quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Aprendendo com as situações do modo difícil!

Quando consegui escrever estas primeiras palavras, o relógio marcava 23h51 do dia 17 de novembro de 2010, pois eu estava imóvel diante do computador desde as 22h20, assolado por um sentimento que me dominou desde a leitura, pela manhã, da notícia sobre as mortes dos Agentes Mauro Lobo e Leonardo Matsunaga, e o estado de saúde crítico do Agente Charles.

Leonardo Matsunaga frequentou o curso de formação policial no primeiro semestre deste ano, mas sua fisionomia me escapa da memória. Porém, o que não esqueço é que fui um dos professores de tiro do APF Leonardo na ANP, sendo inevitável uma análise íntima sobre o que se poderia fazer para melhorar o treinamento policial para dificultar tragédias como a de hoje.

Então, me recordei de um texto não publicado que eu havia escrito em 2008, por ocasião do quinto aniversário da morte de outro Agente de Polícia Federal, o APF Klaus Henrique.

Inicialmente, peço desculpa aos colegas se o que escrevo agora parece inoportuno diante de tamanha tristeza que toma conta de nossos corações, mas já perdemos o APF Edson Martins Matsunaga, o APF Leonardo Maia Fonseca, o APF Roberto Simões de Mentzingen, o APF José Humberto Figueiras, o APF Sérgio Augusto Zambone, o EPF Rônei Cândido Resende, o APF Armindo João da Silva, o APF Guilherme Auad Mourad, o APF Oswaldo Veras, o APF Leandro Carlos Dionísio, dentre outros. Todos mortos em situações que poderiam ter sido analisadas para promover o aprimoramento da capacidade de autodefesa de todo Policial Federal.

Estou certo de que o artigo é tão atual agora, quanto será em 17 de novembro de 2015, aniversário de cinco anos da morte de Mauro Lobo e Leonardo Matsunaga.

APF Humberto Wendling



Aprendendo com as situações do modo difícil!

Em 25 de setembro de 2003, o bando do criminoso Cleiton Araquan assaltou uma agência bancária na cidade de Pilão Arcado/BA.

Durante o confronto com a polícia, Cleiton e Valter Araquan (seu primo e braço direito) foram mortos.

No entanto, isso custou a vida do Policial Federal Klaus Henrique, então com 27 anos de idade, atingido por um tiro de fuzil enquanto operava a metralhadora do helicóptero usado na operação policial. No tiroteio também foram feridos os Policiais Federais Henrique, Tolentino e Aziz.

Logo depois, se seguiu outra operação policial para localizar e prender o restante da quadrilha. Então, mais um assaltante foi morto e outros cinco foram feridos, segundo informações extra-oficiais.

Um Policial Federal morreu e três foram feridos, e isso é TUDO que sei sobre o episódio após pesquisar na Internet.

Entretanto, em 11 de abril de 1986, oito policiais do FBI vivenciaram algo semelhante. A diferença é que eu sei mais sobre o episódio ocorrido em outro país 24 anos atrás do que sobre o evento que aconteceu há sete anos na minha própria nação.

O TIROTEIO DE MIAMI, como ficou conhecido, foi um confronto entre esses oito agentes e dois criminosos (bem armados e treinados) que ocorreu em Miami, no Estado da Flórida. No confronto foram mortos os agentes Gerald Dove (30 anos) e Benjamin P. Grogan (53), bem como os dois criminosos, Willian Russel Matix (34) e Michael Lee Platt (32). Além disso, outros cinco policiais foram feridos gravemente durante o combate.

O incidente ficou negativamente marcado na história do FBI, e por isso foi bem estudado ao longo dos anos, mudando de vez a concepção do uso de armas curtas por todas as polícias americanas.

Apesar de os policiais superarem os criminosos na escala de quatro para um, os agentes foram recebidos por tiros de fuzil e espingarda, e não foram capazes de reagir efetivamente. Embora também atingidos diversas vezes durante o tiroteio, os criminosos continuaram a ferir e matar os policiais.

Há mais de seis meses os agentes investigavam uma série de roubos a bancos (Isso lhe parece familiar?). Os assaltos ocorriam somente numa sexta-feira de cada mês, e os suspeitos usavam um veículo Chevrolet Monte Carlo.

Pouco antes da sexta-feira do dia 11 de abril, uma mulher notificou a polícia sobre o desaparecimento do irmão, informando que o mesmo possuía um Chevrolet Monte Carlo. Ao encontrarem o corpo do proprietário do veículo com múltiplos ferimentos provocados por arma de fogo, os agentes vincularam o homicídio com as ações dos dois criminosos, acreditando que eles utilizariam o carro da vítima no próximo roubo.

