segunda-feira, 4 de junho de 2012

Padrão lixo

O Dicionário Eletrônico Aurélio informa que a palavra “lixo” possui os seguintes significados: tudo o que não presta, e se joga fora; entulho; sujidade; coisas inúteis, sem valor; resíduos. Mas para qualquer pessoa com experiência militar a mesma palavra incorpora um conceito que vai além disso.

No ambiente militar o jargão “padrão lixo” significa ser desmazelado. Em certos casos é quase uma marca registrada para a capacidade que algumas pessoas têm para serem desleixadas. “São sempre os mesmos!”, arrematam os militares, informando que o “padrão lixo” e seu aumentativo analítico "padrão lixão" se referem ao comportamento recorrente dos mesmos indivíduos. É... talvez você esteja rindo, mas certamente algum nome ou lembrança lhe veio à memória.

Então, é inadmissível que ainda existam comportamentos nesse “padrão”, considerando que não há um Policial Federal sequer que não tenha sido treinado da melhor maneira possível na Academia Nacional de Polícia (ANP). Também não conheço nenhum professor que tenha ensinado um aluno ou um Policial Federal a portar uma arma de fogo sem coldre ou com apenas um carregador. Ou pior, que tenha dito que não é necessário estar com a arma alimentada e pronta para o uso (carregada, para os militares). Também desconheço qualquer aula sobre a importância de se manter a arma sempre suja e sem manutenção.

Dias atrás conheci um policial que portava a arma de modo velado. Ele era destro, mas a arma estava sobre o lado esquerdo do abdômen. O curioso é que a metade esquerda da camisa estava por dentro da calça, justamente onde estava a pistola. A metade direita da camisa estava para o lado de fora da calça, onde a arma deveria estar. Ou seja, a metade esquerda seguia o traje esporte, enquanto a metade direita adotava o modo “policial à paisana”. Além disso, a pistola não estava alimentada. Diabo! Onde será que ele aprendeu isso? O que ele acha que pode fazer portando uma arma desse jeito? Será que ele imagina que vai ser abordado a 20 metros de distância? Talvez ele nem considere a possibilidade de ser vitimado por um criminoso e ter que reagir para salvar a própria vida. Seria melhor se ele devolvesse a pistola, sinceramente.

Se o policial acredita que portar uma arma de fogo é um fardo, então ele não deveria possuir uma arma em primeiro lugar. Se ele acredita que algo ruim não vai acontecer, então não será capaz de se antecipar ao perigo e se autodefender.

Em princípio, se o policial está armado é porque ele acredita no risco que corre e percebe a arma como um instrumento salvador. Então, seria razoável que ele melhorasse a conduta em relação ao porte da arma para diminuir a possibilidade de erro caso tivesse que reagir. Também seria preferível deixar a arma pronta para o uso, acondicionada num coldre de qualidade e no lado correto do corpo. Pense nisso: muitas vezes o criminoso não precisa se esforçar para ser bem sucedido, a não ser aguardar que o policial cometa um erro. Agora, imagine como seria sacar uma pistola, pressionar o gatilho e só então perceber que a arma não está em condições de ser usada porque você não a alimentou. Você tomou uma decisão, sacou a pistola e pressionou o gatilho esperando ouvir "Pow! Pow! Pow!" e acabou ouvindo "Clic!". Mas não se desanime, porque no final das contas você ainda vai ouvir "Pow! Pow! Pow!", mas vindo da arma do bandido!

Noutro caso, um colega (por quem tenho grande consideração) me pediu para limpar sua arma (a pistola institucional). Antes de entregá-la, ele realizou os procedimentos de segurança à moda antiga, ou seja, apontou a arma para uma direção segura, retirou o carregador, manobrou o ferrolho três vezes, e fez o acionamento em seco do gatilho. Contudo, a pistola tinha tanta sujeira que cheguei a pensar que o policial portava a arma dentro dum refil de aspirador de pó. Então, ficou claro que a tarefa não era uma simples limpeza de 1º escalão, mas sim uma verdadeira escavação arqueológica. Desmontei TODO o ferrolho e limpei peça por peça, remontando o conjunto logo em seguida. Na hora de desmontar TODA a armação, o primeiro pino foi retirado com facilidade, entretanto, o segundo pino sequer se moveu. Um pouco de jeito, um pouco de força, um pouco de lubrificante (faltou o WD-40), um pouco de paciência e... nada! Restou-me apenas realizar uma limpeza básica e devolver a arma ao colega informando sobre o problema e a necessidade de nova tentativa de desmontagem.

