quarta-feira, 6 de março de 2013

Autodefesa Contra o Crime e a Violência


Quantas vezes você já pensou na possibilidade de ser vítima de um criminoso? Como se sentiu diante dessa possibilidade? Como seria se você estivesse diante de um assassino ou maníaco sexual? E o que infelizes vítimas de assassinos, torturadores e estupradores pensaram e fizeram ao se verem à beira da morte? Elas rezaram e esperaram um milagre? Elas esperam a polícia? Simplesmente aceitaram a morte, a tortura e a violência sexual por que estavam com medo ou não sabiam o que fazer? A própria polícia as ensinou a nunca reagirem, mesmo diante da morte certa? E o que faria se fosse com você?

É para responder essas perguntas que este livro surgiu, ou seja, oferecer o conhecimento necessário para que as pessoas sejam capazes de se defenderem antes e durante um crime.

Denominado AUTODEFESA CONTRA O CRIME E A VIOLÊNCIA – Um guia para civis e policiais (Clube de Autores, 2018, 332 páginas, 1ª edição), o livro aborda os fundamentos da prevenção contra o crime e a violência; os critérios utilizados por criminosos para selecionar suas vítimas; a identificação de situações potencialmente danosas; a dinâmica do medo com sugestões para o gerenciamento das emoções; e o treinamento mental para lidar com incidentes críticos se o pior acontecer.

A obra também representa um avanço na literatura nacional sobre a autodefesa, pois no mercado nacional existem pouquíssimos títulos sobre o tema, e os que existem simplesmente informam que a vítima jamais deve reagir. Quer dizer, são livros que ensinam você a não fazer nada mesmo no pior momento de sua vida.

Apesar de o assunto também ser de interesse policial, a prevenção contra o crime e o treino mental tratam da responsabilidade pela própria segurança e a tomada de decisões críticas em situações de risco de morte.

Obviamente se a vítima for um policial ou estiver armada, a resposta indicada, se o pior ocorrer, parece ser o uso da arma. Mas isso não diminui a importância da prevenção, pois o que se pretende é evitar o perigo e não confrontá-lo todos os dias. Pouquíssimas pessoas são capazes de negar a necessidade de se evitar os assassinos, os torturadores, os assaltantes, os ladrões, os estupradores, os golpistas, etc.

Uma máxima é certa, em se tratando da autodefesa, e ela diz que a competência é sem valor a menos que possa ser utilizada no momento da necessidade; assim, o resultado obtido no passado é de nenhum valor, pois o que conta é aquilo que se pode fazer sempre. Assim, você precisa se convencer de que sua capacidade para estar protegido será temporária se não for cultivada por meio de ações contínuas e baseadas na realidade.

Para adquirir o livro, acesse o site do Clube de Autores (www.clubedeautores.com.br), faça seu cadastro e siga as instruções.


Boa leitura!


Humberto Wendling é Agente Especial e Professor de Armamento e Tiro da Polícia Federal.
E-mail: humberto.wendling@gmail.com
Blog: www.comunidadepolicial.blogspot.com





SUMÁRIO

INTRODUÇÃO
Por que evitar o perigo é a melhor estratégia?
Mas eu estou em perigo?

Os sete componentes da autodefesa
Componente número 1 – Psicologia de sobrevivência
Componente número 2 – Inteligência de sobrevivência
Componente número 3 – Entendendo a seleção da vítima
Componente número 4 – Reconhecendo o comportamento predatório
Componente número 5 – Táticas preventivas
Componente número 6 – Teoria da opção de resposta
Componente número 7 – Método de treino

O processo de seleção das vítimas
Critérios para seleção da vítima
O que um criminoso procura?
O estudo de Grayson e Stein
A análise do vídeo
Como isso se aplica à teoria da prevenção?
E então? Como eu posso usar essa informação?
Conclusão

OS Fundamentos do estado de alerta
Os criminosos violentos não são diferentes das outras pessoas?
A comunicação é predominantemente não verbal
Por que isso é importante?
O que é o estado de alerta?
O que é uma autodefesa bem-sucedida?
A linha de tempo entre o predador e a presa
Sabendo o que procurar
Compreendendo o que são áreas de risco
Prestando atenção
Pontos para lembrar
E então? Como posso utilizar essa informação?

Fazendo a coisa certa na hora certa
Deixe claro seu padrão de sucesso
Você precisa de um sistema integrado de autodefesa, e não de uma receita
Saiba por quem e pelo que vale a pena lutar
Saiba seus direitos e as consequências legais de uma ação desastrada de autodefesa
Conhecendo o esquema do Sistema Integrado de Autodefesa
Conhecendo a Pirâmide da Segurança Pessoal

Estratégia preventiva
Os fundamentos da prevenção
As táticas preventivas

ESTRATÉGIA DE RESPOSTAS
Avalie a situação e depois decida qual a melhor opção para se salvar
As cinco opções de resposta
A prática faz a perfeição

Eu acho que vou ser assaltado hoje
A complacência é a inimiga da segurança pessoal
Mas a complacência é uma função natural do cérebro
Você se torna complacente pela exposição repetitiva a situações ameaçadoras sem consequências
A solução para a complacência é estabelecer hábitos de segurança mesmo na ausência de um perigo visível
Então, o que fazer?

Os SEIS estágios do crime violento
Um importante lembrete legal
HIO (versão resumida)
Os seis estágios do crime violento
Conclusão

CONHECENDO O medo
A definição para o medo
Como isso funciona?
Tipos de medo
E quais são as características das funções orgânicas durante o medo?
Como o medo e o estresse afetam sua capacidade de ação e reação?
Mas por que eu preciso saber essas coisas?

