terça-feira, 9 de junho de 2009

A arma disparou, mas foi sem querer querendo!

Numa reserva de armamento, o policial encarregado vê uma submetralhadora HK MP5 sem o carregador e com o ferrolho aberto. O policial, presumindo que a arma está descarregada, libera a alavanca de manejo (Ei! Você examinou a câmara?), destrava a arma, pressiona o gatilho, e BANG!

Durante uma operação, outro policial entra na viatura, aponta um fuzil HK G36 para o assoalho. Para conferir se a arma está carregada, ele destrava a arma (Epa! Você tem certeza de que vai fazer isso aqui dentro?), aperta o gatilho, e POW!

Em outra reserva de armas, policiais chegam de uma atividade e decidem devolver as pistolas recém compradas pela organização policial. O encarregado recebe cada pistola, pergunta ao usuário se a arma está alimentada, retira o carregador, manobra o ferrolho, aponta para uma direção segura e aperta o gatilho. Como as armas são novas, uma pequena camada de óleo fica impregnada nas mãos do encarregado. Lá pela vigésima arma recebida e com os ferrolhos já escorregando pelas mãos, o policial continua sua rotina: recebe, pergunta, retira, manobra e aperta. BUMM! Um projétil fura uma bancada, uma mesa e se estilhaça no piso. Ops! Eu acho que o ferrolho não foi totalmente à retaguarda!

Num treinamento de tiro, o instrutor faz recomendações sobre a segurança e a conduta no estande. Um policial chega apressado e se une ao grupo para as instruções. Ao se lembrar de que a arma está carregada, ele manobra o ferrolho (Opa! O carregador continua na arma!), aponta para os pés do instrutor e pressiona o gatilho. BAM! Na iminência da lambança, o instrutor se afasta evitando ser atingido pelo projétil que perfura o piso.

BANG, POW, BUMM e BAM são onomatopeias que imitam o som de um disparo de arma de fogo. Infelizmente, os eventos narrados ocorreram de fato e representam algumas das situações que envolveram disparos acidentais. Portanto, um disparo acidental é um evento no qual uma arma de fogo é disparada num momento não esperado pelo usuário.

Com as armas atuais, o disparo acidental mais comum ocorre quando o gatilho é intencionalmente acionado com um propósito diferente de quando se está num tiroteio. E isto ocorre durante os acionamentos em seco, nas inspeções do armamento, nas demonstrações ou testes de funcionamento, mas quando um cartucho está, inadvertidamente, na câmara da arma. Em muitos casos, pode-se dizer que os disparos são acidentais. Mas em outros episódios, os tiros inesperados são pura imprudência. Ou seja, para saber se uma arma está carregada ou não, o policial simplesmente aperta o gatilho. É como se você quisesse testar o airbag batendo violentamente seu carro contra um poste.

Apesar da aparência de que disparos acidentais ocorrem somente com atiradores mal treinados, a existência de uma arma sem o carregador pode sugerir pelo aspecto que ela está descarregada, mesmo que tenha um cartucho na câmara. Esta sugestão perigosa também pode acontecer quando armas carregadas/alimentadas são deixadas displicentemente em qualquer lugar.

Um disparo acidental também pode ocorrer quando o policial coloca o dedo indicador sobre o gatilho antes de ter decido atirar. Com o dedo posicionado desta forma, muitas coisas podem fazer com que o dedo pressione o gatilho de modo não intencional. Por exemplo, se o policial coldrear a arma com o dedo no gatilho, um tiro acidental é bem provável; se ele tropeçar, cair ou se atracar com um suspeito, o instinto de contrair os músculos de uma mão para segurar o suspeito pode provocar um tiro acidental, uma vez que os músculos da mão que empunha a arma também serão contraídos (reflexo intermembros).

As regras básicas de segurança reconhecem estas possibilidades e existem para prevení-las. De todas as regras, o controle do cano e do dedo do gatilho são as mais importantes. Assim, sempre mantenha sua arma apontada para uma direção segura de modo que um disparo acidental não mate alguém (atenção aos ricochetes ou fragmentos de projéteis). Segundo, nunca coloque o dedo no gatilho a menos que você esteja atirando intencionalmente. Mesmo que você esteja diante de um suspeito e talvez precise atirar, manter o dedo fora do gatilho previne que a resposta motora involuntária causada por um susto, uma pancada, um solavanco ou desequilíbrio faça com que seu dedo se contraia disparando um tiro em alguém que já se rendeu – como infelizmente já ocorreu quando um policial bateu com a coronha da pistola no pescoço de um torcedor de futebol.

