sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Retrospectiva policial: preparando-se para 2010!

O ano de 2009 está acabando e é vital que cada policial faça uma retrospectiva sobre suas ações durante e fora do trabalho.

É importante considerar quantas vezes você se afastou, inocentemente ou não, dos elementos básicos da autodefesa na atividade policial e nas horas de folga. Quantas vezes você permitiu que desconhecidos se aproximassem sem serem notados com antecedência. Quantas vezes você esqueceu ou deixou sua arma em casa ou dentro do carro. Quantas vezes você não algemou o preso porque ele parecia inofensivo. Quantas vezes você trabalhou sozinho. Quantas vezes você deixou de adquirir um equipamento de qualidade porque achou que era caro ou não era importante. Quantas vezes você agiu por impulso sem antes realizar uma análise da ocorrência. Quantas vezes você foi rude com um colega e outras coisas mais.

Sem esta retrospectiva, talvez você possa voltar ao trabalho em 2010 e, dia após dia, cometer os mesmos erros que cometeu no ano anterior. Você pode negligenciar os componentes críticos da sua estratégia de prevenção contra as ameaças à sua vida. Você pode cometer os mesmos erros que outros cometeram desde que a luta pela justiça e pela paz teve início.

Por isso, talvez a falta da lembrança do passado tenha sido um dos ingredientes que conduziu à morte nossos amigos policiais que trabalharam em 2009 em Osasco/SP, Belém/PA, Feira de Santana/BA, Rio das Ostras/RJ, Belo Horizonte/MG, Ji-Paraná/RO, Rio Branco/AC, Recife/PE, Cariacica/ES, Samambaia/DF, Confresa/MT, Foz do Iguaçu/PR, Manaus/AM, Picos/PI, Murici/AL, Porto Alegre/RS, Anápolis/GO, Areia/PB, etc.

Sua experiência e a prática de vida de outros policiais são uma das melhores ferramentas de aprendizado que você pode utilizar, principalmente numa profissão na qual uma decisão incorreta pode matar alguém, inclusive você. Experiências, boas ou ruins, devem ser revistas com o propósito de encontrar aquilo que fez toda diferença para o sucesso da ação quanto para localizar as falhas que conduziram à infelicidade.

Você não precisa mudar (na essência as pessoas não mudam), mas você é capaz de melhorar. E se tudo que você fizer na atividade policial possuir este espírito, então você corre menos riscos. Se você avalia as situações de perigo ocorridas no passado tanto quanto aquilo que foi feito de certo ou errado e o que precisa ser melhorado, então você tem a confiança e a coragem para enfrentar uma ocorrência perigosa.

Portanto, pergunte a si mesmo o que faria em determinadas situações; conte com um ferimento como preço justo pela sobrevivência; treine; permaneça pronto; cuidado com a rotina; saiba quanto vale sua vida; saiba por que você quer viver; porte sua arma; limpe sua arma; estabeleça sua segurança como primeiro objetivo; trate bem o amigo da força policial e diga que se 2010 for o ano em que sua sorte será lançada, então você fará o que precisa ser feito para vencer.

Pense positivo, revise sua conduta e permaneça em alerta, porque ao longo do tempo seus pensamentos se tornam suas ações. Observe suas ações porque elas se tornam hábitos e experiências, boas ou desagradáveis.


quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Será que funciona?

A posse de uma arma de fogo impõe uma série de responsabilidades, e após uma divertida sessão de tiros, um treinamento ou mesmo o porte num coldre dissimulado vem àquilo que alguns ainda consideram o trabalho duro, a parte chata, o desnecessário.

Mas a limpeza do armamento é o mais básico e importante item para quem tem uma arma. Com o cuidado e uma limpeza regulares, uma arma de fogo pode durar muitos anos. E isto é especialmente importante se você confia sua vida neste instrumento e pretende se aposentar usando a mesma arma que utiliza hoje no trabalho.

Contudo, uma breve inspeção durante a manutenção das pistolas usadas por 50 policiais demonstrou que apenas oito delas estavam limpas. Fios de cabelo, poeira, fiapos de pano, terra, cinzas de cigarro, tecido morto e resíduos de pólvora foram alguns dos itens encontrados nas armas. O curioso é que esta displicência abrangeu desde os policiais antigos e experimentados até os mais novos. Com certeza não é culpa da inexperiência e nem culpa da formação básica recebida. E o pior é que todos estes policiais sabiam que suas armas estavam em péssimas condições de limpeza. Só para constar, das oito armas em boas condições, quatro estavam assim porque seus usuários só as utilizam durante as operações policiais. Então eu não sei o que é pior: deixar uma arma limpa em casa ou uma arma porca no coldre!

Há alguns anos, os policiais reclamavam da qualidade das poucas armas existentes, da falta de munição, da ausência de treinamento, etc. Doze anos atrás, o policial recebia um revólver .38 SPL, conhecido por “canela seca”; os cartuchos eram contados como se fossem pedras preciosas; e quem desejava treinar pagava pela munição recarregada e pelo aluguel do estande. Hoje, cada policial recebe uma arma (cuja qualidade é internacionalmente reconhecida), três carregadores, 400 cartuchos para treinamento anual, além de contar com excelentes instrutores de armamento e tiro formados pela academia de polícia e um programa de treinamento instituído por norma. E o que alguns policiais fazem? Esquecem o passado, deixam as armas sujas e continuam reclamando.

