quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Será que funciona?


A posse de uma arma de fogo impõe uma série de responsabilidades, e após uma divertida sessão de tiros, um treinamento ou mesmo o porte num coldre dissimulado vem àquilo que alguns ainda consideram o trabalho duro, a parte chata, o desnecessário.

Mas a limpeza do armamento é o mais básico e importante item para quem tem uma arma. Com o cuidado e uma limpeza regulares, uma arma de fogo pode durar muitos anos. E isto é especialmente importante se você confia sua vida neste instrumento e pretende se aposentar usando a mesma arma que utiliza hoje no trabalho.

Contudo, uma breve inspeção durante a manutenção das pistolas usadas por 50 policiais demonstrou que apenas oito delas estavam limpas. Fios de cabelo, poeira, fiapos de pano, terra, cinzas de cigarro, tecido morto e resíduos de pólvora foram alguns dos itens encontrados nas armas. O curioso é que esta displicência abrangeu desde os policiais antigos e experimentados até os mais novos e recém-chegados da Academia Nacional de Polícia. Com certeza não é culpa da inexperiência e nem culpa da formação básica recebida. E o pior é que todos estes policiais sabiam que suas armas estavam em péssimas condições de limpeza. Só para constar, das oito armas em boas condições, quatro estavam assim porque seus usuários só as utilizam durante as operações policiais. Então eu não sei o que é pior: deixar uma arma limpa em casa ou uma arma porca no coldre!

Há alguns anos, os policiais reclamavam da qualidade das poucas armas existentes, da falta de munição, da ausência de treinamento, etc. Doze anos atrás, o policial recebia um revólver .38 SPL, conhecido por “canela seca”; os cartuchos eram contados como se fossem pedras preciosas; e quem desejava treinar pagava pela munição recarregada e pelo aluguel do estande. Hoje, cada Policial Federal recebe uma pistola Glock (cuja qualidade é internacionalmente reconhecida), três carregadores, 400 cartuchos para treinamento anual, além de contar com excelentes instrutores de armamento e tiro formados pela Academia Nacional de Polícia e um programa de treinamento instituído por norma. E o que alguns policiais fazem? Esquecem o passado, deixam as armas sujas e continuam reclamando.

Então será que na hora da verdade sua arma vai funcionar? Será que cada vez que você apertar o gatilho, um projétil será lançado em direção ao alvo ou àquele que quer matar você? Você garante que sua arma, na condição que está agora, é capaz de salvar sua família? Das 50 pistolas analisadas, é possível garantir que quatro funcionariam, pois estavam limpas, alimentadas e no coldre do policial. As outras quatro, apesar de estarem limpas, não funcionariam no momento da necessidade porque seus usuários simplesmente não portam armas. Quanto às demais, não é possível garantir coisa alguma!

Portanto, a primeira coisa que você pode fazer para garantir que sua arma funcione é adquirir um kit para limpeza de armas (que custa cerca de R$ 20). Estes kits estão disponíveis em lojas de acessórios de armas de fogo ou de caça e pesca, e são projetados para tipos específicos de armas (pistolas, fuzis, espingardas). Normalmente cada kit possui três varetas metálicas (com cerdas de latão, nylon e tecido), óleo, solvente e uma flanela. Velhas escovas dentais e pedaços de pano complementam o material. Com este equipamento em mãos, você pode fazer o seguinte:

Passo nº 1 – Certifique-se de que a arma está descarregada.

Passo nº 2 – Desmonte a arma sobre uma mesa plana, limpa e desocupada de modo que possa observar todas as partes e trabalhar com cada item de cada vez. Se você esqueceu como desmontar sua arma, pergunte ao colega instrutor de tiro ou leia o manual de instruções. Após a desmontagem, você terá cinco componentes sobre a mesa (o cano, o ferrolho, o conjunto da mola recuperadora, a armação e o carregador).

Passo nº 3 – Dependendo do nível de sujeira (chumbo e pólvora) grudada no cano, passe um pouco de solvente no interior do mesmo usando um pedaço de tecido. Depois, passe outro pedaço de tecido limpo para retirar o excesso de solvente. Introduza a vareta no cano (a partir da câmara até a boca) e a movimente para frente e para trás no sentido da rotação das raias. Utilize primeiro a vareta de cerdas de latão e depois a de nylon. Continue a passar um tecido limpo até que o cano esteja limpo. Se só houver poeira, dispense o solvente e limpe o interior do cano apenas com a vareta de nylon. Limpe a rampa de alimentação e a câmara até que não haja impurezas. Não lubrifique o interior do cano após a limpeza. Não use escova com cerdas de aço.

Passo nº 4 – Limpe o ferrolho com a escova dental e um pedaço de pano levemente embebido em solvente até remover qualquer depósito de pólvora visível e resistente. Use a flanela para retirar as impressões digitais e qualquer vestígio de óleo/solvente que existir. Lubrifique apenas as partes indicadas no manual de instruções usando uma ligeira camada de óleo.

