sexta-feira, 4 de março de 2011

Treinar pra quê?


Em 28 de janeiro de 2009 foi publicado o artigo Carregar e ficar pronto! Sua sobrevivência depende de três coisas! O artigo foi difundido por meio da Internet e postado em um fórum sobre concursos públicos. Até aqui, tudo bem!

Contudo, o que chamou minha atenção foram dois comentários sobre o texto. O primeiro comentarista escreveu: “Que nóia! Em tempos de carnaval: Olha a lavagem cerebral aí gente!!!!!!!!” Já o segundo registrou: “Ah velho, esse cara tá assistindo muito filme americano... Digo mais, na primeira oportunidade que ele ver algo estranho vai acabar tomando um tirambasso (sic) na testa.”

O curioso é que o fórum se denominava “Aos futuros federais...” Portanto, isso requer algumas reflexões sobre o comprometimento com a própria segurança dos futuros policiais e o papel dos professores das diversas disciplinas ministradas nas academias de polícia, deixando de lado a análise do perfil de ajustamento (ou não) para sucesso da atividade de polícia de alguns candidatos à carreira policial.

Não há qualquer dúvida de que cada integrante de uma organização policial é importante para o desempenho e o bom resultado de sua missão institucional que é a promoção da liberdade e dos direitos dos cidadãos. E para isso, existem aqueles homens que fazem o trabalho dia e noite e aqueles que estruturam o ambiente para que todos tenham uma condição ideal para desempenhar suas funções para o sucesso policial. Pelo menos é assim que deve ser! Mas o importante é que todos têm um trabalho a fazer, e muitos procuram fazer bem.

Desse modo, também é importante lembrar o papel dos professores, mesmo que algumas pessoas acreditem que seus ensinamentos e considerações sejam meros exageros (como demonstram os comentários do fórum), pois os policiais ainda podem trabalhar, patrulhar, investigar e administrar sem os instrutores. Porém, é possível melhorar? É possível tornar o trabalho de cada policial mais seguro e eficaz, mesmo que muitos jamais sejam forçados pelo acaso a enfrentar o perigo? Se a resposta for não, então a trabalho está completo. Mas se a resposta for sim, então cabe a cada policial, e principalmente ao professor, auxiliar nesta superação.

Por quê? Porque o professor tem a tarefa de produzir e avaliar uma informação para dispô-la num contexto no qual o policial seja capaz de usar com aproveitamento. O instrutor deve trabalhar com os colegas, observando suas atividades e absorvendo suas experiências, para criar um mecanismo que se ajuste à necessidade do trabalho e melhore a segurança de cada indivíduo empenhado na luta contra a violência e o crime.

Para isso, o instrutor precisa pesquisar e aprender continuamente, procurando novas informações que os policiais possam necessitar, e descobrindo como levá-las até eles no tempo e na forma corretas. Felizmente, os bons policiais têm um pouco de professor dentro deles, pois todos dividem experiências, informações e aprendem uns com os outros.

Mas o policial que é designado como instrutor (seja de tiro, de técnicas operacionais, direção defensiva e ofensiva ou qualquer uma das mais variadas disciplinas) é o que tem o encargo específico de desenvolver, coletar e transmitir informações efetivamente. E essa é uma grande responsabilidade! Ele precisa ser sempre curioso sobre a natureza da profissão policial. Ele jamais deve acreditar que já sabe tudo o que precisa saber. Se um instrutor desenvolve um estado mental de que ele completou seu treinamento e de que é um ás, então ele alcançou um ponto onde não é mais capaz de oferecer o máximo de utilidade em benefício dos colegas policiais que arriscam suas vidas diariamente.

O professor deve aprender mais sobre o que ele e os outros colegas fazem. Ele deve desenvolver treinamentos, participar de seminários e cursos a distância, ler e conversar com outros instrutores e especialistas. Como tal, ele deve se sentir a vontade para escrever artigos e livros, onde novas ideias são oferecidas para o melhoramento dos policiais. Além disso, ele tem a obrigação de estar certo de que a informação transmitida está correta e atualizada, realizando uma análise de cada dado. Essas são apenas algumas das coisas que o instrutor precisa fazer para continuar presente.

O professor não pode ser propagador do mau trabalho policial, e jamais pode ser insensível às tentativas dos colegas policiais que querem atingir a excelência. Ele deve ajudar, e não ficar alheio para depois criticar injustamente um esforço honesto para melhorar, ainda que esteja sob o peso da desmotivação que permeia o trabalho policial.

Finalmente, o professor deve fazer o máximo esforço para proteger a dignidade e a integridade física daqueles que são treinados. Quando algum policial é ferido ou morto, ele deve descobrir as causas de um resultado tão negativo para tentar, da melhor maneira possível, reduzir a chance de futuras ocorrências semelhantes. E é para isso também que servem os artigos publicados na Internet, o desenvolvimento de blogs policiais e o lançamento de livros!

Quanto ao policial, seu papel é treinar para desempenhar bem sua função e estar a salvo, pois não é possível saber antecipadamente quem será a próxima vítima ou quem irá se aposentar sem sofrer um incidente ao longo da carreira. E como todo policial tem um pouco de instrutor dentro de si, pois cada experiência é única e valiosa, sua tarefa também é aprender e ensinar. E aos futuros policiais, o trabalho talvez seja aprender a aprender.

Treinar (mesmo mentalmente) não custa nada, mas a vida de um colega policial vale muito. Contudo, se alguém acha que nada vai acontecer, que tudo é exagero, paranoia, lavagem cerebral ou coisa de cinema e que não é preciso sequer acreditar no perigo, talvez seja melhor tentar outra profissão para o próprio bem e para a salvaguarda daqueles homens e mulheres que já abraçaram e honram a carreira policial dedicando diariamente suas vidas em prol de pessoas desconhecidas.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O que há de certo e errado na Portaria nº 4226?

Às vésperas de 2011, o Ministério da Justiça anunciou 25 diretrizes sobre o uso da força policial para orientar e padronizar a atuação dos policiais aos princípios internacionais sobre o uso da força, reduzir os níveis de letalidade nas ações policiais, seguindo as conclusões de um grupo de trabalho.

Assim, surgiu a Portaria Interministerial nº 4226, obrigatória para todos os policiais da PF, da PRF, do DEPEN e da FN.

Não se discute que toda orientação e padronização são fundamentais numa atividade cujas deficiências de formação, treinamento e procedimentos ficam evidentes quando se assiste programas de TV retratando o cotidiano policial.

Entretanto, a portaria dá 90 dias para as polícias adequarem seus procedimentos operacionais e seu processo de formação e treinamento às 25 diretrizes. E aqui está o primeiro erro da portaria, pois esse prazo não é suficiente para se adequar os métodos de ação, formação e treinamento sem sacrificar a segurança dos policiais. São milhares de homens capacitados e treinados em locais, épocas e condições distintas, e qualquer adequação quanto ao uso da força deve ser baseada num estudo técnico primoroso para preservar a vida do policial, do cidadão e do criminoso.

A portaria concede 60 dias para a fixação de instruções normativas e para a criação de comissões de controle da letalidade. Porém, é de se supor que toda instrução normativa ocorra após um longo estudo técnico elaborado por um grupo de trabalho com larga experiência (teórica e prática) relacionada ao uso da força na atividade policial baseado num problema específico. Em seguida, o resultado do estudo seria aplicado num grupo de teste. Dependendo do resultado, tal estudo balizaria o novo processo de formação (para os novos policiais) e de treinamento (para os policiais da ativa). Daí, a comissão de controle da letalidade acompanharia as circunstâncias com confrontos armados tabulando os dados para verificar o índice de preservação das vidas de TODOS os envolvidos. Cada tiroteio seria avaliado para se detectar as falhas que contribuíram para o fracasso da operação. As falhas seriam corrigidas com novo treinamento visando, em primeiro lugar, a segurança do policial e do público, e, em segundo lugar, a vida do criminoso. Os dados seriam coletados e reavaliados até que, finalmente, todas as diretrizes se transformariam em norma. O trabalho da comissão seria ininterrupto já que novas informações surgiriam a cada conflito armado, sendo necessário adaptar e desenvolver novas diretrizes, novos treinamentos, etc. Portanto, os prazos estabelecidos não proporcionam o desenvolvimento de algo seguro e detalhado.