Então será que na hora da verdade sua arma vai funcionar? Será que cada vez que você apertar o gatilho, um projétil será lançado em direção ao alvo ou àquele que quer matar você? Você garante que sua arma, na condição que está agora, é capaz de salvar sua família? Das 50 pistolas analisadas, é possível garantir que quatro funcionariam, pois estavam limpas, alimentadas e no coldre do policial. As outras quatro, apesar de estarem limpas, não funcionariam no momento da necessidade porque seus usuários simplesmente não portam armas. Quanto às demais, não é possível garantir coisa alguma!

Portanto, a primeira coisa que você pode fazer para garantir que sua arma funcione é adquirir um kit para limpeza de armas (que custa cerca de R$ 20). Estes kits estão disponíveis em lojas de acessórios de armas de fogo ou de caça e pesca, e são projetados para tipos específicos de armas (pistolas, fuzis, espingardas). Normalmente cada kit possui três varetas metálicas (com cerdas de latão, nylon e tecido), óleo, solvente e uma flanela. Velhas escovas dentais e pedaços de pano complementam o material. Com este equipamento em mãos, você pode fazer o seguinte:

Passo nº 1 – Certifique-se de que a arma está descarregada.

Passo nº 2 – Desmonte a arma sobre uma mesa plana, limpa e desocupada de modo que possa observar todas as partes e trabalhar com cada item de cada vez. Se você esqueceu como desmontar sua arma, pergunte ao colega instrutor de tiro ou leia o manual de instruções. Após a desmontagem, você terá cinco componentes sobre a mesa (o cano, o ferrolho, o conjunto da mola recuperadora, a armação e o carregador).

Passo nº 3 – Dependendo do nível de sujeira (chumbo e pólvora) grudada no cano, passe um pouco de solvente no interior do mesmo usando um pedaço de tecido. Depois, passe outro pedaço de tecido limpo para retirar o excesso de solvente. Introduza a vareta no cano (a partir da câmara até a boca) e a movimente para frente e para trás no sentido da rotação das raias. Utilize primeiro a vareta de cerdas de latão e depois a de nylon. Continue a passar um tecido limpo até que o cano esteja limpo. Se só houver poeira, dispense o solvente e limpe o interior do cano apenas com a vareta de nylon. Limpe a rampa de alimentação e a câmara até que não haja impurezas. Não lubrifique o interior do cano após a limpeza. Não use escova com cerdas de aço.

Passo nº 4 – Limpe o ferrolho com a escova dental e um pedaço de pano levemente embebido em solvente até remover qualquer depósito de pólvora visível e resistente. Use a flanela para retirar as impressões digitais e qualquer vestígio de óleo/solvente que existir. Lubrifique apenas as partes indicadas no manual de instruções usando uma ligeira camada de óleo.

Passo nº 5 – Use a escova dental e um pedaço de pano levemente embebido em solvente para retirar resíduos de pólvora resistentes encontrados na armação. Na ausência destes resíduos, dispense o solvente e apenas escove a armação para retirar a poeira.

Passo nº 6 – Limpe os carregadores com a escova dental. Se for preciso limpá-los por dentro, desmonte-os observando a posição das peças. Utilize a escova ou a haste de cerda de nylon até remover todos os sinais de sujeira. Remonte os carregadores. Não use óleo ou sprays.
Passo nº 7 – Remonte a arma, evitando o excesso de óleo em qualquer componente. Não use grafite. Não use desengraxantes.

Passo nº 8 – Limpe o kit de limpeza de vez em quando.

Talvez você gaste 15 minutos, e por ser um procedimento tão simples e rápido não há desculpa para não colocá-lo em prática pelo menos uma vez por mês.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Por que evitar o perigo é a melhor estratégia?

“O Policial Civil L. foi encontrado morto em Sobradinho/DF com um tiro no coração. A vítima estava em serviço, sozinho, em uma viatura descaracterizada. Houve tentativa de reação por parte do policial, que estava com a arma na mão. Como ele estava em serviço, existe a hipótese de que tenha recebido um chamado de um informante e sido vítima de uma emboscada. L.C. era um policial antigo, experiente, atleta e fazia um excelente trabalho. Ele era um ótimo policial, investigador e linha de frente.” (Tribuna do Brasil, 09/10/2009).

“O Policial F. foi morto com sete tiros na madrugada desta quinta-feira. Segundo a polícia, ele teria reagido a um assalto, sendo assassinado com sua própria arma.” (Portal ORM, 08/10/2009). “Elas são garotas de programa e atraíram a vítima. Elas entraram em contato com os assaltantes e eles já estavam à espera do carro, mas não sabiam que ele era policial. As meninas são responsáveis por fazer a ‘casinha’ para atrair as vítimas até o canal, onde posteriormente são abordadas pelos assaltantes. Para disfarçar, as garotas fingem que são vítimas.” (Portal Gterra, 09/10/2009).

Logo após saber sobre os terríveis assassinatos desses policiais, o primeiro em Brasília/DF e o outro em Belém/PA, um colega disse transtornado: “Eles só morreram porque eram policiais!” Mas embora esta afirmativa seja verdadeira em muitos casos de homicídios de policiais, é preciso perceber outro elemento importante nas ocorrências.

Esse outro elemento se combina com a escolha profissional para formar a razão principal pela qual policiais acabam envolvidos em ocorrências perigosas e violentas. E então só é preciso uma fração de segundo para que você seja arrastado para uma situação além do seu controle. E o estrago que você vai sofrer como resultado da violência irá durar a vida toda, de um jeito ou de outro.

A violência é uma situação extrema, e as regras convencionais não se aplicam em situações desse tipo. As prioridades do cotidiano e os conceitos de civilidade que você possui não se aplicam. O importante é reconhecer quando você está se comportando de maneira arriscada para que saiba quando seu modo de vida não é suficiente para mantê-lo protegido. Para estar a salvo, você deve estabelecer uma prioridade maior em relação à sua conduta cotidiana: sua segurança.

