sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O seguro morreu de velho!

Se você pressionar o gatilho de uma arma de fogo, ela fará exatamente aquilo para o qual foi projetada. Ou seja, sua pistola lançará um projétil até o alvo, que pode ser o agressor, o chão, o assoalho da viatura, a parede da sua casa, você ou uma pessoa inocente.

Normalmente, quando se aprende a atirar, duas regras básicas de segurança são mencionadas: manter o dedo fora do gatilho até estar pronto para atirar e nunca apontar a arma para si mesmo ou alguém em quem não deseja atirar. Depois disso, o próximo comando é: “Atenção, fogo!” Na verdade, pouca ênfase se dá as regras de segurança após elas serem relembradas.

Se você tem uma arma de fogo, certamente a manuseia com mais frequência do que atira com ela. Significa que você tira e insere a arma no coldre; retira o carregador; descarrega e carrega a arma; faz a limpeza; pressiona o gatilho; desmonta e monta a arma, etc. E isso é parte da rotina se você possui ou porta uma arma.

Desse modo, uma das coisas mais perigosas que pode acontecer quando alguém maneja uma arma é um disparo acidental. Essa ocorrência pode ser devida a uma falha humana ou do armamento. Um disparo acidental, portanto, é um episódio que compreende o disparo duma arma de fogo num instante não desejado pelo atirador. Tal ocorrência pode ser provocada pela falta de responsabilidade do usuário ou pela instrução inadequada sobre as regras de segurança. Exemplos disso são as tragédias envolvendo crianças que pegam armas deixadas em casa e as disparam acidentalmente contra amigos ou familiares. Brincadeiras com armas de fogo são demonstrações óbvias de falta de maturidade para lidar com tais instrumentos. É certo que nesse tipo de disparo acidental todas as regras de segurança foram desobedecidas simultaneamente, resultando em grande número de ferimentos graves ou mortes. A falta de conhecimento também não é desculpa para um disparo acidental.

Talvez o mais comum nesse tipo de incidente seja o gatilho ser pressionado sem o propósito de se atirar efetivamente (como nos treinos em seco, demonstrações, testes de funcionamento), mas a munição ainda está, inadvertidamente, presente na arma.

Uma segunda causa comum de disparos acidentais é quando o usuário insere o dedo no gatilho antes de ter decidido atirar. Com o dedo posicionado desta forma, muitas coisas podem provocar a pressão inadvertida do gatilho. Por exemplo, se você tenta coldrear a arma com o dedo no gatilho, o coldre irá conduzir o dedo ao longo do gatilho, e um disparo é provável. Se o você cai, leva um susto ou se atraca (com o adversário) com o dedo no gatilho da arma, outro disparo acidental pode ocorrer.

Isso não deve ser confundido com os casos em que o usuário dispara de propósito contra alguém e acerta outra pessoa. Pressionar o gatilho intencionalmente e acertar uma pessoa não pretendida é uma questão de falha na identificação do alvo durante situações estressantes. E isso é o resultado da falta de treinamento de tiro para situações de autodefesa, quando é preciso rapidamente identificar a ameaça (o alvo correto) e realizar os disparos.

Agora a diferença entre o disparo acidental (produzido pela falta de responsabilidade, instrução inapropriada e incapacidade de identificar o alvo correto) e um disparo não intencional é que neste último caso o usuário possui conhecimento sobre as regras de segurança e manuseia a arma com respeito e da forma adequada. 

Apesar disso, o que se considera num disparo não intencional é a incapacidade do ser humano agir sempre com perfeição. Quer dizer, é a possibilidade de falha humana. Mesmo que você faça tudo certo, não há como evitar um erro de vez em quando, como por exemplo, não retirar o carregador da pistola antes de abrir o ferrolho; utilizar um coldre de couro com uma deformação próxima ao gatilho (como a imagem que ilustra este artigo); esquecer um cartucho na câmara e pressionar o gatilho de uma pistola Glock para iniciar sua desmontagem.

Já os disparos por falha mecânica são incomuns atualmente, e neste caso, não há qualquer falha humana ou irresponsabilidade do usuário. Com as tecnologias das armas modernas, o evento de falha mecânica é raro, mas pode acontecer. Um exemplo disso pode ser visto no vídeo postado no YouTube (http://www.youtube.com/watch?v=K5F_rGLMfUQ).

Qualquer pessoa que maneje uma arma de fogo tem a chance de produzir um disparo acidental cedo ou tarde. Se isso não aconteceu ainda, basta esperar um pouco, pois quem possui uma arma vai baixar a guarda em algum momento. Então, o que se pode fazer? Respeitar as regras de segurança e criar uma rotina para reduzir as chances de um disparo acidental.

Então, a primeira regra de segurança normalmente determina que você sempre mantenha a arma apontada para uma direção segura. O cumprimento desta regra assegura que, se um disparo acidental ocorrer, nenhum dano será produzido, em tese. A segunda regra informa que seus dedos devem permanecer fora do gatilho até que a decisão em atirar tenha sido tomada; mesmo que você esteja prestes a encarar um adversário e queira estar preparado para atirar no momento certo, manter o dedo fora do gatilho até a decisão final previne um disparo acidental.

Já o Coronel dos Fuzileiros Navais Americanos John Dean Cooper ampliou as regras básicas de segurança com armas de fogo. São elas: toda arma está sempre carregada; nunca permita que a arma seja apontada para algo que você não está preparado para destruir; nunca deixe o dedo tocar o gatilho até que você esteja pronto para atirar e sempre esteja certo sobre o seu alvo e o que está além dele.

O Serviço de Armamento e Tiro da PF (SAT/ANP), com propriedade, desenvolveu uma rotina de verificação de armas que pode ser utilizada sempre que você pegar uma arma por qualquer razão. O procedimento consiste em três fases, denominadas inspeção visual, inspeção tátil e inspeção material, e é executada da seguinte maneira:
1. Considerando a arma pronta para o uso, com o dedo fora do gatilho, pressione o retém do carregador;
2. Retire o carregador da arma;
3. Abra o ferrolho e trave-o usando o retém do ferrolho. Neste instante, um cartucho será ejetado da arma. Recolha-o ao final de todo o procedimento;
4. Passe a mão de apoio por baixo da coronha (alojamento do carregador) e confira se você é capaz de enxergar essa mão através da janela de ejeção. Isso garante que o carregador foi realmente retirado, num processo de segurança redundante;
5. Insira o dedo indicador da mão de apoio na câmara da arma para verificar se o cartucho foi realmente ejetado e a arma está, de fato, vazia. Não basta olhar para a câmara, pois isso não garante o processo caso você tenha que realizar a inspeção durante a noite ou em um ambiente mal iluminado;
6. Feche a arma e pressione o gatilho sempre numa direção segura.

Finalmente, se você retirar sua arma do cinto, sempre a mantenha no coldre. Na pistola Glock o coldre é parte integrante do sistema de segurança, uma espécie de medida adicional de segurança, já que a arma não irá disparar se estiver num coldre adequado. Então, prefira coldres em polímero. Coldres de couro são bons, mas podem deformar e criar vincos capazes de pressionar o gatilho na hora de coldrear a pistola. Por isso, verifique seu coldre de couro e nunca tenha pressa para coldrear sua arma (sempre faça isso devagar). E nunca confie na sua memória, confie nas inspeções de segurança.

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal e Professor de Armamento e Tiro lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG.
E-mail: humberto.wendling@gmail.com
Blog: www.comunidadepolicial.blogspot.com
Twitter: twitter.com/HumbertoWendlin