Sugestões para o gerenciamento do medo
Conhecimento é poder
A importância do treinamento
Seu novo comportamento
Valor da sua vida
Acredite que você controla o seu destino
Não negue o que está acontecendo
Pense positivo
Tenha um plano alternativo
Concentre-se na tarefa em mãos e tente manter a calma
Pratique o treinamento mental

treinamento mental
Introdução
Então, o que é o treinamento mental?
E como isso se aplica à autodefesa?
Iniciando a prática da visualização mental na autodefesa
O que incluir na visualização mental?
Pontos para lembrar

SAIBA POR QUEM E POR QUE VOCÊ QUER VIVER

EU Acho que vou usar minha arma
A arma é sua, está na sua casa ou no seu trabalho ou com você. Então, você é o único responsável
Leia o manual de instruções, acesse o site do fabricante e obtenha informações com profissionais competentes
Treinamento dinâmico e tiro instintivo
Um conselho de pai
Uma arma não é para blefe
Você consegue atirar em alguém?
Sua decisão em atirar e a alegação de legítima defesa
Pense na arma como instrumento para auxiliar sua fuga
Pontos para lembrar

E o que eu faço quando alguém estIVER atirando?

É agora!

Referências

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Lar, doce lar! (Parte 2)

Como policiais temos dificuldades em nos imaginarmos como vítimas da violência. Nós concluímos que furtos, roubos, invasões de domicílios e execuções só ocorrem com as outras pessoas, mas não conosco. Afinal, NÓS SOMOS OS POLICIAIS. E quem seria idiota o suficiente para tentar furtar, roubar, invadir nossas casas ou nos matar? Infelizmente, o mundo está cheio de bandidos estúpidos que fazem do crime uma profissão. E eles podem atingir qualquer pessoa, inclusive policiais.

Agora preste atenção nos noticiários por um momento. A circunstância principal na qual os policiais são mortos é o PERÍODO DE FOLGA, quando são vítimas diretas de um crime ou interferem num crime em andamento. Alguns criminosos podem atacar intencionalmente policiais uniformizados, suas viaturas ostensivas e os postos onde trabalham para roubar armas e munições. Esses ataques propositais também podem fazer parte de atentados contra a aparente ordem pública e a desejada paz social. Recentemente, porém, nós também temos percebido um aumento num estilo particular de assassinatos de policiais: a “vingança” ou “caçada”.


A polícia registrou mais um ataque a policial na região de Ribeirão Preto/SP. Um capitão da PM foi PERSEGUIDO por dois homens numa moto na noite do domingo (14/10/2012) e levou dois tiros (um na perna e outro na cintura). A vítima dirigia uma caminhonete quando notou que era seguido. Ele contou que os dois homens dispararam seis vezes contra o veículo. O policial conseguiu revidar e acertou os dois atiradores, matando um e ferindo o outro. Apesar de ferido, o policial conseguiu dirigir até o hospital da cidade. Os policiais militares paulistas estão em estado de atenção com os constantes ataques registrados contra a corporação. Foram seis ataques em menos de dois meses entre as cidades de Ribeirão Preto, Franca, Araraquara, São Carlos e Cravinhos. (ESTADÃO, 2012).


Em Aricanduva, zona leste de São Paulo, um policial foi EMBOSCADO por seis homens EM UMA ACADEMIA DE GINÁSTICA, por volta das 21h. Os bandidos dispararam pelo menos dez vezes contra o PM. Os criminosos não roubaram nada da academia nem da vítima. (R7 NOTÍCIAS, 2012).


No domingo (17/06/2012), mais um policial militar foi MORTO QUANDO CHEGAVA EM CASA, no bairro São Mateus, zona leste de São Paulo. Segundo a polícia, o crime aconteceu por volta das 9h, quando ele chegava do mercado com a mulher e a filha. (R7 NOTÍCIAS, 2012).


Pense sobre esses incidentes e suponha que você é o alvo de qualquer dos ataques. O que aconteceria? O que você faria? Como reagiria ante a possibilidade de alguns criminosos reincidentes seguirem você, sua esposa e seus filhos até sua casa para fazê-los as próximas vítimas? Certamente, essas são questões perturbadoras. Contudo, ainda mais perturbadoras são as possíveis consequências de tais incidentes.

Outra certeza que devemos ter é que a violência pode ocorrer com qualquer um de nós. A ideia de se tornar a próxima vítima pode provocar o desejo de nos tornarmos alvos difíceis para os criminosos. Existem indivíduos perversos desejando fazer coisas aterrorizantes, e muitos deles sequer se importam se somos policiais ou não, se estamos trabalhando ou descansando, se estamos sozinhos ou com nossas famílias, se ainda vibramos com a atividade policial ou se já "jogamos a toalha".

Nós não podemos impedir a intenção criminosa do delinquente, mas podemos nos tornar alvos mais difíceis de acertar para que os bandidos escolham outras pessoas. Isso parece insensível, mas sabemos que criminosos são preguiçosos. Se entre invadir uma casa protegida (com muro alto, concertina, cerca eletrificada, cachorro e um sistema de alarme) ou outra onde os moradores deixam a porta aberta, todos nós sabemos que o criminoso seguirá pelo caminho mais fácil. Portanto, tornar-se um alvo difícil começa exatamente com regras domésticas.

Existem coisas simples que você pode fazer para tornar todas as pessoas em sua casa mais seguras. A primeira e mais fácil delas é sempre trancar as portas e as janelas. Não importa se você vive numa cidade do interior ou na capital, sempre tranque as portas, portões e janelas. Existem muitos casos de bandidos que invadiram residências por uma porta ou janela aberta. Obviamente, uma porta trancada não vai impedir um invasor determinado, mas isso pode atrasá-lo o suficiente para que você alcance sua arma de fogo. E isso nos conduz ao próximo ponto: sempre porte sua arma quando estiver de folga e sempre tenha uma arma de fogo ao alcance das mãos quando estiver dentro de casa. Quando for dormir, ponha a arma ao lado da cama. Aproveite a oportunidade para deixar um telefone celular e uma lanterna acessíveis.

Quantos de nós já chegou em casa simulando uma entrada ou uma progressão, fez um fatiamento dos cômodos para verificar se o local está seguro (“limpo”)? Você pode conhecer cada centímetro da sua casa, mas já tentou progredir e fatiar os ambientes no escuro enquanto empunha sua arma? Saiba antecipadamente o que você deve fazer para ir de um cômodo ao outro; como fará o deslocamento no corredor; como realizará o fatiamento antes de entrar em cada quarto da sua casa enquanto seus filhos ainda dormem. Pense nisso e pratique de vez em quando antes que algo real aconteça. Pratique as técnicas que pretende usar com sua arma em total segurança (sem munição, sem carregador e travada).