Assim, ostentação, vaidade, despreocupação, orgulho, preguiça, falta de tempo, EXCESSO DE AUTOCONFIANÇA e BOEMIA parecem muito importantes até que você esteja diante do cano de uma arma.

Mas se você nunca se viu diante dos horrores da violência, as chances estão contra você reconhecer os sinais de perigo. E sem conhecer sinais óbvios, são boas as chances de que você continue agindo na sua forma habitual. Fazendo isso, você aumenta sua possibilidade de ser vitimado pelo crime e pela violência, pois não está efetivamente evitando o perigo.

Para muitas pessoas, inclusive policiais, a ideia do uso da força física é ao mesmo tempo terrível e repulsiva. Sabendo que muitos não desejam ou não querem usar a força física para se proteger, evitar o perigo se afastando de conflitos e de indivíduos perigosos (homens ou mulheres) é a razão principal para você utilizar o mecanismo da PREVENÇÃO. Estado de alerta, hábitos saudáveis, CONVÍVIO COM PESSOAS DISTINTAS EM AMBIENTES SELECIONADOS e TRABALHO EM DUPLA são estratégias muito mais compensadoras que o uso da força física ou letal. Lembre-se: sua primeira linha de defesa é a prevenção; depois a sua arma de fogo.

Para evitar ser vitimado, você deve ter certo grau de flexibilidade mental. Isso significa permitir a você mesmo fazer o que for necessário para vencer um combate, tanto quanto evitar o confronto violento sempre que possível.

Em resumo, toda vez que você sai de uma situação potencialmente violenta sem ser roubado, espancado ou assassinado, e sem usar a força física, já é uma vitória. E não importa como você evitou a situação.

Mas você está em perigo? A resposta é: DEPENDE. Risco é uma questão de graus. Seu risco aumenta ou diminui dependendo de sua atividade e comportamento.

Existem estilos de vida em que a violência é generalizada. Se você vive de certo modo ou ASSOCIADO A CERTOS TIPOS DE PESSOAS (como garotas de programa das periferias e informantes), seu grau de risco aumenta. Por exemplo, se você frequenta boates, botecos, áreas de prostituição, chega bêbado em casa, namora dentro do carro e se encontra sozinho com um informante numa estrada isolada, então sua chance de ser vitimado um dia é grande. Crime, violência e suas infelizes consequências são o resultado natural de modos particulares de pensamento e comportamento. Dessa maneira, não é uma questão de “se acontecer”, mas “quando”.

Enquanto pesquisadores tentam estabelecer razões sociais, fisiológicas e psicológicas para a criminalidade e a violência, está claro que pessoas violentas e delinquentes tendem a serem violentos. E isso é o que basta para você manter distância desses indivíduos!

Comportamento de risco consiste largamente em se envolver com pessoas ou situações perigosas. Essas situações conduzem você a estar próximo de pessoas predispostas a cometerem atos violentos. De um modo ou de outro, elas estão mais inclinadas a se tornarem violentas com as pessoas que conhecem ou que estão envolvidas com elas. Então, quanto menos você se envolve em certos tipos de comportamento, mais você reduz sua chance de ser selecionado como alvo de criminosos.

Se suas ações ou comportamento não o colocam em uma categoria de risco, então simplesmente seu bom senso pode reduzir a possibilidade de você se tornar uma vítima.

Contudo, se você está envolvido em uma conduta de alto risco, como policial sua arma pode até ajudá-lo em alguma coisa, mas não será suficiente para salvar você. Por quê? Porque é mais fácil fazer algo para evitar a violência do que se safar no meio de um confronto armado repentino e a curta distância.

Sua segurança SEMPRE deve estar em primeiro lugar!

domingo, 20 de setembro de 2009

Como você opera em ambientes com baixa luminosidade?

A qualidade da visão dos seres humanos muda pouco entre as pessoas com visão normal. No entanto, qualquer diferença para menos pode ser importante se algum suspeito possuir o mesmo treinamento e a mesma perspicácia que você. Por exemplo, se o suspeito possui uma acuidade visual de 20/20 (visão normal) e você uma de 20/29, então isto significa que seu oponente pode ver você a uma distância 14,5% maior do que você pode vê-lo. Esta diferença é considerável se você imaginar o pouco tempo disponível para reagir a uma agressão iminente, quando é desejável perceber a ameaça com antecedência.

Entretanto, o exemplo citado está fundamentado na Escala Optométrica de Snellen, que infelizmente só analisa a quantidade de visão, e não sua qualidade. Esse teste avalia sua capacidade de ver um objeto preto com extremidades regulares sobre um fundo branco, simulando uma condição de dia claro. E como fica o período noturno ou as situações com baixa luminosidade?

Bem, se você considerar que cerca de 80% de toda informação sensorial é percebida pelo sistema visual, então você deve compreender a importância da capacidade de enxergar bem em qualquer situação, principalmente quando há falta de uma iluminação consistente. Assim, o uso de uma boa lanterna é tão importante quanto à própria arma, porque se você não pode ver, também não pode se defender!

Já há certo avanço no treinamento policial brasileiro no qual se emprega algum tempo na utilização de uma ou outra técnica com lanterna em ambiente com baixa luminosidade. Técnicas com lanternas são importantes e precisam ser compreendidas, contudo, existe mais num ambiente mal iluminado do que simplesmente segurar uma lanterna.

