quarta-feira, 18 de junho de 2014

Operações especiais: o que podemos aprender com eles?

Meu primeiro contato com as operações especiais ocorreu no curso de formação policial no ano de 1997. O estágio no NOONONOONOON (NON) durou uma semana e nesse período aprendi o que significavam expressões como fatiamento, espiada rápida, funil fatal ou cone da morte, entrada dinâmica ou sistemática, em gancho ou cruzada, abordagem pessoal e veicular, progressão em ambiente hostil, orientação e navegação terrestre, nós e amarrações, transposição de obstáculos, etc.

A essência do aprendizado permaneceu consciente, apesar da incapacidade de aplicação de muitas dessas técnicas ao longo de 17 anos de trabalho. E um dos motivos para essa incapacidade é bem simples e remete a um antigo ditado: uma só andorinha não faz verão. O que quero dizer é que cada policial que aprende técnicas diferenciadas (especiais) não encontra o que é necessário para colocar em prática aquilo que aprendeu, pois se depara com um ambiente corporativo no qual outros policiais acreditam que o aprendizado acadêmico não suporta o escrutínio da experiência prática. Ou seja, aquilo que se aprende na academia de polícia deve ser esquecido porque não encontra aplicação no mundo real. Essa mentalidade, “certificada” ano após ano, e a própria falta de interesse em aplicar o trabalho policial de maneira mais técnica faz com que a distância entre o berço policial (a academia) e a atividade prática seja intransponível. E essa distância acaba reforçando a ideia de que é preciso esquecer aquilo que se aprendeu na formação básica, numa espécie de círculo vicioso.

No mundo prático, portanto, minha primeira instrução foi esquecer tudo que aprendi no curso de formação. Se aquilo que era convencional precisava ser “esquecido”, o que pensar daquilo que era especial. De fato, e justiça deve ser feita em razão da dedicação e experiência de muitos policiais, alguns ensinamentos deviam e ainda devem ser submetidos a minha total amnésia.

Mas como diminuir a distância entre aquilo que se aprende e o trabalho policial? A resposta é: INCORPORAR A CULTURA DOS NICHOS.

O segundo contato com o universo das operações especiais ocorreu num curso ministrado pelo Grupo de Ações Táticas Especiais da Polícia Militar de Minas Gerais (GATE/PMMG). Aprendi como usar um escudo balístico, entradas em edificações, noções de negociação, técnicas com lanternas, etc. O curso era uma parceria entre o GATE e a Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) da polícia em Belo Horizonte/MG. Por incrível que pareça, também não consegui colocar em prática os conceitos e técnicas desenvolvidas no trabalho policial diário, apesar de fazer parte de um outro nicho altamente compartimentado (fechado): a própria DRE.

Depois disso, meu terceiro contato com o ambiente das operações especiais ocorreu em 2007, durante o Curso Especial de Polícia. Naquele ano a academia havia mudado, muitas disciplinas haviam mudado, mas eu também havia mudado. Recrudescido pela “casca” da rotina policial, tudo que era ensinado passava pelo crivo de 10 anos de trabalho e de convívio com outras centenas de amigos muito mais experientes que eu. Infelizmente, passava pelo crivo de muitos colegas desmotivados ou sem aptidão para a carreira.

A quarta aproximação com as operações táticas ocorreu durante o curso de formação de instrutor de fuzil realizado em 2014. Nesse curso, convivi com um paradoxo, pois na condição de aluno me livrei daquela “casca” e abri a mente para novo aprendizado. Entretanto, alguns ensinamentos já não tinham aplicação policial havia certo tempo. Essa percepção também foi compartilhada e especialmente reforçada por um amigo instrutor de tiro, ex-integrante do NON, e que mantém forte INTERESSE e intensos ESTUDOS sobre técnicas e equipamentos policiais. O curso também incluía uma visita ao NON, onde, para meu contentamento, aprendi técnicas mais modernas e coerentes com a prática policial (convencional e especial). O encontro no NON foi duplamente motivador, já que o livro Autodefesa Contra o Crime e a Violência estava sendo utilizado como fonte nas instruções de sobrevivência policial. Após a visita, ficou claro que o NON não só havia se modernizado, mas estava MUITO à frente dos setores mais especializados da polícia.

