rio Branco/AC, Recife/PE, Cariacica/ES, Samambaia/DF, Confresa/MT, Foz do Iguaçu/PR, Manaus/AM, Picos/PI, Murici/AL, Porto Alegre/RS, Anápolis/GO, Areia/PB, etc.

Sua experiência e a prática de vida de outros policiais são uma das melhores ferramentas de aprendizado que você pode utilizar, principalmente numa profissão na qual uma decisão incorreta pode matar alguém, inclusive você. Experiências, boas ou ruins, devem ser revistas com o propósito de encontrar aquilo que fez toda diferença para o sucesso da ação quanto para localizar as falhas que conduziram à infelicidade.

Você não precisa mudar (na essência as pessoas não mudam), mas você é capaz de melhorar. E se tudo que você fizer na atividade policial possuir este espírito, então você corre menos riscos. Se você avalia as situações de perigo ocorridas no passado tanto quanto aquilo que foi feito de certo ou errado e o que precisa ser melhorado, então você tem a confiança e a coragem para enfrentar uma ocorrência perigosa.

Portanto, pergunte a si mesmo o que faria em determinadas situações; conte com um ferimento como preço justo pela sobrevivência; treine; permaneça pronto; cuidado com a rotina; saiba quanto vale sua vida; saiba por que você quer viver; porte sua arma; limpe sua arma; estabeleça sua segurança como primeiro objetivo; trate bem o amigo da força policial e diga que se 2010 for o ano em que sua sorte será lançada, então você fará o que precisa ser feito para vencer.

Pense positivo, revise sua conduta e permaneça em alerta, porque ao longo do tempo seus pensamentos se tornam suas ações. Observe suas ações porque elas se tornam hábitos e experiências, boas ou desagradáveis.

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal e Instrutor de Armamento e Tiro lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG.
E-mail:
humberto.wendling@ig.com.br
Blog: www.comunidadepolicial.blogspot.com

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Será que funciona?


A posse de uma arma de fogo impõe uma série de responsabilidades, e após uma divertida sessão de tiros, um treinamento ou mesmo o porte num coldre dissimulado vem àquilo que alguns ainda consideram o trabalho duro, a parte chata, o desnecessário.

Mas a limpeza do armamento é o mais básico e importante item para quem tem uma arma. Com o cuidado e uma limpeza regulares, uma arma de fogo pode durar muitos anos. E isto é especialmente importante se você confia sua vida neste instrumento e pretende se aposentar usando a mesma arma que utiliza hoje no trabalho.

Contudo, uma breve inspeção durante a manutenção das pistolas usadas por 50 policiais demonstrou que apenas oito delas estavam limpas. Fios de cabelo, poeira, fiapos de pano, terra, cinzas de cigarro, tecido morto e resíduos de pólvora foram alguns dos itens encontrados nas armas. O curioso é que esta displicência abrangeu desde os policiais antigos e experimentados até os mais novos e recém-chegados da Academia Nacional de Polícia. Com certeza não é culpa da inexperiência e nem culpa da formação básica recebida. E o pior é que todos estes policiais sabiam que suas armas estavam em péssimas condições de limpeza. Só para constar, das oito armas em boas condições, quatro estavam assim porque seus usuários só as utilizam durante as operações policiais. Então eu não sei o que é pior: deixar uma arma limpa em casa ou uma arma porca no coldre!

Há alguns anos, os policiais reclamavam da qualidade das poucas armas existentes, da falta de munição, da ausência de treinamento, etc. Doze anos atrás, o policial recebia um revólver .38 SPL, conhecido por “canela seca”; os cartuchos eram contados como se fossem pedras preciosas; e quem desejava treinar pagava pela munição recarregada e pelo aluguel do estande. Hoje, cada Policial Federal recebe uma pistola Glock (cuja qualidade é internacionalmente reconhecida), três carregadores, 400 cartuchos para treinamento anual, além de contar com excelentes instrutores de armamento e tiro formados pela Academia Nacional de Polícia e um programa de treinamento instituído por norma. E o que alguns policiais fazem? Esquecem o passado, deixam as armas sujas e continuam reclamando.

