domingo, 30 de julho de 2017

Bons homens loucos.


Especialistas em palestras ensinam que não se deve iniciar uma apresentação com um pedido de desculpas. Isso mostra insegurança e falta de cuidado com a preparação.

Coincidência ou não, no momento que me preparava para escrever este artigo fui surpreendido por uma súbita sensação de enjoo. Motivo pelo qual o pedido de desculpas se faz necessário. A razão para a ânsia eu compartilho com o leitor:

Informação passada pelo Policial Militar NONONON, envolvido na ocorrência, que transitava com seu auto pela Estrada da NONONON de folga, quando visualizou os acusados em uma moto tipo scooter placa NONONON abordando um nacional parecendo tentar tomar seus pertences. Posterior, os mesmos saíram do local. Ato contínuo, foi informado ao policial pelo nacional que teria sido vítima de roubo. Dessa forma, o policial seguiu os acusados e ao tentar interceptá-los, já na Rua NONONONO, os mesmos fizeram menção de sacar uma arma da cintura. Dessa forma, o policial efetuou disparos de arma de fogo vindo a alvejar o acusado (1) com um DAF nas costas e o acusado (2) com DAF na mão e na perna. Que o Policial solicitou viatura policial para o local onde os elementos foram socorridos ao HMRF e, atendidos, se encontram sem gravidade. Ocorrência foi conduzida a ))ª DP onde foram o policial, vítima e testemunha ouvidos, sendo o policial AUTUADO POR DISPARO DE ARMA DE FOGO (grifo nosso) e sua arma pistola NONONO cal. 380 nº NONONON, SIGMA NONONON, carregador contendo 10 cartuchos intactos apreendidos pela NONONONONONONN. Informa ainda que todos os envolvidos na ocorrência foram liberados.

Um Agente Federal, já aposentado, certa vez me disse que todas as polícias precisam de alguns bons homens loucos, pois eles são capazes de fazer o que muitos hesitam em bancar. E quanto aos idiotas!? A polícia realmente precisa deles? Aqueles que fazem o que os loucos não fariam de modo algum...

De qualquer forma, se a ocorrência foi real (tanto quanto a notícia), o Policial Militar deveria ser condecorado, já que correu em direção ao perigo, mesmo sabendo que muitos policiais morrem durante os períodos de folga, quando estão sozinhos, sem o colete balístico, sem o rádio HT, sem o uniforme, sem as algemas, sem uma arma de calibre adequado, com pouca munição, sem uma identificação visível, sem assistência, longe do socorro e do reforço amigo. E depois de tudo isso, o colega ainda corre o risco de cumprir pena de reclusão, de dois a quatro anos, e multa.

Se a ocorrência foi verdadeira, o Policial Militar deveria ser alertado (cá entre nós), pois correu em direção ao perigo, sabendo que muitos colegas morrem durante os períodos de folga, quando estão sozinhos, sem o colete balístico, etc.

Um conselho PENOSO para o policial de folga é o seguinte: se ele é a vítima, deve fazer algo para se salvar. Caso contrário, ele deve ser uma boa testemunha (aquela que observa e repassa informações importantes para os policiais de serviço). A prudência policial também está na capacidade de saber PARAR quando o valor do bem material não vale o sacrifício da própria vida.

Por outro lado, é difícil admitir que tal conselho, apesar de salvar vidas de policiais, custa o bem estar de pessoas que são impedidas de se defenderem. Quem sabe por isso, esses bons homens loucos persistam em ousar para proteger os inocentes, mesmo que tenham que suportar análises, decisões e autuações infelizes. Talvez façam isso na esperança de serem tratados com dignidade e reconhecidos pelo ato de bravura. Talvez se sintam cobrados pelo verdadeiro espírito do que é ser policial...

Não resta dúvida que a prática dessa sugestão pode trazer sofrimento emocional. Afinal, o que une os policiais é o desejo de lutar e resistir contra o mal, em vez de assistir o domínio do medo, da covardia e da escória.

E então, o Comandante-Geral da Polícia Militar do Rio de Janeiro deu uma declaração após o enterro de um dos 92 policiais militares assassinados no Estado neste ano:

“Acho que quem atenta contra a vida do policial atenta contra o Estado. Isso é um ato de terrorismo. Eu defendo penas muito severas. Sinceramente, esse tipo de crime deveria ser prisão perpétua.”