Um olhar menos atento pode indicar que esse distanciamento é natural e desejável, pois trata-se de um grupamento especial por natureza. Contudo, essa distância é preocupante porque a atividade de polícia começa pela base e não pelo topo. Se essa distância é enorme, inclusive em comparação com setores especializados, algo está errado. Provavelmente, há uma massa de policiais que, apesar da experiência, não possui condições técnicas aceitáveis para a segurança e o sucesso na atividade policial, seja porque não tem o conhecimento ou porque não quer aplicar o que aprendeu. Essa impressão não é obviamente explícita, já que muitos trabalhos policiais têm a SORTE de “darem certo” e os erros são esquecidos ou varridos para debaixo do tapete. Quando tudo dá errado, a culpa é somente do policial, mas nunca um problema institucional na área do ensino e da prática policial diária. A inabilidade técnica não é culpa exclusiva do policial, mas o resultado da força de um pensamento quase irresistível: aquele círculo vicioso que diz que é preciso esquecer o que foi aprendido.

Por falar em erros, grupos especiais não são infalíveis, mas se distinguem na capacidade e interesse em avaliar o que foi feito de certo e, principalmente, ANALISAR OS PRÓPRIOS ERROS com o objetivo de propor soluções e aperfeiçoar o treino e o aprendizado para ações futuras. Essa prática, chamada DEBRIEFING, inexiste na polícia convencional.

O quinto encontro com o setor de ações especiais ocorreu num curso de ATUALIZAÇÃO para os Grupos de Pronta Intervenção (GPI) de Minas Gerais e do Rio de Janeiro. Durante duas semanas ouvi expressões como Free Flow, reta, ponta, TCCC (Tactical Combat Casualty Care), etc. A excelência do curso reafirmou minha percepção de que há um GRANDE abismo entre o treinamento e o equipamento dos grupos especiais e o comportamento do policial que está fora desse nicho.

Outra razão para esse distanciamento é o interesse pelo TREINAMENTO CONSTANTE, mesmo quando não há nada acontecendo que justifique o treino. Infelizmente, muitos colegas pensam que treino não é trabalho (e muitos chefes também pensam assim). Agora, pense na seguinte frase: policiais são pagos para desconfiar quando não há nada para desconfiar. Avaliar as pessoas, o que elas fazem, como se comportam e o local onde se encontram, é a essência do trabalho policial. Portanto, operadores táticos devem treinar quando aparentemente não há qualquer razão para isso.

Treinamento constante, planejamento, EXECUÇÃO COORDENADA e debriefing formam a cultura da atividade de operações especiais. Essa cultura forma um nicho que agrega policiais com interesses em comum. E os equipamentos especiais? Certamente, esses objetos não são a razão da existência de um grupo especial, mas o RESULTADO de uma CULTURA POSITIVA e de um COMPORTAMENTO DIFERENCIADO.

Esses elementos (comportamento e cultura) são muitas vezes incompreendidos por muitos policiais. Não é à toa que grupos especiais são alvos de piadas e de sentimentos de antipatia.

Eu mencionei PLANEJAMENTO? Sim, é claro! E essa palavra me fez lembrar meu sexto encontro com o universo das ações especiais ocorrido em recente operação em Juiz de Fora/MG. Eram 23h do dia 09/06/2014 quando as equipes se recolhiam para dormir, considerando que o início da operação estava programado para as 3h do dia seguinte. Entretanto, apenas 12 policiais permaneceram numa sala de reunião para planejar a ação e a participação de cada integrante durante o cumprimento da missão. Todos eles integravam o GPI de Minas Gerais e de Santa Catarina. O interesse pelo planejamento ANTECIPADO e DETALHADO era visível em cada um daqueles policiais.

Na palestra de abertura da operação, foram mencionadas três regras para o sucesso da missão:

Regra nº 1) Voltar são e salvo para casa e para o convívio com a família;
Regra nº 2) Respeitar a instituição;
Regra nº 3) Cumprir os mandados judiciais.

Assim, todo planejamento antecipado e detalhado favorece o cumprimento da regra nº 1, a mais importante para qualquer trabalhador.

Porém, aqui cabe um alerta. Um dos maiores erros que tenho observado diz respeito ao horário da entrega das informações sobre a operação policial, o alvo e o local das buscas. Via de regra, as equipes só recebem essas informações pouco antes da saída para o cumprimento da tarefa. Isso dá pouca ou nenhuma oportunidade para que as equipes possam se inteirar sobre a situação e PLANEJAR a execução da missão. Mais uma vez, isso reforça a incapacidade, o desinteresse e a distância da cultura positiva e do comportamento diferenciado que todo policial deveria manter.

