domingo, 7 de fevereiro de 2010

O que eu faço quando alguém está atirando?


A resposta para esta pergunta é: depende.

Depende de onde você está, com quem você está, quem está atirando, quais opções você tem, e da sua habilidade.

De qualquer modo, os resultados mais comuns quando alguém está atirando em você são:

1) Você morre;
2) Você vai para o hospital;
3) Você foge;
4) Você atira de volta e o agressor foge;
5) Você atira com tanta concentração na tarefa e tão bem que o agressor é ferido ou morto;
6) Outra pessoa aparece e também atira, resultando num dos itens acima.

E as pessoas que querem matar alguém normalmente não param até que:

1) Tenham sucesso;
2) Acreditem que foram bem sucedidas;
3) O perigo aparece e elas têm que parar.

Então, a primeira questão é se o atirador está disparando especificamente em você ou se ele está atirando em outra pessoa e os projéteis estão indo noutra direção. Estes dois cenários são relevantes para a escolha da melhor estratégia de reação. De qualquer modo, seus objetivos devem ser:

1) Sair da linha de tiro;
2) Sair da visão do atirador;
3) Sair da área.

Enquanto estes objetivos também se apliquem para quando alguém está tentando matá-lo, devido à gravidade da situação, você provavelmente precisará fazer algo mais para se salvar. Mas quando o atirador está disparando noutra pessoa, provavelmente ele vai estar muito ocupado para se preocupar com você. De qualquer forma, as estratégias mencionadas são padrões de comportamento muito eficazes.

Agora observe a ilustração ao lado. Imagine que as setas que formam o V representam a fatia de um bolo e que o atirador está na ponta mais estreita (o vértice). Assim, quanto mais distante do atirador, mais larga é a fatia, e do ponto de vista dele, menor é o alvo (perspectiva). Do modo contrário, quanto mais perto do atirador, mais estreita é a fatia, e maior o alvo.

A distância é um fator importante porque se o atirador não apontar a arma direito, mesmo que ele queira atirar no alvo, existe uma boa chance dele errar. Desse modo, quanto mais longe do atirador, maior a margem de erro. Assim, o problema aqui não é o tamanho da arma ou do calibre, mas o tamanho do alvo que você representa para o criminoso. Voltando à ilustração, se você se distancia do atirador, isto significa que seu corpo preenche apenas ¼ da fatia (representada pela figura oval de linha pontilhada), e não um inteiro (se você estiver próximo demais). Quer dizer, quanto mais você se afasta do atirador, mesmo dentro da fatia, menor a chance de você ser atingido.

Mas não interessa só se você está perto ou longe, porque o que importa também é que você ainda está dentro da fatia, e os projéteis lá dentro só vão parar quando atingirem alguma coisa ou alguém. E enquanto correr pode ajudar, o que você precisa fazer é sair da fatia.

Por isso é importante saber se o criminoso está atirando noutra pessoa. Se ele está disparando contra você, há uma grande chance de que ele se mova para colocar você dentro da fatia de novo.

Então, a segunda questão que vai determinar sua conduta é: você está dentro ou fora da fatia? Você está em uma área ampla e aberta ou num local onde existe uma cobertura (quando você não pode ser visto) ou um abrigo (quando os projéteis não podem lhe atingir)? Aqui também há uma diferença.

Se você está num local fechado com um atirador, SAIA JÁ! Infelizmente, muitas pessoas se abaixam ou tentam se esconder atrás de mesas e portas. Se for preciso jogar uma cadeira na janela para criar uma saída, faça isso! Correr para outro ambiente pode lhe fornecer tempo para criar outra rota de fuga também.

Outra coisa que você precisa fazer quando estiver saindo de um tiroteio em um ambiente fechado é NÃO PARAR. Quando mais longe você estiver, menor a chance de ser atingido por um tiro.