Quanto ao grupo de trabalho, seria desejável a participação de policiais estudiosos, operacionais e experientes, de policiais militares (os primeiros a atender às ocorrências), de professores das academias de polícia e policiais de grupos de ações táticas, de psicólogos e cientistas do comportamento humano e de agentes prisionais.

Mas essas são apenas as considerações iniciais, pois o que interessa vem a seguir. E para facilitar o entendimento do artigo, ele contém as partes mais importantes do Anexo I da portaria e alguns comentários numerados. Então, vamos lá mais uma vez!

Os agentes de segurança pública não deverão disparar armas de fogo contra pessoas, exceto em casos de legítima defesa própria ou de terceiro contra perigo iminente de morte ou lesão grave.

Comentário nº 1: Correto. A vontade de matar é uma característica que distingue os criminosos dos policiais profissionais. E quando esses policiais disparam suas armas, isso é feito com a intenção de parar imediatamente uma ação criminosa que oferece perigo de morte. Mas como a arma de fogo é um instrumento letal por natureza, seu uso pode provocar a morte do criminoso, pois não existe um modo menos letal para usá-la. A intenção de parar imediatamente um delinquente não tem relação com atirar para matar, pois a autodefesa policial está centralizada na percepção da capacidade do criminoso matar ou tentar matar o policial. Assim, se a simples presença da arma detiver a intenção do agressor, o trabalho está feito! Se alguns tiros convencerem o atacante a desistir, está ótimo! Contudo, se for necessário aumentar o nível de força porque o perigo persiste, então é o que deve ser feito.

Não é legítimo o uso de armas de fogo contra pessoa em fuga que esteja desarmada ou que, mesmo na posse de algum tipo de arma, não represente risco imediato de morte ou de lesão grave aos agentes de segurança pública ou terceiros.

Comentário nº 2: Correto. O uso da arma de fogo é legítimo contra o perigo iminente de morte ou lesão grave. Alguém DESARMADO que FOGE não pode representar tal nível de perigo para o policial. E mesmo que ele apenas possua uma arma, o perigo ainda não é imediato, apesar de real. Entretanto, a diretriz é clara quando informa que a arma é um recurso viável quando o sujeito em fuga representa risco imediato. Assim, parece ser aquela situação na qual o delinquente atira enquanto corre da polícia ou atira em outras pessoas em seu caminho com o objetivo de atrasar a perseguição policial.

Não é legítimo o uso de armas de fogo contra veículo que desrespeite bloqueio policial em via pública, a não ser que o ato represente um risco imediato de morte ou lesão grave aos agentes de segurança pública ou terceiros.

Comentário nº 3: Correto. Projéteis de armas de fogo não incapacitam objetos, apenas pessoas. Existem duas razões para isso: a massa do projétil é insignificante se comparada à massa de qualquer veículo e é improvável que o projétil atinja algum componente fundamental do veículo que o faça parar instantaneamente. Portanto, o único modo de parar um veículo é acertando o motorista, o que raramente é uma conduta aceitável. O risco de se atingir por engano um motorista sem habilitação ou alcoolizado, com medo ou na dúvida sobre a autenticidade da barreira ou que não tenha visto o sinal para parar, não vale o benefício. Até mesmo as munições militares contra veículos com blindagem leve são desenvolvidas para atingirem as pessoas que estão dentro do carro e, certamente, você conhece casos de bloqueios policiais que terminaram em desastres. Vale lembrar dois episódios recentes: o primeiro no Ceará, quando um policial matou um adolescente que estava na garupa da motocicleta dirigida pelo pai, que alegou não ter visto ou ouvido qualquer sinal para parar porque usava o capacete. O segundo caso, no Rio de Janeiro, foi o de um juiz e sua família alvejados por disparos de fuzis numa barreira noturna. Aparentemente, os policiais civis usavam viaturas descaracterizadas e o motorista acreditou tratar-se de uma falsa blitz. Entretanto, caso o veículo em fuga seja usado intencionalmente para atacar o policial, a diretriz permite o uso da arma de fogo.

Os chamados "disparos de advertência" não são considerados prática aceitável, por não atenderem aos princípios elencados na Diretriz nº 2 e em razão da imprevisibilidade de seus efeitos.

Comentário nº 4: Correto. Diz um ditado: “Tudo que sobe, desce!” E o mesmo princípio vale para os projéteis nos disparos de advertência. Um documentário sobre a história das armas do canal History Channel informou que um projétil que sobe num ângulo reto em relação ao solo e numa trajetória perfeitamente retilínea não possui energia suficiente para provocar um ferimento balístico ao cair. Contudo, se o projétil sobe numa trajetória em parábola, ele possui energia o bastante para causar a morte. Mas por que isso acontece? Segundo o relato, o projétil que sobe em linha reta perde velocidade gradativamente até o ponto em que para no ar e começa a cair, sendo acelerado apenas pela força da gravidade. Como a massa do projétil é muito pequena e sua velocidade é muito baixa, ele não possui potencial lesivo. Por outro lado, o projétil que sobe em parábola desacelera de modo menos acentuado porque sua trajetória resiste menos à força da gravidade. Quando esse projétil começa a descer, ele ainda está aproveitando a velocidade utilizada na subida, o que mantém sua capacidade de produzir ferimentos fatais. Obviamente, um projétil de arma de fogo não viaja numa linha reta perfeita, mesmo se for disparado para cima a partir de um laboratório de pesquisas. Além disso, quem em sã consciência ficaria parado ao ouvir um tiro? Quando um policial faz um disparo de advertência, o primeiro a correr é o suspeito, depois as testemunhas. Disparos assim apenas geram pânico e servem de motivação para que o suspeito corra ainda mais, principalmente porque ele não sabe se os tiros são para acertá-lo. Portanto, se o policial quer advertir ele deve usar a voz de comando, não a arma.

O ato de apontar arma de fogo contra pessoas durante os procedimentos de abordagem não deverá ser uma prática rotineira e indiscriminada.

Comentário nº 5: Errado. Talvez a diretriz mais polêmica e, por isso, motivo para outro texto em breve.

Todo agente de segurança pública que, em razão da sua função, possa vir a se envolver em situações de uso da força, deverá portar no mínimo 2 (dois) instrumentos de menor potencial ofensivo e equipamentos de proteção necessários à atuação específica, independentemente de portar ou não arma de fogo.