O escritório do FBI em Miami acreditava que os criminosos possuíam um padrão de comportamento: utilizavam o mesmo tipo de carro, eram extremamente violentos e assaltavam as agências bancárias sempre às sextas-feiras. Contudo, as identidades dos suspeitos ainda eram desconhecidas.

Os dois criminosos, Willian Matix e Michael Platt, se conheceram enquanto serviam o Exército Americano. O primeiro foi cozinheiro do Corpo de Fuzileiros Navais e da Polícia do Exército da 101ª Divisão Paraquedista. Já o segundo serviu como paraquedista das forças especiais do exército e como policial militar da mesma 101ª Divisão Paraquedista. Os dois se casaram com mulheres que morreram sob circunstâncias até hoje não esclarecidas. Eles também administravam uma pequena empresa de jardinagem que era usada como fachada para a lavagem do dinheiro roubado.

No dia 11 de abril de 1986, equipes totalizando quatorze agentes do FBI conduziram buscas pelas ruas dos bairros nos quais os criminosos costumavam agir na tentativa de localizá-los NUM GOLPE DE SORTE, uma vez que se tratava de uma sexta-feira e já fazia quase um mês do último roubo.

Às 9h os agentes Grogan e Dove localizaram o Monte Carlo e comunicaram o fato ao chefe da equipe, que por sua vez, determinou que os demais agentes se juntassem à perseguição. Assim, os agentes Manauzzi, Mireles e Hanlon se juntaram à perseguição seguindo Grogan e Dove. Contudo, os suspeitos perceberam o que estava acontecendo e contornaram um quarteirão, confirmando a suspeita de que estavam sendo seguidos pela polícia. Nesse instante, o agente McNeil (chefe da equipe) cruzou com o carro dos criminosos e percebeu que Michael Platt preparava uma carabina Ruger Mini-14 calibre .223 Remington. Dove e Grogan solicitaram autorização ao agente McNeil para realizar a abordagem. Então, McNeil considerou a superioridade numérica, o reforço a caminho, e que tanto Dove e Grogan eram certificados pela SWAT, sendo que Grogan era considerado o melhor atirador do FBI em Miami.

Porém, esse reforço (no total de seis agentes) não conseguiu chegar ao local a tempo porque os policiais não conseguiram compreender o endereço transmitido, via rádio, pela equipe que estava na perseguição.

Com a autorização para a abordagem, Dove e Grogan tentaram bater a viatura no eixo traseiro do carro dos criminosos para que ele derrapasse (Manobra PIT ou Pursuit Intervention Technique). Mas a manobra falhou, e na colisão com o carro dos bandidos, Grogan perdeu seus óculos de grau. Imediatamente, Manauzzi fez a segunda tentativa e conseguiu acertar o carro dos criminosos que saiu da pista e colidiu numa árvore no estacionamento de uma empresa. Nessa batida, a arma de Manauzzi (que estava no assento) caiu no vão da porta direita. Após a batida, a viatura de Manauzzi ficou lado a lado com o Monte Carlo, e antes que ele pudesse recuperar sua arma teve que deixar a viatura rapidamente porque foi atingido pelos disparos de Michael Platt (passageiro - que ainda estava dentro do carro com sua carabina .223).

Dove e Grogan (que mal podia enxergar) pararam atrás do veículo dos criminosos e saíram da viatura. Enquanto Platt atirava no agente Manauzzi, Matix (motorista - também ainda dentro do carro, mas com o corpo parcialmente para fora) fez um disparo com uma espingarda calibre 12 contra Dove e Grogan. O agente McNeil parou sua viatura e se aproximou do carro de Manauzzi, e utilizando o bloco do motor como barricada, disparou seis vezes na direção de Matix, o atingindo duas vezes. Grogan também acertou um tiro em Matix. Ferido três vezes (na cabeça, no pescoço e no antebraço direito), Matix se debruçou sobre o volante e perdeu a consciência até quase o final do tiroteio.

Enquanto McNeil atirava em Matix, os agentes Mireles e Hanlon deixavam a viatura e iam em direção aos colegas, porém Hanlon havia perdido sua primeira arma porque o carro em que estava havia batido contra um muro de concreto do outro lado da rua. Hanlon, então, utilizou seu revólver reserva para auxiliar Dove e Grogan que ainda disparavam contra Matix e Platt. Mireles correu em direção ao agente McNeil, mas foi logo atingido no antebraço esquerdo por um projétil .223.

