segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Certas coisas não podem falhar nunca!


“Uma tentativa de assalto na madrugada desta quinta-feira (10/11/2011) mobilizou boa parte do efetivo da Polícia Militar (PM) até o bairro Jardim Karaíba. Cerca de oito viaturas se deslocaram até a casa, que havia sido invadida por três homens armados. Vizinhos afirmaram ter ouvido disparos de arma de fogo.

Segundo a PM, os acusados entraram na casa depois que romperam a cerca elétrica, que não estava ligada, e pularam o muro. Em seguida, quebraram uma parede de vidro e renderam a família. Um dos moradores, um agente federal, tinha uma arma em casa e disparou algumas vezes na intenção de assustar os assaltantes. Assustados, os acusados tentaram fugir, mas foram pegos pelos militares que cercavam o local.

Na tentativa de fuga, um deles se feriu ao cair da sacada do terceiro andar do imóvel. O resgate do Corpo de Bombeiros foi chamado para dar socorro ao rapaz. Ele foi imobilizado e encaminhado, sob escolta policial, à Unidade de Atendimento Integrado (UAI) do bairro Pampulha, com fortes dores nas costas. Os outros foram encaminhados à 1ª Delegacia Regional de Segurança Pública de Uberlândia.” (Portal UIPI, 2011).

Essa foi a notícia veiculada pela imprensa local, mas é preciso contar os detalhes da ocorrência.

Por volta das 4h do dia 10/11/2011, a esposa de um policial federal aposentado ouviu o som de uma porta de vidro sendo estilhaçada. Ela avisou o marido, pegou o telefone celular, se trancou no banheiro e ligou para um amigo oficial da PMMG que morava nas proximidades. Enquanto isso, seu marido vestiu uma camisa, pegou o revólver 38 (5 tiros), colocou-o na cintura, e saiu do quarto para verificar o que estava ocorrendo.

Ao mesmo tempo, o trio criminoso, armado com facas, invadia a casa. O primeiro rendeu o filho do casal e o manteve sob ameaça com uma faca no pescoço; o segundo encontrou o policial no meio do caminho e ordenou que ele voltasse para o quarto; o terceiro bandido já vasculhava os outros cômodos da residência.

No quarto do casal, o criminoso ameaçou o policial e mandou que sua esposa saísse do banheiro. Perspicaz, a mulher deixou o telefone no banheiro para que o delinquente não percebesse que o socorro estava a caminho. Contudo, ao revistar uma gaveta, o bandido localizou alguns cartuchos de revólver e, indo em direção ao policial, perguntou onde estava a arma. Temendo ser identificado ou revistado, o policial sacou o revólver e fez três acionamentos contra o delinquente. Entretanto, os disparos falharam (negaram fogo) e o assaltante começou a brigar com o policial e sua esposa. Mesmo caído e com o invasor o estrangulando, o policial conseguiu realizar os dois últimos acionamentos que, apesar de funcionarem, não acertaram o alvo. Sem munição, o policial pediu ajuda à esposa. Então, ela pegou um vaso e o quebrou na cabeça do bandido, o que não teve qualquer efeito imediato. Aí, ela pegou o tampo de vidro duma mesa e realizou novo golpe na cabeça do invasor. Atordoado, ele tentou fugir saltando da sacada. Os comparsas fugiram, como de praxe, ao ouvirem os dois disparos que funcionaram. Os três assaltantes foram presos por policiais militares que já estavam no local.

Passado o susto, alguns colegas visitaram o policial aposentado para lhe prestar solidariedade. Questionado sobre o fato das munições terem falhado (num percentual de 60% da capacidade de seu revólver), o policial informou que aqueles cartuchos eram remanescentes de uma época distante e cuja procedência ele não se recordava. Outros policiais ficaram se perguntando por que o colega tinha apenas um revólver ao invés de uma pistola.

A esposa do policial foi, sem dúvida alguma, muito esperta. Ao ouvir o barulho da porta de vidro se quebrando, ela imediatamente deduziu tratar-se de um arrombamento. Enquanto a maioria das pessoas iria ver o que estava acontecendo (correndo o risco de ser surpreendido no meio do caminho), ela simplesmente pegou o telefone e pediu socorro. Certamente, a atitude desta mulher foi que evitou uma tragédia.

Se você está armado e vivencia uma situação de risco, há três coisas que não podem falhar: você, a arma e a munição. Se você falhar, sua arma poderá ser usada contra você e sua família. Se a arma ou a munição falhar, você estará em apuros já que talvez não tenha tempo ou frieza para sanar o problema, principalmente num conflito de vida ou morte. Nesse último caso, você vai precisar de todo ódio e toda força bruta para sobreviver se a questão for decidida corpo a corpo. É quando o treinamento mental e o condicionamento físico (este adquirido com a prática de esportes, mas muitas vezes negligenciado pelos policiais) fazem a diferença entre os perdedores e os vencedores.