“Tal morte desnecessária pode deixar você emocionalmente perturbado, financeiramente empobrecido e fisicamente preso!”, é como resume Massad Ayoob, instrutor de tiro e autodefesa.

Portanto, não importa como você chama cada projétil que sai da sua arma sem querer (acidental, involuntário, negligente, imprudente, fortuito ou não intencional), pois o resultado disso pode ser mortal e transformar sua vida num inferno. Assim, aprenda a lidar e treine com as armas da sua organização policial, mesmo que você imagine que jamais precise usá-las. E nunca acredite em alguém que lhe diz que sua arma está descarregada.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Entre atirar ou morrer!

Em 19 de janeiro de 2009, quatro Policiais foram designados para cumprir mandados de prisão e de busca e apreensão na residência de traficantes de drogas numa cidade mineira.

Eram 6 h da manhã quando a equipe chegou ao local e se dividiu em duplas; dois Policiais entraram pela porta principal da casa e os outros dois seguiram por um corredor lateral até os fundos do lote, cercando o lugar. Um muro de concreto pré-moldado dividia a porta principal daquele corredor; por isso, tão logo as duplas se posicionaram para a entrada, elas ficaram definitivamente separadas.

De repente, a dupla que entrou pelo corredor foi surpreendida por dois indivíduos fisicamente poderosos, resistentes, ágeis, autoconfiantes, altamente inteligentes, capazes de tolerar a dor e com vontade de lutar até o fim. Se isso não bastasse, estes indivíduos carregavam uma herança genética herdada de seus ancestrais que atacavam touros, ursos, cavalos e outros cães em eventos medievais denominados Bull Baiting.

A agilidade desses indivíduos é considerada tão grande que eles são capazes de transpor muros e usar os dentes para escalar cercas de proteção. Quando estão nas ruas, eles devem usar focinheiras, enforcadores ou coleiras resistentes, sendo conduzidos com guias curtas e por pessoas com força física suficiente para contê-los no caso de ficarem violentos.

Local do incidente.Então, ao ver os cães da raça Pit Bull “voando” em sua direção, o Policial A pensou em voltar. Mas, ele percebeu que não teria tempo, e que se fizesse isso, o Policial B ficaria sozinho com os dois cães ferozes. Os Policiais iniciaram os disparos contra os cães agressores, e com os estampidos, o Pit Bull A fugiu, mas o Pit Bull B continuou sua investida até ser incapacitado e tombar a aproximadamente 1,5 m dos Policiais.

Quando caiu, o Pit Bull B ainda estava vivo apesar de ter sido atingido duas vezes no tórax e uma vez na cabeça, numa espécie de Mozambique Drill canino. O Policial A havia disparado oito tiros, enquanto o policial B quatro vezes. Portanto, dos 12 disparos somente três acertaram o alvo, gerando um percentual de aproveitamento de 25%. O Policial A percebeu que em dado momento o animal perdeu o controle motor das patas traseiras e tentou alcançar os Policiais usando as patas dianteiras, mas logo depois tombou e parou. Só então, a dupla prosseguiu até o quintal da residência onde rendeu alguns dos alvos da operação.

Um mês depois foi protocolada na Delegacia de Polícia uma requisição de instauração de Inquérito Policial para apurar possível ocorrência do crime de abuso de autoridade praticada pelos dois Policiais. A requisição foi baseada nas declarações prestadas por uma parenta dos traficantes presos e que era a proprietária dos cães agressores. Ela declarou que os Policiais, sem mandado de busca, chegaram portando armas de fogo de grosso calibre, fazendo vários disparos, inclusive matando um dos três cachorros, sendo morto um cão de pequeno porte. Se o requisitante estivesse do lado dos Policiais vivenciando tal experiência, talvez esta requisição jamais existisse.

Então, vejamos! Especialistas informam que a velocidade que um cão pode atingir depende da idade, do condicionamento físico, do gênero (macho ou fêmea), e também da motivação para correr. Cães desenvolvidos para rinhas não costumam defender seus territórios, mas atacam em função da herança genética. Portanto, não é preciso grande motivação para que um Pit Bull corra em sua direção, ainda mais se você estiver na casa dele. Desse modo, a velocidade que um Pit Bull pode atingir gira em torno de 40 a 48 km/h, isso dá cerca de 11 a 13 m/s.

Quando os Policiais perceberam a iminência do ataque, deu-se início à reação de sobrevivência (luta, fuga ou obediência), e devido às alterações fisiológicas e de comportamento cada um percebeu o tempo e a distância de modo particular. O Policial A estimou em aproximadamente 7 m a distância entre ele e os cães. Já o Policial B percebeu uma distância de 15 m. Uma análise no local do incidente revelou uma distância de quase 12 metros.