Assim que McNeil realizou seus disparos contra Matix, foi atingido gravemente na mão direita por um disparo efetuado por Platt. Com o revólver vazio, McNeil virou-se para sua viatura, recarregou sua arma com mais dois cartuchos quando viu uma espingarda calibre 12 no assento de trás. Mas ao tentar alcançá-la foi atingindo no pescoço por outro projétil .223. Dessa vez, McNeil tombou e ficou paralisado durante o restante do tiroteio. O agente McNeil não conseguiu carregar completamente seu revólver porque um grande volume de sangue escorreu para dentro das câmaras do tambor, tornando a recarga impossível.

Até esse momento, Michael Platt ainda estava dentro do carro, mas já havia incapacitado os agentes Manauzzi, Mireles e McNeil enquanto atirava pela janela do motorista por cima do corpo do comparsa.

Como Platt não conseguiu abrir a porta do carro, ele saiu pela janela do lado direito. Nesse instante, ele foi atingido por quatro projéteis 9 mm. Um deles atingiu as costas de Platt e foi disparado pelo agente Risner que juntamente com Orrantia atiravam a cerca de 30 m de distância a partir de uma posição barricada do outro lado da rua. Os outros três tiros (no braço direito, na coxa direita e no pé esquerdo) foram realizados por Dove. O tiro de Dove que acertou o braço direito de Platt atravessou o pulmão e parou a dois centímetros do coração.

O legista, que após o confronto examinou o corpo de Michael Platt, determinou que o projétil que atingiu o pulmão foi o ferimento fatal que conduziria a morte do criminoso, mesmo se ele recebesse os primeiros socorros. No entanto, esse ferimento não foi capaz de eliminar imediatamente a ameaça representada por Platt que continuou atirando enquanto caminhava na direção de Dove, Hanlon e Grogan que estavam protegidos pelo porta-malas da viatura. Platt foi atingido mais duas vezes por Orrantia e/ou Risner durante esse trajeto. Então, Platt virou-se para Risner e Orrantia atingindo este último com fragmentos de projéteis .223. Durante o tiroteio, Risner disparou 13 ou 14 tiros e Orrantia cerca de 12.

O agente Hanlon disparou todos os cinco tiros, mas quando tentava recarregar seu revólver, viu Platt apontar a carabina para sua cabeça. Misteriosamente, Platt mudou de ideia e atirou contra a mão direita de Hanlon que se jogou debaixo do para-choque traseiro da viatura na tentativa de se proteger, mesmo assim, ainda sendo atingindo na virilha. Quando se preparava para receber o terceiro tiro, Hanlon ouviu Grogan gritar “Ai, meu Deus!”. Platt então disparou um tiro contra o tórax de Grogan, que morreu no local, e quando se preparava para atirar novamente em Hanlon percebeu a presença de Dove no lado do motorista da viatura. E assim, disparou duas vezes contra a cabeça de Dove. Até aqui, Grogan havia disparado nove tiros e Dove 20 tiros, que antes de ser morto tentava recarregar ou sanar uma pane na sua pistola.

Depois de matar os dois agentes, Platt ainda disparou diversas vezes contra Orrantia e Risner. Mas ao abrir a porta da viatura dos policiais mortos, o criminoso foi atingido por disparos realizados por Mireles que usava uma espingarda calibre 12 com apenas um dos braços, já que seu lado esquerdo estava paralisado em função do ferimento ocorrido no início do confronto.

Em algum momento durante o tiroteio, Matix recobrou a consciência e juntou-se ao comparsa dentro da viatura de Dove e Grogan. Enquanto isso, Mireles disparava seu quinto e último tiro com a espingarda.

Dentro da viatura, Platt e Matix tentavam dar partida na ignição ao passo que Mireles se levantava apoiado na espingarda, sacava seu revólver, e caminhando com dificuldade, se aproximou dos dois criminosos. À queima-roupa, ele disparou seis vezes atingindo dois tiros em Platt (um na cabeça e outro no peito, totalizando 12 ferimentos) e três tiros em Matix (todos no rosto, somando seis ferimentos).

O tiroteio envolveu 10 pessoas: dois criminosos e oito agentes do FBI. De todos, somente um policial saiu ileso do confronto. Ao todo, os agentes realizaram aproximadamente 78 disparos e os criminosos 49 (Matix um e Platt 48).

Exames toxicológicos demonstraram que a capacidade de sobreviver aos múltiplos ferimentos causados por armas de fogo não havia sido alcança por meio do consumo de drogas ou bebidas alcoólicas.

O episódio que durou aproximadamente quatro minutos foi DETALHADAMENTE INVESTIGADO COM A ELABORAÇÃO DE UM RELATÓRIO DE 656 PÁGINAS (disponível no site do FBI). Em setembro de 1987, esse incidente foi encaminhado ao Conselho Consultivo sobre Armas do FBI que conduziu uma avaliação das pistolas utilizadas pelo órgão. Como a tarefa era abrangente e complexa, o FBI CONVIDOU ESPECIALISTAS RENOMADOS para participarem do Seminário sobre Ferimentos Balísticos, realizado na Academia do FBI.

