terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Muita tralha

 

 Numa ocorrência, mais conhecida porque o policial jogou a espingarda no chão para tentar uma transição de armas, o que chamou minha atenção foi o excesso de equipamentos.

É natural um ganho de peso com os anos, mesmo você se mantendo em forma. Aí vão alguns quilos!

Agora some o colete balístico (raramente feito para as necessidades policiais) e o coturno (uma aberração para o uso policial).

Adicione um coldre de perna e uma bolsa presa na perna oposta para que a mobilidade e a velocidade diminuam e o esforço aumente. Justamente aquilo que o policial precisa para alcançar, superar o agressor e se defender.

Mas ainda não acabou! Não raro vejo colegas portando cantis e facas de combate.

O problema é que herdamos características das forças armadas que não são consistentes com a função policial. E isso precisa mudar!

Então, você deve se perguntar se precisa de TODOS os equipamentos durante o trabalho.

Será que o policial brasileiro não pode manter certas ferramentas na viatura? Ele não consegue ter uma garrafa d'água ou um Camelbak dentro do veículo? É preciso tanta tralha no trabalho policial urbano?

Uma coisa é certa: as polícias precisam repensar seus uniformes, viaturas, equipamentos, armas, procedimentos, sistemas de comunicação e filmagem individual com visão moderna, adequada, inteligente e eficaz.

E o policial precisa compreender que, embora tenha que lutar pra viver e trazer a paz, ele não vai marchar 40 km ou passar 30 dias num campo.

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sábado, 12 de dezembro de 2020

Tiro com uma mão

 

Com a expansão dos CFTV, tenho visto diversas reações de policiais em confrontos armados. E o que já se sabia de modo intuitivo tem ficado mais evidente.

Falo da reação usando só uma mão, o que contraria o modo ideal de empunhar a arma com a empunhadura dupla.

Pensando nisso, eu me fiz três perguntas: por que muitos policiais reagem apenas com uma mão? Por que não soltam os objetos que estão segurando numa das mãos, mesmo durante o perigo? E se nós realmente fazemos sempre aquilo que treinamos... se isso é uma verdade absoluta.

Penso que é verdade para os grupos de operações especiais, pois parte do trabalho deles é treinar. Eles treinam, planejam, passam o briefing, operam de forma coesa e fazem o debriefing. Ou seja, eles têm cinco momentos de aprendizagem.

Mas isso não é uma verdade para a maioria dos policiais. Nesse caso, é possível que o policial não tenha experimentado atirar com uma mão durante o curso de formação. E os que tiveram a sorte de executar algum exercício, o tenham feito de modo inconsistente.

Então, para responder a primeira pergunta é preciso saber que o instinto se sobrepõe à razão quando o risco de morte é imediato. Ele força o policial a reagir da forma que for possível no pouco tempo que resta: quando ele é pego de surpresa, está próximo do agressor e sem proteção.

A ideia é reagir, ainda que com alguma imperfeição, pois para ser rápido o instinto não pode se dar ao luxo de ser perfeito. Por isso, muitos não conseguem usar as miras ou erram alguns tiros.

Mesmo quando há opção, o instinto vai escolher a ação mais rápida e descartar o que foi treinado, conforme os critérios de tempo, distância, proteção e surpresa.

Isso explica porque o policial reage apenas com uma mão, ainda que atirar com as duas seja melhor e faça parte da formação e do treino.

E por que não largamos os objetos nas situações críticas? Uma das coisas que diferencia a espécie humana é a destreza manual, a habilidade pra segurar e manipular os objetos. E nós usamos muito essa habilidade: nos agarramos quando perdemos o equilíbrio, tentamos pegar algo que está caindo, quase num ato reflexo.

Isso reforça o aprendizado de que as mãos servem para segurar e não para largar as coisas. E como a mente sabe que não é preciso usar as duas mãos para atirar, se você reagir num tempo curto, não vai largar o que está segurando.

A sua mente também vai estar tão focada na reação que é possível que ela ignore o objeto que você está segurando.

Além disso, durante o estresse, há uma perda na habilidade motora e você vai experimentar um declínio na destreza manual, necessária pra realizar várias tarefas ao mesmo tempo, como largar o objeto enquanto saca a arma.

Outro motivo é a coordenação bimanual. Quando o nível de atenção é direcionado para a mão dominante há uma queda de desempenho na execução do movimento da mão oposta. E não podemos esquecer do reflexo intermembros.

Portanto, o que nós, instrutores, podemos fazer? Incorporar essa realidade nos treinos e cursos. O aluno deve atirar com as duas mãos, já que isso é básico. Mas sacar, apresentar e atirar usando apenas uma mão também é fundamental e uma realidade.

Finalmente, há uma fenômeno chamado "momentum operacional". Ele diz que é difícil parar um movimento após ter sido iniciado. Apesar de estar relacionado a alguns aspectos do trabalho policial, em especial ao movimento para o saque e o tiro, o conceito ainda pode ser aplicado no caso do tiro apenas com a mão dominante e ao fato das pessoas não conseguirem largar os objetos que carregam com a mão não dominante.