Comentário nº 6: Errado. Todo policial, mesmo que desempenhe funções administrativas, está sujeito a ser envolvido em conflitos (como vítima, inclusive) ou se envolver em situações arriscadas para defender a comunidade. Contudo, o porte de dois instrumentos menos letais, apesar de necessário, só é viável quando o policial está uniformizado e operando de modo ostensivo. Policiais que investigam crimes não podem portar dois desses instrumentos sem comprometer a discrição e o sigilo necessários ao sucesso da missão. O mesmo princípio se aplica aos equipamentos de proteção que não são projetados, produzidos e adquiridos para o uso discreto, até porque as próprias organizações policiais só consideram a segurança do policial quando ele está trabalhando uniformizado, esquecendo que a maioria dos investigadores trabalha disfarçada a maior parte do tempo. Percebe-se que a proposta da Portaria 4226 é diminuir o nível de letalidade das polícias, o que é importante. Mas talvez, a tentativa não tenha avaliado as dinâmicas dos confrontos que levam os policiais a utilizarem suas armas de fogo e tenha considerado que a maioria dos autos de resistência é forjada apenas para resguardar a ação policial. Se esse for o caso, o policial pode se sentir compelido a deixar de agir, mesmo em legítima defesa, por receio de que sua ação de autodefesa seja avaliada como não adequada à situação e às diretrizes da Portaria. Além disso, a posse de instrumentos menos letais não garante a segurança completa dos envolvidos na crise, pois na ânsia de atender à norma, o policial pode utilizar um recurso menos letal inadequado à circunstância, principalmente se ele não possuir instrumentos menos letais mais eficazes. Por quê? Porque os administradores das organizações policiais pensam em custo, e as armas menos letais mais baratas e que exigem pouco treinamento (pelo menos na ótica dos administradores) são a tonfa e o spray de pimenta. Contudo, estas armas exigem que o policial se aproxime do suspeito ao ponto de tornar a ação policial altamente arriscada, principalmente se o suspeito estiver armado com uma faca (outra arma letal por natureza, sobretudo a curta distância). Portanto, mecanismos como o Taser, acabam descartados em função do custo de aquisição e necessidade de treinamento especializado para todo o efetivo. E é aqui que ocorre outro problema. Por exemplo, numa delegacia de polícia há apenas dois policiais habilitados para operar a pistola Taser, mas o primeiro foi transferido para outra cidade, e o segundo está se aposentando. Isso significa que os instrumentos de menor potencial ofensivo estão trancados numa reserva de armas, simplesmente porque apenas dois dos 55 policiais foram treinados. E para que você entenda como é arriscado utilizar instrumentos menos letais e incorretos em situações extremamente perigosas, peço que veja o vídeo de uma ação policial supostamente ocorrida na Nicarágua e depois tire suas próprias conclusões. O link é http://www.youtube.com/watch?v=_sQCIJXBM6s. Assista e perceba que policial morre com um fuzil AK-47 debaixo do braço esquerdo e uma tonfa na mão direita, enquanto o agressor tinha apenas faca.

Quando o uso da força causar lesão ou morte de pessoa(s), o agente de segurança pública envolvido deverá realizar as seguintes ações:
a. facilitar a prestação de socorro ou assistência médica aos feridos;
b. promover a correta preservação do local da ocorrência;
c. comunicar o fato ao seu superior imediato e à autoridade competente; e
d. preencher o relatório individual correspondente sobre o uso da força, disciplinado na Diretriz n.º 22.

Comentário nº 7: Correto. Tais condutas demonstram o profissionalismo do policial e seu desejo de esclarecer o porquê da necessidade da força letal para a solução da crise. Se a reação de autodefesa policial é legítima, não há motivo para não seguir as orientações dessa diretriz. Facilitar a prestação de socorro não significa que o policial deva conduzir o ferido até o hospital, pois é para isso que servem os serviços de atendimento móvel de urgência. Assim, se o criminoso estiver ferido, ele será levado ao pronto socorro. Se estiver morto, ele será deixado no local para preservar o local da ocorrência. Portanto, são os paramédicos os mais capacitados para dizer se o criminoso está morto.

Os critérios de recrutamento e seleção para os agentes de segurança pública deverão levar em consideração o perfil psicológico necessário para lidar com situações de estresse e uso da força e arma de fogo.

Comentário nº 8: Correto, mas é impossível prever como as pessoas reagirão em situações de estresse e uso da força. Existem os policiais que congelam diante de uma situação de risco, os que reagem na hora e os que exageram. Mas o desejo de preservar os direitos humanos não pode ser a razão principal para o Estado selecionar policiais passivos demais a ponto dessa característica aumentar o risco de morte desses homens. Obviamente, os loucos também devem ser descartados, mas uma dose de ousadia e audácia é necessária. Se essas características existem nos criminosos, elas não podem faltar naqueles designados para combatê-los.

As atividades de treinamento fazem parte do trabalho rotineiro do agente de segurança pública e não deverão ser realizadas em seu horário de folga, de maneira a serem preservados os períodos de descanso, lazer e convivência sócio-familiar.

Comentário nº 9: Correto e salutar, porém incompleto. O texto deveria informar que a atividade de treinamento é um DEVER do todo policial e uma OBRIGAÇÃO de cada organização policial. Se a unidade policial não for responsabilizada obrigatoriamente pelo treinamento de seus policiais, então muitos deles não irão treinar porque terão que gastar seus salários na compra dos apetrechos necessários ao treinamento. Quando um aluno é matriculado numa escola, a obrigação de ensinar é dessa escola. A família participa da educação do aluno, mas grande parte da responsabilidade pelo ensino é da escola. Na polícia é a mesma coisa, ou seja, a obrigação de treinar os policiais é da organização policial. O policial faz a parte que lhe compete, mas a obrigação ainda é da polícia. Sem essa obrigação, o policial pode alegar que uma ação policial desastrosa só ocorreu porque não houve treinamento oficial adequado. Por exemplo, em 2006, agentes penitenciários (concursados) de um estado da Região Sudeste realizaram um curso de formação em 24 dias. Eles aprenderam ordem unida, a dizer “sim, senhor!” e “não, senhor!” e deram uns 12 tiros de revólver. Quer dizer, esse curso não passou de uma brincadeira de mau gosto. Portanto, treinamento tem que ser sério, profissional, eficaz, o melhor e mais realista possível.

A seleção de instrutores para ministrarem aula em qualquer assunto que englobe o uso da força deverá levar em conta análise rigorosa de seu currículo formal e tempo de serviço, áreas de atuação, experiências anteriores em atividades fim, registros funcionais, formação em direitos humanos e nivelamento em ensino. Os instrutores deverão ser submetidos à aferição de conhecimentos teóricos e práticos e sua atuação deve ser avaliada.

Comentário nº 10: Correto, porém incompleto se os instrutores não receberem treinamentos constantes que possibilitem o aprimoramento de seus conhecimentos. Pessoalmente percebo o seguinte entre os instrutores de tiro: muitos são exímios atiradores, outros conhecem armas e munições até nos pequenos detalhes, alguns são capazes de desenvolver treinamentos de tiro diferenciados, outros possuem capacidade de analisar os confrontos armados e elaborar estudos técnicos. Considerando que ninguém pode ser bom em tudo, é exatamente essa diversidade de competências que possibilita a excelência no ensino das técnicas de armamento e tiro. Portanto, se a aferição de conhecimentos determinar que todo instrutor seja excelente em tudo, então é possível que a organização policial perca profissionais com competências que os diferencie dos outros. Então, perdem o instrutor e os alunos.

Deverão ser elaborados procedimentos de habilitação para o uso de cada tipo de arma de fogo e instrumento de menor potencial ofensivo que incluam avaliação técnica, psicológica, física e treinamento específico, com previsão de revisão periódica mínima.

Comentário nº 11: Correto, mas incompleto. O procedimento de habilitação deve ser feito não só para cada tipo de arma e instrumento, mas para TODOS os policiais. A criação de especialistas numa atividade tão dinâmica e perigosa como o serviço policial pode sugerir que alguns são mais importantes que outros ou que alguns correm mais riscos de morte do que os demais, e, portanto, devem receber treinamento diferenciado. Isso se aplica aos policiais de grupos táticos, mas não pode se tornar realidade para os policiais convencionais. Se TODOS os policiais receberem o treino necessário para todas as armas e instrumentos disponíveis nas suas respectivas organizações policiais, então, a comunidade terá homens mais preparados e ponderados em vista da disponibilidade de equipamentos e treinamento.

Nenhum agente de segurança pública deverá portar armas de fogo ou instrumento de menor potencial ofensivo para o qual não esteja devidamente habilitado e sempre que um novo tipo de arma ou instrumento de menor potencial ofensivo for introduzido na instituição deverá ser estabelecido um módulo de treinamento específico com vistas à habilitação do agente.