Imaginando que os cães estivessem correndo a uma velocidade de 12 m/s, e considerando uma distância de 20 metros, quanto tempo eles teriam para reagir até que os animais os alcançassem? Um segundo e sessenta e seis centésimos (1,66 s). Entretanto, um Policial comum com uma pistola, disparando o mais rápido possível, gasta 31 centésimos de segundo para disparar o primeiro tiro depois de ter percebido uma ameaça. Agora, diminua 0,31 s de 1,66 s, e você terá o tempo disponível para salvar sua vida se algum dia você vivenciar uma situação semelhante à enfrentada por estes dois Policiais, ou seja, 1,35 s. Bem otimista, não é mesmo?

Contudo, eles estavam a 15 m dos cães, de acordo com a percepção do Policial B. Assim, o Pit Bull sobrevivente correndo a 12 m/s cobriria estes 15 m em 1,25 s. Um segundo e vinte e cinco centésimos menos 0,31 s, dá 0,94 s. Agora, faça as contas para a distância de 12 m. Resultado: 0,69 s.

O Policial A atirou o mais rápido que pode com sua pistola (8 tiros), o Policial B, também com uma pistola, disparou tentando acertar (4 tiros), e apesar de nenhum deles saber quem acertou o cão, ambos sabem onde foram parar os tiros que erraram o animal (dentro da igreja vizinha dos fundos). Quem sabe, na sua próxima operação policial, você não leve aquela “velha” espingarda calibre 12!

Porém, há outro detalhe neste incidente: a perspectiva visual. Isto significa que um objeto distante parece ser menor do que um objeto mais próximo, mesmo que eles tenham o mesmo tamanho. Criadores de Pit Bulls informam que a altura da raça é de 51 cm (da cernelha ao solo, ou seja, da omoplata e as partes moles que a revestem até o chão), mas não ultrapassa os 58 cm. Então, os Policiais empunhando suas armas com os braços esticados perceberiam (na massa de mira e na posição de pé) a altura do Pit Bull B da seguinte forma: o animal a 15 m de distância pareceria ter 2,2* cm de altura; a 12 m de distância, o cachorro pareceria ter 2,7* cm de altura; a 10 m o cão teria 3,4* cm; e a 7 m ele teria 4,7* cm. Só para constar, outro Policial recomendou atirar de joelhos em situações assim!

Portanto, pense como seria atirar em algo tão pequeno se movendo rápido o suficiente para lhe alcançar em apenas um segundo. Agora, imagine o recuo da arma elevando cada vez mais o cano durante os tiros sequenciais enquanto você tenta mirar/atirar cada vez mais baixo porque o cão está se aproximando. Como seria se você simplesmente esperasse para ser atacado? Como seria ver essa fera saltando sobre você para morder com toda a força seu rosto, sua cabeça ou seu pescoço? Será que seu colega conseguiria se safar para ajudar você? Você conseguiria ajudar seu colega? Será que no meio dessa confusão, os Policiais não atirariam um no outro sem querer na tentativa de acertar o cachorro?

Infelizmente, no trabalho policial você precisa solucionar problemas violentos num piscar de olhos. Se você falhar, isso pode custar a sua vida; se você sobreviver, talvez custe sua paz de espírito, e se depender de algumas pessoas talvez custe algo mais. Portanto, aqueles que não estão presentes quando o pior acontece e não compreendem as dinâmicas e as dificuldades do trabalho policial jamais deveriam avaliar ou julgar as atitudes legítimas de autodefesa policial que ocorrem numa fração de segundo. E quando você deixar a delegacia para cumprir mandados na residência de alguém, vá preparado e sempre acredite naquela placa que diz “CÃO BRAVO”!

*Medidas aproximadas.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Uma escovadela aqui e um tiro ali!

As armas de fogo são objetos fascinantes. No mundo inteiro, os fabricantes de armas mantêm laboratórios de pesquisa nos quais engenheiros habilidosos aplicam conhecimentos de química, física, matemática, biologia, metalurgia, dentre outras áreas da ciência humana para desenvolver e fabricar seus produtos.

O resultado disso tudo, geralmente, é tão bom que não existe no mundo um exército ou organização policial que não use armas de fogo na defesa do seu território e na proteção da sociedade. Imagine você que até criminosos e terroristas fazem uso delas também!