Passo nº 5 – Use a escova dental e um pedaço de pano levemente embebido em solvente para retirar resíduos de pólvora resistentes encontrados na armação. Na ausência destes resíduos, dispense o solvente e apenas escove a armação para retirar a poeira.

Passo nº 6 – Limpe os carregadores com a escova dental. Se for preciso limpá-los por dentro, desmonte-os observando a posição das peças. Utilize a escova ou a haste de cerda de nylon até remover todos os sinais de sujeira. Remonte os carregadores. Não use óleo ou sprays.
Passo nº 7 – Remonte a arma, evitando o excesso de óleo em qualquer componente. Não use grafite. Não use desengraxantes.

Passo nº 8 – Limpe o kit de limpeza de vez em quando.

Talvez você gaste 15 minutos, e por ser um procedimento tão simples e rápido não há desculpa para não colocá-lo em prática pelo menos uma vez por mês.

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal e Instrutor de Armamento e Tiro lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG.
E-mail:
humberto.wendling@ig.com.br
Blog: www.comunidadepolicial.blogspot.com

14 comentários:

  1. Parabéns pelos excelentes textos.

    A rotina do trabalho nos faz relapsos com o nosso bem mais precioso: NOSSAS VIDAS. As suas exposições nos servem de alerta. Eu, por exemplo, estou há meses com o kit de limpeza nas mãos e não priorizei limpar minha arma. Farei isso agora.

    Entretanto, percebo que cada vez mais atarefados, com excesso de trabalhos, cobranças e falta de pessoal, adicionando-se às atribuições do DPF, onde a grande maioria engloba serviços de Polícia Administrativo-burocrática, somos praticamente compelidos a deixar de lado o desenvolvimento e manutenção da destreza policial. Cada um de nós, Policiais, devemos estar atentos a isso e priorizarmos a manutenção e desenvolvimento mínimos necessários à execução das atividades originariamente policiais, afinal de contas, por causa de quinze minutos, poderemos ter uma chance maior de pouparmos nossas vidas, dos nossos familiares e verdadeiros cidadãos.

    Reitero meus parabéns pelos excelentes textos.

    APF NEVILLE - nevillejr@ig.com.br
    SR/DPF/BA

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  2. Quantas vidas de policiais,militares ou mesmo de cidadãos que possuem/portam armas de fogo foram perdidas pela má limpeza ou manutenção de suas armas?com certeza várias,sem contar com defeitos de equipamento.
    Esse artigo deve servir de alerta para todos que possuem armas,pois na hora crítica as chances de dar uma pane são grandes.
    Giovanni Z.
    Parabéns pelo artigo.

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  3. Olá!
    Sou PM aqui de MS e gostaria de parabenizá-lo pelos excelentes textos expostos neste blog. Além disso, pedir permissão para expô-los em murais de meu pelotão para divulgação, já que todos têm a ver com nossa profissão, onde, apesar de estarmos em corporações diferentes, temos sempre o risco iminente de ter de lutar pela nossa vida ou de terceiros.
    Parabéns!

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  4. Muito bom o texto, mas tem dois pontos que discordo:

    Primeiro, sim, a PF fornece armas boas e munição para treinamento. Porém não temos à disposição "excelentes instrutores de armamento e tiro formados pela Academia Nacional de Polícia e um programa de treinamento instituído por norma". Onde há esse programa de treinamento? Qual local temos para treinar? Isso existe sim, mas em pontos isolados dentro da PF. Em geral não temos local disponível para treino, muito menos algum instrutor para nos acompanhar, a maioria paga por um stand particular.

    Segundo, absurdo sugerir que cada policial compre seu kit de limpeza, R$20 parece pouco, mas isso é transferir uma despesa de R$200.000,00 da União para os policiais! Vou limpar minha Glock com a escovinha que veio com ela e só, até que a PF me forneça os meios de fazer a limpeza como o próprio curso de manutenção que foi feito pelo pessoal da 3ª classe ensinou.

    Em resumo: não, não vou pagar stand para treinar e não, não vou comprar kit de limpeza. Já basta ter que comprar o coldre, porque o que veio com a arma não presta.

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    1. Já pensei assim mas quando em determinado momento iria morrendo pela falha da arma dai resolver dizer NÃO pra morte, deixei de lado o orgulhe e comprei porque decidi VIVER

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  5. Caro colega, as normas que regulam o treinamento de tiro no DPF consistem na Portaria nº 499/2008, publicada no Boletim de Serviço nº 176/2008 em 11/09/2008, e na Portaria nº 533/2008, publicada no Boletim de Serviço nº 235/2008 em 04/12/2008.

    A ANP forma excelentes instrutores, dos quais muitos são atiradores práticos e profundos conhecedores de armamento, sendo que a proposta da ANP é formar, pelo menos, um instrutor de tiro para cada unidade do DPF.