Comentário nº 12: Correto e louvável desde que TODOS os policiais recebam o treinamento necessário para operar com TODOS os tipos de armas (letais ou menos letais) disponíveis na unidade policial. Não há dúvida de que cada indivíduo se adaptar melhor com um tipo de arma, contudo, todos devem saber operar toda a gama de armas existentes, inclusive as armas mais comuns utilizadas pelos criminosos. Em 2010, o serviço reservado da Polícia Militar informou que assaltantes tentariam roubar dois carros fortes que se dirigiam até o aeroporto da cidade, onde um avião aguardava a carga em dinheiro. Os policiais que estavam na delegacia foram reunidos e se juntaram a uma força tarefa formada às pressas para impedir o roubo. Contudo, nenhum deles portava um fuzil. Por quê? Porque os dois únicos policiais capacitados para operar o equipamento estavam indisponíveis naquele momento (um de férias e outro viajando a serviço). Ou seja, apesar da delegacia possuir três fuzis e aproximadamente 55 policiais, apenas dois deles receberam a habilitação para utilizar o equipamento. Então, os fuzis ficaram trancados na reserva de armas enquanto os demais policiais arriscavam suas vidas armados apenas com pistolas.

A renovação da habilitação para uso de armas de fogo em serviço deve ser feita com periodicidade mínima de 1 (um) ano.

Comentário nº 13: Correto, mas incompleto. Nenhum policial deve ser convocado para o serviço sem sua arma de fogo, mesmo que ele disponha de instrumentos menos letais. Essa premissa é ainda mais verdadeira em se tratando do vencimento da habilitação para uso de armas de fogo, o que é uma novidade já que todo policial tem porte de arma inerente à profissão. Contudo, qualquer cobrança só pode ser feita após um treinamento contínuo, eficaz e profissional. Caso contrário, será como tentar colher uma laranja numa macieira. Quer dizer, o policial será avaliado sobre algo para o qual não foi preparado.

Deverá ser estimulado e priorizado, sempre que possível, o uso de técnicas e instrumentos de menor potencial ofensivo pelos agentes de segurança pública, de acordo com a especificidade da função operacional e sem se restringir às unidades especializadas.

Deverão ser incluídos nos currículos dos cursos de formação e programas de educação continuada conteúdos sobre técnicas e instrumentos de menor potencial ofensivo.

Comentário nº 14: Correto, mas incompleto. Como já foi dito antes, o foco das organizações policiais ainda é a despesa, infelizmente. Cursos de formação e treinamento continuado devem ser realizados por TODOS os policiais, mas isso gera despesas que determinam treinamentos incompletos ou superficiais. Então, para todo efetivo policial existe um minúsculo segmento especializado como os operadores de Taser, os operadores de bastão retrátil, os especialistas em controle de distúrbios civis, etc. Por isso, é necessário transcender a mera questão de custo/despesa para tornar cada policial um especialista no uso de TODA tecnologia (letal e menos letal) utilizada pela organização policial. Sem treinamento e equipamentos para TODOS não pode haver estímulo que impulsione a melhoria das ações policiais.

Os órgãos de segurança pública deverão criar comissões internas de controle e acompanhamento da letalidade, com o objetivo de monitorar o uso efetivo da força pelos seus agentes.

Comentário nº 15: Correto, porém impreciso. Qual o propósito da comissão? Apenas tabular dados que informem qual organização é mais letal e qual é menos letal? É uma espécie de corregedoria sobre o uso da força? Tem caráter estatístico e didático? Visa coletar de dados apenas para nortear o repasse de verbas? A comissão é importante para assumir a responsabilidade pelos estudos de casos que envolvam erros e acertos na atividade policial, principalmente em relação ao uso da força. A análise séria e profissional dos erros e acertos cometidos por policiais pode salvar ainda mais vidas inocentes do que a simples utilização de recursos menos letais ou o repasse de verbas para as polícias com baixo índice de letalidade.

Os agentes de segurança pública deverão preencher um relatório individual todas as vezes que dispararem arma de fogo e/ou fizerem uso de instrumentos de menor potencial ofensivo, ocasionando lesões ou mortes.

Comentário nº 16: Correto. Talvez a elaboração de relatórios possa servir para aprimorar a formação e o treinamento policial, visando substituir armas e munições por outras mais eficazes na incapacitação imediata do agressor, determinar novos procedimentos que aumentem a segurança do policial, da comunidade e do agressor, mas somente até onde a segurança permitir. Contudo, esse relatório individual deve ser considerado a expressão da verdade e servir de orientação para a salvaguarda de vidas inocentes, mas jamais para punir policiais que agiram conforme a necessidade de sobrevivência num tiroteio. Se isso ocorrer, o recado do Estado para toda força policial será simples, ou seja, cuide apenas de si mesmo!

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Aprendendo com as situações do modo difícil!

Quando consegui escrever estas primeiras palavras, o relógio marcava 23h51 do dia 17 de novembro de 2010, pois eu estava imóvel diante do computador desde as 22h20, assolado por um sentimento que me dominou desde a leitura, pela manhã, da notícia sobre as mortes dos Agentes M.L. e L.M., e o estado de saúde crítico do Agente C.

L.M. frequentou o curso de formação policial no primeiro semestre deste ano, mas sua fisionomia me escapa da memória. Porém, o que não esqueço é que fui um dos seus professores, sendo inevitável uma análise íntima sobre o que se poderia fazer para melhorar o treinamento policial para dificultar tragédias como a de hoje.

Então, me recordei de um texto não publicado que eu havia escrito em 2008, por ocasião do quinto aniversário da morte de outro policial, K.H.

Inicialmente, peço desculpa aos colegas se o que escrevo agora parece inoportuno diante de tamanha tristeza que toma conta de nossos corações, mas já perdemos os policiais E.M.M., L.M.F., R.S.M., J.H.F., S.A.Z., R.C.R., A.J.S., G.A.M., Os.V., L.C.D., dentre outros. Todos mortos em situações que poderiam ter sido analisadas para promover o aprimoramento da capacidade de autodefesa dos demais policiais.

Estou certo de que o artigo é tão atual agora, quanto será em 17 de novembro de 2015, aniversário de cinco anos da morte de M.L. e L.M.

APF Humberto Wendling


Aprendendo com as situações do modo difícil!

Em 25 de setembro de 2003, o bando do criminoso Cleiton Araquan assaltou uma agência bancária na cidade de Pilão Arcado/BA.

Durante o confronto com a polícia, Cleiton e Valter Araquan (seu primo e braço direito) foram mortos.

No entanto, isso custou a vida do Policial Federal K.H., então com 27 anos de idade, atingido por um tiro de fuzil enquanto operava a metralhadora do helicóptero usado na operação policial. No tiroteio também foram feridos os Policiais Federais H., T. e A.

Logo depois, se seguiu outra operação policial para localizar e prender o restante da quadrilha. Então, mais um assaltante foi morto e outros cinco foram feridos, segundo informações extra-oficiais.

Um Policial Federal morreu e três foram feridos, e isso é TUDO que sei sobre o episódio após pesquisar na Internet.

Entretanto, em 11 de abril de 1986, oito policiais do FBI vivenciaram algo semelhante. A diferença é que eu sei mais sobre o episódio ocorrido em outro país 24 anos atrás do que sobre o evento que aconteceu há sete anos na minha própria nação.

O TIROTEIO DE MIAMI, como ficou conhecido, foi um confronto entre esses oito agentes e dois criminosos (bem armados e treinados) que ocorreu em Miami, no Estado da Flórida. No confronto foram mortos os agentes Gerald Dove (30 anos) e Benjamin P. Grogan (53), bem como os dois criminosos, Willian Russel Matix (34) e Michael Lee Platt (32). Além disso, outros cinco policiais foram feridos gravemente durante o combate.