Esse artigo não tem a intenção de homenagear policiais de grupos especiais, ainda que mereçam, mas demonstrar que cada policial, dentro de nichos ou fora deles, deve compreender a importância de observar, pensar, treinar, planejar e agir como um policial especial. Grupos especiais agem em situações especiais e policiais normais atuam em situações convencionais. Essa é a regra. Entretanto, o trabalho convencional abrange a maior parte das atividades de polícia e dados estatísticos têm demonstrado que a maioria dos policiais é agredida, ferida ou morta nessas circunstâncias comuns.

Mas se você incorporar a cultura desses nichos (COT, GPI, CAOP, GATE, BOPE, CORE, DRE, GISE, DAS, ROTA, GER, GIR, TIGRE, ROTAM, Tático Móvel, etc.) na sua atividade diária, certamente se transformará num policial diferenciado. Lembre-se que você já é especial para sua família. Agora basta que você se torne especial para si mesmo. Treine, planeje, execute e avalie o que faz durante o trabalho! Diminua as distâncias! Isso pode tornar seu trabalho mais motivador e também pode salvar a sua vida!

terça-feira, 4 de março de 2014

Tenha uma arma e viva em paz! (parte 1)

Em 13 de fevereiro vi a chamada de um canal de notícias sobre um programa que discutiria se a sociedade brasileira era realmente violenta ou se isso era apenas uma impressão causada pelo “impacto de algumas notícias horrorosas” veiculadas pela imprensa, como afirmou o próprio jornalista. Curioso e na expectativa da discussão, aguardei a transmissão do programa, que ocorreu às 23h do dia seguinte.

Confesso que esperava um policial (estudioso ou atuante), um jornalista e um promotor, talvez. Porém, os convidados eram um professor de Direito, um cientista político e um historiador. Mesmo considerando a qualificação e inteligência dos participantes, minha frustração não pode ser contida, porquanto o debate teria argumentos e explicações distantes daqueles esperados pelas pessoas que correm riscos de serem vítimas do crime e da violência diariamente. Além disso, poderia não haver boas e merecidas críticas às “políticas de segurança pública” do Estado Brasileiro. Sem apontar os erros, os participantes não provocariam o estado a fazer o que é certo, compelindo-o a sair da sua omissão, incompetência e amadorismo característicos.

Os argumentos sobre a violência no Brasil incluíram desde a abolição da escravidão, a violência política, até o que se chamou de revolução tocqueviliana (quando a melhoria dos padrões de justiça, igualdade e direitos sociais colide com a violação destes mesmos padrões). Desse modo, o programa estabeleceu raízes históricas, antropológicas e sociológicas para a violência no país.

Dias depois, um governador falou sobre uma tal "sensação subjetiva de segurança". Cercado por policiais de alta patente, o governador anunciou a recondução de centenas de policiais da atividade administrativa para a atividade operacional. Considerando que a segurança é um sentimento pessoal, o termo utilizado pelo governador foi bem apropriado. Contudo, a expressão sugere outra coisa. Quer dizer, sensação subjetiva de segurança é quando você acha que está protegido, mas está, na verdade, correndo sérios riscos.

Entretanto, tenho uma resposta mais simples para a questão da violência: a causa do crime e da violência não é a exclusão social ou a pobreza. Não é a falta de escolaridade ou de educação familiar. Muito menos um fator histórico. É, sobretudo, o interesse próprio. É a “sementinha do mal”, como diria o Capitão Nascimento, personagem do filme Tropa de Elite.

Confesso que se os entrevistados relacionassem os problemas que evidenciam a escalada da violência, nada seria dito que todos os policiais já não saibam. O pior é que até o Estado Brasileiro tem plena ciência desses problemas, mas sua saída estratégica é sempre deixar a questão na mão da polícia. Por sua vez, as organizações policiais deixam nas mãos dos policiais. Não é à toa, que na próxima encarnação escolherei uma polícia e um país sérios.

É possível que você também esteja curioso para saber por que razão o país está tão violento. Então, menciono cinco motivos:

Primeiro: existem criminosos demais. São 548.003 internos, segundo dados de dezembro de 2012, do Ministério da Justiça. São 548.003 “sementinhas do mal”, cuja readaptação ou recuperação é impossível. Apesar de não se conhecer a taxa de reincidência criminal do Brasil, estima-se que esse índice seja de 70%. O restante pode representar criminosos que não foram presos novamente ou que morreram em confrontos com a polícia ou com outros inimigos. Além disso, o encarceramento não representa a incapacidade de os internos continuarem delinquindo.