Mas se você está num local aberto e um tiroteio começa, ENTRE EM ALGUM LUGAR, mas não pare para ver o que está acontecendo. Entre no prédio e ganhe distância da entrada. Fazendo isso, você sai da linha de tiro, da visão do atirador e está coberto e abrigado.

Se você está um local aberto e muito amplo onde não existe cobertura ou abrigo, CORRA! Aumente ao máximo a distância entre você e o atirador. Lembre-se sobre o que foi dito a respeito da distância. Se no meio do caminho, você encontrar algo que possa protegê-lo, continue correndo, e coloque o objeto entre você e o atirador para que sua fuga fique protegida.

Talvez o mais importante seja saber o que não fazer. Portanto, quando alguém estiver atirando não fique parado de pé para ver o que está ocorrendo. O som típico dos tiros já diz que alguma coisa complicou. Ficar parado de pé faz você um alvo estacionário que pode ser visto pelo atirador.

A terceira consideração é se o criminoso está realmente querendo matar você. Se ele está decidido em fazer isso, então ele vai rastrear você até colocá-lo dentro da fatia do bolo e se aproximar o máximo para acertar o maior número de tiros. E é aqui que os seis resultados mais comuns de quando alguém está atirando em você ocorrem.

Se você for atingido uma vez, mas socorrido com qualidade e rapidez, sua chance de sobrevivência é muita grande. Mas se você ficar parado suas chances diminuem à medida que você leva mais tiros à queima-roupa.

O quarto aspecto se refere às pessoas que estão com você. Ser capaz de proteger a própria família é um item importante na decisão de ter e usar uma arma de fogo.

Desse modo, você precisa reconhecer que sua tarefa se assemelha ao trabalho de segurança de dignitário, no qual a primeira prioridade é conduzir a pessoa para longe do perigo ao invés de ficar parado trocando tiros com os agressores. Ou seja, você leva a pessoa para a primeira entrada disponível, para dentro do carro ou do edifício, mas sempre para longe do perigo.

Contudo, se você sente que tem de atirar também, a primeira coisa que precisa fazer é se mover para uma posição diferente. Fazendo isso, você vai forçar o atirador a mover a fatia do bolo para reenquadrá-lo. Por quê? Porque o criminoso perceberá que a resistência (e o perigo) vem da sua parte e não da sua família. Assim, sua família ficará fora da área de ação do criminoso e poderá se salvar.

Porém, se o criminoso estiver atirando em você de propósito e você estiver sozinho... é para esta situação que serve seu treinamento de tiro de combate, de autodefesa, em ambiente confinado, tático, defensivo, etc. Não importa o nome que se dê para isso, pois você ainda precisa se afastar dele, sair da fatia e não parar de atirar até que o perigo desapareça. Aí você vai ficar surpreso com a rapidez com que o criminoso irá fugir quando você estiver atirando nele.

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal e professor de Armamento e Tiro lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG.
E-mail: humberto.wendling@gmail.com
Blog: www.comunidadepolicial.blogspot.com

7 comentários:

  1. Parabéns pelo artigo.
    Apenas para complementar,existe uma frase escrita no estande de tiro da Academia de Polícia de Miami a qual diz: Não deixe Hollywood te matar!
    Nos filmes,quase sempre os ''moçinhos''começam um confronto armado no meio da rua,nunca são alvejados e os bandidos ''voam'' quando são atingidos por algum disparo de uma espingarda calibre 12,ou quando atingidos por tiros dipsrados de algum outro tipo de arma,caem instantaneamente.
    Isso tudo não passa de uma grande boabagem e mentira,pois na vida real as coisas são bem diferentes.Sempre que possível,que a situação nos permita,devemos ter algo de proteção entre nós e o agressor,de preferência um abrigo ou coberura,porque dessa forma, teremos menos chance de sermos alvejados, e mais chances de acertarmos nossos tiros,aumentando em muito a chance de sermos bem sucedidos em um confronto armado.