Outras coisas simples que você pode fazer em casa é manter as cortinas/persianas fechadas durante a noite. Não dê aos criminosos a oportunidade de ver o layout de sua casa, cobiçar as coisas que você possui e saber exatamente onde você está dentro de sua casa. Durante o dia você pode observar com alguma facilidade alguém “investigando” sua casa ou seu prédio. Mas durante a noite essa pessoa pode se esconder a poucos metros de um local iluminado e não ser notado por quem está dentro de casa.

A maioria de nós não possui condições de instalar um sistema de alarme e de monitoramento de primeira linha ao redor de nossas casas. Mas existem alternativas mais acessíveis, tais como um cão (não precisa ser uma fera, mas um que faça o máximo de barulho com a aproximação de estranhos), trancas nas portas, grades, cercas eletrificadas, concertinas, etc. Mas o melhor e mais barato dispositivo de segurança preventiva é o estado de alerta. Assim, antes de sair de casa (a pé ou de carro) verifique a rua onde mora a procura de pessoas suspeitas que estejam na calçada ou no interior de carros ou motos.

Evite receber correspondências relacionadas ao trabalho policial na sua residência. Peça a empresa que envie o material para o seu local de trabalho. Sempre preencha cadastros com o endereço do trabalho como sendo o residencial. Não é preciso que os vizinhos saibam que você trabalha na polícia.

A mesma ideia vale para o seu uniforme ou para qualquer parte dele (coturnos e calças operacionais). Se for possível, evite sair ou chegar em casa com esse tipo de roupa. Um criminoso, mesmo o mais idiota, pode identificar um uniforme a quilômetros de distância.

Mude o trajeto da sua casa para o trabalho. Varie essa rota e cheque pelo espelho retrovisor se você não está sendo seguido. Se você suspeitar que está sendo seguido, faça algumas conversões (dobre algumas esquinas) ou circule o quarteirão para se certificar de que o veículo de fato o segue. Não vá para casa de jeito nenhum.

Sabemos que não devemos levar trabalho para casa, mas a verdade é que o trabalho sempre nos persegue. E basta portar uma arma, a carteira funcional e a agenda do celular com os números dos colegas para que isso aconteça. Sabemos também que as políticas de segurança pública são patéticas e que os cidadãos não possuem o direito de se defenderem por meio das armas de fogo. Num cenário como esse, fico incomodado em saber que alguns policiais não portam armas quando estão de folga. Outros sequer possuem armas próprias em casa. Outros ainda vão para o trabalho sem uma arma de fogo. Sinceramente, um dos melhores benefícios do trabalho policial é ser capaz de portar uma arma de fogo em qualquer situação mesmo após a aposentadoria.


Em uma sociedade realmente moral e civilizada, as pessoas somente interagem pela persuasão. A força não tem lugar como método válido de interação social e a única coisa que remove essa força da equação é uma arma de fogo, por mais paradoxal que isso possa parecer. Quando eu porto uma arma, você não pode lidar comigo pela FORÇA. Você precisa usar a RAZÃO para tentar me persuadir, porque eu possuo uma maneira de anular suas ameaças ou uso da força. A arma de fogo é o único instrumento que coloca em pé de igualdade uma mulher de 50 Kg e um assaltante de 105 Kg; um aposentado de 75 anos e um marginal de 19, e um único indivíduo contra um carro cheio de bêbados com bastões de baseball. A arma de fogo remove a disparidade entre força física, tamanho, número de agressores em potencial e alguém se defendendo. Quando eu porto uma arma, eu não o faço porque estou procurando encrenca, mas porque espero ser deixado em paz. A arma na minha cintura significa que eu não posso ser forçado, somente persuadido. Eu não porto uma arma porque tenho medo, mas porque ela me permite não ter medo. Ela não limita as ações daqueles que iriam interagir comigo pela razão, somente daqueles que pretenderiam fazê-lo pela força. Ela remove a força da equação. E é por isso que portar uma arma é um ato civilizado. Então, a maior civilização é onde todos os cidadãos estão igualmente armados e só podem ser persuadidos, nunca forçados. (KLOOS, Why the gun is civilization).


Você também deve praticar com sua arma simulando condições fora do serviço, já que praticamente nenhuma organização policial promove qualquer treinamento com o uso velado da arma. Ao invés de verificar quantos impactos atingiram o alvo de papel, realize algum treino mais próximo do razoável para situações de risco. Simule que você está numa farmácia durante um assalto, seus braços estão levantados (posição de rendição) e você está de frente para o criminoso. Olhe a sua volta para identificar um comparsa. Treine como seria levantar a camisa, sacar RÁPIDO e atirar contra o bandido. Grite “polícia”. Olhe a sua volta novamente. Onde está o comparsa agora? Dica: nunca levante as mãos muito para o alto. Se você for abordado e os criminosos ordenarem que você levante as mãos, faça isso de modo que elas fiquem na altura dos ombros, no máximo. Desse modo, você pode alcançar sua arma com mais RAPIDEZ sem ter que fazer um movimento brusco e muito longo.

Se você estiver a pé, talvez indo para o ponto de ônibus, tenha um nível de atenção que possa abranger 360° a sua volta. Essa área deve se estender alguns metros adiante. Dependendo do lugar, do horário, etc., talvez você precise ampliar esse alcance. Procure identificar as pessoas e o que elas estão fazendo. Qualquer pessoa que pareça suspeita deve ser foco da sua atenção.

Mantenha um telefone celular sempre ao alcance e com bateria plena. Considere não inserir códigos de segurança ou bloqueio de teclas que possam atrasar ou dificultar uma ligação de emergência. Configure as teclas de discagem rápida do seu celular para ser capaz de discar para a polícia ou para algum colega. Ligar para o 190 é bom, mas muitas vezes é melhor ligar para um colega que é seu AMIGO DE VERDADE. Por isso também é importante fazer amigos em todas as polícias. Mas dependendo da organização policial onde você trabalha é preciso saber para quem NÃO se deve pedir ajuda, ainda que seja o colega da sala ao lado.

