Contudo,
só porque você tem uma arma, foi ao estande algumas vezes e disparou contra o
alvo, não significa que se você tiver que sacar a arma e atirar em alguém num
confronto real, você será capaz de fazê-lo. Tal ideia parece um contrassenso,
uma vez que o treinamento é parte fundamental na atividade policial e conduta
desejável em qualquer unidade policial do mundo. Mas, pergunte a qualquer
policial que já precisou sacar a arma e atirar em alguém e ele vai lhe dizer
que as coisas são bem diferentes quando o alvo está revidando e tentando
matá-lo.
Infelizmente,
algumas pessoas têm a ideia equivocada de que possuir uma arma e dispará-la
algumas vezes é o suficiente para criar uma barreira invisível que irá
protegê-las dos criminosos. Em função da arma, elas acreditam que serão capazes
de sacá-la na hora da verdade e, em seguida, disparar uma quantidade
determinada de tiros, a fim de incapacitar o agressor e repelir a ameaça.
Por
causa dessa dificuldade, outro modelo desejável de treinamento policial para o
futuro, em complemento ao atual, poderia ser empregado para permitir a
interação entre os participantes para ensiná-los a fazer o que eles precisam
fazer, a fim de não só se protegerem, mas sobreviverem ao conflito. Para isso,
já existem as tecnologias do tipo Force-on-force
(Simunition®, Airsoft) e os simuladores virtuais que
obrigam os policiais a experimentarem as ansiedades de uma ação ou reação
policial, os conflitos sobre o uso da força letal, as dificuldades dos
confrontos em ambientes confinados e/ou mal iluminados, e a viabilidade de
emprego de determinados equipamentos (coldres, rádios HT, etc.) e procedimentos
(verbalização, técnicas, etc.).
Obviamente,
como você já deve ter imaginado, isso tudo é algo que talvez ocorra daqui a 20,
30 ou 40 anos. Mas até lá, como dono de uma arma, você precisa buscar uma formação
em algumas das seguintes áreas:
Treino
sob estresse: treinamento sob estresse é importante porque quando estamos sob
estresse sempre recorremos às coisas que conhecemos por instinto, ou seja,
aquilo que é básico em nossa formação. Por isso, você não consegue realizar
tarefas complicadas que é capaz de fazer quando está calmo ou num ambiente
controlado. Além disso, mesmo que você esteja familiarizado com alguma técnica,
a quantidade de estresse pode simplesmente destruir sua capacidade de
autodefesa. Por isso, você já deve ter escutado histórias de policiais
experientes que foram vítimas de criminosos. Certamente, eles não foram vítimas
porque não sabiam lutar, mas porque talvez não soubessem lidar emocional e
mentalmente com o estresse da coisa real. Assim, se você possui uma arma, você
precisa ser capaz de operar com ela quando o estresse se iniciar. Você precisa
ter ideias e métodos simples de ação/reação armada para praticá-los até que se
tornem automáticos. Vale lembrar que muito desta prática pode ser alcançada com
treinamentos em seco. Você também pode treinar o controle emocional nas
atividades do cotidiano, como por exemplo, no estresse do trabalho, do
trânsito, das discussões familiares, etc. Claro que nem sempre é possível manter
o equilíbrio, mas é uma forma de treino. É bom informar, porém, que o ESTRESSE EMOCIONAL não possui nenhuma
relação com esforço físico ou com alguém gritando ou atirando perto de você,
como é costume ver em alguns treinamentos. Contudo, o estresse emocional é
facilmente obtido por meio da ansiedade de um treino ou atividade em ambientes
ou cenários desconhecidos, a chave dos simuladores virtuais e das tecnologias Force-on-force, quando o aluno policial
interage com outras pessoas e com a surpresa de cada situação. Além disso, a
necessidade de ter que selecionar a melhor opção de reação no menor tempo
possível para uma dada situação é o elemento que provoca o estresse emocional
que o aluno deve se acostumar.
Treinos
com tomada de decisão: nem toda pessoa para quem você aponta uma arma, tem de
ser baleada. Num ambiente com diversas pessoas e possíveis criminosos armados,
você ainda tem que usar o bom senso. Treinamentos que ensinam o policial a
identificar bandidos e espectadores inocentes são extremamente importantes.