    Giovanni Zanella IAT

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  2. bom,
    como sou colega tb tenho q tecer somente os seguintes comentários sobre seu artigo, de resto esta perfeito:
    A respeito do termo "antigao" falo o seguinte: existem antigoes e antigoes: tem aquele que se acha foda e na verdade nunca fez nada em prol do departamento, se escondem atras da matricula
    se achando O policial, alguns falam q novinho tem que se fuder!!! quando falam com vc, sendo que alguns cagam na sua cabeça....enfim nem sempre antigao é referencia. Tem novinho q são ponta firme e trabalham muito mais q qualquer antigao, sem falar da teimosia de alguns.
    é isso....
    DPF/SR/???

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  3. Caro Humberto,

    Mais um texto primoroso que busca passar procedimentos para os momentos mais difíceis que podemos enfrentar: luta pela sobrevivência.
    Continue com esse valoroso trabalho.

    APF MEDEIROS (SR/DPF/PB).

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  4. Muito legal...estava lendo uma reportagem onde policiais militares trocaram tiros com sequestradores e um dos policiais foi atingido e ficou paraplégico. Eles tinha apenas 3 meses na corporação. Na certa houve uma falta de experiência. Ou sorte mesmo?
    Link da reportagem: http://www.pbagora.com.br/conteudo.php?id=20100403080815&cat=policial&keys=pms-revelam-arma-policial-falhou-durante-sequestro-bairro-cabo-branco

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  5. Parabéns irmão! Sua matéria é de muita valia para nós. Tenho quase 19 (dezenove) de PMGO, e sem dúvida, ratifico o que você disse. Hoje se pudesse voltar o tempo, não cometeria os mesmo erros, a final, a teoria sem a prática é morta. Se conseguirmos alinhar os dois, seremos ótimos profissionais.

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  6. Ótimo Artigo Prezado Colega.
    Apesar de novo na casa, já tive algumas poucas experiências em confronto e essas instruções, assim como aquelas repassadas pelos GRANDES PROFESSORES do SAT foram muito úteis, principalmente no que diz respeito à manutenção do controle mental e adoção dos procedimentos corretos.

    A prática como bem sabe, ainda é um tanto deficiente por vários fatores, mas principalmente pelo comodismo. Nós policiais, ainda não temos a exata noção do quão é importante a capacitação e o treinamento constante em nossas rotinas.

    Que sejamos todos conscientes da necessidade do aprimoramento contínuo e não tenhamos jamais, que contar com sorte.

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  7. Irmão, parabens pelos seus artigos, sou tenente da PM-RN, comando uma unidade no interior do estado, faço parte da Força Nacional, fui Fuzileiro Naval durante 10 anos, Comandei Grupo Tático, mas, com a experiencia de 15 anos como militar, vários treinamentos como fuzileiro(em termos de combate armado, prática de tiro e tal), passar 3 anos numa academia para formação de oficiais, nada disso importa, se não há um interesse real do policial em preparar-se sempre mais, e nunca acreditar que realmente eh o foda e que jah sabe de tudo, porque um dia a casa cai, na minha corporação, muitas pessoas adotam o termo: NHS = NA HORA SAI. Na hora num sai eh nada, ou o Policial cria uma disciplina individual de cuidar de si, do próprio organismo, dos ambientes que frequenta e das companhias com as quais costuma sair aliando tudo isso a planejamentos mentais frequentes e muita prática no treinamento pessoal-técnico-profissional, ou, ele será apenas mais um numero numa estatistica qualquer de mais uma baixa do lado dos MOCINHOS.
    Obrigado elos artigos, de antemão, peço-lhe sua permissão para reproduzir em meu blog policial, os artigos aqui encontrado, ou melhor, alguns deles, logicamente, com o devidos créditos, se houver algum problema em relação a isso, avise-me por favor, pois já estou postando-os, entendendo o vosso silêncio como uma permissão para tal ato, abraço e bom trabalho!
    ah, o meu blog:
    PMDETOUROS.BLOGSPOT.COM\
    FRANK WOLCZAK
    WOLCZ@MSN.COM

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