Por isso, os fabricantes de armas sabem que quando seus clientes apertarem o gatilho, pessoas serão feridas ou mortas. E como não produzem armas para criminosos, essas empresas esperam que você sobreviva ao confronto de vida ou morte que venha a encontrar ao longo da carreira. Assim, essas fábricas projetam, produzem, testam, embalam e entregam a sua arma com certificado de garantia, manual e carregadores avulsos numa maleta acolchoada. E surpresa, as melhores marcas também entregam uma escovinha para limpeza do cano.

Mas, e daí? Bem, e daí que você recebe a arma, municia, põe na cintura e esquece! Quer dizer, sua arma fica no coldre por semanas a fio. “E daí?” E daí que com o passar dos dias sua arma vai sendo contaminada pela poeira e pelas fibras da sua roupa.

Dessa maneira, e com o tempo, essa sujeira pode impedir o funcionamento do armamento, porque ao entrarem na arma, os fiapos de roupa se acumulam na câmara do cano, e o ferrolho não consegue inserir correta ou completamente o cartucho nessa câmara, o que impede o disparo. Este tipo de incidente é chamado de “alimentação incompleta”, e apesar dessa pane ter um nome, infelizmente não tem solução imediata – a não ser que você limpe a arma.

Pode até ser que você consiga realizar alguns disparos, mas eu garanto que cedo ou tarde sua arma irá falhar, quer você acredite ou não. Então, reze para que não seja enquanto você tenta realizar o primeiro tiro.

Para ilustrar o problema, conto o caso de um Policial que realizou 274 tiros em 6 horas de treinamento. Ao longo do treino, esse Policial foi surpreendido sete vezes pelo mesmo tipo de pane, ou seja, alimentação incompleta. Intrigado com a ocorrência que acometeu um dos melhores atiradores da delegacia, pedi que ele desmontasse a pistola. Ao verificar o cano, percebi um grande acúmulo de sujeira e fibras têxteis. Incrivelmente, esse Policial havia treinado com a mesma arma 15 dias antes e sem qualquer problema. Portanto, este foi o tempo necessário para um instrumento sofisticado de autodefesa – desenvolvido para salvar a vida do Policial – se transformar numa peça inconfiável. Mas isso não foi por falha da arma, foi por culpa do Policial!
Alimentação incompleta.

Então, vale a pena relembrar que a Lei de Murphy é uma constante no trabalho policial. E com tantas variáveis que podem dar errado numa troca de tiros, você não pode criar mais uma oportunidade para o fracasso, se permitindo sair de casa sem ter feito algo tão simples e rápido como limpar sua arma. Você não precisa se sentir obrigado a limpar seu armamento todos os dias a ponto dessa tarefa se tornar um fardo, mas você deve se responsabilizar pela manutenção da arma que usa pelo menos quinzenalmente, dependendo do clima da cidade, da forma como porta sua arma e do uso que tenha feito dela.

Limpar sua arma tem outra vantagem: permite que você se mantenha atualizado com as peças e o funcionamento do único instrumento de trabalho que torna sua profissão distinta de todas as outras. E é sempre bom saber como essas coisas funcionam!

Se sua arma falhar devido à sujeira durante um treinamento, vá lá! Basta limpá-la e voltar ao treino. Mas, se isso ocorrer no início ou no meio de um confronto real, você pode dizer adeus!

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Quanto vale a sua vida? Pergunte a quem te ama!

Recentemente, um policial me perguntou qual é a melhor maneira para se portar uma arma de fogo quando se está à paisana: se na pochete ou a tiracolo.

Bem, isso depende de quanto dinheiro você está disposto a investir.

Se você possui um plano de assistência funerária, sua família não terá nenhuma despesa com seu enterro, pois você já pagou a despesa antecipadamente, que, diga-se de passagem, pode variar de R$ 1.450,00 (plano simples) a R$ 17.280,00 (plano luxuoso).

Porém, sem um plano funeral os custos ainda podem ser altos. Um funeral simples pode ser feito por apenas R$ 300,00. Mas, se seus familiares desejarem algo melhor pra você, os gastos podem chegar a R$ 7.480,00. Nos dois casos estão incluídos a remoção, a limpeza e tamponamento do seu corpo; o caixão, flores, véu, velas, castiçais e a coroa. O que muda é o tipo de material usado, podendo ser o mais simples ou o mais aprimorado e moderno.

Para realizar o velório numa capela de um cemitério, sua família precisa pagar uma taxa de R$ 50,00. Se você já possui um túmulo, “ótimo”! Entretanto, para comprar o jazigo, talvez alguém tenha que gastar R$ 600,00 por um jazigo simples ou R$ 1.500,00 por um duplo. A maioria das pessoas provavelmente escolhe comprar o jazigo simples.