Há alguns anos, outro policial me entregou uma pistola (institucional, é claro!) ainda dentro da maleta de transporte. Retirei a arma da maleta, retirei o carregador, mas não consegui abrir o ferrolho por causa da ferrugem. Isso só ocorreu após aplicar muito desengripante. Onde essa arma estava guardada? Dentro de uma caixa d'água?! A Glock aplicou um tratamento denominado Teneferização no ferrolho e no cano das suas pistolas visando aumentar a resistência à corrosão, sendo que as superfícies dessas peças atingem um grau de dureza próximo a do diamante, conforme indica o próprio fabricante. Infelizmente, a Glock ainda não conseguiu superar a inventividade de certas pessoas.

Além da preocupação óbvia com a funcionalidade duma arma mal cuidada, é relevante imaginar como estas armas estarão daqui a alguns anos quando forem repassadas aos novos Policiais Federais. Quer dizer, o desleixo de alguns pode colocar em risco a vida da próxima geração de policiais e aumentar os gastos para a reparação ou substituição do armamento projetado para durar décadas. E esse não é apenas um problema das armas curtas, mas também das armas longas (fuzis, submetralhadoras e espingardas).

Alguém ainda pode alegar que não sabe ou não se lembra como realizar a manutenção duma pistola. Isso até poderia ser uma desculpa na década de 90, mas atualmente tal alegação não possui fundamento. Ora, Policiais Federais com 15 anos de experiência retornaram à ANP em 2007 para uma etapa do curso de aperfeiçoamento. Naquela época, o DPF já havia distribuído as pistolas Glock e submetido os policiais ao treinamento básico para manuseio e manutenção do novo armamento. Assim, o treinamento na ANP ocorreu com a Glock. Se isso não bastasse, os alunos da ANP são submetidos à prática do tiro quase diariamente e disparam cerca de 1000 tiros de pistola. Concluído o treinamento, eles tomam posse na 3ª Classe, e após três anos, esses policiais participam de um curso para promoção na carreira policial; uma das disciplinas trata da manutenção das pistolas Glock (20 h/a). Aprovados no curso, os policiais alcançam a 2ª Classe e nela permanecem por cinco anos. Novamente, o DPF patrocina outro curso para promoção policial da 2ª para a 1ª Classe, quando os policiais recebem instruções sobre a submetralhadora HK MP5 (20 h/a).

Alguém também pode afirmar que os dois cursos para promoção na carreira policial são realizados na modalidade a distância. Mas isso não tira o mérito do treinamento nem a necessidade de compromisso do aluno policial. Além disso, toda unidade do DPF possui as armas citadas que podem ser manuseadas em caso de dúvida ou necessidade de aprimoramento (considerando as questões de segurança). Quase todas as Delegacias de Polícia Federal e todas as Superintendências Regionais possuem professores de Armamento e Tiro capacitados para orientar os Policiais Federais sobre todas as armas de dotação do órgão. O SAT/ANP está ciente da demanda por professores de tiro e promove cursos de formação para dotar cada unidade policial com, pelo menos, um professor de tiro. E tenho convicção que nenhum colega com este encargo é capaz de negar qualquer auxílio aos colegas.

Também desconheço organização policial no Brasil que promova treinamentos de armamento e tiro para todo o efetivo como faz a Polícia Federal (PF). Desde 2008, a PF tem comprado munição para treino em quantidades que variam de 400 a 600 cartuchos por Policial Federal e publicado os planos de treinamento em boletins de serviço (235/2008, 176/2009, 056/2010, 023/2011 e 061/2012). Se na sua unidade não há treino, pode ser por duas razões: estrutural (falta de estande e outros equipamentos) e/ou motivacional (o problema mais grave).

Diante da falta de preocupação com a manutenção do armamento pessoal, seria razoável que as organizações policiais desenvolvessem um padrão de inspeção (no mínimo semestral) de todas as armas acauteladas, para identificar aquelas bem mantidas e as mal cuidadas. Reprovado na inspeção, o policial teria alguns dias para apresentar novamente a arma em condição salubre. Por que “reprovado” o policial, e não “reprovada” a arma? Porque a arma é um objeto inanimado, e se ela está mal cuidada, a culpa é do policial. Portanto, reprovado é o comportamento dele.