Essa afirmação foi veiculada num canal de notícias por assinatura na noite do dia 19/07. Tão logo o comandante expressou sua opinião, a apresentadora do telejornal arregalou os olhos numa demonstração de espanto. Será que ela achou injusto um criminoso passar o resto da vida na prisão por ter ASSASSINADO um policial? A opinião foi polêmica demais? Foi politicamente incorreta? Não sei!

Mas o que sei é que o comandante da PMERJ está certo, pois são os bons homens loucos os primeiros defensores dos direitos fundamentais. E qualquer um que atente contra o policial está atacando a vida, a liberdade, a paz e os sonhos de uma nação (ainda que atente com o “poder da caneta”).


Humberto Wendling é Agente Especial, Professor de Armamento e Tiro da Polícia Federal e autor dos livros Autodefesa Contra o Crime e a Violência – Um guia para civis e policiais (2ª edição) e Sobrevivência Policial – Morrer não faz parte do plano (lançamento em breve)
E-mail: humberto.wendling@gmail.com
Blog: www.comunidadepolicial.blogspot.com
Blog: www.autodefesacontraocrime.blogspot.com
Livros: www.editorabarauna.com.br
Canal no YouTube: Humberto Wendling

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Livro Sobrevivência Policial – Morrer não faz parte do plano. Em breve!




Sobreviver é mais do que apenas colocar uma arma na cintura; é uma viagem de descoberta e aprendizado que cada policial tem que fazer. Ela começa com um estado mental correto, com uma MENTE COMBATIVA.”

“A sobrevivência policial é LIMITADA NA MEDIDA DO PONTO FRACO, assim como uma sequência de acertos é limitada pelo primeiro erro. Talvez seja esse primeiro erro a janela de oportunidade que o criminoso precisa para ser bem-sucedido, mesmo que ele seja o mais idiota e incompetente dos delinquentes.”

“O medo pode tanto SALVAR UMA VIDA QUANTO CUSTAR UMA VIDA.

“Um policial entediado é aquele que NÃO CONSEGUE PENSAR EM NADA PARA FAZER, enquanto o policial sobrevivente SEMPRE CRIA ALGO PARA SE OCUPAR.”

“A rusticidade raramente é demonstrada quando tudo vai bem. E sem um desenvolvimento prévio e contínuo, esse atributo corre o risco de não surgir QUANDO AS COISAS COMEÇAM A DAR ERRADO.”

“A história policial mostra que não é necessariamente a pessoa com o saque mais rápido ou que atira agrupado que possui maior chance de vencer um tiroteio. Não é o sujeito grandalhão ou musculoso o melhor lutador. O indivíduo com maior chance de vencer um conflito é AQUELE MAIS IMPLACÁVEL.”

“Os agressores afirmaram que o fator decisivo para atacar um policial era a PERCEPÇÃO DE QUE PODERIAM SUBJUGAR A VÍTIMA. Se os policiais parecessem em boa forma física e se comportassem de maneira profissional, os criminosos hesitavam.”

“Você nasceu fraco e vai morrer fraco. MAS O QUE VOCÊ FAZ ENTRE UMA COISA E OUTRA SÓ DEPENDE DE VOCÊ!

“No caos, a primeira coisa que você precisa fazer é COLOCAR SUA MENTE EM ORDEM.”

“Às vezes, perseguir um criminoso pode não ser a decisão certa para sua segurança. É quando SABER PARAR é essencial.”

“Qual criminoso você irá encontrar, só Deus sabe! Como vai se salvar, É COM VOCÊ!”

Trechos do livro Sobrevivência Policial - Morrer não faz parte do plano. Editora Baraúna, 2017. Lançamento em breve. 

Humberto Wendling é Agente Especial, Professor de Armamento e Tiro da Polícia Federal e autor do livro Autodefesa Contra o Crime e a Violência – Um guia para civis e policiais, 2ª edição.
E-mail: humberto.wendling@gmail.com
Blog: www.comunidadepolicial.blogspot.com
Blog: www.autodefesacontraocrime.blogspot.com
Livro: www.editorabarauna.com.br
Canal no YouTube: Humberto Wendling

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Nunca deixe sua arma sobre a porra da mesa!




Para variar, as informações são desencontradas. Entretanto, o que se sabe, com certeza, é que a morte do policial civil K.C.L. (35 anos) foi uma tragédia. Lotado na Delegacia de Homicídios e Entorpecentes de Patos/PB, o colega foi atingido na cabeça por um tiro disparado pelo criminoso E.B.D.