    De fato, o calcanhar de Aquiles do programa de treinamento é a falta de estandes de tiro em todas as localidades.

    E é claro que R$ 20,00 é muito pouco se comparado ao salário de um Policial Federal (+/- 7.500,00 na 3ª Classe e R$ 12.000,00 na Classe Especial para APF, EPF e PPF). Muitas vezes apenas a escovinha que acompanha a arma não é suficiente para uma limpeza ideal, por isso a necessidade deste kit. E é claro que a responsabilidade pela limpeza da arma é de quem usa.

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  6. Fiquei estupefato com o comentário do colega "Federal".

    Sou PRF e como policial entendo que a manutenção do armamento, treinamento e investimento pessoal em equipamentos são indispensáveis à segurança do profissional de segurança pública.

    Pessoalmente, nunca esperei o Departamento adquirir os produtos táticos que entendo necessários. Quem trabalha na ponta da lança não pode esperar.

    Abram os olhos, não adianta ter uma arma de fogo suja (grande possibilidade de panes) e nas mãos de quem não sabe manuseá-la.

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  7. nosso colega federal disse não comprar o kit e nem pagar para atirar. Amigo seique é rovoltante o governo não fazer a parte dele investindo em nós agentes de seguranças mais lembre-se que trata de tua vida companheiro. Pra preservar minha vida gastarei o necessário até um dia as coisas mudarem. Minha vida vale muito!

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  8. Prezados colegas
    Sou agente de segurança da Justiça Federal em Guarulhos, mesmo eu tendo de comprar a minha arma e apetrechos para manutencia-la, tenho a consciência de que terei de mante-la, mesmo a união não me ajudando.
    Estou terminando o curso de formação em docência para tiro de defesa na PM de SP e está sendo acima de minha expectativa esse curso, pois está me dando uma visão muito grande.
    Bem que a PF poderia manter um convênio com a PM para o adestramento de seus agentes.
    Desejo boa sorte á todos os colegas.
    Antonio Lestinge

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  9. Olá Humberto,

    Estou me preparando para concursos policiais e também para a carreira, por isso desde já atuando para me tornar atirador prático.
    Estou com a CR e uma Glock G25 registrada em meu nome.

    Segui os passos do seu artigo para realizar a primeira limpeza da mesma após uma sessão de 150 disparos.

    Fiquei com algumas dúvidas. Se puder esclarecer agradeço muito.
    Creio que as mesmas servirão também aos Federais, que portam a Glock 17.

    1) Você orienta para que não se lubrifique o cano após a limpeza, no entanto no manual da glock há pontos no cano indicados para lubrificação.
    Sendo assim, quando lubrificar o cano da arma? Na dúvida, fiz conforme o manual da glock.

    2) Alguma indicação sobre como limpar a armação de polímero da glock? E das partes presas à armação que ficam em contato com o ferrolho?

    3) Alguma opinião sobre o uso de WD-40, tão difundido, para conservar o metal da arma? Onde aplicar?

    Muito obrigado e parabéns pelo Blog.

    Fernando Celestino (Curitiba).

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  10. Sou DPF e fico triste com o comentário do colega federal.... deve estar muito insatisfeito em ser policial... só falta querer que o DPF o busque em casa para trabalhar. Abraço ao Humberto. Excelente artigo.

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  11. O comentário deste cidadão que se intitula federal mostra que ele é apenas um concurseiro que, motivado pelo salário e sua incapacidade de ser aprovado em outro concurso, ingressou na Polícia Federal. Cada um que cuide de sua arma como quiser, mas gostaria de saber o nome deste federal para nunca tê-lo como parceiro, pois se precisar agir, certamente o mesmo falhará. Faça um favor ao DPF e à sociedade que paga seu salário: procure outra coisa pra fazer na vida, ou guarde seus comentários pra si. Ninguém precisa aturar suas frustrações por não ter conseguido sua vaga em outra cargo.

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  12. Aos amigos policiais, este artigo de capa ilustra bem a conduta de nossos pares,ilustra a realidade da maioria das corporações, precisamos ficar atentos a esses detalhes para na hora do confronto não perecer por falta do básico mínimo: conhecimento ou zelo técnico, parabéns pela matéria que é de 2009 porém será sempre atual !

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  13. Pertenço ao DPF e um comentário que não pode escapar é que muitos entram para a policia com uma visão extremamente surreal aos dias de hoje, nos EUA você tem que prestar conta de onde usa sua munição e segundo uma pesquisa feita lá mais precisamente no Los Angeles Police Department (LAPD),90% dos policiais usam suas armas(atiram em criminosos) uma vez na vida,e no DPF só reclama quem nunca foi policial e passa no concurso de primeira viagem,se perguntar a algum ex papa charlie,mike ou depen só terá elogios,parabéns ao artigo colega.

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