Obs.: o título do artigo não tem a intenção de menosprezar ou ofender qualquer policial sob qualquer circunstância, mas tão somente demonstrar a preocupação com as condições do armamento acautelado e chamar a atenção para o perigo de certos comportamentos relacionados ao porte e manutenção da arma para o próprio policial e para os que virão a seguir.

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal e Professor de Armamento e Tiro lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG.
E-mail: humberto.wendling@gmail.com
Blog: www.comunidadepolicial.blogspot.com

16 comentários:

  1. Outro texto de vital importância! Parabéns.

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  2. Humberto segue o texto"...Antes de entregá-la, ele realizou os procedimentos de segurança à moda antiga, ou seja, apontou a arma para uma direção segura, retirou o carregador, manobrou o ferrolho três vezes, e fez o acionamento em seco do gatilho...". Sou Investigador de Polícia no MS. Estou há quase 07 anos na profissão e participei de dois cursos de aperfeiçoamento, só não fui promovido ainda(risos), a minha dúvida é se existe algum outro procedimento de segurança além do citado por você conforme o texto entre aspas. Não recebi nenhuma instrução diversa da citada na postagem acima. Como sempre ótimas postagens as suas.

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    1. No procedimento acima pode ocorrer 2 problemas:
      - Extrator com defeito (mesmo com a manobra do ferrolho, a munição continuará na câmara); e
      - Ejetor com defeito (o extrator puxará a munição, mas ela voltará para câmara pois não será ejetada para fora da arma).

      Pelo que eu conheço seria:
      - Apontar a arma para direção segura;
      - Retirar o carregador;
      - Abrir o ferrolho;
      - Realizar a inspeção visual (olhar se há alguma munição na câmara);
      - Realizar a inspeção material (sentir com o dedo se há alguma munição na câmara);
      - Soltar o ferrolho;
      - Acionar do gatilho em seco.

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    2. Caríssimo japa, excelente observação.

      No CORPO DE FUZILEIROS NAVIS, força que servi por sete (07) anos, denominamos a inspeção visual e matéria, de inspeção TATO e VISÃO.

      Abraço!

      Paulo Souza, soldado de polícia militar do Distrito Federal e cientista da atividade policial preventiva e de repressão imediata

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  3. Adriano J Frizzo PC/AM5 de junho de 2012 23:53

    Como o Senhor tem visto, já me tornei leitor incondicional de seus Artigos e mais uma vez lhe dou os parabéns. Uma pena que embora tenhemos prerrogativas semelhantes, há um abismo entre a Polícia Federal e as Policias Estaduais em se tratando de treinamento.

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  4. Caros colegas,

    aproveito a oportunidade da dúvida apresentada pelo Edmundo Júnior para descrever, em breve artigo, outro procedimento de inspeção de armas.

    Obrigado e forte abraço a todos.

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    1. Olá Humberto, aguardo o artigo sobre procedimento de inspeção de armas.

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  5. Boa noite, venho aqui mostrar meu agradecimento pelos ótimos textos que sempre nos mostram uma melhor maneira de se portar na utilização de armas de fogo. Como agente de segurança penitenciaria do estado de São Paulo, digo que sempre é dificil enfiar na cabeça de alguns dinossauros que devem se renovar e utilizar suas armas de uma maneira mais correta. Nós ficamos restritos as IMBEL e TAURUS da vida, uma muito pesada para porte diuturno e a outra considerada de segunda linha por muitos. As GLOCK da vida ainda tem um custo elevado para nós, mas muitos fazem um esforço e adquirem elas, mesmo sendo no calibre que nos é permitido, o anemico .380. Eu mesmo porto uma TAURUS 938, que nunca me deixou na mão, devido a manutenção constante e treino regular, utilizando coldre de polimero e mais dois carregadores de reserva, fato este que sempre gera curiosidade dos colegas, muitos portando .38 de 5 tiros sem nem mesmo um jet loader. Já ouvi todo tipo de comentario, desde ser chamado de chapado até o famoso " vai pra guerra?", mas sei que posso ser surpreendido, mas não vou estardespreparado pra situação, como muitos outros companheiros já foram pegos. Deixo aqui meu muito obrigado e espero mais textos relevantes como este. Quem sabe um dia nossa secretaria chega no nivel de nos dar armamento carga, e ter um programa de treinamento mais abrangente, como voces tem. Até mais.

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  6. Saudações...

    Tão grave quanto a falta de manutenção na arma acautelada, é a falta da mesma nas armas das reservas de armamento.
    Sou Soldado de Polícia Militar no Rio de Janeiro, e respeito muito os "antigões" da minha corporação, mas não concordo com o estilo displicente de alguns que insistem em fazer piada sempre que retiro as munições dos carregadores, a fim de detectar alguma falha.