Além disso, parece haver certa benevolência para com o criminoso, o que ele é, e o que ele faz. Acredita-se que são seres humanos clamando por socorro e oportunidade quando, na verdade, são indivíduos que devem ser separados e encarcerados pelo maior tempo possível. Um longo tempo na prisão representa fôlego e esperança de vida para cada cidadão honesto. Com a frouxidão estatal, criminosos se sentem à vontade para impor o pânico e a destruição.

Se isso não bastasse, “A taxa de elucidação dos inquéritos de homicídios no Brasil varia apenas de 5% a 8%”, é o que disse o Advogado e Professor Luiz Flávio Gomes, num artigo publicado na revista eletrônica Consultor Jurídico, em 30/08/2012. Se no caso mais grave, o homicídio, o percentual é tão baixo, o que dizer do percentual de elucidação dos demais crimes, tais como os furtos e os roubos.

Sobre isso, o Sindicato dos Policiais Federais de Minas Gerais informou queO último cômputo divulgado pelo Conselho Nacional do Ministério Público, no estudo “MP – Um retrato”, atualizado até abril de 2013, mostrou que dos 5,3 milhões de casos criminais enviados pela polícia ao MP, nos estados e no Distrito Federal, 648 mil (12%) foram arquivados e apenas 589 mil (11%) resultaram em oferecimento de denúncia. As investigações ainda sem solução, incluindo todos os tipos de crimes, chegam a 4,1 milhões (77%).”

Com uma taxa de desempenho tão ruim, é possível inferir que existam centenas de milhares ou milhões de criminosos à solta. Este é o segundo motivo.

Terceiro: todos os bandidos usam armas, normalmente armas de fogo. Como possuem baixa tolerância ao fracasso, seu sucesso se baseia na surpresa, violência e supremacia do ataque. A única coisa que faz do criminoso um indivíduo a ser temido é a presença da arma de fogo. Sem ela, todo criminoso acuado se transforma num covarde típico e ator talentoso. Basta observar o comportamento dos bandidos que são pegos pela população, como mostram alguns vídeos publicados na Internet. Invariavelmente, eles se jogam no chão e não reagem, fingindo estarem machucados, inconscientes ou mortos. Alguns ainda gemem, imploram por ajuda ou pedem clemência. Eles pedem tudo aquilo que sempre negam às vítimas. O objetivo de tanta desfaçatez é enganá-lo a ponto de fazer com que você acredite que ali está um excluído social, fruto de uma luta de classes injusta.

Quarto: infelizmente, na luta pela sobrevivência, a polícia dá o pior conselho possível: nunca reaja! Sem opção, doutrinada por tanto tempo, por medo e por não saber o que fazer, a população cede ao abuso criminoso. Quando decide fazer algo para se salvar, o medo e a ignorância induzem a vítima a brigar com criminoso, quando deveria LUTAR PELA POSSE DA ARMA.

Quinto: você se lembra da expressão "sensação subjetiva de segurança"? Pois bem, eu disse que isso era um sentimento pessoal. E tal sensação de segurança ou insegurança aumenta ou diminui conforme a confiança no estado, no trabalho da polícia, no compromisso do policial e na própria capacidade para resistir a um ataque criminoso. Certamente, você já sabe que não se deve confiar no estado; que o trabalho da polícia está sujeito às circunstâncias políticas; e que o policial está cansado de "enxugar gelo". Você também já compreende que a primeira providência dos governos socialistas/comunistas/bolivarianos/totalitários é negar seu direito de autodefesa por meio de políticas de desarmamento que, paradoxalmente, mantém criminosos armados e livres (em que pese o empenho de cada policial verdadeiro que tenta vencer a desmotivação e a incompreensão social). Assim, o país está violento porque você não pode ter uma arma para se defender.

E enquanto a sensação de segurança é apenas um sentimento falso, A DEFESA É UMA AÇÃO MUITO MAIS EFICAZ CONTRA O CRIME E A VIOLÊNCIA. Portanto, resista ao estatuto do desarmamento; tenha uma arma, treine com ela e viva em paz!

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Siga os vivos!