Estas são apenas algumas dicas que podem tornar sua vida e a vida das pessoas que você ama mais seguras. Isso não tem nada haver com ser paranoico; tem haver com estar alerta em relação aquilo e aqueles que estão a sua volta. Tem haver com estar preparado e ter um plano de ação porque muitas vezes os criminosos nos transformam em vítimas de seus crimes. Portanto, não seja uma vítima; tenha um plano; tenha um plano B; reaja; e faça com que os criminosos se arrependam de terem cruzado o seu caminho.


Porque a Arma é Civilização, Markos Kloos (http://jpfo.org/articles-assd02/marko.htm).

sábado, 19 de janeiro de 2013

Lar, doce lar! (Parte 1)

"Eis meu lar, minha casa, meus amores" (Casimiro de Abreu, No lar, 1859).

Nada resume melhor a importância do lar como a frase de Casimiro de Abreu, já que o lar é uma das coisas mais valiosas que se pode ter.

O lar é o oásis no deserto; é a proteção contra a inveja, a intriga, a maledicência, o azedume. É o refúgio contra as tolices e intransigências típicas das frágeis relações no ambiente de trabalho. Mais ainda, é o lugar onde se guardam as preciosidades da vida: a família, as lembranças e os sonhos. Portanto, o lar é o santuário do homem e o local onde ele guarda sua privacidade. Decerto é o lugar onde também se guardam os objetos conquistados com o esforço do trabalho diário.

A casa é tão fundamental que a própria Constituição Federal a considera um local INVIOLÁVEL. O texto informa que “a casa é o asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial.” (Constituição da República Federativa do Brasil, Artigo 5º, Inciso XI).

Assim, com tamanho significado, a casa é o lugar mais sagrado e protegido que pode existir. Talvez esse seja o único conceito compartilhado democraticamente por todos os seres humanos, considerando que até no sistema prisional, o novo preso deve pedir licença aos demais antes de entrar na cela. E se a regra funciona com indivíduos de espíritos e mentes elementares, também funciona com pessoas melhores.

O grau de violência que um arrombador pretende usar quando entra numa casa vazia é totalmente diferente do nível de violência daquele criminoso que força a entrada numa residência ocupada. O gatuno talvez desista da ação e fuja ao primeiro sinal de presença humana. Contudo, o assaltante que invade uma casa habitada está mais que disposto a usar toda a força física para conseguir o que quer. Na verdade, numa situação assim o aumento no grau de violência é apenas uma questão de capricho pessoal, sadismo e um pouco mais de pressão no gatilho do revólver. E não resta dúvida de que algo planejado para ser um simples assalto pode se tornar uma sessão de tortura, abuso e morte. Por isso, o arrombamento de uma casa é um crime sério e com consequências perigosas para seus habitantes.

Mas e quanto à casa de um policial? Bem, é tudo isso e mais um pouco, pois é a fortaleza que o separa e protege contra seus VERDADEIROS inimigos: golpistas, ladrões, assaltantes, assassinos, estupradores, etc. É o local onde ele pode finalmente baixar a guarda e experimentar a merecida paz, certo!? Infelizmente, parece que não!

Na noite de 03/01/2013, dois homens foram baleados após invadirem a casa de um Agente Federal. Ele estava no escritório da residência quando sua esposa chegou do trabalho. Ela estacionou o carro na garagem, abriu a porta da sala, entrou em casa e acionou o controle remoto para fechar o portão. Enquanto o portão era fechado, o policial ouviu um barulho forte vindo da garagem e o grito da esposa. Por ser um policial extremamente experiente e perspicaz, ele logo deduziu tratar-se de um assalto. Daí ele pegou sua arma e seguiu em direção a sala. O policial visualizou os dois assaltantes armados com revólveres no instante em que o primeiro delinquente apontava a arma para a sua esposa. Assim que os projéteis .45 ACP Hidra-Shok começaram a voar pela sala a uma velocidade de 980 km/h, os criminosos começaram uma fuga desesperada, conhecida como a “corrida da morte” (quando deixam para trás bonés, carteiras, armas, chinelos, comparsas). Os assaltantes correram para a garagem, mas como o portão já estava fechado, eles escalaram um muro alto e arrebentaram a cerca eletrificada. De acordo com testemunhas, lá fora um terceiro bandido deu fuga aos criminosos e os levou ao pronto socorro da cidade.

A notícia no jornal local informou que “após um cerco na região, policiais interceptaram um veículo com outros três suspeitos que teriam auxiliado no crime e no socorro aos baleados. Os policiais fizeram uma busca na casa dos suspeitos e encontraram diversos objetos sem procedência comprovada, além de um revólver que teria sido usado na ação. O primeiro criminoso ferido foi atingido no olho esquerdo, mão direita e cotovelo esquerdo. O outro foi baleado nos dois braços.”

Os dois estão vivos e se recuperam dos ferimentos no sistema prisional. Ao ser perguntado por que invadiu a casa de um policial, o criminoso cego disse: “Sou bandido, mas não sou burro! Dei mole, entrei na casa errada, na casa de um ‘cana’ bravo!”

Certa vez, outro Agente Federal disse que quando criminosos trazem o caos para sua vida, você deve retribuir do mesmo modo. É aí que a caça vira o caçador!

Mesmo com informações preliminares, é possível afirmar que o policial não cometeu qualquer erro. Ao ouvir o barulho vindo da garagem e o grito da esposa, ele imediatamente deduziu que era um assalto e agiu antes que fosse rendido. Ele fez a única coisa viável naquele momento: disparou sua arma até se livrar do perigo. Se ele fizesse diferente, se não acreditasse no perigo, se fosse obediente e tentasse negociar para poupar a vida de sua família, certamente a notícia seria outra.