O típico treinamento de tiro em ambiente mal iluminado consiste em aguardar o período noturno e alinhar os atiradores numa linha estática diante dos alvos. A seguir, os atiradores sacam as armas e as lanternas, e atiram nos alvos iluminados. Porém, a questão não é só aprender uma técnica de tiro nesta condição, mas saber como usar a lanterna e se comportar taticamente numa situação na qual o tiro só pode ser realizado depois de você encontrar um agressor potencial, o esconderijo onde ele pode estar e os objetos que ele pode usar para atacá-lo. Quer dizer, isso significa mais do simplesmente juntar a arma com uma lanterna para atirar no escuro.

Como nenhum policial é igual a outro e nenhuma técnica de uso de lanterna é a resposta definitiva para todas as situações com iluminação inconsistente, você precisar aprender e treinar diversas técnicas (Harries, Roger, FBI, Chapman, Ayoob, Marine Corps, Hargreave Lite-Touch, Keller, Neck Index, NYPD, Guisande e outras que surgirem) porque uma pode se adaptar melhor que outra à exigência da circunstância. Ao treinar técnicas variadas você também pode perceber qual delas se adapta melhor ao formato da sua mão e qual lanterna se acomoda melhor à técnica treinada.

Além disso, você precisa compreender de modo sucinto os aspectos fisiológicos e psicológicos que pode encontrar durante uma ação num ambiente mal iluminado. Mais uma vez, a compreensão desses fatores permite que você treine técnicas que funcionam em um ambiente particular e perceba suas limitações e vantagens. Estes são fatores que afetam qualquer pessoa que trabalha num local deste tipo.

Então, o que você precisa saber sobre o olho humano é que ele possui uma estrutura interna denominada retina. Ela recebe a luz que entra no olho e a transforma em estímulos elétricos, os quais são enviados ao cérebro por meio do nervo óptico. A retina possui dois tipos de células fotorreceptoras: os cones e os bastonetes. Os cones, no centro da retina, são responsáveis pela nitidez da imagem, pela riqueza de detalhes e pela distinção das cores. Mas na escuridão, os bastonetes, na periferia da retina, assumem o controle e permitem que você perceba tons de cinza, movimento e imagens com ângulos abrangentes, porém pouco detalhadas. Cones e bastonetes funcionam conjuntamente em todos os níveis de iluminação, mas cada um trabalha até seu limite possível. Infelizmente, os bastonetes não possuem uma resolução visual tão boa, mas são mais sensíveis à luz que os cones. Por isso, em ambientes com baixa luminosidade, sua visão passa a depender exclusivamente deles.

Nos bastonetes existe uma proteína chamada rodopsina, que é o elemento decisivo para a visão noturna. Quando a luz entra no olho humano e atinge a rodopsina, esta se decompõe em diversos compostos intermediários. Estes compostos produzem impulsos elétricos que são transmitidos ao cérebro e interpretados como luz. Finalmente, a rodopsina precisa se recompor para que o processo volte a ocorrer caso haja nova exposição à luz. Esta recomposição segue uma taxa constante e lenta. Então, quando você é exposto à luz intensa toda a rodopsina se decompõe, e ao apagar a luz e tentar ver novamente no escuro, você simplesmente não consegue. Como não há rodopsina, os bastonetes ficam inutilizados devido à fadiga química até que ocorra a recomposição da proteína entre 10 a 15 segundos.

Num teste empírico, coloquei um objeto sobre uma prateleira a um metro de distância. Depois que escureci totalmente o ambiente, direcionei o feixe de luz de uma lanterna convencional para olhos até sentir um desconforto. Desliguei a lanterna, e imediatamente cronometrei o tempo necessário para que, no escuro, eu pudesse perceber o contorno daquele objeto sobre a prateleira. Tempo: 19 segundos. Agora, imagine isso sendo feito com uma lanterna tática de 240 lúmens.

Assim, outro objetivo da lanterna é provocar essa fadiga química por meio do ofuscamento da visão para causar distrações (desatenção, descuido), perturbações (desordem, confusão) e cegueira momentânea. Como a adaptação completa da visão às mudanças de luminosidade é um processo gradual que começa a partir do pôr-do-sol e leva aproximadamente 30 minutos, qualquer exposição à luz intensa, mesmo por dois segundos, força o reinício de todo o processo de adaptação.

O inverso segue a mesma dinâmica, ou seja, se você passa imediatamente de um ambiente iluminado para outro escuro, você fica praticamente cego por alguns instantes até que ocorra a adaptação. Você ainda perde a capacidade para estimar distâncias e identificar objetos. Novamente, a lanterna impede que você fique completamente cego devido ao pouco tempo disponível para a adaptação em um ambiente mal iluminado durante uma operação policial; o que é outra vantagem tática.

Além disso, é importante saber que sua visão noturna se deteriora conforme você envelhece, e logo, a quantidade de luz que você precisa em um ambiente mal iluminado é maior com a idade. Isso significa que um criminoso mais jovem enxerga melhor que você nessa situação.

De qualquer forma, é possível afirmar que ninguém enxerga muito bem no escuro. Por isso, seu cérebro tentará preencher as lacunas deixadas por aquilo que seus olhos não conseguem ver. É quando você “enxerga” aquilo que não existe. Isto se torna mais difícil de gerenciar em situações estressantes típicas das operações policiais.

Uma forma de compensar os efeitos das condições de baixa luminosidade é manter a mente focada no objetivo e no seu comportamento durante a ação, mas deixando sua lanterna ligada o suficiente para você identificar o que está vendo antes de assumir o que é ou não uma ameaça letal. De novo, treinos com lanternas não precisam incluir, invariavelmente, o disparo da arma. Aqui, o que você precisa saber é como manobrar sua lanterna (para enxergar melhor) e sua arma (para estar preparado para uma eventualidade) numa situação de busca.