O incidente ficou negativamente marcado na história do FBI, e por isso foi bem estudado ao longo dos anos, mudando de vez a concepção do uso de armas curtas por todas as polícias americanas.

Apesar de os policiais superarem os criminosos na escala de quatro para um, os agentes foram recebidos por tiros de fuzil e espingarda, e não foram capazes de reagir efetivamente. Embora também atingidos diversas vezes durante o tiroteio, os criminosos continuaram a ferir e matar os policiais.

Há mais de seis meses os agentes investigavam uma série de roubos a bancos (Isso lhe parece familiar?). Os assaltos ocorriam somente numa sexta-feira de cada mês, e os suspeitos usavam um veículo Chevrolet Monte Carlo.

Pouco antes da sexta-feira do dia 11 de abril, uma mulher notificou a polícia sobre o desaparecimento do irmão, informando que o mesmo possuía um Chevrolet Monte Carlo. Ao encontrarem o corpo do proprietário do veículo com múltiplos ferimentos provocados por arma de fogo, os agentes vincularam o homicídio com as ações dos dois criminosos, acreditando que eles utilizariam o carro da vítima no próximo roubo.

O escritório do FBI em Miami acreditava que os criminosos possuíam um padrão de comportamento: utilizavam o mesmo tipo de carro, eram extremamente violentos e assaltavam as agências bancárias sempre às sextas-feiras. Contudo, as identidades dos suspeitos ainda eram desconhecidas.

Os dois criminosos, Willian Matix e Michael Platt, se conheceram enquanto serviam o Exército Americano. O primeiro foi cozinheiro do Corpo de Fuzileiros Navais e da Polícia do Exército da 101ª Divisão Paraquedista. Já o segundo serviu como paraquedista das forças especiais do exército e como policial militar da mesma 101ª Divisão Paraquedista. Os dois se casaram com mulheres que morreram sob circunstâncias até hoje não esclarecidas. Eles também administravam uma pequena empresa de jardinagem que era usada como fachada para a lavagem do dinheiro roubado.

No dia 11 de abril de 1986, equipes totalizando quatorze agentes do FBI conduziram buscas pelas ruas dos bairros nos quais os criminosos costumavam agir na tentativa de localizá-los NUM GOLPE DE SORTE, uma vez que se tratava de uma sexta-feira e já fazia quase um mês do último roubo.

Às 9h os agentes Grogan e Dove localizaram o Monte Carlo e comunicaram o fato ao chefe da equipe, que por sua vez, determinou que os demais agentes se juntassem à perseguição. Assim, os agentes Manauzzi, Mireles e Hanlon se juntaram à perseguição seguindo Grogan e Dove. Contudo, os suspeitos perceberam o que estava acontecendo e contornaram um quarteirão, confirmando a suspeita de que estavam sendo seguidos pela polícia. Nesse instante, o agente McNeil (chefe da equipe) cruzou com o carro dos criminosos e percebeu que Michael Platt preparava uma carabina Ruger Mini-14 calibre .223 Remington. Dove e Grogan solicitaram autorização ao agente McNeil para realizar a abordagem. Então, McNeil considerou a superioridade numérica, o reforço a caminho, e que tanto Dove e Grogan eram certificados pela SWAT, sendo que Grogan era considerado o melhor atirador do FBI em Miami.

Porém, esse reforço (no total de seis agentes) não conseguiu chegar ao local a tempo porque os policiais não conseguiram compreender o endereço transmitido, via rádio, pela equipe que estava na perseguição.

Com a autorização para a abordagem, Dove e Grogan tentaram bater a viatura no eixo traseiro do carro dos criminosos para que ele derrapasse (Manobra PIT ou Pursuit Intervention Technique). Mas a manobra falhou, e na colisão com o carro dos bandidos, Grogan perdeu seus óculos de grau. Imediatamente, Manauzzi fez a segunda tentativa e conseguiu acertar o carro dos criminosos que saiu da pista e colidiu numa árvore no estacionamento de uma empresa. Nessa batida, a arma de Manauzzi (que estava no assento) caiu no vão da porta direita. Após a batida, a viatura de Manauzzi ficou lado a lado com o Monte Carlo, e antes que ele pudesse recuperar sua arma teve que deixar a viatura rapidamente porque foi atingido pelos disparos de Michael Platt (passageiro - que ainda estava dentro do carro com sua carabina .223).

Dove e Grogan (que mal podia enxergar) pararam atrás do veículo dos criminosos e saíram da viatura. Enquanto Platt atirava no agente Manauzzi, Matix (motorista - também ainda dentro do carro, mas com o corpo parcialmente para fora) fez um disparo com uma espingarda calibre 12 contra Dove e Grogan. O agente McNeil parou sua viatura e se aproximou do carro de Manauzzi, e utilizando o bloco do motor como barricada, disparou seis vezes na direção de Matix, o atingindo duas vezes. Grogan também acertou um tiro em Matix. Ferido três vezes (na cabeça, no pescoço e no antebraço direito), Matix se debruçou sobre o volante e perdeu a consciência até quase o final do tiroteio.

Enquanto McNeil atirava em Matix, os agentes Mireles e Hanlon deixavam a viatura e iam em direção aos colegas, porém Hanlon havia perdido sua primeira arma porque o carro em que estava havia batido contra um muro de concreto do outro lado da rua. Hanlon, então, utilizou seu revólver reserva para auxiliar Dove e Grogan que ainda disparavam contra Matix e Platt. Mireles correu em direção ao agente McNeil, mas foi logo atingido no antebraço esquerdo por um projétil .223.

Assim que McNeil realizou seus disparos contra Matix, foi atingido gravemente na mão direita por um disparo efetuado por Platt. Com o revólver vazio, McNeil virou-se para sua viatura, recarregou sua arma com mais dois cartuchos quando viu uma espingarda calibre 12 no assento de trás. Mas ao tentar alcançá-la foi atingindo no pescoço por outro projétil .223. Dessa vez, McNeil tombou e ficou paralisado durante o restante do tiroteio. O agente McNeil não conseguiu carregar completamente seu revólver porque um grande volume de sangue escorreu para dentro das câmaras do tambor, tornando a recarga impossível.

Até esse momento, Michael Platt ainda estava dentro do carro, mas já havia incapacitado os agentes Manauzzi, Mireles e McNeil enquanto atirava pela janela do motorista por cima do corpo do comparsa.

Como Platt não conseguiu abrir a porta do carro, ele saiu pela janela do lado direito. Nesse instante, ele foi atingido por quatro projéteis 9 mm. Um deles atingiu as costas de Platt e foi disparado pelo agente Risner que juntamente com Orrantia atiravam a cerca de 30 m de distância a partir de uma posição barricada do outro lado da rua. Os outros três tiros (no braço direito, na coxa direita e no pé esquerdo) foram realizados por Dove. O tiro de Dove que acertou o braço direito de Platt atravessou o pulmão e parou a dois centímetros do coração.

O legista, que após o confronto examinou o corpo de Michael Platt, determinou que o projétil que atingiu o pulmão foi o ferimento fatal que conduziria a morte do criminoso, mesmo se ele recebesse os primeiros socorros. No entanto, esse ferimento não foi capaz de eliminar imediatamente a ameaça representada por Platt que continuou atirando enquanto caminhava na direção de Dove, Hanlon e Grogan que estavam protegidos pelo porta-malas da viatura. Platt foi atingido mais duas vezes por Orrantia e/ou Risner durante esse trajeto. Então, Platt virou-se para Risner e Orrantia atingindo este último com fragmentos de projéteis .223. Durante o tiroteio, Risner disparou 13 ou 14 tiros e Orrantia cerca de 12.