O mármore ou granito que revestirá seu túmulo pode custar de R$ 1.700,00 a R$ 4.000,00, dependendo do tipo de material e o modelo da lápide. E ainda tem o padre e a missa de sétimo dia...

Então, serão utilizados ao menos R$ 2.650,00 no seu enterro, considerando R$ 300,00 pelo funeral simples, R$ 50,00 pela capela, R$ 600,00 pelo jazigo simples e R$ 1.700,00 pela lápide simples.

Agora, do mesmo modo que seus familiares podem escolher entre um funeral simples ou aprimorado, você também pode escolher um coldre molambento, uma pochete “saque rápido” ou pode comprar um coldre importado de polímero por R$ 99,00 e um porta-carregador duplo também por R$ 99,00. No total, isso vai lhe custar R$ 198,00, quer dizer, bem mais barato que seu enterro. E não adianta comparar com o seu salário, pois ainda assim é mais barato!

Armas não combinam com pochetes ou bolsas a tiracolo. E o motivo é simples: se você for pego de surpresa, o que você acha que o assaltante vai tomar de você primeiro? Ele vai tomar sua bolsa, sua pochete, e depois as outras coisas. Então, num piscar de olhos você vai perder a única ferramenta capaz de te dar alguma chance para salvar sua vida.

E o pior, se o criminoso for um assassino nato, e se ele perceber que sua pochete ou bolsa está mais pesada do que o normal, talvez ele a abra. Se ele fizer isso, talvez atire em você simplesmente porque encontrou sua arma, mesmo que você já esteja rezando e implorando por sua vida.

Arma de fogo deve ser portada num coldre de qualidade e na cintura. O investimento parece caro, cerca de R$ 200,00, para um bom coldre de polímero. Contudo, ainda é mais barato que sua arma, muito mais barato que seu funeral, e sem comparação com a falta que você vai fazer para sua família.

Mas o que você precisa fazer para portar uma arma no coldre sem que pareça estar armado? Comprar camisas mais largas ainda, experimentá-las no vestiário da loja com a arma no coldre e na cintura. Simples assim!

Lembre-se, você não está num desfile de moda. Você está na polícia!

domingo, 5 de abril de 2009

Sua rotina pode ser mortal!

Imagine que você participou de um treinamento de autodefesa policial que incluiu estatísticas sobre policiais mortos, histórias terríveis sobre violência, e talvez um ou dois assassinatos gravados por circuitos de TV.

Você terminou o curso impressionado com o potencial de ser a próxima vítima do crime e da violência mesmo sendo um policial. Então, você fica alerta, consciente, observa as redondezas, sendo mais cauteloso sobre pessoas que considera potencialmente suspeitas. Mas, quantos dias você acha que isso vai durar?

Com o tempo, a ausência de consequências perigosas reais faz você relaxar. E apesar de você estar interessado na sua segurança e possuir o conhecimento do que deve ser feito, você não consegue agir adequadamente. Suas habilidades de sobrevivência, seu estado de alerta logo começam a desaparecer. Por quê?

Porque o cérebro está orientado para automatizar comportamentos repetitivos, pois é a maneira como os seres vivos trabalham. Muito do comportamento humano diário é automatizado, e isso acontece sem você perceber.

Psicólogos estimam que mais de 90% desse comportamento humano diário ocorre sem consciência ou pensamento deliberado. Atividades repetitivas tornam-se ações automáticas para liberar sua atenção para coisas que são novas, desconhecidas ou ameaçadoras. Se não fosse dessa maneira sua mente ficaria sobrecarregada e seria sobrepujada com a mais simples das tarefas.

Assim, pessoas expostas periodicamente a lugares altos reduzem seu medo de altura. Pessoas com dificuldade de falar em público sentem-se mais confiantes em frente desse público depois de exposições habituais. Do mesmo modo, pessoas que são rotineiramente expostas a situações potencialmente perigosas tornam-se menos cuidadosas em tais situações. Isso se chama habituação.

É bem verdade que o hábito ou a rotina facilita e põe ordem no seu trabalho e na sua vida, pois é sua experiência acumulada ao longo do tempo trabalhando para você de modo automático. Contudo, exposições habituais a determinadas ocorrências, mesmo que perigosas, entediam seu mecanismo de autodefesa. Então, a rotina trabalha contra você quando se é exposto muitas vezes a situações potencialmente arriscadas onde nada acontece, e depois de uns 10 anos, ela mata um número considerável de policiais.