Após o seminário, o FBI MUDOU AS ARMAS, AS MUNIÇÕES, OS CALIBRES, OS PROCEDIMENTOS OPERACIONAIS E O TREINAMENTO DE TIRO NA ACADEMIA. O local do confronto recebeu uma placa em homenagem aos policiais mortos e as ruas receberam os nomes destes agentes, sendo que o evento é lembrado até hoje. Ou seja, os poucos minutos daquela manhã de sexta-feira tiveram um forte impacto no que o FBI é hoje.

Sem dúvida, a lição aprendida naquele dia tem salvo as vidas de muitos policiais; lição que transformou o treinamento e as táticas policiais (por exemplo, os policiais são orientados a atirar até que o agressor caia, pois é o único sinal aparente de que houve a incapacitação. E não importa quantos tiros sejam necessários para que isso ocorra, pois a segurança dos policiais está em primeiro lugar).

Logo após o tiroteio, os agentes do FBI receberam pistolas que substituíram os antigos revólveres que muitos ainda utilizavam na época (em nome de uma economia de verbas obtusa, os policiais eram obrigados a portar revólveres .357 Magnum, mas com munição .38 SPL). O treinamento de tiro na academia foi melhorado incorporando cenários mais realistas, além da inclusão do estudo a respeito dos efeitos mentais e fisiológicos do estresse durante confrontos armados. O confronto já foi tema de um filme (In the Line of Duty: The FBI Murders 1988) e de um documentário patrocinado pelo Discovery Channel (Os arquivos do FBI). Tudo isso se deve ao exaustivo estudo de caso conduzido pela polícia federal americana, até como forma de HONRAR OS POLICIAIS MORTOS E FERIDOS.

E aqui eu reservo minhas esperanças para tomar conhecimento de um estudo de caso sobre o Tiroteio de Pilão Arcado. Mas agora eu também preciso esperar o estudo sobre o Tiroteio de Codajás.

Infelizmente, quanto mais o tempo passa, mais as informações sobre confrontos envolvendo policiais brasileiros se perdem, e com elas a possibilidade de se aprender com as situações que ceifaram as vidas daqueles homens que deram suas últimas medidas de devoção ao trabalho policial.

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal e Professor de Armamento e Tiro lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG.
E-mail: humberto.wendling@ig.com.br
Blog: www.comunidadepolicial.blogspot.com

9 comentários:

  1. Se eu não me engano tem até um filme sobre o fato chamado 44 minutos...

    Excelente artigo...

    Meus sentimentos pelos APFs

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  2. Parabéns Humberto pelo comentário. Precisamos com urgência 'profissionalizar' nossas ações a fim de evitar tragédias anunciadas.

    E o que falar das nossas 'operações', onde as falhas são sempre as mesmas e não são discutidas em debriefing?

    Há muito que pensar e agir.

    Enqunto isso não vem, lamentamos a morte de mais dois colegas.

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  3. O episódio envolvendo os agentes da FBI em Miami está no Wikipedia [http://en.wikipedia.org/wiki/1986_FBI_Miami_shootout], inclusive com arquivo confidencial da FBI (que veio a público em razão da Lei da Liberdade de Informação - a Freedom of Information Act] contendo mais detalhes do confronto. Mais informações também se pega no Google ao digitar "1986 FBI Miami shootout". Há ainda um vídeo que reproduz o que aconteceu [http://www.youtube.com/watch?v=lBGfKtuo2AM].
    Parabéns, Humberto, pelo artigo. Só aumenta a admiração da sociedade em relação ao trabalho sério e de qualidade da PF. E meus sinceros sentimentos pelos APFs mortos em cumprimento de missão. Leandro

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  4. Como sempre, inciso e certeiro nos comentários Humberto. Parabéns.

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  5. Batalha tem razão. E tudo acontece, não por escassez de recursos. Nem financeiro, pois o Estado vive época de "vacas gordas"... nem recursos humanos, poistemos os melhores do mundo (isso já foi provado). O que falta é inverter as prioridades. Decisões técnicas em detrimento das políticas.

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  6. Parabéns pelo blog.

    Gostaria de dar uma sugestão de artigo.

    Em que condições deve um policial deve reagir a assaltos etc quando estiver "à paisana"?

    Abraço

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  7. ansioso pela próxima atualização

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  8. Ja repararam que entre os mortos e feridos só tem APF e EPF e nenhum DPF, e nao basta dizer que estes nao sao operacionais, pois são os mais ávidos por um estrelismo midiático.

    Caesar Cornelius Sao Paulo/SP

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