Agora adivinhem onde estava a arma do policial enquanto ele permanecia no escritório? AO ALCANCE DAS MÃOS. É incrível, mas milhares de policiais quando chegam em casa logo se livram do excesso de peso que representa a arma, o coldre, o carregador sobressalente, o canivete tático e a carteira. É como se o policial desligasse o interruptor do seu estado de alerta justo no lugar mais sagrado que existe: o lar, doce lar. É óbvio que ninguém anda o dia inteiro pela casa com a arma na cintura; talvez alguns policiais ainda levem a arma para o banheiro quando estão sozinhos. Mas é só!

Então, você precisa enxergar a sua casa através dos olhos (ou do olho) do criminoso. Muitas vezes, você torna o trabalho do bandido mais fácil já que ele nem sequer precisa usar a força para entrar na sua casa - ele simplesmente entra por um portão, porta ou janela aberta.

Sempre que você está num lugar familiar a impressão que se tem é de total segurança. Isso acontece na delegacia de polícia, no quartel, dentro da viatura, do carro particular e em casa. Só que isso é uma ilusão, pois ninguém está 100% seguro em todas as ocasiões. Portanto, fique alerta, tranque sua casa o mais rápido que puder SEMPRE e mantenha sua arma de fogo à mão nos momentos que considera mais críticos (enquanto dorme ou espera alguém da família chegar).

Este artigo é uma homenagem ao policial pela reação marcante que salvou sua família e pela admiração e respeito.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O seguro morreu de velho!

Se você pressionar o gatilho de uma arma de fogo, ela fará exatamente aquilo para o qual foi projetada. Ou seja, sua pistola lançará um projétil até o alvo, que pode ser o agressor, o chão, o assoalho da viatura, a parede da sua casa, você ou uma pessoa inocente.

Normalmente, quando se aprende a atirar, duas regras básicas de segurança são mencionadas: manter o dedo fora do gatilho até estar pronto para atirar e nunca apontar a arma para si mesmo ou alguém em quem não deseja atirar. Depois disso, o próximo comando é: “Atenção, fogo!” Na verdade, pouca ênfase se dá as regras de segurança após elas serem relembradas.

Se você tem uma arma de fogo, certamente a manuseia com mais frequência do que atira com ela. Significa que você tira e insere a arma no coldre; retira o carregador; descarrega e carrega a arma; faz a limpeza; pressiona o gatilho; desmonta e monta a arma, etc. E isso é parte da rotina se você possui ou porta uma arma.

Desse modo, uma das coisas mais perigosas que pode acontecer quando alguém maneja uma arma é um disparo acidental. Essa ocorrência pode ser devida a uma falha humana ou do armamento. Um disparo acidental, portanto, é um episódio que compreende o disparo duma arma de fogo num instante não desejado pelo atirador. Tal ocorrência pode ser provocada pela falta de responsabilidade do usuário ou pela instrução inadequada sobre as regras de segurança. Exemplos disso são as tragédias envolvendo crianças que pegam armas deixadas em casa e as disparam acidentalmente contra amigos ou familiares. Brincadeiras com armas de fogo são demonstrações óbvias de falta de maturidade para lidar com tais instrumentos. É certo que nesse tipo de disparo acidental todas as regras de segurança foram desobedecidas simultaneamente, resultando em grande número de ferimentos graves ou mortes. A falta de conhecimento também não é desculpa para um disparo acidental.

Talvez o mais comum nesse tipo de incidente seja o gatilho ser pressionado sem o propósito de se atirar efetivamente (como nos treinos em seco, demonstrações, testes de funcionamento), mas a munição ainda está, inadvertidamente, presente na arma.

Uma segunda causa comum de disparos acidentais é quando o usuário insere o dedo no gatilho antes de ter decidido atirar. Com o dedo posicionado desta forma, muitas coisas podem provocar a pressão inadvertida do gatilho. Por exemplo, se você tenta coldrear a arma com o dedo no gatilho, o coldre irá conduzir o dedo ao longo do gatilho, e um disparo é provável. Se o você cai, leva um susto ou se atraca (com o adversário) com o dedo no gatilho da arma, outro disparo acidental pode ocorrer.

Isso não deve ser confundido com os casos em que o usuário dispara de propósito contra alguém e acerta outra pessoa. Pressionar o gatilho intencionalmente e acertar uma pessoa não pretendida é uma questão de falha na identificação do alvo durante situações estressantes. E isso é o resultado da falta de treinamento de tiro para situações de autodefesa, quando é preciso rapidamente identificar a ameaça (o alvo correto) e realizar os disparos.

Agora a diferença entre o disparo acidental (produzido pela falta de responsabilidade, instrução inapropriada e incapacidade de identificar o alvo correto) e um disparo não intencional é que neste último caso o usuário possui conhecimento sobre as regras de segurança e manuseia a arma com respeito e da forma adequada. 

Apesar disso, o que se considera num disparo não intencional é a incapacidade do ser humano agir sempre com perfeição. Quer dizer, é a possibilidade de falha humana. Mesmo que você faça tudo certo, não há como evitar um erro de vez em quando, como por exemplo, não retirar o carregador da pistola antes de abrir o ferrolho; utilizar um coldre de couro com uma deformação próxima ao gatilho (como a imagem que ilustra este artigo); esquecer um cartucho na câmara e pressionar o gatilho de uma pistola Glock para iniciar sua desmontagem.

Já os disparos por falha mecânica são incomuns atualmente, e neste caso, não há qualquer falha humana ou irresponsabilidade do usuário. Com as tecnologias das armas modernas, o evento de falha mecânica é raro, mas pode acontecer. Um exemplo disso pode ser visto no vídeo postado no YouTube (http://www.youtube.com/watch?v=K5F_rGLMfUQ).

Qualquer pessoa que maneje uma arma de fogo tem a chance de produzir um disparo acidental cedo ou tarde. Se isso não aconteceu ainda, basta esperar um pouco, pois quem possui uma arma vai baixar a guarda em algum momento. Então, o que se pode fazer? Respeitar as regras de segurança e criar uma rotina para reduzir as chances de um disparo acidental.