Dois mil e treze (2013) foi um ano atípico. Por causa das circunstâncias e da animosidade que se instalaram no local de trabalho, eu havia decidido não realizar qualquer treinamento de tiro na delegacia onde estou lotado. Algumas pessoas, inclusive, me orientaram a não fazer nada sob o risco de boicote.

Meses depois, avaliei se minha decisão era a mais acertada e se minha vida deveria se pautar pela opinião alheia. Então, em outubro, iniciamos o treinamento de tiro com pistola; realizamos um treino com fuzil e abordagem policial em novembro; e um treinamento de tiro e autodefesa contra o crime para juízes federais em dezembro.

Minha mudança de atitude foi motivada por duas razões. Talvez, o treino pudesse fazer a diferença para alguém. Quem sabe, fosse um alívio para o estresse e a rotina dos participantes. Era importante pensar naqueles policiais que estavam “vivos” e esquecer aqueles que decidiram “morrer”, já que não se poderia fazer muita coisa pelos “mortos”. Essa foi a primeira razão. O segundo motivo era a possibilidade do treino me dar alguma alegria, alguma “vida”. Eu decidi que o resto de entusiasmo não “morreria” em razão das circunstâncias. Eu decidi não seguir os “mortos”, mas os “vivos”.

De fato, 30 policiais participaram do treino de pistola e 40 realizaram o treinamento de fuzil e abordagem policial.

A aula introdutória do treino de novembro (tiro com fuzil e abordagem) tratava da sobrevivência policial. Nessa aula, disse aos policiais algumas frases que havia aprendido ao longo do ano de 2013. São essas frases que compartilho neste artigo, na expectativa que possam fazer alguma diferença nas decisões dos leitores, assim como fez para mim.

“Fazer dá trabalho, e ninguém quer ter trabalho!” Aprendi essa frase com um subtenente (hoje capitão) do exército. E ele está certo. Fazer algo sempre dá trabalho, mesmo que seja para você mesmo. E se você quer bem feito, o trabalho é dobrado. Elaborar um treinamento e fazer com que ele aconteça dá muito trabalho. Contudo, tem policial que não quer ter trabalho algum, mas não perde a oportunidade quando quer reclamar. Reclama que não possui uma arma. Aí, a polícia compra a arma. Então, ele reclama da falta de munição. A polícia compra a munição. Daí, ele reclama da falta de instrutores. A polícia forma o instrutor. Em seguida, ele reclama da falta de local ou das condições do local de treino. A polícia consegue um estande. E o que o policial faz? Diz que está muito ocupado e não tem tempo para treinar. Na verdade, isso é uma desculpa esfarrapada para não ter trabalho. E quando eu digo “polícia”, me refiro aos policiais que fazem as coisas acontecerem. A instituição não faz coisa alguma; quem faz são os policiais.

Depois ouvi a segunda frase, agora de um policial, horas antes dele reagir a um assalto dentro de casa e matar um criminoso e ferir outro para salvar a própria vida, as vidas da irmã, do cunhado e dos sobrinhos. Ele disse: “Eu treino para ficar vivo!” Esse colega está sempre disposto a treinar, a ajudar e a ter trabalho. Depois do episódio, ele também percebeu, assim como eu, que é preciso estar ao lado dos “vivos”.

A terceira citação foi de um investigador de polícia. Ele comentou: “É preciso estar preparado, Humberto!” Momentos depois, ele sobreviveu a uma tentativa de roubo num posto de gasolina e matou os dois delinquentes. Apesar de toda a carência de recursos que esse policial enfrenta para exercer a profissão, ele está sempre disposto a treinar e a trabalhar com um vigor capaz de envergonhar muita gente.

A quarta frase foi uma demonstração de dissabor com o trabalho policial, de desmotivação e de falta de esperança. Mas, considerando a realidade das instituições e a forma como os governos tratam suas polícias, nada disso é novidade. As razões para essa frase abrangem desde a insatisfação financeira, a falta de perspectiva profissional e outros temas. Esses outros temas já são do conhecimento daqueles que ainda formam a NO, e por absoluta impertinência não cabem neste texto.

Assim, ao ser convidado para um curso de formação de operador de fuzil, o policial respondeu: “Eu não faço mais nada pra polícia!”

Confesso que fiquei constrangido com a resposta, pois fiz o convite com a melhor intenção. Considerei que o curso seria de grande valia para o colega, já que ele possuía uma arma longa. Além disso, um dos instrutores de tiro responsável pelo curso me incumbiu de procurar voluntários para o preenchimento das duas vagas destinadas à delegacia. Infelizmente, não me lembrei da triste situação que se vive no ambiente de trabalho.