O agente Hanlon disparou todos os cinco tiros, mas quando tentava recarregar seu revólver, viu Platt apontar a carabina para sua cabeça. Misteriosamente, Platt mudou de ideia e atirou contra a mão direita de Hanlon que se jogou debaixo do para-choque traseiro da viatura na tentativa de se proteger, mesmo assim, ainda sendo atingindo na virilha. Quando se preparava para receber o terceiro tiro, Hanlon ouviu Grogan gritar “Ai, meu Deus!”. Platt então disparou um tiro contra o tórax de Grogan, que morreu no local, e quando se preparava para atirar novamente em Hanlon percebeu a presença de Dove no lado do motorista da viatura. E assim, disparou duas vezes contra a cabeça de Dove. Até aqui, Grogan havia disparado nove tiros e Dove 20 tiros, que antes de ser morto tentava recarregar ou sanar uma pane na sua pistola.

Depois de matar os dois agentes, Platt ainda disparou diversas vezes contra Orrantia e Risner. Mas ao abrir a porta da viatura dos policiais mortos, o criminoso foi atingido por disparos realizados por Mireles que usava uma espingarda calibre 12 com apenas um dos braços, já que seu lado esquerdo estava paralisado em função do ferimento ocorrido no início do confronto.

Em algum momento durante o tiroteio, Matix recobrou a consciência e juntou-se ao comparsa dentro da viatura de Dove e Grogan. Enquanto isso, Mireles disparava seu quinto e último tiro com a espingarda.

Dentro da viatura, Platt e Matix tentavam dar partida na ignição ao passo que Mireles se levantava apoiado na espingarda, sacava seu revólver, e caminhando com dificuldade, se aproximou dos dois criminosos. À queima-roupa, ele disparou seis vezes atingindo dois tiros em Platt (um na cabeça e outro no peito, totalizando 12 ferimentos) e três tiros em Matix (todos no rosto, somando seis ferimentos).

O tiroteio envolveu 10 pessoas: dois criminosos e oito agentes do FBI. De todos, somente um policial saiu ileso do confronto. Ao todo, os agentes realizaram aproximadamente 78 disparos e os criminosos 49 (Matix um e Platt 48).

Exames toxicológicos demonstraram que a capacidade de sobreviver aos múltiplos ferimentos causados por armas de fogo não havia sido alcança por meio do consumo de drogas ou bebidas alcoólicas.

O episódio que durou aproximadamente quatro minutos foi DETALHADAMENTE INVESTIGADO COM A ELABORAÇÃO DE UM RELATÓRIO DE 656 PÁGINAS (disponível no site do FBI). Em setembro de 1987, esse incidente foi encaminhado ao Conselho Consultivo sobre Armas do FBI que conduziu uma avaliação das pistolas utilizadas pelo órgão. Como a tarefa era abrangente e complexa, o FBI CONVIDOU ESPECIALISTAS RENOMADOS para participarem do Seminário sobre Ferimentos Balísticos, realizado na Academia do FBI.

Após o seminário, o FBI MUDOU AS ARMAS, AS MUNIÇÕES, OS CALIBRES, OS PROCEDIMENTOS OPERACIONAIS E O TREINAMENTO DE TIRO NA ACADEMIA. O local do confronto recebeu uma placa em homenagem aos policiais mortos e as ruas receberam os nomes destes agentes, sendo que o evento é lembrado até hoje. Ou seja, os poucos minutos daquela manhã de sexta-feira tiveram um forte impacto no que o FBI é hoje.

Sem dúvida, a lição aprendida naquele dia tem salvo as vidas de muitos policiais; lição que transformou o treinamento e as táticas policiais (por exemplo, os policiais são orientados a atirar até que o agressor caia, pois é o único sinal aparente de que houve a incapacitação. E não importa quantos tiros sejam necessários para que isso ocorra, pois a segurança dos policiais está em primeiro lugar).

Logo após o tiroteio, os agentes do FBI receberam pistolas que substituíram os antigos revólveres que muitos ainda utilizavam na época (em nome de uma economia de verbas obtusa, os policiais eram obrigados a portar revólveres .357 Magnum, mas com munição .38 SPL). O treinamento de tiro na academia foi melhorado incorporando cenários mais realistas, além da inclusão do estudo a respeito dos efeitos mentais e fisiológicos do estresse durante confrontos armados. O confronto já foi tema de um filme (In the Line of Duty: The FBI Murders 1988) e de um documentário patrocinado pelo Discovery Channel (Os arquivos do FBI). Tudo isso se deve ao exaustivo estudo de caso conduzido pela polícia federal americana, até como forma de HONRAR OS POLICIAIS MORTOS E FERIDOS.

E aqui eu reservo minhas esperanças para tomar conhecimento de um estudo de caso sobre o Tiroteio de Pilão Arcado. Mas agora eu também preciso esperar o estudo sobre o Tiroteio de Codajás.

Infelizmente, quanto mais o tempo passa, mais as informações sobre confrontos envolvendo policiais brasileiros se perdem, e com elas a possibilidade de se aprender com as situações que ceifaram as vidas daqueles homens que deram suas últimas medidas de devoção ao trabalho policial.

sábado, 23 de outubro de 2010

Fazendo a coisa certa na hora certa!

Na manhã do dia 06/08 recebi uma chamada telefônica de um colega. Foi assim:

- Você soube o que aconteceu com o João?
- Não! O quê?
- Ele reagiu a um assalto e matou o cara!
- Agora?
- Não! Foi nesta madrugada!
- E ele tá bem?
- Tá tudo bem!

No mesmo dia o jornal local publicou a matéria intitulada “Ladrão é morto após tentar roubar delegado da PF”. O artigo informou o seguinte:

“Ao tentar roubar à mão armada um carro na madrugada de hoje (6), no bairro Fundinho, na região central de Uberlândia, o assaltante foi surpreendido de maneira letal. A vítima era um delegado da Polícia Federal de Uberlândia. O autor do assalto W.D.N., 36 anos, acabou morto a tiros. Ele sacou a arma contra o delegado, que atirou antes para se defender.

O delegado havia acabado de estacionar na rua e caminhava pela calçada quando foi abordado pelo assaltante. W.D.N. empunhava uma pistola calibre 380 prateada. Ele determinou que a vítima voltasse para o carro e entregasse as chaves e a carteira.

O delegado disse que pediu ao homem que se acalmasse e que entregaria tudo o que ele quisesse. A única carteira que possuía, no entanto, era a funcional, onde estava todo o dinheiro e demais documentos. Ele sacou a arma e identificou-se. Segundo o depoimento do delegado, antes que o autor atirasse, ele disparou para intimidar e dominar o assaltante.

Moradores do prédio em frente ao local do crime disseram para os policiais militares que o delegado tentou tranquilizar o autor, que demonstrava nervosismo. Mesmo depois de ser atingido, o assaltante tentou alcançar a arma no chão.

O delegado mandou que ele permanecesse imóvel e chutou a arma para fora do alcance de W.D.N. A vítima foi socorrida e levada ao Pronto-Socorro do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia, mas não resistiu aos ferimentos.” (JORNAL CORREIO DE UBERLÂNDIA, 2010).

Após o confronto, uma breve investigação indicou que no dia 05/08 o criminoso W.D.N., também conhecido como Will Pitbull, e três comparsas haviam deixado a cidade de Uberaba/MG rumo a Uberlândia/MG. Quando chegaram ao destino, eles decidiram roubar um carro e cometer outros crimes. Como era necessário aterrorizar a pretensa vítima (e quem sabe matá-la), eles portavam, dentre outras armas, uma pistola .380 totalmente carregada com 17 cartuchos expansivos (EXPO). A arma estava pronta, ou seja, com “bala na agulha”.

