sexta-feira, 4 de março de 2011

Treinar pra quê?


Em 28 de janeiro de 2009 foi publicado o artigo Carregar e ficar pronto! Sua sobrevivência depende de três coisas! O artigo foi difundido por meio da Internet e postado em um fórum sobre concursos públicos. Até aqui, tudo bem!

Contudo, o que chamou minha atenção foram dois comentários sobre o texto. O primeiro comentarista escreveu: “Que nóia! Em tempos de carnaval: Olha a lavagem cerebral aí gente!!!!!!!!” Já o segundo registrou: “Ah velho, esse cara tá assistindo muito filme americano... Digo mais, na primeira oportunidade que ele ver algo estranho vai acabar tomando um tirambasso (sic) na testa.”

O curioso é que o fórum se denominava “Aos futuros federais...” Portanto, isso requer algumas reflexões sobre o comprometimento com a própria segurança dos futuros policiais e o papel dos professores das diversas disciplinas ministradas nas academias de polícia, deixando de lado a análise do perfil de ajustamento (ou não) para sucesso da atividade de polícia de alguns candidatos à carreira policial.

Não há qualquer dúvida de que cada integrante de uma organização policial é importante para o desempenho e o bom resultado de sua missão institucional que é a promoção da liberdade e dos direitos dos cidadãos. E para isso, existem aqueles homens que fazem o trabalho dia e noite e aqueles que estruturam o ambiente para que todos tenham uma condição ideal para desempenhar suas funções para o sucesso policial. Pelo menos é assim que deve ser! Mas o importante é que todos têm um trabalho a fazer, e muitos procuram fazer bem.

Desse modo, também é importante lembrar o papel dos professores, mesmo que algumas pessoas acreditem que seus ensinamentos e considerações sejam meros exageros (como demonstram os comentários do fórum), pois os policiais ainda podem trabalhar, patrulhar, investigar e administrar sem os instrutores. Porém, é possível melhorar? É possível tornar o trabalho de cada policial mais seguro e eficaz, mesmo que muitos jamais sejam forçados pelo acaso a enfrentar o perigo? Se a resposta for não, então a trabalho está completo. Mas se a resposta for sim, então cabe a cada policial, e principalmente ao professor, auxiliar nesta superação.

Por quê? Porque o professor tem a tarefa de produzir e avaliar uma informação para dispô-la num contexto no qual o policial seja capaz de usar com aproveitamento. O instrutor deve trabalhar com os colegas, observando suas atividades e absorvendo suas experiências, para criar um mecanismo que se ajuste à necessidade do trabalho e melhore a segurança de cada indivíduo empenhado na luta contra a violência e o crime.

Para isso, o instrutor precisa pesquisar e aprender continuamente, procurando novas informações que os policiais possam necessitar, e descobrindo como levá-las até eles no tempo e na forma corretas. Felizmente, os bons policiais têm um pouco de professor dentro deles, pois todos dividem experiências, informações e aprendem uns com os outros.

Mas o policial que é designado como instrutor (seja de tiro, de técnicas operacionais, direção defensiva e ofensiva ou qualquer uma das mais variadas disciplinas) é o que tem o encargo específico de desenvolver, coletar e transmitir informações efetivamente. E essa é uma grande responsabilidade! Ele precisa ser sempre curioso sobre a natureza da profissão policial. Ele jamais deve acreditar que já sabe tudo o que precisa saber. Se um instrutor desenvolve um estado mental de que ele completou seu treinamento e de que é um ás, então ele alcançou um ponto onde não é mais capaz de oferecer o máximo de utilidade em benefício dos colegas policiais que arriscam suas vidas diariamente.

O professor deve aprender mais sobre o que ele e os outros colegas fazem. Ele deve desenvolver treinamentos, participar de seminários e cursos a distância, ler e conversar com outros instrutores e especialistas. Como tal, ele deve se sentir a vontade para escrever artigos e livros, onde novas ideias são oferecidas para o melhoramento dos policiais. Além disso, ele tem a obrigação de estar certo de que a informação transmitida está correta e atualizada, realizando uma análise de cada dado. Essas são apenas algumas das coisas que o instrutor precisa fazer para continuar presente.

O professor não pode ser propagador do mau trabalho policial, e jamais pode ser insensível às tentativas dos colegas policiais que querem atingir a excelência. Ele deve ajudar, e não ficar alheio para depois criticar injustamente um esforço honesto para melhorar, ainda que esteja sob o peso da desmotivação que permeia o trabalho policial.

Finalmente, o professor deve fazer o máximo esforço para proteger a dignidade e a integridade física daqueles que são treinados. Quando algum policial é ferido ou morto, ele deve descobrir as causas de um resultado tão negativo para tentar, da melhor maneira possível, reduzir a chance de futuras ocorrências semelhantes. E é para isso também que servem os artigos publicados na Internet, o desenvolvimento de blogs policiais e o lançamento de livros!

