quarta-feira, 18 de junho de 2014

Operações especiais: o que podemos aprender com eles?




Meu primeiro contato com as operações especiais ocorreu no curso de formação para Agente da Polícia Federal no ano de 1997. O estágio no Comando de Operações Táticas (COT) durou uma semana e nesse período aprendi o que significavam expressões como fatiamento, espiada rápida, funil fatal ou cone da morte, entrada dinâmica ou sistemática, em gancho ou cruzada, abordagem pessoal e veicular, progressão em ambiente hostil, orientação e navegação terrestre, nós e amarrações, transposição de obstáculos, etc.

A essência do aprendizado permaneceu consciente, apesar da incapacidade de aplicação de muitas dessas técnicas ao longo de 17 anos de trabalho. E um dos motivos para essa incapacidade é bem simples e remete a um antigo ditado: uma só andorinha não faz verão. O que quero dizer é que cada policial que aprende técnicas diferenciadas (especiais) não encontra o que é necessário para colocar em prática aquilo que aprendeu, pois se depara com um ambiente corporativo no qual outros policiais acreditam que o aprendizado acadêmico não suporta o escrutínio da experiência prática. Ou seja, aquilo que se aprende na academia de polícia deve ser esquecido porque não encontra aplicação no mundo real. Essa mentalidade, “certificada” ano após ano, e a própria falta de interesse em aplicar o trabalho policial de maneira mais técnica faz com que a distância entre o berço policial (a academia) e a atividade prática seja intransponível. E essa distância acaba reforçando a ideia de que é preciso esquecer aquilo que se aprendeu na formação básica, numa espécie de círculo vicioso.

No mundo prático, portanto, minha primeira instrução foi esquecer tudo que aprendi no curso de formação. Se aquilo que era convencional precisava ser “esquecido”, o que pensar daquilo que era especial. De fato, e justiça deve ser feita em razão da dedicação e experiência de muitos policiais, alguns ensinamentos deviam e ainda devem ser submetidos a minha total amnésia.

Mas como diminuir a distância entre aquilo que se aprende e o trabalho policial? A resposta é: INCORPORAR A CULTURA DOS NICHOS.

O segundo contato com o universo das operações especiais ocorreu num curso ministrado pelo Grupo de Ações Táticas Especiais da Polícia Militar de Minas Gerais (GATE/PMMG). Aprendi como usar um escudo balístico, entradas em edificações, noções de negociação, técnicas com lanternas, etc. O curso era uma parceria entre o GATE e a Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) da Polícia Federal em Belo Horizonte/MG. Por incrível que pareça, também não consegui colocar em prática os conceitos e técnicas desenvolvidas no trabalho policial diário, apesar de fazer parte de um outro nicho altamente compartimentado (fechado): a própria DRE.

Depois disso, meu terceiro contato com o ambiente das operações especiais ocorreu em 2007, durante o Curso Especial de Polícia. Naquele ano a academia havia mudado, muitas disciplinas haviam mudado, mas eu também havia mudado. Recrudescido pela “casca” da rotina policial, tudo que era ensinado passava pelo crivo de 10 anos de trabalho e de convívio com outras centenas de amigos muito mais experientes que eu. Infelizmente, passava pelo crivo de muitos colegas desmotivados ou sem aptidão para a carreira.

A quarta aproximação com as operações táticas ocorreu durante o curso de formação de instrutor de fuzil realizado em 2014. Nesse curso, convivi com um paradoxo, pois na condição de aluno me livrei daquela “casca” e abri a mente para novo aprendizado. Entretanto, alguns ensinamentos já não tinham aplicação policial havia certo tempo. Essa percepção também foi compartilhada e especialmente reforçada por um amigo instrutor de tiro, ex-integrante do COT, e que mantém forte INTERESSE e intensos ESTUDOS sobre técnicas e equipamentos policiais. O curso também incluía uma visita ao COT, onde, para meu contentamento, aprendi técnicas mais modernas e coerentes com a prática policial (convencional e especial). O encontro no COT foi duplamente motivador, já que o livro Autodefesa Contra o Crime e a Violência estava sendo utilizado como fonte nas instruções de sobrevivência policial. Após a visita, ficou claro que o COT não só havia se modernizado, mas estava MUITO à frente dos setores mais especializados da polícia.