Mas nos treinamentos, os policiais raramente utilizam algum tempo para realizar a identificação do alvo. Eles falham na identificação de um alvo que não pode ser considerado uma ameaça daquele que pode ser. E então, os policiais sempre atiram!

Se você se movimenta, domina o local e identifica o suspeito, então sua lanterna se torna uma opção no uso progressivo da força por causar cegueira momentânea, confusão e receio no suspeito. Um benefício em relação à força letal.

Portanto, imagine que você pode dominar alguém por 10, 15 ou 19 segundos usando apenas a luz da sua lanterna tática, reduzindo a capacidade do indivíduo em vê-lo claramente e estabelecer qualquer tipo de tentativa de ataque ou fuga enquanto você se aproxima.

Temporariamente cego, o suspeito não pode identificar você, determinar se você está sozinho, procurar uma rota de fuga, localizar uma proteção ou uma arma. Então, existe alguma vantagem em colocar um suspeito em uma situação na qual ele precisa de algum tempo para restabelecer a acuidade visual? Claro que sim, e isso é uma vantagem tática diferente de simplesmente atirar com uma arma e uma lanterna.

Se você tem uma lanterna tática de qualidade e sabe como usá-la, você estará em vantagem toda vez que entrar num local mal iluminado. Você saberá o que fazer quando o corredor a ser observado vira para a esquerda ou para a direita; qual técnica deve ser utilizada para uma busca e qual deve ser usada durante o tiro; saberá como se comportar quando outro policial estiver junto com você de modo que o potencial das duas lanternas seja somado para aumentar a vantagem tática, ao invés de um policial iluminar diretamente o outro ou marcar sua silhueta iluminando suas costas; saberá aproveitar a escuridão de modo a ver sem ser visto; saberá quando a luz que entra pela porta ou a própria lanterna está criando uma iluminação indireta no local; saberá como se mover no local e que técnica usar nas várias situações de um mesmo ambiente com baixa luminosidade. Não é preciso dizer que para isso você precisa receber treinamento adequado, ter um equipamento de qualidade e ser confiante para aplicar as técnicas.

Uma das coisas mais importantes que você pode fazer para melhorar sua sobrevivência no trabalho policial é compreender como operar em um ambiente com baixa luminosidade. Você pode ter a lanterna, mas ainda precisa do conhecimento para controlar o ambiente. Você precisa desenvolver o conhecimento, a ferramenta, as técnicas e táticas comportamentais para dominar a escuridão ao invés de simplesmente atirar com uma arma numa mão e a lanterna na outra.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Por que você quer viver?

Não existe um policial sequer que não queira voltar para casa são e salvo depois de um dia de trabalho. E não importa se você é policial federal, rodoviário, civil ou militar; se é policial operacional ou administrador, investigador ou corregedor, aviador ou patrulheiro. A verdade é que todos querem vencer qualquer confronto de vida ou morte que possa surgir.

Também é verdade que aqueles que já lutaram pela própria vida não tiveram tempo ao menos para piscar, e o que dizer então sobre a capacidade de reflexão. Mas como todo treinamento deve começar com o desenvolvimento de uma mente orientada para a vitória e para a superação de obstáculos, uma pergunta torna-se fundamental. E a resposta a esta questão jamais pode ser esquecida ao longo da sua jornada contra o crime e a violência.

Você já pensou sobre o que o motiva para continuar a salvo? O quê alimenta sua vontade de viver?

É da natureza do ser humano fugir ao menor sinal de perigo, e ainda assim você escolheu uma profissão na qual se sente compelido a correr em direção aos tiros, apartar brigas alheias em bares durante as madrugadas, abordar pessoas sem saber o que vai encontrar ou trabalhar em custódias sabendo que cada dia de trabalho será ao lado de criminosos profissionais. Apesar das estatísticas precárias, você sabe que pelo menos 490* colegas policiais serão mortos até a metade de cada ano e que você não vai ficar rico fazendo isso. Mas mesmo assim você volta para o trabalho todos os dias na esperança de ser o vencedor de cada conflito.

Nas aulas de sobrevivência policial da academia de polícia, os professores terminam a apresentação dizendo que “Hoje pode ser mais um dia normal na sua vida, ou pode ser o dia em que você será testado sobre tudo o que aprendeu.” Eles não querem que você apenas resista aos encontros mortais. Eles querem que você VENÇA (física, emocional, espiritual e legalmente)! De fato, os professores trabalham muito para conduzir e manter cada futuro policial neste estado mental de vencedor ao longo do curso. Já no primeiro minuto eles mostram uma fotografia dramática de um policial que não venceu e que foi morto em um encontro cruel e sem sentido com criminosos. E então eles prosseguem dizendo: “Prepare-se”.

Mas agora é hora de pensar seriamente no seu próprio motivo para vencer. Você precisa descobrir aquilo que vai lhe deixar mais alerta, mais forte, capaz e orientado para triunfar diante do perigo que ronda sua profissão. Ou seja, o que motiva você quando as coisas saem do controle?

Para o Agente M. A. L. a ideia de não poder presenciar a formatura dos filhos e a lembrança de que seu próprio pai não esteve presente em sua formatura no passado fizeram com que ele reagisse durante um assalto. Ele descarregou sua arma contra dois criminosos que tentavam roubar seu carro e enquanto recebia uma chuva de balas numa luta de vida ou morte. A distância entre eles era de aproximadamente 2,5 m. O policial atingiu três vezes um dos criminosos e conseguiu voltar para casa ileso. (Belo Horizonte/MG).