Então, a primeira regra de segurança normalmente determina que você sempre mantenha a arma apontada para uma direção segura. O cumprimento desta regra assegura que, se um disparo acidental ocorrer, nenhum dano será produzido, em tese. A segunda regra informa que seus dedos devem permanecer fora do gatilho até que a decisão em atirar tenha sido tomada; mesmo que você esteja prestes a encarar um adversário e queira estar preparado para atirar no momento certo, manter o dedo fora do gatilho até a decisão final previne um disparo acidental.

Já o Coronel dos Fuzileiros Navais Americanos John Dean Cooper ampliou as regras básicas de segurança com armas de fogo. São elas: toda arma está sempre carregada; nunca permita que a arma seja apontada para algo que você não está preparado para destruir; nunca deixe o dedo tocar o gatilho até que você esteja pronto para atirar e sempre esteja certo sobre o seu alvo e o que está além dele.

O procedimento de segurança, com propriedade, desenvolve uma rotina de verificação de armas que pode ser utilizada sempre que você pegar uma arma por qualquer razão. O processo consiste em três fases, denominadas cheque visual, tátil e material, e é executado da seguinte maneira:
1. Considerando a arma pronta para o uso, com o dedo fora do gatilho, pressione o retém do carregador;
2. Retire o carregador da arma;
3. Abra o ferrolho e trave-o usando o retém do ferrolho. Neste instante, um cartucho será ejetado da arma. Recolha-o ao final de todo o procedimento;
4. Passe a mão de apoio por baixo da coronha (alojamento do carregador) e confira se você é capaz de enxergar essa mão através da janela de ejeção. Isso garante que o carregador foi realmente retirado, num processo de segurança redundante;
5. Insira o dedo indicador da mão de apoio na câmara da arma para verificar se o cartucho foi realmente ejetado e a arma está, de fato, vazia. Não basta olhar para a câmara, pois isso não garante o processo caso você tenha que realizar a inspeção durante a noite ou em um ambiente mal iluminado;
6. Feche a arma e pressione o gatilho sempre numa direção segura.

Finalmente, se você retirar sua arma do cinto, sempre a mantenha no coldre. Na pistola Glock o coldre é parte integrante do sistema de segurança, uma espécie de medida adicional de segurança, já que a arma não irá disparar se estiver num coldre adequado. Então, prefira coldres em polímero. Coldres de couro são bons, mas podem deformar e criar vincos capazes de pressionar o gatilho na hora de coldrear a pistola. Por isso, verifique seu coldre de couro e nunca tenha pressa para coldrear sua arma (sempre faça isso devagar). E nunca confie na sua memória, confie nas inspeções de segurança.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

É possível atirar só para ferir?

O policial realmente precisa reagir contra um ataque criminoso? Ele precisa disparar sua arma contra o delinquente que tenta matá-lo? O policial tem mesmo que matar essa pessoa quando atira nela? Ele não pode ser civilizado, e somente verbalizar com o bandido? Ele não pode apenas mirar nos braços ou nas pernas? A vida do criminoso não seria poupada, se o policial treinasse para atirar em áreas menos letais?

Algumas pessoas imaginam que o policial pode atirar no criminoso “só um pouquinho”. Mas "só um pouquinho" não existe em termos de força letal. Toda vez que alguém pressiona o gatilho, existe uma boa chance de ocorrer um sério ferimento ou a morte. A lei sequer sugere que a legítima defesa (com emprego da força letal) deva ser empregada apenas para ferir e sem qualquer chance de morte.

Entretanto, uma publicação jornalística informou que a polícia do Estado do Rio de Janeiro matou 327%* mais pessoas que a polícia de São Paulo, que tinha o dobro do efetivo. Para um leigo esse tipo de informação sugere a existência de centenas ou milhares de mortes desnecessárias causadas por policiais psicopatas. Por outro lado, mensagens assim criam a ideia de que TODOS os policiais em TODAS as ocasiões não necessitariam atirar; ou então devessem atirar nos braços e pernas dos agressores durante a aplicação da força letal.

Infelizmente, quando o policial atira contra o bandido, sempre há espaço para se acreditar que ele empregou mais força que o necessário para controlar o agressor que ameaçava sua vida. Então, o policial e até o cidadão em sua legítima defesa devem enfrentar as acusações pela intenção de matar, em razão do suposto excesso no emprego da força, muitas vezes avaliada em relação à quantidade de disparos, de perfurações ou pelo ponto de impacto na “vítima” (cabeça e costas, por exemplo). Obviamente, não se pode esperar total imunidade para aquele que empregou uma arma de fogo para se salvar. Contudo, o mínimo que se deve ter são pessoas altamente capacitadas para uma avaliação técnica da ocorrência, sob o ponto de vista das dinâmicas dos confrontos armados.

O trabalho policial é controlado no mundo inteiro pelos bons policiais (que ficam afastados daqueles maculados), pelas corregedorias e ouvidorias, pelo Ministério Público, por outros órgãos do Estado e pela imprensa. Mas no Brasil parece haver uma aversão ao universo policial, talvez pela avaliação não especializada de dados “estatísticos” que não alcançam o terror dos conflitos mortais enfrentados pela polícia. Artigos como “A tropa está fora de controle?”; “Em 11 anos, Rio registra 10 mil mortos em confrontos”; “Polícia mata uma pessoa no Brasil a cada cinco horas”; “Policiais militares matam 56,5% mais no Estado de SP”; “Polícias brasileiras usam diariamente munição proibida em guerras”; “Rio de Janeiro: uma polícia que morre muito e mata mais” e “Máquina mortífera” são exemplos de conceitos que sugerem uma polícia assassina e incompetente.

Ao assistir cenas de tiroteios na televisão, você já deve ter ouvido comentários como: “Deviam atirar para assustar!”, “É só atirar na perna!”, “A polícia exagerou!”, “Não precisa mais que dois tiros para resolver o problema!”. Quando civis avaliam, num almoço em família, numa entrevista no telejornal ou num tribunal, as mortes decorrentes de confrontos armados com policiais, essas ideias sem base técnica sempre surgem. A questão primordial é julgar a reação de um homem tendo como referência conceitos pré-concebidos, preconceituosos, amadores e sem base científica. É o piloto do jogo de computador Flight Simulator julgando as ações de um piloto de caça da Força Aérea! Desse modo, atirar para ferir é ingenuamente considerado um meio razoável ou ideal para interromper um comportamento perigoso que ameaça a vida do policial e do cidadão inocente.