As informações a seguir são trechos adaptados de artigos publicados na internet sobre o acontecimento que vitimou mais um policial brasileiro. Em que pese a ação do criminoso, os erros que permitiram a morte do policial não podem ser creditados apenas ao assassino. Afinal, todas as tragédias são o resultado de erros conhecidos: a imprudência, a imperícia e a negligência. São erros que corroem lenta e impiedosamente o comportamento do policial até o momento em que ele ou alguém próximo sofra as consequências (erros e mortes evitáveis).

Um fato grave foi registrado no final da manhã deste domingo, dia 29, na cidade de Patos/PB. O policial civil K.C.L. foi morto com um tiro na cabeça por volta de 11h. O crime aconteceu dentro da Delegacia de Homicídios. O acusado do disparo estava detido após ser preso pela Polícia Rodoviária Federal. Mesmo ALGEMADO, O PRESO PEGOU A ARMA QUE ESTAVA SOBRE A MESA do delegado e efetuou o disparo. O tiro atingiu o policial civil que teve morte imediata. O preso sofreu também um disparo feito por um dos policiais, não resistiu e morreu minutos depois. (Radar Sertanejo).

De acordo com informações de policiais que estavam no local, o bandido estava sendo ouvido, quando teria TOMADO UMA ARMA QUE ESTAVA EM CIMA DA MESA e atirou contra o agente K.C.L., que ia entrando na sala no momento. O tiro atingiu a cabeça do policial que morreu na hora. Os colegas reagiram e chegaram a atirar contra o assaltante que acabou morrendo logo em seguida. Policiais informaram que o bandido ESTAVA ALGEMADO NO MOMENTO DO CRIME COM AS MÃOS PARA FRENTE. A ação foi rápida e intempestiva e pegou todos de surpresa. Porém, a assessoria de imprensa da Secretaria de Segurança Pública ainda não confirmou a versão dos fatos. Ainda não foi informado quem estava na sala no momento do crime nem tampouco a versão oficial para os fatos. A Secretaria de Segurança Pública não confirmou se a arma era a do delegado que estaria em cima da mesa. (Claudio P. Aguiar).

Os dois presos estavam na sala do delegado para os procedimentos de praxe quando E.B.D. MESMO ALGEMADO PEGOU A ARMA QUE ESTAVA SOBRE A MESA e efetuou o disparo que atingiu o policial civil. (Arlete Santos).

A assessoria da secretaria destacou que a arma que o preso usou para atirar NÃO ERA A DO AGENTE QUE FOI MORTO E QUE O POLICIAL NÃO FOI DESARMADO. A assessoria também não confirmou se o preso estava algemado no momento. (G1).

O suspeito era um bandido de alta periculosidade, com ligações com o PCC paulista. Ele foi preso ontem e estava no presídio até hoje pela manhã, quando o pessoal da Homicídios foi buscá-lo para interrogatório. O problema aconteceu dentro da delegacia, quando o suspeito ENTROU EM CONFRONTO COM OS POLICIAIS E CONSEGUIU PEGAR UMA ARMA e matar o agente. “O que iremos apurar é se o suspeito estava algemado, que seria o procedimento padrão, e como ele teve acesso a arma”. (Portal Correio).

Pelo menos na teoria, é de se esperar que todo policial seja um perito em armas de fogo. Assim, a imperícia seria eliminada da equação. Considerando que uma arma não é um brinquedo, uma peça decorativa ou uma ferramenta para leigos, as regras de segurança impõem comportamentos para eliminar (ou diminuir) os casos de imprudência e negligência. E o motivo é muito simples: armas são perigosas quando não são manejadas ou usadas adequadamente e podem facilmente ferir ou matar alguém. De modo geral, um projétil de pistola viaja a 330 m/s (ou 1.188 km/h) e isso significa que não há uma segunda chance com uma arma de fogo.

As regras de segurança são as seguintes, basicamente:

·         Sempre trate sua arma como se ela estivesse carregada;
·         Sempre mantenha sua arma apontada para uma direção segura;
·         Somente aponte sua arma para onde pretenda atirar;
·       Mantenha seu dedo estendido ao longo da arma até que esteja realmente apontando para o alvo e pronto para o disparo;
·         Sempre mantenha o dedo fora do gatilho ao sacar ou coldrear uma arma;
·         Certifique-se do seu alvo e o que está além dele;
·         Certifique-se do que está a sua volta;
·         Nunca deixe sua arma de forma descuidada ou fora do alcance.