Portanto, o momentum operacional dificultaria a soltura de um objeto que já está sendo empunhado durante a reação armada.

Então, treinar a soltura de alguma coisa durante o saque da arma pode contrariar o conceito acima e se tornar uma medida inconsistente com as dinâmicas que a realidade tem nos mostrado.

Quem nunca errou?

Quem nunca cometeu uma falha durante o trabalho policial que levante a mão!

Algumas vezes fazemos aquilo que "prometemos" não fazer, ou ignoramos, intencionalmente, nossa intuição para seguir o caminho mais fácil e rápido.

Mas o grande vilão é quando o erro sem consequência se torna um hábito. O maior vilão, contudo, é o desastre esquecido. Até lembramos os nomes e a ocorrência, mas não a lição deixada.

Se missão dada é missão cumprida, lição deixada deveria ser lição aprendida.

Daí, esse hábito (rotina), e o mal que ele pode causar, desaparecem pouco a pouco.

Invisível aos próprios olhos, não conseguimos mais perceber esses erros. E um ditado afirma que "aquilo que não é visto não é lembrado".

E se não lembramos os nossos erros, dificilmente faremos algum esforço para corrigi-los.

Durante uma viagem, notei que o colega não usava o cinto de segurança. Contei o caso de um policial morto ao ser ejetado do carro e bater a cabeça, bem como o resultado da investigação. No final do relato, pedi ao meu passageiro que colocasse o cinto. Então ele olhou pra mim por um instante e ignorou o pedido.

Com a cegueira da rotina, nossos erros não são notados. Mas isso não significa que criminosos não estejam plenamente cientes deles.

E a oportunidade e a vontade fazem os ladrões e os assassinos de policiais.

Cheque de ambiente

 

Quantos cursos de tiro sugerem que o aluno olhe para trás após a série de tiros?

Certamente, você já participou de algum; girou a cabeça em direção aos ombros esquerdo e direito, e olhou para trás.

Mas olhar é diferente de VER, em especial se não há nada que chame a sua atenção. Então, no fim das contas, olhar para trás é uma parte imperfeita do exercício e mera estética de estande.

E não é raro perceber o atirador fazendo o "tático" e errando o básico. Isso pode ser mais uma falha de instrução do que um comportamento inadequado do colega. E isso vai continuar ocorrendo enquanto as coisas forem copiadas em vez de pensadas.

O mundo é tridimensional e o campo de tiro tem 360°. Olhar para trás, logo após o fim da série, força o atirador a ignorar o que pode estar próximo ou além do alvo, bem como suprimir a chance do perigo estar ao lado do policial.

Daí a dinâmica foca no alvo e naquilo que pode estar atrás do atirador, somente. E isso tem sido feito sempre após uma certa quantidade de tiros, como se o número de disparos fosse a chave para a checagem da retaguarda.

Só que essa decisão deve ser do policial, conforme sua percepção do alvo e a leitura do seu campo imediato de tiro, ou seja, aquilo que está no seu horizonte.

Então, a avaliação do ambiente 360° envolve o MOVIMENTO COMPLETO do atirador, no sentido de MUDANÇA DE POSIÇÃO, e não apenas um giro de cabeça.

Se olhar para trás tem aplicação limitada, é preciso executar essa tarefa num estande a toda hora? Penso que não, embora alguns amigos entendam que isso "quebre" a visão em túnel e sirva de lembrete sobre a chance de haver outros alvos.

Assim, o melhor momento para treinar a avaliação do ambiente é quando você está treinando sozinho. Isso permite que você se movimente, mude de posição pra VER tudo ao seu redor e considere barricadas próximas, sem colocar pessoas na linha de tiro.

Você também pode inserir alvos secundários em posições diferentes para ter algo pra procurar e prestar atenção. Dependendo da posição no estande, você ainda pode atirar neles e complementar seu treino.

Mas se você vai só girar a cabeça no treino, talvez seja mais proveitoso se concentrar na sua habilidade de tiro.

É muita firula para o meu gosto

 

"Quando você pressiona a tecla do gatilho de uma arma de fogo, pequenas células sensoriais nas pontas dos dedos dão início a um processo.

Impulsos elétricos percorrem o organismo e se comunicam com o Sistema Nervoso Central (SNC). Nesse momento, entra em ação a memória de longo prazo, que avalia se as posições dos dedos estão corretas e se a pressão do dedo indicador está na faixa de 3,14 pi.

Se tudo estiver certo, o policial fará o tiro. Caso contrário, um impulso de retorno seguirá do SNC até as mãos do atirador, forçando um reajuste da empunhadura. Esse impulso de retorno ou 'fart lighting' é baseado na produção de dois compostos químicos: C7H16 e NaNO3.

O pesquisador Darbolclimps Spergoglinfield, na defesa de sua Teoria Geral da Administração Aplicada, disse que "Todas essas questões, devidamente ponderadas, levantam dúvidas sobre se a expansão da atividade causa impacto indireto na reavaliação das diretrizes de desenvolvimento para o futuro."