Então, para minha surpresa aprendi a quinta frase: “Humberto, há pessoas que preferem descer enquanto outras escolhem subir!” Conclui, portanto, que era perda de tempo e de energia pensar ou me preocupar com aqueles que desejavam descer.

De qualquer modo, todo policial tem duas opções. A primeira é deixar que o desânimo, a desmotivação, a raiva e a pirraça o transformem num fantasma, que se arrasta pelos corredores de uma delegacia, na crença de que tal conduta algum dia chame a atenção dos governos e das próprias instituições para a necessidade de uma melhoria concreta na seleção, formação, remuneração, administração e aplicação dos recursos policiais. Esses policiais são aqueles que escolhem descer, que preferem sufocar a chama que os guia no trabalho policial.

A segunda alternativa é fazer algo que o motive e traga alguma alegria. Não me refiro a esta bobagem de “vestir ou suar a camisa”, mas ao desejo de realizar algo para si mesmo, pelos colegas ou por alguém. Faço referência ao desejo de ignorar a incompetência, a bajulação, o clientelismo, a maledicência e a inveja. Só isso já vai diminuir a carga negativa do ambiente de trabalho. Pode até parecer egoísmo ou ingratidão, mas é apenas o instinto de sobrevivência. A motivação está em você e não na instituição que você representa. Então, leia artigos e livros de interesse policial; participe de todos os cursos e palestras que puder; realize todos os treinamentos possíveis (presenciais ou EAD). Aproveite cada oportunidade que surgir e estude por conta própria. Avalie aquilo que fez de errado e procure melhorar seu comportamento tático. Forme e promova a coesão da equipe em que trabalha (quando eu trabalhava na DRE, o que me motivava era estar ao lado dos “antigões” e sentir a emoção das operações de repressão. Aqueles policiais não eram simples colegas, eram IRMÃOS. Infelizmente, muitos policiais hoje em dia não conseguem entender o que isso significa – e nem adianta explicar).

Quando faz isso, você está, na realidade, fazendo algo para si mesmo. Você sabe que a arma que usa é da polícia; que a munição é da polícia; o curso é da polícia; que o custo é pago pela polícia; que quem forma o instrutor é a polícia; que a viatura é da polícia, etc. Entretanto, caro amigo, a vida é sua. Ou seja, se você acha que sua conduta está boicotando a polícia, vale informar que você está boicotando a sua felicidade, a sua satisfação, a segurança e a própria vida.

Se você morrer porque está de pirraça, adivinhe o que vai acontecer: NADA! É isso mesmo, NADA! Os quartéis, as delegacias, os presídios abrirão as portas e funcionarão normalmente, inclusive no dia do seu enterro. Portanto, treina-se para ficar vivo. Os instrutores das academias também não estão trabalhando pra polícia. Eles estão fazendo e trabalhando por você.

Agora pense sobre seus verdadeiros inimigos. Digo isso, porque você pode imaginar que seu inimigo é aquele cara que tem opinião diferente da sua; aquele que prefere subir. Mas, seu verdadeiro inimigo não sofre de estresse; não se preocupa com as contas e com os problemas conjugais; não tem que cumprir horário; não precisa dar atenção aos filhos, etc. A única coisa com a qual o seu inimigo precisa se preocupar é estar preparado para acabar com você. E tenha certeza que nenhum criminoso vai fazer pirraça ou inventar alguma desculpa para evitar esse trabalho.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

O dilema da sobrevivência

Matar ou morrer? A resposta para essa pergunta parece óbvia, principalmente quando NÃO é preciso decidir e agir REALMENTE.

Por isso, a maioria das pessoas, inclusive policiais, considera que na luta pela sobrevivência matar alguém seja simples demais. Mas ao avaliar a situação de um amigo próximo, que precisou matar para não morrer, ficou claro que essa decisão não foi das mais fáceis.

De fato, para quem vive no submundo criminoso, matar é algo banal, pois se trata apenas de um capricho momentâneo e de um pouco mais de pressão no gatilho da arma. E apesar de integrarem a espécie humana, criminosos talvez façam parte de um grupo separado, quase uma “subespécie”.