Poucas horas antes do confronto, o policial (que em breve seria a vítima da quadrilha) havia combinado uma reunião com amigos num conhecido restaurante da cidade. Como era responsável por sua própria segurança, ele portava uma pistola calibre 9 mm pronta para o uso e totalmente carregada com munição expansiva. Mas não se engane com as diferenças entre calibres e munições, porque uma arma, por si só, não é capaz de vencer uma luta. E como a diferença entre viver e morrer é medida em segundos, você precisa saber que os vencedores nos combates armados são aqueles mais preparados para reagir.

Assim, o policial estacionou e desceu do seu carro. Enquanto falava ao celular, ainda próximo à porta do veículo, ele percebeu um homem se aproximando a pé pelo meio da rua. O policial continuou observando o homem, que passou por ele e seguiu adiante. Era óbvio que algo não estava certo, mas o colega não sabia o que exatamente estava errado. Então, ele deu a volta por trás do carro e quando estava perto do porta-malas viu aquele mesmo homem retornar em sua direção. No instante em que o homem se aproximou, ele sacou aquela pistola .380 e disse: “É um assalto! Entra no carro que eu tô armado!” O assaltante, que costumava assassinar suas vítimas em casos semelhantes, ordenou que o policial entrasse no carro e ficasse no banco do passageiro. Tão logo o criminoso anunciou o roubo, ele se aproximou da porta do motorista. O policial pediu calma, deu uns passos para trás (como se fosse atender à exigência do criminoso), e quando o assaltante vacilou, ele sacou a arma, se identificou e acertou logo os três disparos iniciais.

O primeiro projétil atingiu a clavícula direita do bandido e se fragmentou, provocando um grande orifício de entrada, porém com pouca penetração. Surpreso e assustado, o assaltante se virou (no sentido horário) e ficou completamente de frente para o policial, quando recebeu o segundo tiro que perfurou o tórax na altura do mamilo esquerdo. Contudo, estes disparos não foram suficientes para causar a incapacitação imediata do agressor. O policial, que usava o carro como barricada, percebeu que o criminoso se AFASTAVA (1) ainda resistindo à ordem para se entregar. Então, o colega deixou a barricada e REENQUADROU (2) o assaltante em sua linha de visada. O bandido continuou seu giro de arma em punho quando foi atingido pelo terceiro projétil na face lateral esquerda da caixa torácica (onde se localizam as costelas falsas). Mesmo atingido por três tiros, o assaltante saiu do alcance do policial (que errou os quatro disparos seguintes) e conseguiu correr alguns metros antes de se DEITAR (3) no chão. Ele não caiu, mas se deitou dizendo: “Já deu! Já deu! Já deu!” Deitado de costas, o assaltante ainda tateava o chão à procura da arma que havia caído, quando o policial se aproximou, chutou a arma e acionou o serviço de atendimento de urgência. Imaginando a presença de outros criminosos, o policial recuou até o muro de uma casa podendo observar toda a área. Ao ouvirem e perceberem a quantidade de tiros, os comparsas fugiram, a vizinhança surgiu nas janelas e a polícia (que rondava as imediações) chegou.

Então, volto a dizer que uma arma, por si só, não é capaz de vencer uma luta; que a diferença entre viver e morrer é medida em segundos; que os vencedores nos combates armados são aqueles mais preparados para reagir.

Neste incidente, o colega foi escolhido como vítima porque se comportou como uma vítima potencial ao permanecer próximo ao carro conversando pelo telefone durante a noite. E estar armado numa situação assim não significa garantia de segurança. Além disso, o que poucas pessoas percebem é que carros e motocicletas são verdadeiras armadilhas. Se você está dentro ou próximo do seu carro, certamente você está em perigo. Então, a solução é observar o lugar antes de parar, estacionar o carro e sair logo do local desconfiando da aproximação de qualquer pessoa.

Outro aspecto importante neste episódio é que por mais que os policiais realizem acompanhamentos de criminosos, vigilâncias ou perseguições, eles jamais consideram a possibilidade de estarem eles mesmos sendo seguidos ou vigiados. E foi exatamente o que ocorreu com o policial, quer dizer, as investigações demonstraram que ele foi seguido antes de ser abordado pelo criminoso.

Felizmente, o policial foi capaz de alterar rapidamente seu estado mental e comportamental de vítima indefesa para uma situação de sobrevivência. Foi quando a presa virou predador, quando a caça virou caçador! A partir daí, ele enganou o bandido e se afastou dele; usou a traseira do carro como barricada; sacou rápido; enquadrou o alvo; se identificou; atirou aproveitando 43% dos disparos (a média de aproveitamento nos tiroteios é de 17%); só deixou a barricada para reenquadrar o alvo; só parou de atirar quando o alvo desistiu, ao invés de utilizar técnicas antiquadas como o Double Tap (que ensina o policial a atirar duas vezes e ESPERAR para ver se algo acontece enquanto ele recebe uma chuva de balas do criminoso); afastou a arma do bandido; pediu auxílio médico e se protegeu contra outras possíveis ameaças.

Além disso, este sobrevivente foi mais um que finalmente percebeu a importância de um carregador adicional, desmistificando a lenda de que “se você não resolver uma situação com cinco tiros, não vai resolver com quinze!” Ele também aprendeu que a carteira de polícia não foi feita para guardar dinheiro, CNH, RG, CPF e outros badulaques.

No mais, fico feliz que o colega tenha feito a coisa certa na hora certa! E meu desejo é que ele tenha vida longa e próspera!

Clique na imagem e acesse a ilustração do caso.
(1) “A distância é um fator importante porque se o atirador não apontar a arma direito, mesmo que ele queira atirar no alvo, existe uma boa chance dele errar. Desse modo, quanto mais LONGE do atirador, maior a margem de erro. Assim, o problema aqui não é o tamanho da arma ou do calibre, mas o tamanho do alvo que você representa para o atirador.” (Humberto Wendling, artigo “O que eu faço quando alguém está atirando?”, 2010).

(1) “Na atividade policial ou no crime, a regra diz que para se fazer uma abordagem é preciso se aproximar do alvo. Mas quando a circunstância não é favorável e a pessoa não está mais realizando uma abordagem, e sim lutando pela própria vida, a reação natural é se AFASTAR do perigo.” (Humberto Wendling, monografia “A interferência do medo e do estresse nas habilidades policiais treinadas para o enfrentamento de situações com confronto armado”, 2007).

(1) “Então, a primeira questão é se o atirador está disparando especificamente em você ou se ele está atirando em outra pessoa e os projéteis estão indo noutra direção. Estes dois cenários são relevantes para a escolha da melhor estratégia de reação. De qualquer modo, os objetivos devem ser: SAIR DA LINHA DE TIRO; SAIR DA VISÃO DO ATIRADOR e SAIR DA ÁREA. (Humberto Wendling, artigo “O que eu faço quando alguém está atirando?”, 2010).

(2) “A terceira consideração é se o atirador está realmente querendo acertar você. Se ele está decidido em fazer isso, então ele vai rastrear você até colocá-lo dentro da fatia do bolo (REENQUADRAMENTO) e se aproximar o máximo para acertar o maior número de tiros.” (Humberto Wendling, artigo “O que eu faço quando alguém está atirando?”, 2010).

(3) “A menos que o sistema nervoso central seja atingido, não há qualquer motivo para um indivíduo ser incapacitado, mesmo por um ferimento fatal, até que a hemorragia seja suficiente para diminuir a pressão sanguínea e/ou o cérebro ser privado de oxigênio. Os efeitos da dor, que poderiam contribuir enormemente para a incapacitação, são normalmente atrasados como resultado de uma séria lesão, tal como um ferimento balístico. Quando o ser humano se depara com uma ameaça, seu corpo desenvolve o Reflexo de Luta ou Fuga. Como a dor é irrelevante para a sobrevivência, ela é normalmente suprimida por algum tempo. Portanto, para ser um fator decisivo na incapacitação, primeiro a dor deve ser percebida, e então deve causar um efeito emocional.” (FBI Academy Firearms Training Unit, artigo “Handgun wounding factors and effectiveness”, 1989).