Tanto para evitar um problema jurídico quanto a perda de vidas inocentes. Certa
vez, numa ação de combate ao tráfico de drogas, os policiais à paisana e de
armas em punho abordaram uma quadrilha num posto de gasolina. Alguns criminosos
tentaram fugir ao cerco policial, bem como um frentista que acreditou tratar-se
de um assalto. Em meio à confusão, o funcionário do posto foi baleado no braço
por um policial que o confundiu com os criminosos. Então, treinamentos com
tomada de decisão sobre o uso da força letal são capazes de incutir o pensamento
do tipo “eu só atiro quando tenho certeza!” Outra vantagem desse tipo de
treinamento é que ele exige do policial plena concentração na tarefa. Por sua
vez, a concentração e a necessidade de avaliação do cenário no qual o policial
se encontra, faz com que ele aplique as técnicas policiais com melhor qualidade
e segurança, contrariando a velha dinâmica das polícias brasileiras resumida na
sigla NHS, ou seja, “Na Hora Sai”. Portanto, só porque você está autorizado a
atirar em alguém não significa que você tem ou deve fazer isso.
Familiarização
com o porte e o saque de arma dissimulada: se você estiver num confronto com
seu adversário e sacar sua arma, você precisará estar familiarizado com ela e com
o método de porte dissimulado que você escolheu. Que passos são necessários
para que você levante sua camisa e saque sua arma do coldre? Você está usando
equipamentos com travas de segurança? Isto é importante porque as coisas nem
sempre são fáceis de fazer durante o estresse e com todos os botões e travas
que você tem que lidar nesses tipos de coldres. Você também tem que levar em
conta a roupa que está vestindo. Com a camisa que você está vestindo agora, é
possível livrar toda a arma sem que parte da roupa se enrosque nela? Muitas
pessoas pensam que a arma vai aparecer milagrosamente na mão enquanto, na verdade,
ela provavelmente ficará presa na camisa, no cinto ou no coldre com trava ou
irá cair no chão.
Sobre
isso e complementando a primeira parte deste artigo, realizei um teste empírico
para auferir o tempo gasto entre o saque de uma arma dissimulada (a partir de
coldres e posições diferentes) e o primeiro disparo em seco. As posições de
saque foram: frontal, lateral e nas costas. Os coldres usados foram: Fobus GL2,
DeSantis The Insider IWR, Galco Small of Back. Vestuário para
porte dissimulado: camiseta de manga curta. Quantidade de repetições
aproveitadas: 20. Medida de tempo: segundos e centésimos de segundo. Arma
usada: pistola Glock 17. Timer usado: Surefire
para Iphone. Treino prévio: nenhum.
Ações em ambientes confinados e/ou mal iluminados: um
ambiente confinado normalmente é um local desconhecido, cheio de armadilhas e
coisas que podem ser usadas para lhe atacar. Um ambiente confinado também pode
ser o interior do seu carro, o banheiro do posto de gasolina, a garagem da sua
casa ou o espaço entre você e o criminoso. Em locais assim, as técnicas
policiais convencionais podem não funcionar adequadamente. Então, só porque
você tem uma arma não significa que ela será eficaz em todos os cenários ou que
é a única coisa que você pode precisar. Você ainda pode ter que lutar contra um
assassino (mano a mano) até que você consiga sacar sua arma, apontar para ele e
atirar. Talvez você tenha que lutar pela única arma disponível no momento: a do
bandido. Conhecer métodos simples de luta, que serão lembrados e executados
quando você estiver sob estresse, é uma necessidade. O agressor tem uma faca e
vai atacá-lo, então preste atenção! Se ele é destro e desfere um ataque de cima
para baixo, basta você segurar o punho do atacante enquanto posiciona seu pé
esquerdo junto ao pé direito dele. Agora é só puxar o braço dele para baixo
fazendo um círculo no sentido horário tendo seu pé esquerdo como eixo. Pegue o
dedo mínimo da mão direita do agressor e o torça até que ele solte a faca.
Pronto! Agora preste ainda mais atenção! Esqueça esta bobagem e não acredite em
técnicas espalhafatosas de defesa pessoal, pois uma briga real está mais para um
confronto tipo UFC do que para um dia de aula no tatame. Você pode até
imobilizar o agressor, mas isso só vai acontecer depois que ele estiver atordoado
e caído no chão. Assim, aquele agressor vai lhe atacar com uma faca. Então,
corra enquanto tenta sacar sua arma, pois é a técnica mais simples que um
policial pode aplicar. Se você não pode correr nem sacar sua arma, prepare-se
para receber alguns ferimentos antes de utilizar toda sua raiva e energia
contra o agressor, pois na luta pela sobrevivência a natureza não espera que
você siga as regras. Continuar a luta quando você já está cansado e sem fôlego
é uma obrigação, do contrário, você pode morrer. Por isso, a prática de
atividades físicas na função policial é fundamental.
E se sua organização policial não está realmente
atenta para essas coisas, pratique exercícios físicos por conta própria e
treine com sua arma assim mesmo, pois é você quem está na linha de frente.
Foto:
Tactical-Life.com, 2009.