Um olhar menos atento pode indicar que esse distanciamento é natural e desejável, pois trata-se de um grupamento especial por natureza. Contudo, essa distância é preocupante porque a atividade de polícia começa pela base e não pelo topo. Se essa distância é enorme, inclusive em comparação com setores especializados, algo está errado. Provavelmente, há uma massa de policiais que, apesar da experiência, não possui condições técnicas aceitáveis para a segurança e o sucesso na atividade policial, seja porque não tem o conhecimento ou porque não quer aplicar o que aprendeu. Essa impressão não é obviamente explícita, já que muitos trabalhos policiais têm a SORTE de “darem certo” e os erros são esquecidos ou varridos para debaixo do tapete. Quando tudo dá errado, a culpa é somente do policial, mas nunca um problema institucional na área do ensino e da prática policial diária. A inabilidade técnica não é culpa exclusiva do policial, mas o resultado da força de um pensamento quase irresistível: aquele círculo vicioso que diz que é preciso esquecer o que foi aprendido.

Por falar em erros, grupos especiais não são infalíveis, mas se distinguem na capacidade e interesse em avaliar o que foi feito de certo e, principalmente, ANALISAR OS PRÓPRIOS ERROS com o objetivo de propor soluções e aperfeiçoar o treino e o aprendizado para ações futuras. Essa prática, chamada DEBRIEFING, inexiste na polícia convencional.

O quinto encontro com o setor de ações especiais ocorreu num curso de ATUALIZAÇÃO para os Grupos de Pronta Intervenção (GPI) de Minas Gerais e do Rio de Janeiro. Durante duas semanas ouvi expressões como Free Flow, reta, ponta, TCCC (Tactical Combat Casualty Care), etc. A excelência do curso reafirmou minha percepção de que há um GRANDE abismo entre o treinamento e o equipamento dos grupos especiais e o comportamento do policial que está fora desse nicho.

Outra razão para esse distanciamento é o interesse pelo TREINAMENTO CONSTANTE, mesmo quando não há nada acontecendo que justifique o treino. Infelizmente, muitos colegas pensam que treino não é trabalho (e muitos chefes também pensam assim). Agora, pense na seguinte frase: policiais são pagos para desconfiar quando não há nada para desconfiar. Avaliar as pessoas, o que elas fazem, como se comportam e o local onde se encontram, é a essência do trabalho policial. Portanto, operadores táticos devem treinar quando aparentemente não há qualquer razão para isso.

Treinamento constante, planejamento, EXECUÇÃO COORDENADA e debriefing formam a cultura da atividade de operações especiais. Essa cultura forma um nicho que agrega policiais com interesses em comum. E os equipamentos especiais? Certamente, esses objetos não são a razão da existência de um grupo especial, mas o RESULTADO de uma CULTURA POSITIVA e de um COMPORTAMENTO DIFERENCIADO.

Esses elementos (comportamento e cultura) são muitas vezes incompreendidos por muitos policiais. Não é à toa que grupos especiais são alvos de piadas e de sentimentos de antipatia.

Eu mencionei PLANEJAMENTO? Sim, é claro! E essa palavra me fez lembrar meu sexto encontro com o universo das ações especiais ocorrido em recente operação em Juiz de Fora/MG. Eram 23h do dia 09/06/2014 quando as equipes se recolhiam para dormir, considerando que o início da operação estava programado para as 3h do dia seguinte. Entretanto, apenas 12 policiais permaneceram numa sala de reunião para planejar a ação e a participação de cada integrante durante o cumprimento da missão. Todos eles integravam o GPI de Minas Gerais e de Santa Catarina. O interesse pelo planejamento ANTECIPADO e DETALHADO era visível em cada um daqueles policiais.

Na palestra de abertura da operação, foram mencionadas três regras para o sucesso da missão:

Regra nº 1) Voltar são e salvo para casa e para o convívio com a família;
Regra nº 2) Respeitar a instituição;
Regra nº 3) Cumprir os mandados judiciais.

Assim, todo planejamento antecipado e detalhado favorece o cumprimento da regra nº 1, a mais importante para qualquer trabalhador.

Porém, aqui cabe um alerta. Um dos maiores erros que tenho observado diz respeito ao horário da entrega das informações sobre a operação policial, o alvo e o local das buscas. Via de regra, as equipes só recebem essas informações pouco antes da saída para o cumprimento da tarefa. Isso dá pouca ou nenhuma oportunidade para que as equipes possam se inteirar sobre a situação e PLANEJAR a execução da missão. Mais uma vez, isso reforça a incapacidade, o desinteresse e a distância da cultura positiva e do comportamento diferenciado que todo policial deveria manter.

Esse artigo não tem a intenção de homenagear policiais de grupos especiais, ainda que mereçam, mas demonstrar que cada policial, dentro de nichos ou fora deles, deve compreender a importância de observar, pensar, treinar, planejar e agir como um policial especial. Grupos especiais agem em situações especiais e policiais normais atuam em situações convencionais. Essa é a regra. Entretanto, o trabalho convencional abrange a maior parte das atividades de polícia e dados estatísticos têm demonstrado que a maioria dos policiais é agredida, ferida ou morta nessas circunstâncias comuns.

