domingo, 15 de março de 2009

Por que policiais portam armas?


No ano de 2007, durante um treinamento realizado na Academia Nacional de Polícia, eu e outro policial saímos do hotel onde estávamos hospedados e caminhamos até um restaurante. Durante o trajeto percebi, apesar da escuridão, que esse policial não portava uma arma de fogo. Assim, para confirmar minha observação, perguntei ao policial se ele estava armado. Ele me respondeu que não!

Parece incrível, mas muitos policiais acreditam que na atividade policial o porte de arma é algo opcional. Talvez esses policiais não queiram ou sequer pensem em ferir outro ser humano. Talvez eles acreditem que não integram uma força policial simplesmente porque trabalham em setores administrativos ou investigam crimes pela Internet, por exemplo. Talvez ainda, eles não queiram assumir a responsabilidade pela própria segurança e carregar o fardo das conseqüências de suas ações de autodefesa.

Infelizmente, esses policiais estão mais predispostos à complacência se comparados aos demais colegas de trabalho. Isso significa que esses policiais, que possivelmente nunca se envolveram em incidentes críticos no trabalho ou fora dele, se acostumaram com a segurança com a qual viveram até hoje, e por isso tendem a acreditar que jamais estarão envolvidos em ocorrências violentas. Acreditar que nada ruim vai acontecer e que sempre se estará a salvo, é o primeiro erro em qualquer estratégia de autodefesa, seja ela armada ou não. E para qualquer policial, o segundo erro é não portar uma arma de fogo. É como costumo dizer: é melhor ter uma arma e não precisar usá-la, do que precisar e não ter uma.

Certamente você conhece algum policial que não porta uma arma de fogo. Alguns argumentam que todo policial deveria ser capaz de escolher se porta ou não uma arma, ou seja, que isso é uma escolha pessoal. Afinal, se um policial desarmado morrer porque não está portando uma arma, o problema é dele.

A questão é que este argumento está errado.

Se alguém permite que um policial se coloque em perigo por não estar armado, outro policial pode ter que arriscar a própria vida para salvar a dele. Isso quer dizer que outros policiais podem morrer porque uma pessoa não quis portar a sua arma. E esta não é uma escolha que se possa fazer.

Surpreendentemente, este tipo de pensamento é encontrado entre alguns jovens alunos das academias de polícia, e também entre policiais mais antigos quando são enviados para os cursos de capacitação. A simples idéia de ter que ingressar em ambientes hostis para realizar prisões de criminosos perigosos preocupa qualquer policial. Muitos aproveitam ao máximo os treinamentos que recebem e se envolvem nestas operações de corpo e alma, mas alguns ainda argumentam que não está escrito no termo de posse ou no contracheque que eles devem entrar em ambientes designados “somente” para os grupos de ações táticas especiais.

Então, por que portar uma arma?

Policiais treinam e portam armas de fogo porque juraram salvar vidas, mas para que estas vidas inocentes sejam poupadas, algumas vezes o policial precisa empregar a força letal como única maneira de fazer uma pessoa violenta parar de cometer um ato abominável. E para isso, o policial precisa estar vivo também.

O objetivo é somente parar, e todo policial gostaria de ser capaz de parar um criminoso sem a possibilidade de matá-lo, no entanto, ainda não existe uma pistola Star Trek Phaser – que pode vaporizar o inimigo ou apenas deixá-lo inconsciente. Obviamente há uma variedade de instrumentos menos letais disponíveis para as situações nas quais é possível seu emprego, mas até agora o único meio concreto para um policial parar imediatamente um criminoso violento é a arma de fogo.

A arma de fogo é apenas uma ferramenta usada para fazer o criminoso parar. A arma nada mais é do que uma “broca sem fio lançada a distância com a ajuda de um produto químico”. Essas “brocas” vêm em diferentes calibres – pessoalmente eu gosto do 9 mm e do .45 ACP, mas todos atingem o mesmo objetivo. Este objetivo é criar um canal de ferida permanente por onde o sangue possa escoar para diminuir o fluxo sanguíneo, o que provocará a inconsciência e a incapacitação. No entanto, algumas vezes a vida do criminoso também escoa, porque sob certas circunstâncias parar requer a morte, mesmo que seja uma morte deliberada por um tiro na cabeça, se esta for a única opção para o policial. Em resumo, antes ele do que eu, um colega policial ou uma vítima inocente.

Desse modo, se um policial não está mentalmente preparado para atirar, ele não deve portar uma arma. E se ele não carrega uma arma, ele não pode ser e agir como um policial. A incapacidade de portar uma arma e ser responsável pela própria segurança, não torna este policial um profissional ruim – não há vergonha nisto. No entanto, eu sugiro outras carreiras no serviço público.

Disparar uma arma é antes de tudo um treinamento mental. Algum tipo de habilidade motora também é necessário, porém a perfeição requer um estado mental adequado. Parte deste estado mental significa certificar-se de que você é capaz de atirar em outro ser humano sob condições legais e morais apropriadas.