Já para o Agente G. A. M. estar no banco do motorista enquanto um assaltante armado, também dentro do carro e no assento de trás, apontava uma arma para sua filha de 12 anos era algo inconcebível. Foi esse pensamento combinado com a raiva que ele canalizou como motivação para disparar sua arma e acertar três dos cinco tiros no criminoso que morreu logo depois. No dia seguinte o policial pôde como ele mesmo disse “... beijar minha filha e educá-la para um país melhor, onde o bem vencerá o mal.” (São José do Rio Preto/SP).

Mesmo enquanto estava imóvel e caído dentro de um ônibus, com pouca chance de sobreviver ao tiro à queima roupa que recebeu na nuca depois de reagir a um assalto e matar um dos criminosos, o Delegado E. G. A. tirou forças da sua crença para dizer a si mesmo que sua hora não havia chegado e sair andando do hospital algum tempo após a ocorrência. (Rio de Janeiro/RJ).

Para outro Policial, vítima de sequestro-relâmpago, foi a ameaça de morte feita pelo delinquente que descobriu sua carteira funcional que despertou seu desejo de continuar vivo. Os dois assaltantes foram mortos, mas a última frase de um deles foi “Ele é polícia, vamos levar pra BR e matar”. Certamente ser encontrado morto e jogado num matagal ao longo de uma rodovia não estava no plano do policial. Ele conseguiu acertar todos os cinco tiros disponíveis em seu revólver snub. Talvez ele tenha jurado não morrer de modo tão deprimente. E ele não morreu! (Goiânia/GO).

O Policial G. S. B. F. utilizou sua habilidade de instrutor de tiro para desarmar um homem que apontava um revólver para ele num posto de gasolina. O policial concentrou sua força mental e física a ponto de ver o tambor da arma iniciando seu giro. Ele agarrou a arma, e depois de lutar com o indivíduo, conseguiu tirá-la dele. O policial venceu o confronto porque ele conscientemente treinou para vencer. (Brasília/DF).

E você, já pensou sobre o que o motiva a vencer? O que força você a seguir em frente? Isso é algo que você deve descobrir e treinar mentalmente, e é algo que pode mudar completamente sua carreira policial e sua vida.

A primeira vez que eu achei que ia morrer, eu fui motivado simplesmente pelo egoísmo e pelo orgulho. Eu tinha acabado de comprar uma Glock, a menina dos olhos de qualquer policial na época, e não podia deixar aquele assaltante tomá-la de mim. A arma era minha, e eu precisava ter certeza de que ninguém mais tocaria nela. Além disso, que explicação eu daria aos meus colegas se eu falhasse. Mas isso foi em 1998. Agora eu tenho uma família e são eles que me motivam a vencer, afinal não deve ser bom acordar sabendo que o pai que eles amam não existe mais.

Minha família também é a razão para eu melhorar meu estado de alerta, meus estudos, minha capacidade física, minha confiança e minhas habilidades. Eu preciso vencer os incidentes que encontrar para que a nossa vida siga seu rumo natural.

Então, pense bem sobre o que quer que motive você. Visualize mentalmente uma situação perigosa e hipotética. Lembre-se da sua motivação e treine para que isso faça você melhorar, lutar com todas as forças até o fim e seguir em frente não importando o que aconteça.

Vencer não significa apenas não ser morto, mas também significa vencer o resultado de cada incidente crítico tanto física quanto emocionalmente. Significa saber o que é importante e quem é importante na sua vida.

Se você tem alguma resposta para a frase “Por que você quer viver?”, me diga e comente com seus colegas o que motiva ou motivou sua vitória. Afinal, nesta atividade os policiais aprendem melhor uns com os outros.

*Fonte: Ministério da Justiça. Secretaria Nacional de Segurança Pública. Departamento de Pesquisa, Análise de Informação e Desenvolvimento de Pessoal em Segurança Pública. Pesquisa Perfil Organizacional das Polícias Civis e Militares. 2005. Não contém dados das PC dos Estados de SP, BA, PB, PI, RO e SC. Não contém dados das PM dos Estados de AM, DF, ES, PA, PB, PI e SP.


terça-feira, 9 de junho de 2009

A arma disparou, mas foi sem querer querendo!

Numa reserva de armamento, o policial encarregado vê uma submetralhadora HK MP5 sem o carregador e com o ferrolho aberto. O policial, presumindo que a arma está descarregada, libera a alavanca de manejo (Ei! Você examinou a câmara?), destrava a arma, pressiona o gatilho, e BANG!

Durante uma operação, outro policial entra na viatura, aponta um fuzil HK G36 para o assoalho. Para conferir se a arma está carregada, ele destrava a arma (Epa! Você tem certeza de que vai fazer isso aqui dentro?), aperta o gatilho, e POW!

Em outra reserva de armas, policiais chegam de uma atividade e decidem devolver as pistolas recém compradas pela organização policial. O encarregado recebe cada pistola, pergunta ao usuário se a arma está alimentada, retira o carregador, manobra o ferrolho, aponta para uma direção segura e aperta o gatilho. Como as armas são novas, uma pequena camada de óleo fica impregnada nas mãos do encarregado. Lá pela vigésima arma recebida e com os ferrolhos já escorregando pelas mãos, o policial continua sua rotina: recebe, pergunta, retira, manobra e aperta. BUMM! Um projétil fura uma bancada, uma mesa e se estilhaça no piso. Ops! Eu acho que o ferrolho não foi totalmente à retaguarda!

Num treinamento de tiro, o instrutor faz recomendações sobre a segurança e a conduta no estande. Um policial chega apressado e se une ao grupo para as instruções. Ao se lembrar de que a arma está carregada, ele manobra o ferrolho (Opa! O carregador continua na arma!), aponta para os pés do instrutor e pressiona o gatilho. BAM! Na iminência da lambança, o instrutor se afasta evitando ser atingido pelo projétil que perfura o piso.