Mas isso só ocorre em situações de calma. Durante um confronto, o perispírito inibe a exigência de uma pressão no gatilho de 3,14 pi para dar lugar a uma puxada de 200 Bar ou quase 3000 Psi.

Portanto, sistemas de treinos compostos, ambivalentes e duplicados permitem que o atirador experimente as duas formas de pressionar o gatilho de uma arma."

Trecho do meu novo livro 'Tiro Intergalático - Conectando tudo com
tudo para tornar o tiro algo difícil de entender .'

Espero que ninguém leia!

O texto é uma crítica a algumas mirabolâncias no ensino do tiro no Brasil.

Tem certeza que vai fazer isso?

Quantas molas uma pistola pode ter? Por exemplo, a Glock tem 10 molas:

Duas recuperadoras (formando um sistema), do percussor; da trava do percussor, da barra de transferência do extrator, do retém do carregador, do retém do cano, do retém do ferrolho, do gatilho e do carregador.

Com tantas peças sob tensão, alguém pode imaginar que elas precisam de uma ajuda em algum momento.

Mas por que essa ideia só se aplica à mola do carregador? Por que não damos aquela esticadinha nas outras? Afinal, elas também estão trabalhando.

Não parece razoável que projetistas desenvolvam "X" molas e apenas uma não suporte o trabalho para o qual foi feita.

A suposição de que a mola do carregador deve ser esticada pra funcionar melhor se baseia num mito, na incompreensão do projeto e da natureza dos materiais elásticos.

O mito diz que a mola de um carregador, que passa muito tempo comprimida, perde a capacidade de retornar ao estado natural após a compressão. Embora possa haver alguma acomodação, isso está dentro dos limites de funcionamento da mola.

Já vi mola enferrujada, quebrada, suja, mas nunca deixar de funcionar porque ficou comprimida muito tempo.

Além disso, existem dois tipos de deformações:

1) Deformação elástica - que ocorre quando o objeto volta a sua dimensão normal quando a tensão deixa de ser exercida.

2) Deformação plástica - que ocorre quando uma grande tensão é exercida sobre o objeto, causando uma deformação permanente e irreversível, em razão da tensão ter ultrapassado o limite elástico do material.

No caso da mola do carregador, é possível que, após essa esticadinha, não haja mais energia suficiente pra correta operação da peça.

Se o atirador acha que o carregador não está funcionando direito, sugiro que o desmonte e faça a limpeza. Se não resolver, o adequado é trocar o carregador.

Então eu convido os amigos @peritocriminalbarros, @professorjoaobosco e @luiz_gaspar_17 para trazerem a luz da ciência sobre as invencionices e antes que alguém resolva mexer na mola da grampola, na arruela da grapeta ou na rebimboca da parafuseta.

Colete balístico no treino policial (parte 1)


Certamente você já participou de uma aula de tiro aonde instrutores, alunos e policiais usavam coletes balísticos.

Então, uma questão é evidente: isso é necessário?

Se o treino envolve o equipamento que o policial utiliza na atividade operacional, o colete é uma obrigação.

Significa que ele está desenvolvendo a habilidade de operar e interagir com o material, além de avaliar possíveis adaptações e ajustes. Isso é importante num treino com armas longas, aonde são aplicados exercícios de troca de carregador, panes, transição, posições incomuns, etc.

Mas se o treino não exige o colete balístico, porque a habilidade executada não está vinculada ao equipamento, seu uso é desnecessário. Por exemplo, quando o policial está desenvolvendo a habilidade de tiro ou aprendendo algo novo.

É claro que o colete pode ser incluído depois, quando a habilidade aprendida será conectada ao uso de todos os equipamentos.

Assim, o uso do colete depende do treino, do objetivo e da forma como a habilidade está sendo formada.

O uso do colete inadequado ou mal ajustado pode ter um efeito contrário na segurança na linha de tiro. Como muitos dos coletes não são feitos para o porte da arma na cintura, não é raro o policial ter dificuldade para sacar a arma, ver o coldre e coldrear.

Numa situação assim, o aluno acaba inserindo o dedo no gatilho, apontando a arma para o próprio corpo e realizando movimentos atabalhoados na ânsia de seguir o "timing" do exercício.

Outro aspecto da relação colete e coldre é que muitos policiais pensam que podem se comportar como se estivessem à paisana.

Eles querem usar o colete com o mesmo coldre que usam quando estão à paisana e o mesmo posicionamento do dia a dia. Assim, não é raro ver policiais com porte frontal ou traseiro e coldres internos usando coletes também.

O colete exige o porte ostensivo com coldre lateral externo (com alguma distância para baixo ou para o lado), permitindo a primeira empunhadura livre e rápida, especialmente se a arma curta for a única arma de fogo do policial.

Por isso é arriscado treinar com o colete como se estivesse de folga ou com o equipamento inadequado.