Mais um excelente texto, que deveria ser referencia nas academias de policia. Estamos esperando seu livro.
ResponderExcluirVou sugerir um tema: falar dos cursos de formacao policial. Eles deveriam ser melhor aproveitados no sentido de selecionar gente com perfil realmente de polícia. To vendo que tem entrado muita gente fraca, que faz o concurso apenas pela grana. Num tribunal o cara desmotivado e sem perfil pode esquecer um papel e atrasar um processo, na polícia isso pode significar a vida dele e a do colega. Tenho visto que a maioria das pessoas que entram estao assim, nao querem saber da atividade policial em si. Fica como sugestao de tema. Um abraço
Parabéns pela forma como você abordou e gostei do teste realizado.
ResponderExcluirAbraço.
Mestre o q vc avha dessa reportagem
ResponderExcluirhttp://republicadobrasil.blogspot.com/2011/09/rebeldes-encontram-armas-brasileiras-em.html
Bem, o vídeo disponível no endereço http://ultimosegundo.ig.com.br/revoltamundoarabe/reporter+encontra+armas+brasileiras+em+deposito+secreto+de+kadafi/n1597186683381.html informa que foram encontradas muitas armas de origem russa e de outros países do mundo. Mas, o repórter mostrou apenas um manual ou livro de propaganda de uma arma nacional, caixas vazias e material bélico.
ResponderExcluirOlá, parabéns pela excelente qualidade de seus textos!
ResponderExcluirGostaria de saber a sua opinião sobre o "smart carry deep concealment holster", o maior ponto positivo deste coldre é a grande ocultabilidade da arma aumentando em muito o efeito surpresa, já q se tomar um "geral" de um meliante a arma é dificilmente encontrada, pois as em algumas situações não se tem poder de fogo o suficiente (como é o caso de no RJ os marginais portarem fuzis e granadas nos assaltos).
Olá, parabéns pela excelente qualidade de seus textos!
ResponderExcluirGostaria de saber a sua opinião sobre o "smart carry deep concealment holster", o maior ponto positivo deste coldre é a grande ocultabilidade da arma aumentando em muito o efeito surpresa, já q se tomar um "geral" de um meliante a arma é dificilmente encontrada, pois as em algumas situações não se tem poder de fogo o suficiente (como é o caso de no RJ os marginais portarem fuzis e granadas nos assaltos).
Fiquei em dúvida sobre este coldre que o colega acima falou. Será que realmente é bom? Nunca tinha visto modelo semelhante, achei até interessante, mas gostaria de saber a funcionalidade do mesmo. Que ele dissimula o porte, parece não haver dúvidas, mas será que é seguro o saque em velocidade com este tipo de coldre. Se puder responder ao colega ai, irá sanar minha dúvida também. Grato
ResponderExcluirMais um excelente post. Espero que não demore mt a vir o proximo artigo e que o livro saia do forno logo, comprarei na PRÉ VENDA (se tiver, hehe). Vou começar a treinar hoje mesmo. Abraço!
ResponderExcluirCaros colegas,
ResponderExcluirconheci o coldre denominado "Smart Carry Deep Concealment" em 1998 durante o treinamento de tiro instintivo. Quanto à dissimulação no porte da arma, o modelo pareceu ser excelente, já que se pode portar a arma usando um short ou uma bermuda. Contudo, não creio que seja funcional, com relação à rapidez no saque, se usado com uma calça jeans, por exemplo. Outra questão importante é se o coldre oferece o conforto desejável quando se está sentado. Obviamente, para oferecer um parecer mais apurado seria necessário experimentar este coldre. De qualquer modo, é preciso pensar na funcionalidade destes produtos na hora do desespero. Será que a vítima vai conseguir enfiar a mão dentro da calça (jeans e cinto) e sacar a arma sem pressionar o gatilho na hora errada. Só testando...
Opa!
ResponderExcluirGostaria de saber se existe previsão pra publicação do seu próximo livro.
Obrigado
Caro Lamiai,
ResponderExcluirtenho recebido grande ajuda na capa, mas ainda não existe previsão para a publicação do material.
Forte abraço.
Olá, sou agente da PCDF. Visitei seu blog muito útil para nós esta matétia. Pretendo navegar mais por aqui. Eu e uma colega também temos um blog policial, se puder faça-nos uma visita. Lili http://apolicialfeminina.blogspot.com
ResponderExcluirMaravilha de artigo. Sempre rico em informações úteis para nós policiais. Uma pena que nossas intituições (as estaduais em sua maioria) nao investem em treinamento. A cada artigo seu que leio fico mais apaixonado pela policia, mas ao mesmo tempo fico com medo de saber o quanto estou despreparado para tal função.
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