BANG, POW, BUMM e BAM são onomatopeias que imitam o som de um disparo de arma de fogo. Infelizmente, os eventos narrados ocorreram de fato e representam algumas das situações que envolveram disparos acidentais. Portanto, um disparo acidental é um evento no qual uma arma de fogo é disparada num momento não esperado pelo usuário.

Com as armas atuais, o disparo acidental mais comum ocorre quando o gatilho é intencionalmente acionado com um propósito diferente de quando se está num tiroteio. E isto ocorre durante os acionamentos em seco, nas inspeções do armamento, nas demonstrações ou testes de funcionamento, mas quando um cartucho está, inadvertidamente, na câmara da arma. Em muitos casos, pode-se dizer que os disparos são acidentais. Mas em outros episódios, os tiros inesperados são pura imprudência. Ou seja, para saber se uma arma está carregada ou não, o policial simplesmente aperta o gatilho. É como se você quisesse testar o airbag batendo violentamente seu carro contra um poste.

Apesar da aparência de que disparos acidentais ocorrem somente com atiradores mal treinados, a existência de uma arma sem o carregador pode sugerir pelo aspecto que ela está descarregada, mesmo que tenha um cartucho na câmara. Esta sugestão perigosa também pode acontecer quando armas carregadas/alimentadas são deixadas displicentemente em qualquer lugar.

Um disparo acidental também pode ocorrer quando o policial coloca o dedo indicador sobre o gatilho antes de ter decido atirar. Com o dedo posicionado desta forma, muitas coisas podem fazer com que o dedo pressione o gatilho de modo não intencional. Por exemplo, se o policial coldrear a arma com o dedo no gatilho, um tiro acidental é bem provável; se ele tropeçar, cair ou se atracar com um suspeito, o instinto de contrair os músculos de uma mão para segurar o suspeito pode provocar um tiro acidental, uma vez que os músculos da mão que empunha a arma também serão contraídos (reflexo intermembros).

As regras básicas de segurança reconhecem estas possibilidades e existem para prevení-las. De todas as regras, o controle do cano e do dedo do gatilho são as mais importantes. Assim, sempre mantenha sua arma apontada para uma direção segura de modo que um disparo acidental não mate alguém (atenção aos ricochetes ou fragmentos de projéteis). Segundo, nunca coloque o dedo no gatilho a menos que você esteja atirando intencionalmente. Mesmo que você esteja diante de um suspeito e talvez precise atirar, manter o dedo fora do gatilho previne que a resposta motora involuntária causada por um susto, uma pancada, um solavanco ou desequilíbrio faça com que seu dedo se contraia disparando um tiro em alguém que já se rendeu – como infelizmente já ocorreu quando um policial bateu com a coronha da pistola no pescoço de um torcedor de futebol.

“Tal morte desnecessária pode deixar você emocionalmente perturbado, financeiramente empobrecido e fisicamente preso!”, é como resume Massad Ayoob, instrutor de tiro e autodefesa.

Portanto, não importa como você chama cada projétil que sai da sua arma sem querer (acidental, involuntário, negligente, imprudente, fortuito ou não intencional), pois o resultado disso pode ser mortal e transformar sua vida num inferno. Assim, aprenda a lidar e treine com as armas da sua organização policial, mesmo que você imagine que jamais precise usá-las. E nunca acredite em alguém que lhe diz que sua arma está descarregada.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Entre atirar ou morrer!

Em 19 de janeiro de 2009, quatro Policiais foram designados para cumprir mandados de prisão e de busca e apreensão na residência de traficantes de drogas numa cidade mineira.

Eram 6 h da manhã quando a equipe chegou ao local e se dividiu em duplas; dois Policiais entraram pela porta principal da casa e os outros dois seguiram por um corredor lateral até os fundos do lote, cercando o lugar. Um muro de concreto pré-moldado dividia a porta principal daquele corredor; por isso, tão logo as duplas se posicionaram para a entrada, elas ficaram definitivamente separadas.

De repente, a dupla que entrou pelo corredor foi surpreendida por dois indivíduos fisicamente poderosos, resistentes, ágeis, autoconfiantes, altamente inteligentes, capazes de tolerar a dor e com vontade de lutar até o fim. Se isso não bastasse, estes indivíduos carregavam uma herança genética herdada de seus ancestrais que atacavam touros, ursos, cavalos e outros cães em eventos medievais denominados Bull Baiting.

A agilidade desses indivíduos é considerada tão grande que eles são capazes de transpor muros e usar os dentes para escalar cercas de proteção. Quando estão nas ruas, eles devem usar focinheiras, enforcadores ou coleiras resistentes, sendo conduzidos com guias curtas e por pessoas com força física suficiente para contê-los no caso de ficarem violentos.

Local do incidente.Então, ao ver os cães da raça Pit Bull “voando” em sua direção, o Policial A pensou em voltar. Mas, ele percebeu que não teria tempo, e que se fizesse isso, o Policial B ficaria sozinho com os dois cães ferozes. Os Policiais iniciaram os disparos contra os cães agressores, e com os estampidos, o Pit Bull A fugiu, mas o Pit Bull B continuou sua investida até ser incapacitado e tombar a aproximadamente 1,5 m dos Policiais.