Mas é preciso tratar do ser humano normal. Para ele, desde cedo e a todo instante, vozes internas dizem o que fazer ou não fazer, o que é certo ou errado. Elas o guiam em direção à convivência saudável e à paz de espírito. Entretanto, existem circunstâncias nas quais não há opções. Nelas, o homem normal precisa sobrepujar sua resistência natural em matar alguém da própria espécie para ser capaz de existir mais um dia. As rotas de escape simplesmente desaparecem quando um delinquente aponta uma arma para você ou para alguém que ama.

Muitas religiões, se não todas, propõem que homens e mulheres vivam pacificamente. Mesmo assim, elas conseguem homenagear seus heróis, seus guerreiros e suas vitórias. No mundo caótico em que viveram, esses heróis existiram como protetores divinos, como agentes do bem sobre o mal. Certamente, eles não estavam comprometidos com o louvor, a cura, a alegria e o amor, mas possuíam lanças, espadas e adagas para seguir adiante.

Apesar de os Dez Mandamentos proibirem o assassinato, não se proibiu a autodefesa ou o cumprimento do dever, principalmente na salvaguarda de vidas inocentes. A ideia do perdão e o mandamento “de oferecer a outra face”, conforme narram os evangelhos de Mateus e Lucas, possuem caráter moral PESSOAL. Porém, quando alguém age em nome de outra pessoa, não existe autoridade moral para perdoar em seu nome ou para permitir que o mal se sobressaia em razão da tolerância. A resistência pacífica não é viável quando alguém está tentando matar um policial.

Como a polícia representa todos os cidadãos, seu distintivo, arma, corpo e espírito estão a serviço deles. Permitir uma agressão ao policial é permitir uma agressão ao cidadão. Para honrar seu compromisso e continuar seu trabalho, o policial precisa e DEVE sobreviver. Quando ele se defende, ele também defende milhares de pessoas inocentes.

No Livro dos Espíritos de Allan Kardec, no capítulo VI - Da Lei de Destruição, a questão do assassinato é tratada da seguinte forma:

"É sempre do mesmo grau a culpabilidade em todos os casos de assassínio? 'Já o temos dito: Deus é justo, julga mais pela intenção do que pelo fato."
"Em caso de legítima defesa, escusa Deus o assassínio? 'Só a necessidade o pode escusar. Mas, desde que o agredido possa preservar sua vida, sem atentar contra a de seu agressor, deve fazê-lo."
"Tem o homem culpa dos assassínios que pratica durante a guerra? 'Não, quando constrangido pela força; mas é culpado das crueldades que cometa, sendo-lhe também levado em conta o sentimento de humanidade com que proceda.'"

Aqui, a questão crucial é a intenção assassina e do abuso da capacidade de matar. Por outro lado, se o policial está agindo apropriadamente dentro dos limites estabelecidos, inclusive pelas leis humanas, então ele está realizando um trabalho nobre e necessário para preservar aquilo que é mais importante no momento: sua própria vida e a vida de terceiros. A lei divina e a do homem não impedem a resistência à agressão injusta, muito menos proíbe que se lute contra o mal.

Infelizmente, apesar de as guerras e a morte serem temas comuns nas escrituras, não existe uma prescrição específica para lidar com a morte provocada por nossas próprias mãos em termos do nosso estado emocional, mental, físico e espiritual. Pode haver remorso, ódio, culpa, alegria ou um vazio interior onde se espera algum sentimento. Todas essas reações são normais e aceitáveis, e acredita-se que podem ser assimiladas com o passar do tempo.

As reações ao ato de matar alguém não precisam ser completamente formadas e compreendidas antes que o gatilho seja pressionado, já que, de qualquer modo, as pessoas normais sentem alguma tristeza em relação à morte alheia. Contudo, na luta pela sobrevivência contra um criminoso, estar agradecido porque o sujeito morreu e você ainda está vivo não é moralmente errado.

Como a morte de um ser humano por outro é impensável para a maioria das pessoas, e para muitos policiais também, um policial que é obrigado a matar carrega o fardo dessa ansiedade coletiva. Assim, não há como imaginar que a morte, mesmo de um bandido, vá agradar a todos.

O sentimento por ter causado a morte de outra pessoa não é algo que se extingue com o arquivamento do processo criminal. Você sente o que sente. E faz o que tem que fazer. Portanto, respire fundo, tire uma licença e tente dormir um pouco. SE VOCÊ SOBREVIVEU, É PORQUE FEZ A COISA CERTA.