Portanto, é necessário um equilíbrio delicado entre a autoconfiança na capacidade de usar a força letal, se for preciso, e o desejo desenfreado de querer usar esta força. Este equilíbrio deve alcançar os novos alunos das academias de polícia quando treinados no uso da força letal, pois a polícia precisa de profissionais capazes de atirar sem hesitação, mas que preferem que isso nunca aconteça, tanto quando deve atingir aquelas pessoas que querem matar e vivem para ver este dia chegar. É preciso se livrar deste tipo de pessoa também.

Se um policial não quer exercitar sua mente e suas habilidades físicas para compreender e aplicar, quando preciso, o conceito do uso da força letal, ele não está realmente armado, mesmo que ele porte uma arma de fogo. E se ele não porta uma arma, ele simplesmente não serve para o trabalho policial.

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG e Instrutor de Armamento e Tiro.
E-mail: humberto.wendling@ig.com.br

10 comentários:

  1. Sensacional, professor.

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  2. Este assunto é meio complexo.Por exemplo:O policial vai ao cinema lotado em um shopping lotado.E aí! Vai deixar a arma onde? No carro para que por falta de sorte seja levada junto com o veículo igual acontece sempre?Ou desreipeita a norma e entra em locais com grande aglomeração de pessoas portando sua arma?

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    1. Entra no cinema com arma oras bolas, vai ficar na sua cintura e não pendurada no pescoço!!!

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  3. Sou policial militar lotado em Uberlândia-MG, e a questão do porte de arma de fogo, quando de folga, é um assunto polêmico entre os militares, alguns dizem que "PORTAR ARMA DE FOGO É ARRUMAR PRA CABEÇA". Quando ouvi isso achei um ABSURDO, um policial militar que não gosta de portar ARMA de fogo esta ERRADO, se não gosta de portar arma de fogo, ESTA NO LUGAR ERRADO, VAI PRESTAR UM CONCURSO NO BANCO DO BRASIL, ninguém é policial obrigado.
    O Policial Militar tem que estar sempre armado, atento e pronto para reagir a um ataque, tendo em vista que também somos cidadãos e estamos sujeitos a pratica delituosa de marginais, ou, a vingança de algum marginal que sabe onde encontrar o policial. Aqui em Uberlândia a bandidagem não tem vez, eles sabem que apesar dos militares que se esquivam de sua obrigação constitucional, tem aqueles que dão a vida pela sua profissão, "os operacionais", e que vão reagir a ação delituosa desses marginais, e que farão o possível para que a lei seja cumprida.

    Encerrando caros colegas, o certo seria quando o Policial Militar termina o seu curso de formação, já deveria ser armado fixo, esta sempre pronto, por que PORTAMOS ARMAS, não por que somos melhores que o cidadão, mas sim por que as ARMAS são os NOSSOS INSTRUMENOS DE TRABALHO, para a própria segurança do CIDADÃO.

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  4. ÓTIMAS AFIRMAÇOES! ESTOU COMEÇANDO A VIDA MILITAR AGORA PORTAR A ARMA É MUITO IMPORTANTE E INDISPENSÁVEL.

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  5. MUITO BOM ENSINAMENTO. ENTRAREI NA PC DO0 PARANÁ, MAS TENHO E SEMPRE TIVE A CONSCIÊNCIA DE QUE PORTAR ARMA É INDISPENSÁVEL, PORÉM ISSO NÃO BASTA. A PESSOA DEVE ESTAR PREPARADA FÍSICA E MENTALMENTE PÁRA PORTAR E SABER USAR NA HORA E DE FORMA CORRETA. NÃO BASTA CARREGAR NA CINTA.

    MUITO BOM TEXTO PROFESSOR

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    1. Poe ser a desgraça ou a glorificação, depende de quem usa. Isso mesmo!!!

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  6. Sou policial militar no RJ e sei da importância de estar sempre armado, mas a realidade do meu estado é um pouco complexa. O poderio bélico dos marginais é cada vez maior e nunca estão sozinhos. As vezes é mais prudente não estar armado, pois se dermos o azar de um "bonde" bater de frente e desconfiar ser policial, não vai ter perdão !!! Antes de ser policial somos filhos, pais, maridos e infelizmente a realidade atualmente não nos permite portar armas em várias partes do Rio de Janeiro...

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  7. Assim fica meio esquisito,ler esse comentário acima deste policial, se ele é policial mas antes de tudo ele é pai, filho e marido, porque o cidadão comum não pode portar sua arma,desde que preparado pra isso, pois também somos pais, filhos e maridos, mas só por sermos civis não temos o direito, melhor o DEVER de nos protegermos, sim, se um civil não pode andar armado, o policial estando fora do serviço também deve estar desarmado, pois se não quer ser perseguido por bandidos fora do horário de trabalho VÁ TRABALHAR NO BANCO DO BRASIL.

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  8. Eu conheço este discurso. Eu sou policial e não ando armado e sou polícia prá caralho!!! Já v muitos amigos meus morrerem porque estavam armados. Então, esse princípio é contraditório. Ande armado se se sentir melhor ou , ande desarmado, caso se sinta melhor dessa forma.


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