Quando caiu, o Pit Bull B ainda estava vivo apesar de ter sido atingido duas vezes no tórax e uma vez na cabeça, numa espécie de Mozambique Drill canino. O Policial A havia disparado oito tiros, enquanto o policial B quatro vezes. Portanto, dos 12 disparos somente três acertaram o alvo, gerando um percentual de aproveitamento de 25%. O Policial A percebeu que em dado momento o animal perdeu o controle motor das patas traseiras e tentou alcançar os Policiais usando as patas dianteiras, mas logo depois tombou e parou. Só então, a dupla prosseguiu até o quintal da residência onde rendeu alguns dos alvos da operação.

Um mês depois foi protocolada na Delegacia de Polícia uma requisição de instauração de Inquérito Policial para apurar possível ocorrência do crime de abuso de autoridade praticada pelos dois Policiais. A requisição foi baseada nas declarações prestadas por uma parenta dos traficantes presos e que era a proprietária dos cães agressores. Ela declarou que os Policiais, sem mandado de busca, chegaram portando armas de fogo de grosso calibre, fazendo vários disparos, inclusive matando um dos três cachorros, sendo morto um cão de pequeno porte. Se o requisitante estivesse do lado dos Policiais vivenciando tal experiência, talvez esta requisição jamais existisse.

Então, vejamos! Especialistas informam que a velocidade que um cão pode atingir depende da idade, do condicionamento físico, do gênero (macho ou fêmea), e também da motivação para correr. Cães desenvolvidos para rinhas não costumam defender seus territórios, mas atacam em função da herança genética. Portanto, não é preciso grande motivação para que um Pit Bull corra em sua direção, ainda mais se você estiver na casa dele. Desse modo, a velocidade que um Pit Bull pode atingir gira em torno de 40 a 48 km/h, isso dá cerca de 11 a 13 m/s.

Quando os Policiais perceberam a iminência do ataque, deu-se início à reação de sobrevivência (luta, fuga ou obediência), e devido às alterações fisiológicas e de comportamento cada um percebeu o tempo e a distância de modo particular. O Policial A estimou em aproximadamente 7 m a distância entre ele e os cães. Já o Policial B percebeu uma distância de 15 m. Uma análise no local do incidente revelou uma distância de quase 12 metros.

Imaginando que os cães estivessem correndo a uma velocidade de 12 m/s, e considerando uma distância de 20 metros, quanto tempo eles teriam para reagir até que os animais os alcançassem? Um segundo e sessenta e seis centésimos (1,66 s). Entretanto, um Policial comum com uma pistola, disparando o mais rápido possível, gasta 31 centésimos de segundo para disparar o primeiro tiro depois de ter percebido uma ameaça. Agora, diminua 0,31 s de 1,66 s, e você terá o tempo disponível para salvar sua vida se algum dia você vivenciar uma situação semelhante à enfrentada por estes dois Policiais, ou seja, 1,35 s. Bem otimista, não é mesmo?

Contudo, eles estavam a 15 m dos cães, de acordo com a percepção do Policial B. Assim, o Pit Bull sobrevivente correndo a 12 m/s cobriria estes 15 m em 1,25 s. Um segundo e vinte e cinco centésimos menos 0,31 s, dá 0,94 s. Agora, faça as contas para a distância de 12 m. Resultado: 0,69 s.

O Policial A atirou o mais rápido que pode com sua pistola (8 tiros), o Policial B, também com uma pistola, disparou tentando acertar (4 tiros), e apesar de nenhum deles saber quem acertou o cão, ambos sabem onde foram parar os tiros que erraram o animal (dentro da igreja vizinha dos fundos). Quem sabe, na sua próxima operação policial, você não leve aquela “velha” espingarda calibre 12!

Porém, há outro detalhe neste incidente: a perspectiva visual. Isto significa que um objeto distante parece ser menor do que um objeto mais próximo, mesmo que eles tenham o mesmo tamanho. Criadores de Pit Bulls informam que a altura da raça é de 51 cm (da cernelha ao solo, ou seja, da omoplata e as partes moles que a revestem até o chão), mas não ultrapassa os 58 cm. Então, os Policiais empunhando suas armas com os braços esticados perceberiam (na massa de mira e na posição de pé) a altura do Pit Bull B da seguinte forma: o animal a 15 m de distância pareceria ter 2,2* cm de altura; a 12 m de distância, o cachorro pareceria ter 2,7* cm de altura; a 10 m o cão teria 3,4* cm; e a 7 m ele teria 4,7* cm. Só para constar, outro Policial recomendou atirar de joelhos em situações assim!

Portanto, pense como seria atirar em algo tão pequeno se movendo rápido o suficiente para lhe alcançar em apenas um segundo. Agora, imagine o recuo da arma elevando cada vez mais o cano durante os tiros sequenciais enquanto você tenta mirar/atirar cada vez mais baixo porque o cão está se aproximando. Como seria se você simplesmente esperasse para ser atacado? Como seria ver essa fera saltando sobre você para morder com toda a força seu rosto, sua cabeça ou seu pescoço? Será que seu colega conseguiria se safar para ajudar você? Você conseguiria ajudar seu colega? Será que no meio dessa confusão, os Policiais não atirariam um no outro sem querer na tentativa de acertar o cachorro?

Infelizmente, no trabalho policial você precisa solucionar problemas violentos num piscar de olhos. Se você falhar, isso pode custar a sua vida; se você sobreviver, talvez custe sua paz de espírito, e se depender de algumas pessoas talvez custe algo mais. Portanto, aqueles que não estão presentes quando o pior acontece e não compreendem as dinâmicas e as dificuldades do trabalho policial jamais deveriam avaliar ou julgar as atitudes legítimas de autodefesa policial que ocorrem numa fração de segundo. E quando você deixar a delegacia para cumprir mandados na residência de alguém, vá preparado e sempre acredite naquela placa que diz “CÃO BRAVO”!

*Medidas aproximadas.