Mas a verdade é que esse tipo de pensamento é resultado do TREINAMENTO DA TV, cujos filmes, seriados e novelas mostram atores encarnando policiais capazes de fazer todo tipo de peripécia para dominar centenas de bandidos. Nos filmes, o policial consegue contar os disparos; acertar a perna ou o braço do bandido sem atingir um osso ou um vaso sanguíneo importante; conversar com o parceiro no meio do tiroteio. O mocinho é sempre atingido de raspão e no final tudo termina numa bela briga. A questão é que isso reflete a incompreensão sobre a verdadeira face dos tiroteios e gera expectativas fora do comum em relação às habilidades reais de um policial.

Então, por que atirar para ferir não é possível nem desejável no desempenho policial padrão? Acredita-se que atirar na perna ou no braço de um criminoso tende a interromper a agressão, evitando a necessidade de se atirar na cabeça ou no peito, locais onde o resultado morte é mais provável. Ao se exigir apenas a aplicação do menor nível de força necessária para controlar um criminoso, espera-se aparentemente reduzir a probabilidade de disparos considerados excessivos ou intencionalmente mortais.

Contudo, estudos conduzidos pela Universidade Estadual de Minnesota, nos Estados Unidos, revelam alguns problemas práticos dessa ideia. Eles explicam algumas das características básicas do movimento corporal em relação ao tempo de reação e aos riscos de acertos e erros durante tiroteios reais.

A análise dos componentes humanos no tempo de reação demonstra que um número de princípios está em operação em todos os tiroteios envolvendo policiais. Estes princípios estão ligados à percepção (ato de ver e entender uma situação), ao processamento (ato de dar sentido àquilo que é visto e tomar decisões com base neste sentido) e à reação (ato de responder ao que é percebido e processado).

Assim, tais estudos indicam que as mãos e braços podem ser as partes móveis mais rápidas e ágeis do corpo humano. Por exemplo, um criminoso pode mover a mão e o antebraço através do corpo num ângulo de 90º em 12/100 de segundo (dobrar o braço para apontar uma arma na linha da cintura, por exemplo). Ele ainda pode mover a mão a partir da coxa até a altura do ombro em 18/100 de segundo (levantar o braço para apontar uma arma na linha do ombro). Entretanto, um policial comum com uma pistola Glock, pressionando o gatilho o mais rápido que pode, gasta 31/100 de segundo para disparar um tiro depois de ter percebido uma ameaça. Destes 31/100, 25/100 de segundo são utilizados para perceber a ameaça, processar a informação e enviar um estímulo para o dedo pressionar o gatilho; os outros 6/100 de segundo são gastos para a ação mecânica de pressionar o gatilho.

Portanto, não há como o policial reagir, enquadrar o alvo, atirar e acertar de modo confiável o braço ou a mão do criminoso que empunha uma arma no tempo disponível e antes que ele mesmo receba o primeiro tiro.

Mesmo que o suspeito mantenha o braço que empunha a arma parado por meio segundo ou mais, um disparo preciso é improvável, pois nestes conflitos raramente os envolvidos estão imóveis.

O braço se move mais lentamente que o antebraço e a mão. Mas ao atirar no braço, existe uma grande chance do policial acertar a artéria braquial ou o centro de massa do suspeito, áreas com alta probabilidade de causar uma fatalidade.

As pernas inicialmente tendem a se mover mais lentamente que os braços. Contudo, as regiões abaixo do tronco até os joelhos são altamente vascularizadas. Caso o policial acerte um grande vaso sanguíneo da perna, o criminoso pode sangrar e morrer em poucos segundos. Então, atirar para ferir pode causar um resultado pior do que o esperado.

Mesmo se o policial acertar a perna de modo não fatal, isso ainda deixa as mãos do bandido livres para atirar, pois sua habilidade para ameaçar a vida do policial não foi definitivamente interrompida. Então, como surgem essas ideias de atirar para ferir? A resposta: treinamento da TV.

E se o policial tentar acertar o braço ou a perna do suspeito, porém errar e atingir o tórax? Como a sua verdadeira intenção será julgada? Quem, gozando plenamente de suas faculdades mentais, se tornará um policial num país onde atirar para ferir é o procedimento padrão? Essas ideias possuem um bonito apelo humanitário, mas além do treinamento da TV, não resistem quando confrontadas com a realidade.

E a realidade de uma formação policial moderna ensina que a força letal deve ser utilizada com a intenção de interromper, o mais rápido possível, a agressão do suspeito. Querendo ou não, isso ocorre de modo mais confiável se o funcionamento do sistema nervoso central for interrompido (cabeça e medula espinhal) ou se ocorrer intensa hemorragia (coração, órgãos altamente vascularizados, vasos sanguíneos importantes, grande quantidade de perfurações no corpo). Alguns estudiosos também incluem a destruição da estrutura óssea que dá sustentação ao corpo como outra forma de se incapacitar imediatamente um criminoso violento. Por essas razões, atirar no centro de massa do agressor é considerado o modo mais efetivo para cessar um ataque porque o tórax concentra áreas vitais com os maiores vasos sanguíneos do corpo. E se a consequência de uma falha é a morte, o policial precisa garantir a maior chance de sucesso possível.