De acordo com os relatórios anuais do FBI sobre policiais mortos e agredidos, o tempo médio de serviço dos policiais mortos nos Estados Unidos é de 10 anos, e a média de idade desses policiais é de 36 anos. Nem um “novinho”, nem um “antigão”, mas alguém no meio da carreira, se você considerar que um policial brasileiro precisa ter 20 anos de serviço estritamente policial para se aposentar.

“Nada é rotina!”, “Evite a rotina!” e “Os maiores inimigos do policial são: a rotina e o excesso de confiança!” são algumas das frases que nós, instrutores, repetimos desde que começamos a falar sobre sobrevivência policial. Mas, você já deve estar cansado de ouvir isso!

A realidade é que barreiras policiais, buscas e apreensões, prisões, entrega de intimações, entrevistas e interrogatórios, condução de presos e outras ocorrências onde nada acontece são, de fato, rotina. Você pode chamá-las do que quiser como “baixo risco”, “alto risco”, mas o nome não altera as mudanças inconscientes que ocorrem dentro da sua mente quando você realiza tarefas sem consequências centenas de vezes ao longo dos anos.

O fato é que palavras ou frases não protegem nem matam policiais. Mas, o que você precisa perceber é que atividades diárias realizadas repetidas vezes, ano após ano, tornam o risco inerente cada vez mais invisível, e quando isso acontece você tende a fazer uma de duas coisas: se torna complacente com os perigos dessas atividades ou aumenta sua exposição ao risco para satisfazer sua necessidade natural de emoção. As duas coisas caminham lado a lado e se complementam. Não é por acaso que a complacência e o comportamento de risco estão diretamente ligados a um grande número de policiais mortos não só por criminosos, mas também por acidentes.

Você também precisa entender que enquanto abordagens de modo geral tendem a ser a atividade mais comum, qualquer coisa pode se tornar rotina se feita muitas e muitas vezes sem que algo ocorra para estimular sua percepção de que qualquer operação é um evento desconhecido cheio de riscos e imprevistos.

Talvez você não acredite, mas o perigo, o risco e a incerteza são alguns componentes que tornam o trabalho policial atraente para muitos policiais ou pelo menos para os policiais natos. Por isso, eles têm não só certa tolerância ao perigo, mas uma verdadeira necessidade dele. Não é incomum esse tipo de policial se sentir desestimulado e “sem rumo” ao ser designado para atividades administrativas ou consideradas sem importância.

É fato que alguns policiais ajustam seu comportamento para manter a exposição ao risco no nível que precisam. Eu chamaria isso de regulador fatal.

Deste modo, se a rotina torna o risco existente na atividade policial invisível, você irá inevitavelmente assumir riscos adicionais. E isso acontece quando você não espera o reforço, avança um sinal vermelho sem diminuir a velocidade, entrega sozinho uma intimação, vai só ao encontro com um informante, algema o preso para frente ou não algema, dorme dentro da viatura, confia na denúncia anônima, etc. Mas a verdade é simples: quanto maior o risco assumido, maior a chance de você morrer.

Não estou dizendo que policiais querem ser mortos, mas eles procuram estar presentes em uma variedade de situações arriscadas ou não se sentem policiais. Afinal de contas, eles correm em direção ao perigo, e não ao lado da multidão em pânico.

O mesmo tende a ocorrer com a complacência. Nada melhora suas habilidades de sobrevivência quanto ter um criminoso tentando ferí-lo ou matá-lo. O problema com este tipo de “motivação” é que você se arrisca a ser ferido gravemente ou morto no mundo real. E essa não é uma espécie de motivação que faça qualquer sentido.

Portanto, é hora das organizações policiais introduzirem gradualmente treinamentos que previnam a complacência e o comportamento de risco independentemente do tempo de serviço dos policiais. Pois é tarefa de cada policial se preparar para estar no auge da capacidade de sobrevivência, não importando as vezes que você já atendeu o mesmo tipo de ocorrência, na mesma cidade, no mesmo bairro, no mesmo comércio, procurando pelo mesmo bandido de sempre, no mesmo beco, nestes últimos 10 anos.


Quer levar um tiro?

Depois de um dia de trabalho, um policial encerrou sua atividade, tirou o uniforme e voltou para casa. Enquanto dirigia seu carro, ele percebeu uma barreira policial logo à frente. Como profissional experiente, o policial reduziu a velocidade, baixou os vidros, desligou o farol – mantendo apenas o farolete – e tentou localizar algum colega para saber se seguia ou não seu caminho. Ele fez isso porque queria facilitar o trabalho dos colegas. Ele viu um policial ocupado, e então continuou dirigindo devagar. De repente, uma policial mandou que ele parasse enquanto gritava: “Num está vendo que é uma abordagem? Quer levar um tiro?”. Pronto! O policial parou o carro, se identificou e a confusão se instalou.