Mas se você incorporar a cultura desses nichos (COT, GPI, CAOP, GATE, DRE, GISE, DAS, ROTAM, Tático Móvel, etc.) na sua atividade diária, certamente se transformará num policial diferenciado. Lembre-se que você já é especial para sua família. Agora basta que você se torne especial para si mesmo. Treine, planeje, execute e avalie o que faz durante o trabalho! Diminua as distâncias! Isso pode tornar seu trabalho mais motivador e também pode salvar a sua vida!

Foto: APF Agrelli

Humberto Wendling é Agente Especial, Professor de Armamento e Tiro da Polícia Federal e autor do livro Autodefesa Contra o Crime e a Violência - Um guia para civis e policiais.
E-mail: humberto.wendling@ig.com.br
Blog: www.comunidadepolicial.blogspot.com
Livro: www.editorabarauna.com.br

9 comentários:

  1. Como de costume, um excelente artigo, professor! Obrigado por nos passar suas experiências.

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  2. Impecável, como sempre! Uma pergunta, o artigo anterior a esse ainda terá continuação?

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  3. Excelente texto professor!
    No meio policial não há espaço para erros. Tampouco, descaso.

    Por curiosidade, esses plates são nacionais? Não consegui identificar a marca.

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    1. Caro Leo Brito, os coletes são nacionais da marca WTC.

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  4. Caro professor, me pergunto se passei pelo senhor na ANP (estava lá no CFP de EPF, entre fevereiro de junho de 2014) e não era o senhor um dos alunos do curso de instrutor de fuzil que estava tendo. Lembro inclusive que um dos alunos (acredito que um dos mais vibradores, hehe) foi do COT e me deu aula no CFP.

    Parabéns pelo excelente artigo. Pontuou bem todas as coisas, em especial o treinamento constante. Os "OE (operações especiais)" ganham exatamente o mesmo subsídio que os outros, mas tem a consciência de que o treinamento é que vai levar à excelência. Me lembro da frase exaustivamente repetida pelos professores do SEOP, SAT e SEF (na disciplina que, salvo engano, se chamava Defesa Pessoal Policial) "você faz o que você treina".

    E a PF (e falo com certo conhecimento de causa, por ter vindo da PM), oferece uma estrutura para treinamento que não há em nenhuma outra polícia, desde o CFP até o treinamento na lotação. E ainda assim tem quem não aproveite. Realmente não dá pra entender. Precisamos acabar com a cultura do "NHS" (na hora sai)

    Apesar de não sentir vontade de ser um OE, espero não ser contaminado pela desmotivação a ponto que me torne negligente com o treinamento e, em consequencia, com minha vida e a dos colegas de trabalho (e por que não dizer, da minha propria família também).

    Um grande abraço!

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    1. Caro colega,

      também passei pela ANP no curso de formação de instrutor de fuzil. E o trabalho no SAT e no GPI (mesmo que provisoriamente) foram de imenso valor. Desejo que mantenha o ideal daqueles que querem subir! Forte abraço!

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  5. Ilmo Professor Humberto,

    Venho aqui expor minha satisfação em ter conhecido e já lido todos os artigos deste seu blog, está sendo muito válido para mim, pois vem me influenciando e motivando-me cada vez mais em seguir estudando e dispensando esforço para ser aprovado em concurso e fazer parte de um quadro da área policial, em especial da PF.
    Adquiri seu livro "Autodefesa: Contra o Crime e a Violência", onde mais uma vez pude atestar seus ensinamentos de extremo valor para nós cidadãos de bem, que temos de enfrentar todos os dias as intempéries da violência que nos assola.
    Sempre recomendo a leitura do seu blog aos meus amigos civis e aos que são policiais/agentes penitenciários que possuem o direito ao porte de arma.
    Estou no aguardo do seu próximo artigo, espero que não demore muito!
    Mas entendo que seu dia-a-dia deve ser bastante corrido, diante de suas muitas atribuições.

    Sem mais.

    Att.
    Thiago Carlos
    Futuro APF!!!
    #FocoForçaFé

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  6. Caríssimo colega Humberto, saudações! Sou EPF, afastado para o exercício de um mandato de vereador, no RN, em Ouro Branco, onde já discutimos segurança pública, em audiência pública. Conheci sua obra pelo Site da FENAPEF. Interessante o Blog e brilhante o tema abordado no livro. Como comprá-lo ainda não sei, mas procurarei na internet. Por oportuno, digo que a segurança pública no Brasil está perdida a partir de suas próprias normas, onde há uma lei pra comprar e registrar armas e outra mandando entregar. Uma clara contradição. Sou contra o desarmamento desde o plebiscito. Também administro um blog: Blog Genildo Medeiros e, a partir de hoje, segui-lo-ei, no sentido de orientar meus conterrâneos e me orientar, também. Bom trabalho!

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