Então será que na hora da verdade sua arma vai funcionar? Será que cada vez que você apertar o gatilho, um projétil será lançado em direção ao alvo ou àquele que quer matar você? Você garante que sua arma, na condição que está agora, é capaz de salvar sua família? Das 50 pistolas analisadas, é possível garantir que quatro funcionariam, pois estavam limpas, alimentadas e no coldre do policial. As outras quatro, apesar de estarem limpas, não funcionariam no momento da necessidade porque seus usuários simplesmente não portam armas. Quanto às demais, não é possível garantir coisa alguma!

Portanto, a primeira coisa que você pode fazer para garantir que sua arma funcione é adquirir um kit para limpeza de armas (que custa cerca de R$ 20). Estes kits estão disponíveis em lojas de acessórios de armas de fogo ou de caça e pesca, e são projetados para tipos específicos de armas (pistolas, fuzis, espingardas). Normalmente cada kit possui três varetas metálicas (com cerdas de latão, nylon e tecido), óleo, solvente e uma flanela. Velhas escovas dentais e pedaços de pano complementam o material. Com este equipamento em mãos, você pode fazer o seguinte:

Passo nº 1 – Certifique-se de que a arma está descarregada.

Passo nº 2 – Desmonte a arma sobre uma mesa plana, limpa e desocupada de modo que possa observar todas as partes e trabalhar com cada item de cada vez. Se você esqueceu como desmontar sua arma, pergunte ao colega instrutor de tiro ou leia o manual de instruções. Após a desmontagem, você terá cinco componentes sobre a mesa (o cano, o ferrolho, o conjunto da mola recuperadora, a armação e o carregador).

Passo nº 3 – Dependendo do nível de sujeira (chumbo e pólvora) grudada no cano, passe um pouco de solvente no interior do mesmo usando um pedaço de tecido. Depois, passe outro pedaço de tecido limpo para retirar o excesso de solvente. Introduza a vareta no cano (a partir da câmara até a boca) e a movimente para frente e para trás no sentido da rotação das raias. Utilize primeiro a vareta de cerdas de latão e depois a de nylon. Continue a passar um tecido limpo até que o cano esteja limpo. Se só houver poeira, dispense o solvente e limpe o interior do cano apenas com a vareta de nylon. Limpe a rampa de alimentação e a câmara até que não haja impurezas. Não lubrifique o interior do cano após a limpeza. Não use escova com cerdas de aço.

Passo nº 4 – Limpe o ferrolho com a escova dental e um pedaço de pano levemente embebido em solvente até remover qualquer depósito de pólvora visível e resistente. Use a flanela para retirar as impressões digitais e qualquer vestígio de óleo/solvente que existir. Lubrifique apenas as partes indicadas no manual de instruções usando uma ligeira camada de óleo.

Passo nº 5 – Use a escova dental e um pedaço de pano levemente embebido em solvente para retirar resíduos de pólvora resistentes encontrados na armação. Na ausência destes resíduos, dispense o solvente e apenas escove a armação para retirar a poeira.

Passo nº 6 – Limpe os carregadores com a escova dental. Se for preciso limpá-los por dentro, desmonte-os observando a posição das peças. Utilize a escova ou a haste de cerda de nylon até remover todos os sinais de sujeira. Remonte os carregadores. Não use óleo ou sprays.
Passo nº 7 – Remonte a arma, evitando o excesso de óleo em qualquer componente. Não use grafite. Não use desengraxantes.

Passo nº 8 – Limpe o kit de limpeza de vez em quando.

Talvez você gaste 15 minutos, e por ser um procedimento tão simples e rápido não há desculpa para não colocá-lo em prática pelo menos uma vez por mês.

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal e Instrutor de Armamento e Tiro lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG.
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humberto.wendling@ig.com.br
Blog: www.comunidadepolicial.blogspot.com