Você falha quando acha que está sempre seguro mesmo em sua própria casa ou realizando atividades rotineiras. Falha quando acredita que a violência só atinge as outras pessoas ou está restrita a certos lugares. Erra quando não aproveita a primeira oportunidade para reagir ou quando reage no momento errado. Falha quando não pratica atividades físicas constantes. Erra quando usa munição de qualidade incerta, velha ou de procedência duvidosa. Falha quando não limpa sua arma e não treina com ela. E erra quando acha que a aposentadoria lhe afastou do grupo de risco do qual fazem parte todos os policiais do mundo.

Por isso, com tanta coisa para dar errado, você não pode correr o risco de aumentar sua chance de ser vitimado simplesmente porque não trocou a munição da sua arma por outra nova ou não limpou a arma ou não treinou um pouco (mesmo num treino em seco).

Certa vez, um colega me presenteou com uma caixa de munição 9 mm da marca Lapua. Ele também me avisou que a munição estava guardada havia mais de 10 anos. Então, fui ao estande, ainda com certo grau de desconfiança naquela munição, e fiz cinquenta acionamentos. Confesso que me arrependi imediatamente, pois todos os acionamentos resultaram em disparos efetivos. Meu pesar foi pela vergonha em não ter confiado na marca e na qualidade do presente e porque fiquei sem aquela excelente munição para um treino mais elaborado.

Quando eu ainda era um aluno do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva em Belo Horizonte/MG (CPOR/BH), os alunos do curso de Artilharia realizaram, pela primeira vez, um treinamento real com os obuses de 105 mm. Considerando a necessidade de preservar a munição nova em virtude do contingenciamento de recursos, a munição utilizada foi aquela que estava estocada há mais tempo. Resultado: o treino foi um fiasco, pois a munição não funcionou. Quer dizer, gastou-se dinheiro, tempo e motivação para um resultado nulo. Durante um treino de tiro recente, os policiais que foram convidados utilizaram a munição recarregada pela própria corporação da qual faziam parte. E o que deveria ser um treinamento com exercícios dinâmicos, tornou-se fragmentado pela necessidade de se interromper os exercícios sempre que a munição falhava.

Assim como um paraquedas, a munição é algo que não pode falhar nunca, principalmente aquela desenvolvida para o uso em serviço. Considerando esta realidade, as organizações policiais deveriam ser autorizadas a comprar a melhor munição disponível no mercado mundial e em quantidade suficiente para promover a correta substituição dos cartuchos de todos os policiais, conforme orientam as próprias empresas fabricantes. E as empresas produtoras de cartuchos deveriam elaborar produtos mais resistentes, avaliando, inclusive, o modo inadequado como muitas pessoas guardam suas munições. Já que as armas modernas são testadas sob condições extremas, o mesmo deveria ser aplicado à munição.

Então, você deve substituir a munição velha por outra nova e limpar sua arma se assumiu a responsabilidade pela própria segurança. Além disso, as instituições policiais poderiam designar uma pequena quantidade de cartuchos para os colegas aposentados, já que eles representaram a polícia por mais tempo do que aqueles que continuam trabalhando.
*Foto: 123rf.com

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal e Professor de Armamento e Tiro lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG.
Twitter: twitter.com/HumbertoWendlin

18 comentários:

  1. Estava fazendo falta seus posts!! Grande abraço. Flávio Kestel

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  2. Excelente texto. Excelentes recomendações.

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  3. Mais uma vez um excelente texto. Depois que a pessoa sai da polícia, seja por aposentadoria, ou passou em outro concurso, ou qualquer outro motivo, o comportamente JAMAIS deverá ser o mesmo. São atitudes como a precaução e a desconfiança que nos diferenciam das pessoas comuns, em geral desatentas e crentes que a violencia não as atingirá.
    Meus parabens pelo texto, estavam fazendo falta suas postagens. Mais uma vez pergunto; e o livro, quando sai?
    Abraços
    SD Pm Piauí

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  4. Caro colega,

    o livro aguarda uma editora interessada em publicá-lo. Caso isso não ocorra, publicarei eu mesmo. Obrigado e forte abraço.

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  5. Apesar de ainda não ser policial, acompanho seu blog ha tempos e, por desleixo ou preguiça, nunca comentei.

    Tendo em vista que venci a preguiça, tenho que deixar registrado que seu blog é foda. Sempre com textos interessants pra kct.

    Parabéns.

    Abraços,

    Rodrigo

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  6. Muito bom texto!!!! Eu como aspira a PF, SOU CHAMADO DE MALUCO, PELAS MANIAS DE QUARTEL!!! ANDO SEMPRE COM UM PEDAÇO DE CORDA ( OU CADARÇO), UM CANIVETE SIMPLES PARA EMERGENCIAS... MINHAS RESPOSTA É SIMPLES, ISSO AQUI PARA ALGUNS PODE SER UMA ARMA BRANCA( O QUE DISCORDO), MAS NUMA SITUAÇAO DE EMERGENCIA PODE SALVAR VIDAS.

    AQUELE COORDIAL ABRAÇO DO FUTURO COLEGA!!!