Quanto ao policial, seu papel é treinar para desempenhar bem sua função e estar a salvo, pois não é possível saber antecipadamente quem será a próxima vítima ou quem irá se aposentar sem sofrer um incidente ao longo da carreira. E como todo policial tem um pouco de instrutor dentro de si, pois cada experiência é única e valiosa, sua tarefa também é aprender e ensinar. E aos futuros policiais, o trabalho talvez seja aprender a aprender.

Treinar (mesmo mentalmente) não custa nada, mas a vida de um colega policial vale muito. Contudo, se alguém acha que nada vai acontecer, que tudo é exagero, paranoia, lavagem cerebral ou coisa de cinema e que não é preciso sequer acreditar no perigo, talvez seja melhor tentar outra profissão para o próprio bem e para a salvaguarda daqueles homens e mulheres que já abraçaram e honram a carreira policial dedicando diariamente suas vidas em prol de pessoas desconhecidas.

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal e Professor de Armamento e Tiro lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG.
E-mail: humberto.wendling@gmail.com
Blog: www.comunidadepolicial.blogspot.com

13 comentários:

  1. Suas postagens sempre são diferenciadas! Obrigado pelas informações e disponibilidade de material de qualidade.

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  2. "Treinar (mesmo mentalmente) não custa nada, mas a vida de um colega policial vale muito. Contudo, se alguém acha que nada vai acontecer, que tudo é exagero, paranoia, lavagem cerebral ou coisa de cinema e que não é preciso sequer acreditar no perigo, talvez seja melhor tentar outra profissão para o próprio bem e para a salvaguarda daqueles homens que já abraçaram e honram a carreira policial dedicando diariamente suas vidas em prol de pessoas desconhecidas".

    Concordo plenamente contigo Humberto,muitas pessoas não tem a completa visão da profissão policial e o que está envolvido.

    "E aos futuros policiais, o trabalho talvez seja aprender a aprender".

    Converso muito com policias antigões e o que eles mais me falam é sobre isso. A maioria dos jovens policiais chegam na academia achando que já sabem tudo,o que é uma pena. Pois o importante é estar sempre aprendendo,ainda mais com quem tem experiência.

    Abraço

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  3. Acho engraçado porque em todo prédio existem extintores, hydrantes e todos esses equipamentos contra incêndio. Mas não conheço ninguém que tenha perdido alguém num incêndio. Ninguém reclama de paranóia nem excesso de cautela nesses casos, né?

    Por outro lado, percebo que todo mundo conhece alguém que já foi vítima de crimes e atos de violência... e um cara que se diz policial acha que "nada vai acontecer"??? É no mínimo curioso.

    Tenho que adimitir... os bombeiros estão muito melhor preparados do que nós, policiais.

    : )

    Abraço!

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  4. Como sempre: excelente!

    Aqueles que tem mais "sorte" são sempre os que estão mais preparados. Treinar trás tal preparo.

    Abraço a todos.

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  5. Sensatez, sempre presente nos seus textos! Todos temos que aprender que a nossa melhor arma é a prevenção. Quando leio comentários críticos às suas postagens dessa natureza, só tenho a lamentar, como existem pessoas que teimam em confiar na sorte desprevenidas, e consequentemente, despreparadas!
    Desejo mais humildade a essas pessoas para escutarem mais, principalmente, de alguém experiente e disposto a ajudar a preservar a integridade física e a vida dos colegas policiais e dos aspirantes à carreira policial.
    Obrigado e um abraço!

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  6. Me dá uma imensa alegria quando visito este blog e vejo que há novos textos, pois ajuda-me a ampliar meus horizontes e não canso de ler e re-ler todos os artigos e sempre recomendo aos meus colegas. Parabéns Humberto, pela iniciativa e conteúdo de qualidade.

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  7. é sempre uma grata surpresa os textos publicados...

    Alexandre - TFA.'.

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  8. Sd. PMDF / futuro APF15 de março de 2011 15:46

    Completamente de acordo.
    Volta e meia sentimos um pouco o "peso" desmotivação, principalmente porque sabemos que nessa vida o policial que trabalha é o que consegue problemas. Mas basta um olhar na face dos colegas dedicados que percebemos que não podemos desanimar, dependemos uns dos outros e ninguém pode comprar o orgulho que sentimos ao fazer nosso trabalho bem feito.
    Continue escrevendo!

    Sd. PMDF / futuro APF

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  9. Grata novamente por mais está excelente materia.

    FORÇA E HONRA!

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  10. tenho 13 anos apenas, mas meu sonho é ser um soldado da PM. Tenho medo q meus pais ñ vão me dar força por q sou mulher, acho q isso ñ tem nda a ver. Gostei do texo.

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  11. Professor Humberto,

    É um orgulho tê-lo como companheiro de mister. Siga firme no propósito de promover a doutrina policial. Aguardo a publicação dos livros!

    Abraço,

    APF Aurelio

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  12. Muitos de minha turma que acharam tudo isso um exagero hoje dão seus nomes a turmas e estão na lista dos que tombaram.

    APF HOMERO (aposentado)

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  13. Grande Humberto ... Excelente blog, desde que o vi pela primeira vez, continuo assíduo com as matérias lançadas. Continue a nos propiciar conteúdos de alta qualidade. Abraço.
    3ºSG RAFAEL (Marinha do Brasil).

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