Enquanto as notícias informaram que o criminoso, mesmo algemado, conseguiu pegar uma arma sobre a mesa no interior da delegacia, a Secretaria de Defesa Social era a única que parecia não ter informações concretas (se o preso estava algemado, se ele foi deixado sozinho, a quem pertencia a arma usada no crime e onde ela estava localizada). Pode ser que os acontecimentos daquela manhã jamais sejam esclarecidos da forma como ocorreram. Não digo isso com o propósito de punir o dono da arma, já que a morte do colega é uma punição eterna, mas com o objetivo de que os erros possam ser avaliados como forma de aprendizado e prevenção.  

Como mencionei no início, tragédias raramente são ocorrências abruptas, silenciosas e invisíveis. Então, existe uma delegacia de polícia, um criminoso perigoso e experiente algemado para frente, uma arma de fogo sobre a mesa e uma sala vazia (conforme noticiado na imprensa). Tudo isso se uniu no instante em que o colega entrou na sala, segundo um dos relatos. O resultado poderia ter sido pior, não fosse a reação dos demais policiais armados.

Delegacias, quartéis, viaturas policiais, presídios e locais de crimes são lugares onde policiais e criminosos se deparam e estão desconfortavelmente próximos. É imperativo que os delinquentes sejam corretamente algemados; que os policiais mantenham alguma distância; que armas de fogo e outros instrumentos (como grampeadores, estiletes, furadores de papel, canecas, garrafas, canetas, etc.) estejam fora do alcance; que todos os policiais estejam atentos e em condições de agir de forma menos letal ou mais letal, se a necessidade diante do perigo e das ações do criminoso assim exigir.

Com tudo contribuindo para o desastre durante o trabalho, é de se esperar que o policial também compreenda que uma arma de fogo deve estar sempre com ele, onde quer que vá. Armas não devem ficar dentro do carro, da gaveta, do armário, sobre uma mesa ou fora do alcance. E a foto que ilustra este artigo já demonstra o que eu quero dizer. Um preso pode ter sido submetido a uma busca pessoal malfeita (Confresa/MT); a delegacia pode ser atacada e invadida por quadrilhas em busca de armas e drogas apreendidas (Pirapora/MG); um policial pode decidir tirar a própria vida, mas não sem antes matar um colega (Rondonópolis/MT); um ladrão pode entrar no prédio, passar pela recepção e, sorrateiramente, furtar a carteira civil de um colega (no térreo), uma arma dentro do armário na sala de outro policial (no primeiro andar) e um colete sobre a cadeira no gabinete de outro policial (no segundo andar), depois utilizar esse aparato para fechar o trânsito numa das mais importantes avenidas da região e assaltar um comerciante que transportava uma quantia em dinheiro (Belo Horizonte/MG).

Portanto, quando as coisas saírem dos trilhos é importante estar em condições de lutar, defender os colegas e a si mesmo. E isso vai ser feito com uma arma de fogo, que deve estar na cintura e num coldre de qualidade ou nas mãos do dono, mas nunca ao alcance do bandido.

Fonte 1: http://www.radarsertanejo.com/2017/01/29/preso-mata-policial-dentro-de-delegacia-e-depois-e-morto-em-patos/
Fonte 2: http://claudiopaguiar.blogspot.com.br/2017/01/marginal-toma-arma-de-delegado-e-mata.html
Fonte 3: http://www.arletesantos.com.br/2017/01/preso-mata-policial-civil-dentro-da.html
Fonte 4: http://g1.globo.com/pb/paraiba/noticia/2017/01/preso-toma-arma-e-mata-agente-da-policia-civil-em-delegacia-na-paraiba.html
Fonte 5: http://portalcorreio.com.br/noticias/policia/crime/2017/01/29/NWS,291288,8,153,NOTICIAS,2190-POLICIA-INVESTIGA-PRESO-ACESSO-ARMA-MATOU-AGENTE-DELEGACIA.aspx

Humberto Wendling é Agente Especial, Professor de Armamento e Tiro da Polícia Federal e autor do livro Autodefesa Contra o Crime e a Violência – Um guia para civis e policiais, 2ª edição.
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