    Há mais de um ano participei o responsável pela reserva do Batalhão para que as munições fossem "pagas" a parte, e até hoje não obtive resposta.

    Também já solicitei que fosse reservado um local adequado para os policiais realizarem a inspeção e limpeza de primeiro escalão. Desta vez, fui repreendido. Segundo meu superior as armas da corporação só pode ser desmontadas por pessoal especializado e autorizado.

    Obs.: Tive instruções de manutenção e limpeza de armamento no curso de formação, mas inexplicavelmente não estou autorizado a realiza-las.

    Fica o protesto...Um forte abraço.

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  7. Humberto, a Polícia Rodoviária Federal também promove uma atualização constante do seu efetivo, não só no tiro como também em abordagem e outras atividades correlatas. Lógico que muitos policiais descomprometidos fogem das capacitações como o diabo foge da cruz.

    abraço,

    Hamilton

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    1. Bem lembrado colega Hamilton. O DPRF tem colocado em prática o programa de capacitação anual do efetivo PRF, com treinamento de atualização policial que consiste sem 3 módulos: abordagem, imobilização e tiro.

      Wendling: parabéns por mais este excelente artigo!


      PRF Gautério.

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  8. Passei quase dois anos na polícia militar do meu estado e GRAÇAS A DEUS passei em outro concurso de nível médio, com um salário e carga horária condizente com a dignidade humana. entretanto, estou sempre acompanhando os bons blogs policiais.

    me recordo que muitos se RECUSAVAM TERMINANTEMENTE a gastar 5 reais pra comprar óleo e solvente pra poder fazer a manutenção da arma, ainda mais considerando que, no meu estado, a MESMA ARMA é passada de policial para policial e sabe-se lá com que frequência é feita a manutenção.

    A quantidade de munição que se leva também é importante. Infelizmente, nunca dava para todos os 16 policiais de serviço levarem 15 + 15 munições (ou seja, a arma "lotada" e um carregador completo sobressalente) e havia aqueles que pegavam 10, 12... se considerarmos que em um tiroteio 12 munições acabam em uns 4 segundos, pode parecer loucura. Ainda bem que até hoje nenhum deles foi posto à prova e espero que nunca o sejam. Mas cuidado nunca é demais.

    Parabens pela excelente postagem. Só acho pouco frequente, seria interessante pelo menos uns 2 por mês ;-)
    Abraço!

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  9. Última forma em parte do meu comentário anterior.
    Há pouco mais de uma semana teve um tiroteio que pelo menos um policial ficou sem munição no meio do confronto. Ainda bem que ele não estava só (eram 4) e deu pra desenrolar a missão e um dos criminosos acabou baleado.
    Mas nunca se sabe, né?

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  10. Caríssimo Humberto Wendling, lendo vosso artigo lembrei-me de fato inusitado que ocorreu comigo, a saber: HÁ ALGUM TEMPO, NO PERIODO DE TRANSIÇÃO DA UTILIZAÇÃO DE REVOLVERES PARA PISTOLAS - NA PMDF -, UM COLEGA PMDF PERCEBEU QUE A PISTOLA QUE ESTAVA EM MEU COLDRE ESTAVA COM O INDICADOR DE ARMA QUENTE/FRIA INDICANDO QUE A ARMA ESTAVA CARREGADA, BEM COMO OBSERVOU QUE A ARMA ESTAVA DESTRAVADA, E ACREDITANDO QUE MEU METODO DE MANTER A ARMA SERIA IMPRUDENTE, ELE REPREEDEU-ME, NESTE ÍNTERIM, OLHEI PARA O COLDRE DELE E VERIFIQUEI QUE ELE ESTAVA PORTANDO UM REVOLVER CARREGAGO, AÍ EU NÃO AGUENTEI, E EM TOM DE BRINCADEIRA EU DESSE: ME DÁ AQUI SEU REVOLVER PORQUE VOCÊ COM ESSE REVOLVER É UM PERIGO, POIS ELE ESTÁ PRONTO PARA O USO ASSIM COMO MINHA PISTOLA!

    Abraço!

    Paulo Souza, soldado de polícia militar do Distrito Federal e cientista da atividade policial preventiva e de repressão imediata.

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  11. Humberto, parabéns pelo excelente artigo!

    João da Cunha Neto
    Delegado de Polícia
    PC/SC

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