A ideia de atirar em áreas pequenas do corpo que se movem rápido, com a intenção de ferir ao invés de cessar imediatamente a agressão criminosa, sugere algumas considerações táticas:

1) O instinto de sobrevivência do policial pode exerce uma forte influência sobre a escolha de uma parte do alvo em particular. Quer dizer, é improvável, ou até mesmo impossível, que o policial sob FORTE ESTRESSE consiga CONSCIENTEMENTE pensar, mirar e atirar nos braços ou pernas do agressor. Além disso, se a vida do policial está sob violenta ameaça, sua primeira preocupação óbvia é com a própria existência, e não com a preservação da vida do criminoso. Se um bandido aponta uma arma para ele, a última coisa que o policial vai pensar é “Ah! Agora eu vou atirar bem na perna dele!” Desse modo, atirar no centro de massa é um padrão psicológico;
2) Mesmo quando policiais muito bem treinados tentam acertar o centro de massa, muitas vezes eles erram. Portanto, atingir com precisão um braço ou uma perna de um criminoso em movimento é praticamente impossível. Criar a expectativa de um padrão de desempenho impraticável é ridículo, ainda mais considerando a deficiência do Estado em promover treinamentos regulares para maioria dos policiais. No final das contas, um tiro que erra o alvo ainda pode ferir ou matar um cidadão inocente;
3) Atirar para ferir indica o uso incorreto do equipamento da polícia. Opções menos letais devem ser aplicadas somente com as ferramentas desenvolvidas com esse propósito. Se um policial deliberadamente usa um instrumento ou a força letal para controlar alguém que não representa uma ameaça mortal, então ele está usando a ferramenta errada para o trabalho. A história recente da PMDF mostra um sargento usando uma pistola para golpear um torcedor de futebol. A arma disparou e o torcedor morreu com um tiro na cabeça. Além disso, se um policial atirar no braço ou na perna dessa pessoa, ele pode destruir tecidos musculares, quebrar ou estilhaçar ossos ou destruir a função dos nervos, mutilando essa pessoa para sempre.

Mas como explicar os tiros que são disparados depois que o criminoso é incapacitado? O mesmo estudo da Universidade de Minnesota esclarece essa questão.

Há vinte anos, os policiais americanos eram treinados para ATIRAR e DEPOIS AVALIAR a situação (o comportamento do alvo). Eles disparavam uma ou duas vezes, então paravam para ver o efeito no delinquente. Isso exigia de 25/100 de segundo a 5/10 de segundo, tempo que o suspeito poderia utilizar para continuar atirando, se não tivesse sido incapacitado.

Agora os americanos aprendem a ATIRAR AVALIANDO o comportamento do agressor para determinar o efeito dos tiros à medida que continuam disparando, num processo contínuo. Isso permite que o policial se defenda de modo continuado. Mas, como o cérebro está tentando fazer duas coisas ao mesmo tempo – atirar e avaliar – uma expressiva alteração no comportamento do criminoso deve ocorrer para que o policial possa reconhecer a mudança da situação para interromper os disparos.

Não é preciso grande esforço para reconhecer que a queda do criminoso no chão, após ser atingido, é uma mudança significativa na situação. Porém, analisando a forma como as pessoas caem, outro estudo determinou que são gastos em torno de 1,1 segundos para uma pessoa cair no chão em razão de um colapso repentino. Isso quando elas são atingidas no centro motor que produz uma imediata perda da tensão muscular. Nesse experimento, ficou demonstrado também que um policial comum consegue disparar quatro tiros em um segundo.

Portanto, enquanto o policial está observando esta mudança, ele ainda estará disparando sua arma se estiver pressionando o gatilho o mais rápido que pode na tentativa de salvar sua vida (instinto de sobrevivência). Neste caso, contando do momento em que o policial percebe a mudança da situação até o tempo em que ele é capaz de processar a informação e enviar um estímulo para cessar o disparo (25/100 de segundo), e somando o tempo necessário para INTERROMPER o ciclo de acionamentos do gatilho (calculado pelos pesquisadores em 6/10 de segundo), tem-se 85/100 de segundo, ou seja, quase um segundo. Implica dizer que dois ou três disparos adicionais ocorrerão. Então, se o policial estiver reagindo o mais rápido que puder, ele não conseguirá ser veloz o suficiente para interromper a puxada do gatilho. Se ele tivesse que fazer isso de qualquer maneira, a decisão de interromper os disparos deveria ocorrer bem antes dele perceber a mudança da situação (queda).

Logo, atirar além do momento em que o criminoso foi neutralizado não é, na maioria dos casos, um ato deliberado ou mal intencionado. É um fator involuntário das dinâmicas dos seres humanos. E dado o que a ciência informa sobre encontros armados, atirar para ferir é uma fantasia, cuja exigência poderia estabelecer um padrão de desempenho policial típico de um super-herói, para depois punir criminalmente aqueles incapazes de alcançar tal meta. Basta lembrar que mesmo computadores levam tempo para registrar um dado, processá-lo e apresentar uma resposta.

Para entender a importância deste assunto, é preciso lembrar que policiais podem ser processados por terem disparado suas armas meio segundo antes ou por terem atrasado a interrupção da puxada do gatilho em meio segundo ou, ainda, por terem agido em desacordo com aquilo que um leigo considera “apropriado”. Então, se você vai se envolver na avaliação do comportamento do policial baseado naquilo que ele fez em uma fração de segundo, é importante entender os limites da capacidade de reação do ser humano e aplicar esses limites de modo científico em se tratando de confrontos armados envolvendo policiais.

Também não há dúvida de que as pessoas que defendem o conceito de atirar para ferir compreendem muito pouco sobre as dinâmicas do corpo humano, a balística, as táticas ou os desafios que os policiais enfrentam nas ruas diariamente. Por isso, algumas instituições descobriram que esses críticos podem compreender melhor a atividade policial se forem convidados para treinamentos de tiro.

Existe outra ideia: deixar que os críticos façam a parte perigosa do trabalho policial para ver se são capazes de agir de acordo com o que pensam!

Finalmente, deve-se perguntar o seguinte: os bandidos realmente precisam reagir contra a ação legítima do Estado? Eles precisam disparar suas armas contra os policiais que apenas tentam prendê-los? Os criminosos realmente precisam matar essas pessoas quando atiram nelas? Eles não podem ser civilizados, e apenas se entregarem aos policiais? Eles não podem apenas mirar nos braços ou nas pernas dos policiais e das vítimas indefesas?

*Fonte: O Globo, com o artigo “Polícia Militar do Rio mata 327% mais que a de São Paulo, que tem o dobro do efetivo”, publicado no site da FENAPEF em 10/03/2008.