Parece fantasia, mas isso aconteceu realmente, e numa cidade do interior. E apesar de você, como policial, estar “acostumado” com o crime e a violência, nunca há espaço para entender e aceitar a brutalidade e o despreparo com os quais alguns colegas lhe abordam.

A narrativa releva três graves e tristes fatos em relação aos incontáveis desentendimentos entre colegas policiais.

O primeiro fato é que muitos policiais desconhecem a importância do seu trabalho para a sociedade. Assim, é preciso aprender e reconhecer que para se perpetuar a paz deve-se combater a violência, e não promovê-la desnecessariamente. Pouquíssimos homens são capazes de negar a necessidade de se combater os assassinos, os torturadores, os assaltantes, os ladrões, os estupradores, os traficantes, os contrabandistas, os falsificadores, os golpistas, os corruptos, etc. No mundo inteiro, o preço por esta democracia e pela civilização é pago por cada policial engajado neste confronto de vida ou morte. Assim, cada policial deve entender que seu dever fundamental é servir à sociedade; resguardar vidas e propriedades; proteger o inocente contra a artimanha; o fraco contra a intimidação; a tranquilidade contra a violência e a desordem; respeitando os direitos de todo cidadão em benefício da liberdade, da justiça e da paz. Portanto, no dever policial não há lugar para se combater outro policial.

O segundo fato é que sempre que um policial avança um sinal vermelho, faz um retorno proibido, dirige em alta velocidade, xinga, grita, saca uma arma ou pergunta se você quer levar um tiro – tudo isso sem necessidade – ele envia uma clara mensagem de que está despreparado para exercer bem e de modo confiante sua tarefa de proteger e ajudar o cidadão. Além do mais, perguntar para qualquer pessoa insuspeita se ela quer levar um tiro, demonstra o quanto é perigoso para alguém – e para outros policiais também – ser abordado nestas barreiras. Significa que o policial que faz uma pergunta desta natureza não sabe em que circunstância está autorizado a usar a força letal. Muitas pessoas não param nas blitze porque são surdas, não enxergaram o comando para parar, estão com medo, etc. Algumas vezes, estas operações são tão descoordenadas que um policial manda o motorista seguir, e outro manda o mesmo motorista parar.

E o terceiro fato, mas não menos importante, é que enquanto alguns policiais brigam entre si, todos perdem a capacidade de perceber quem é o verdadeiro inimigo. Você sabe que seu dever como policial é perigoso. As responsabilidades que acompanham sua tarefa são muitas: prisão e interrogatório de criminosos, investigação de situações e pessoas suspeitas (arrombamentos e roubos em andamento), atendimento às ocorrências de distúrbios (discussões entre familiares, brigas em bares, pessoas armadas e disparos em vias públicas), operações de inteligência (infiltração em ambientes hostis, vigilância e ações veladas), perseguições automotivas, barreiras policiais, trato com indivíduos mentalmente perturbados e custódia de prisioneiros, para citar algumas. Se isso não bastasse, muitos policiais tornam-se vítimas de emboscadas criminosas simplesmente por causa de suas escolhas profissionais. Pense nisto: enquanto policiais brigam, criminosos cavam túneis e fogem. Amanhã, eles estarão livres para matar alguém que você ama.

Portanto, o trabalho contra o crime e a apreensão em relação à sua segurança não podem eliminar sua habilidade de se adaptar às circunstâncias e sua capacidade para ser um profissional firme, porém cordial com o cidadão que precisa confiar em você. Ainda mais se este cidadão for um colega de trabalho que algum dia pode salvar sua vida.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Carregar e ficar pronto! Sua sobrevivência depende de três coisas!

Um policial à paisana caminha em direção a uma casa lotérica. Ele porta uma pistola que está carregada e pronta. Enquanto anda, o policial confere as contas que precisa pagar; ele entra na casa lotérica, e então alguém aponta uma arma para ele e anuncia o assalto.

Enquanto isso, outro policial sai do supermercado empurrando o carrinho de compras. Ele também porta uma pistola que está carregada, mas não pronta. Durante o trajeto até seu carro, este policial observa o ambiente à sua volta. A poucos metros do veículo, ele percebe a aproximação de dois suspeitos. Então, o policial precisa tomar uma decisão e agir.

Agora a pergunta: qual destes policiais está real e completamente pronto para o confronto? A resposta: nenhum. Mas, por quê?