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  7. Grande Humberto,

    Localizei seu blog a poucos dias e já me tornei fã de carteirinha, seja pelas noticias, matérias postadas, entre as poucas publicações que tive tempo para lê-las, tanto quanto pela forma que você as descreve, pois podemos retirar diversas informações e aprendizados úteis para o nosso dia a dia.

    O sonho de ser um APF vem de longa data, porém, somente ao fim de 2011 que pude concluir a faculdade e agora estudo com dedicação total e completo afinco, na perseguição desta vontade que vai muito além de um simples desejo. Esta entrelaçado nos músculos, quando leio matéria, quando estudo, quando vejo vídeos, quando passo na frente da SR da minha cidade (Cascavel-PR) chego a estremecer, e isto me motivo cada dia mais.

    Gostaria de parabenizá-lo por esta iniciativa no blog e também, se possível, que você possa transmitir algum conselho, dica, para que eu possa otimizar ainda mais meus estudos. Meu nome é Marcelo Nunes, sou formado em contabilidade, estou fazendo um cursinho preparatório a cerca de 8 meses, além de módulos extras nas matérias que tenho um pouco mais de dificuldade (Português/RLM). Na sua época de estudo, além dos materiais, você utilizava ainda doutrinas para ampliar seu nível de conhecimento?

    Novamente, parabéns. E com certeza um até breve, com certeza em um futuro próximo eu venha a conhecê-lo como colega de profissão.

    Abraços

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    1. Caro Marcelo,

      além dos estudos, tenha em mente os testes físicos, principalmente a natação. Portanto, já comece a se preparar para os testes físicos. Além das matérias exigidas quando fiz o concurso (1993), também estudei raciocínio lógico e realizei centenas de exercícios psicotécnicos.

      Sucesso e forte abraço.

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  8. Se me permitir o comentário, acredito que seu livro já está sendo públicado aqui no blog, pois cada texo escrito é um capitulo, onde a junção de fatos reais com dicas extremamentes didáticas ilustram de forma simples para nós leitores uma série de procedimentos corretos (que devemos adotar) e incorretos (que jamais temos que executar).

    Parabéns pelas publicações.

    Adriano José Frizzo
    Invest. Polícia Civil
    Manaus/AM

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  9. Belo texto. Sendo a municao antiga, pelo menos a arma era um revolver: só assim para poder-se tentar todos os catuchos. Já pensou se fosse uma pistola ??? Dai o cara estava na roca. . . Abs e parabéns pelo blog. Muito bem escrito, de conteúdo com grande relevâcia para aqueles que, por opção ou necessidade, andam armados.

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  10. Então você fez CPOR-BH!?Meu estinto ja dizia para confiar em seus conselhos por algum motivo ainda maior do que seus conhecimentos técnicos,e agora esta claro por que!Parabens pelo excelente artigo e pelo Blog tão bem feito e referencia para qualquer um que deseja se preparar para agir certo na hora certa!
    Um abraço de seu irmão de caserna!Mallet!!

    Diego Munhoz.2ºten de Cavalaria- CPOR-SP

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  11. Caro Diego,

    grato pela mensagem e palavras de incentivo. Velhos e bons tempos! Forte abraço! Brasil!!

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  12. HUMBERTO,

    PARABÉNS POR MAIS ESTA EXCELENTE CONTRIBUIÇÃO. CONTINUO DIVULGANDO ESSE ESPAÇO ENTRE MEUS COLEGAS POLICIAS.
    FORÇA!!

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  13. Gostaria que comentasse as imagens exibidas pelo programa da Rede Globo, Fantástico, sobre os policias baleados em frente a uma boate. O policial sobrevivente tenta disparar pelo menos três vezes, no entanto sabe lá Deus o motivo a arma "nega fogo". Parabéns pelo blog. Leio sempre.
    ESH
    IPJ PC/MS

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    1. será que a arma náo era uma das malditas taurus 24/7, tao difundidas nas polícias do brasil?

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  14. PARABENS PELO BELO TRABALHO! ILANI SEVERO. PEROLA D´OESTE PR

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  15. ilustre humberto, por gentileza, responda a essa dúvida: certa vez, em uma casa noturna aqui da minha cidade, vi uma determinada pessoa, possivelmente um policial, armada, portando, ostensivamente, uma pistola na cintura. estava coberta pela camisa, mas, com a movimentação do sujeito, a roupa, vez ou outra, ficava encolhida e mostrava a arma. ele bebia e ficou embriagado ao ponto de perder o controle dos movimentos, cambaleando. então, há alguma lei ou mesmo regulamento institucional que proíba ao policial portar arma e consumir bebidas alcóolicas?!? agradeço, desde já e lhe parabenizo pelo excelente blog. abraço.

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  16. Caro Professor e ilustre colega,

    Excelente posicionamento a cerca de uma realidade conhecida. Acredito que nunca devemos esperar a instituição promover algo para nossa própria segurança. Defendo que cada um tenha consciência dos riscos presentes, bem como da profissão que escolheu.
    Deixo aqui a minha admiração pela sua competência em nos auxiliar a sobreviver.

    Um grande abraço.

    APF Breno/SR/RN

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