Porque muito da capacidade para se estar a salvo depende de três fatores básicos. Estes três elementos formam um triângulo de autodefesa sustentável. Contudo, basta retirar um dos elementos para que o triângulo se desfaça. Os princípios da autodefesa são o estado de alerta, o preparo mental e a prontidão para reagir rápido e de modo eficaz. Então, uma análise superficial dos eventos mencionados mostra que embora os policiais possuíssem planos de autodefesa, ambos eram falhos, pois faltava um dos elementos. O primeiro policial estava pronto, porém desatento. O segundo estava alerta, mas incapaz de ser rápido o suficiente.

O estado de alerta é provavelmente o atributo mais importante que alguém pode possuir, pois é a capacidade de observar as pessoas e as situações visando à antecipação ao perigo que está à espreita. E quanto mais cedo você detecta e reconhece um problema em potencial, mais opções você tem para decidir como resolvê-lo. Apesar disso, algumas pessoas relatam que criminosos costumam surgir do nada. Mas a verdade é que as vítimas potenciais estão tão desatentas que são incapazes de perceber a presença e a aproximação dos suspeitos. Em outras ocasiões, a falta de atenção conduz você para situações perigosas. E até que você perceba o que está acontecendo, já não há muita esperança. É como se você estivesse caminhando e olhando para os pés, e quando olhasse para frente se deparasse com os becos de uma favela. Então, quão rápido você percebe o que está realmente ocorrendo? Como já disse em outro artigo, quanto mais atento você estiver, menor a sua chance de ser pego de surpresa.

O preparo mental surge da necessidade de não se cometer erros nas situações mais importantes e decisivas. Situações que fazem a diferença entre viver ou morrer. Como o nome já diz, o preparo mental é um treinamento prévio baseado na imaginação. Funciona, grosso modo, da seguinte maneira: um colega lhe conta uma história sobre outro policial que foi assassinado durante um assalto num cruzamento qualquer. E o que você faz? Você vivencia mentalmente esta história como se você fosse a vítima, mas analisando a ocorrência e reagindo de modo que sobreviva ao confronto. É como se você se perguntasse: “O que eu faria de diferente se fosse comigo?” Com este tipo de treinamento, sua mente diz ao corpo o que fazer. Mas, sem esta preparação antecipada, seu corpo hesitará – até mesmo para escapar. Na confusão, descrença e incerteza de uma agressão, você precisa forçar seu corpo para reagir a tempo. E é aí que entra o preparo mental, pois ele diminui o tempo de paralisia.

Você já pensou se seu modo de vida atual e o cuidado com a própria segurança permitem perceber a aproximação do suspeito? Será que sua mente está realmente preparada para ordenar que você saque sua arma daquele coldre barato que está debaixo da camisa, e então carregue e fique pronto antes de receber o primeiro tiro? Quando você imagina um confronto, você normalmente perde ou sobrevive?

Enquanto algumas pessoas escolhem não utilizar a força física como meio de autodefesa, outras não têm tanta delicadeza. Mas, cada uma das escolhas carrega responsabilidades e é preciso pensar e decidir sobre isso antes, e não no momento do confronto.

O terceiro elemento é frequentemente difícil de definir. Significa quão pronto você está para fazer o que tem que ser feito nos poucos segundos que lhe restam. É a capacidade para reagir rápido e de modo eficaz, sendo o esforço, a reação de último momento. Se a situação chegar a esse ponto, você está autorizado a fazer o que for necessário para impedir a ação criminosa.

Como policial, você deve saber quando usar ou não a força, pois mesmo a violência possui diferentes níveis. Sua reação não tem relação com uma disputa insignificante, mas tem relação em não ser ferido ou morto em função da violência. E se a reação é de último momento, então você deve carregar sua arma e ficar pronto – com “bala na agulha” – antes de sair de casa. Quando uma situação chega ao extremo e é hora de usar a força, você deve estar pronto, pois do contrário, o despreparo tomará de você aqueles segundos que você não pode se dar ao luxo de perder.

Alguns policiais acreditam tanto nas técnicas de “tiro israelense” – nas quais se saca a pistola enquanto a mesma é alimentada – que acabam apostando a própria vida na crença de que o tempo gasto para estar realmente pronto é muito curto. Contudo, este tempo não significa simplesmente aquilo que se gasta para carregar uma arma e ficar pronto. Tempo também inclui o período que levará para que sua reação tenha algum efeito, porque mesmo a força letal leva tempo para se manifestar. Assim, você consegue fazer o que precisa ser feito, já?

Não se esqueça que se você falhar em qualquer dos três elementos do triângulo, a chance é de que a pessoa caída no chão seja você.