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O silêncio vale ouro!

Em 02 de setembro de 2010, um jornal eletrônico publicou o artigo denominado “Polícias brasileiras usam diariamente munição proibida em guerras”. O subtítulo do mesmo artigo dizia que “Projéteis do tipo ‘ponta oca’ foram banidos em conflitos internacionais por serem considerados altamente letais e desumanos.”

Para fins didáticos, este texto contém os trechos mais importantes do artigo mencionado seguidos por alguns comentários numerados. Então, vamos lá!

“Policiais civis e militares brasileiros e agentes federais usam indiscriminadamente munições de ponta oca, cujo uso é proibido entre nações, pela Convenção de Haia de 1899. A norma regulamenta armas e munições que podem ser usadas por militares em conflitos armados, levando em conta o viés humanitário.” (Último Segundo, 2010).

Comentário nº 1: As polícias brasileiras não usam indiscriminadamente munições de ponta oca, pois se a legislação não proíbe tal munição, seu uso não pode ser considerado indiscriminado. Além disso, toda munição produzida pela única empresa existente no Brasil e vendida para as forças policiais é controlada pelo Exército Brasileiro. E cada cartucho possui um código serial marcado no estojo que viabiliza a localização da unidade policial que adquiriu aquele cartucho.

Comentário nº 2: A Convenção de Haia de 1899 também não proibiu o uso de munição expansiva, já que sua Declaração nº 3, de 29 de julho de 1899, que trata do uso de projéteis expansivos, informa que os países signatários concordam em se abster do uso de projéteis que expandem ou achatam facilmente no corpo humano, tais como os projéteis com camisas que não cobrem inteiramente seus núcleos ou cravados com incisões. A declaração informa, ainda, que o acordo só é válido para os países signatários em casos de guerra, mas pode cessar caso um deles se junte a outro país que não participa do acordo. Portanto, a abstenção ou recusa voluntária em usar munições expansivas pode ser interrompida mesmo nos conflitos bélicos.

“As munições de ponta oca, ‘hollow point’, são ‘projéteis de expansão’. O artefato expande o tecido atingido, fazendo um buraco ao atingir o corpo humano, causando maior impacto e neutralizando o alvo com maior eficiência. Essa munição diminui muito a chance de ricochetear ou atravessar um alvo e atingir outra pessoa. Junto com outros projéteis de expansão ainda mais letais, a ponta oca usada no Brasil integra um grupo de munições popularmente conhecidas como ‘dum dum’.( Último Segundo, 2010).

Comentário nº 3:
A expansão do tecido humano quando atingido por um projétil não é uma característica peculiar provocada pela munição ponta oca. Na verdade, qualquer objeto (faca, flecha, lança, dardo, agulha, prego, etc.) que pretenda perfurar um alvo precisa expandir o tecido humano até seu limite de ruptura. Este princípio se aplica tanto aos projéteis expansivos quanto aos ogivais. É óbvio, também, que todo objeto que pretenda perfurar o corpo humano deva “fazer um buraco”, caso contrário, não haverá uma perfuração. E perfurar o corpo humano sempre foi o objetivo principal de todas as armas ofensivas desenvolvidas pelo homem desde tempos remotos. Assim, o nome “expansivo” não se deve ao fato deste tipo de projétil expandir o tecido humano, pois qualquer objeto possui esta capacidade, mas porque é o próprio projétil que se expande ao entrar em contato com as partes líquidas do corpo. Além do mais qualquer projétil irá deformar no impacto com uma superfície suficientemente dura, como um osso, por exemplo.

Comentário nº 4: A neutralização ou incapacitação imediata do agressor não ocorre em função do impacto, mas em virtude do projétil ponta oca, já expandido, produzir um canal de ferida permanente mais largo que o produzido pelo projétil ogival. Assim, quanto mais largo e profundo for o ferimento, maior a chance de incapacitação em virtude da intensa e rápida hemorragia capaz de induzir à inconsciência do agressor. O objetivo não é matar, mas incapacitar imediatamente aquele indivíduo que representa uma ameaça real e imediata à vida do policial. Se a munição empregada pela força policial não for capaz de produzir este resultado, então o policial será exposto ao perigo de morte, adicionalmente à sua já perigosa função, simplesmente porque a munição empregada não cumpre com eficácia seu objetivo. A questão aqui é tão somente o diâmetro do ferimento. Esse diâmetro também pode ser ampliado se for aumentado o calibre do projétil. Por exemplo, as polícias brasileiras poderiam substituir as munições 9 x 19 mm e .40 S&W expansivas pela munição .45 ACP não expansiva. É como diz um amigo policial civil e atirador prático: “Enquanto se discute se a munição usada pelas polícias expande ou não, é certo que o .45, naturalmente mais larga, não encolhe!” Contudo, como a média de aproveitamento dos disparos (acertos no alvo) é de 17%, segundo estatíticas americanas, o policial precisa levar consigo o maior número de cartuchos possíveis para aumentar a chance de acerto antes que ele fique sem munição, o que é inviável para armas no calibre .45 ACP. Por isto as forças armadas de todo o mundo e a Polícia Federal brasileira ainda utilizam o calibre 9 x 19 mm.

Comentário nº 5: Todo projétil de arma de fogo é letal por natureza, e até mesmo as tecnologias menos letais, como os projéteis de borracha, podem matar sob certas circunstâncias. Por exemplo, é bem provável que um projétil de qualquer calibre, que atinja o cérebro provoque a morte. Mas isso não quer dizer que o policial deva utilizar qualquer calibre ou mesmo treinar para acertar a cabeça do agressor, pois é difícil que ele consiga mirar cuidadosamente na cabeça durante o estresse de um tiroteio. É por isso que o treinamento conduz o policial a disparar contra o centro de massa, ou seja, a parte central do corpo humano, independentemente do calibre ou do tipo de projétil.

Comentário nº 6: Dum Dum é uma cidade indiana que durante o século 19 abrigou a Real Artilharia Britânica quando a Índia ainda era uma colônia inglesa. Nessa base militar, o oficial Neville Sneyd Bertie-Clay iniciou os trabalhos para o desenvolvimento das primeiras munições expansivas do tipo Soft Point (quando a camisa cobre parte do projétil, contudo deixando a ponta de chumbo exposta para que deforme e adquira a forma de um cogumelo durante a penetração no corpo humano). O desenvolvimento desse tipo de munição ocorreu porque os cartuchos ingleses da época eram incapazes de incapacitar imediatamente os revoltosos indianos, principalmente a curtas distâncias. Portanto, Dum Dum não é um tipo de munição, mas o local onde um tipo de projétil expansivo foi desenvolvido.

“De acordo com o diretor do IML (Instituto Médico Legal) do Estado do Rio de Janeiro, Xxxxx Xxxxxxx, ‘a característica de um ferimento de bala oca [internamente] é semelhante à forma de um cogumelo, pois a munição retém todo o poder de energia do projétil dentro do corpo e dobra o seu poder de destruição, sendo mais letal que a munição em forma de ogiva, totalmente fechada’.” (Último Segundo, 2010).

Comentário nº 7: O estudo do FBI “Handgun Wounding Factors and Effectiveness” informa que frequentemente os médicos legistas não podem distinguir um ferimento causado por um projétil expansivo daquele provocado por um ogival, pois não há diferença física nas lesões. Um ferimento de “bala oca” não é semelhante à forma de um cogumelo, porque é o projétil que pode assumir essa configuração, não a lesão.

Comentário nº 8: Nenhuma munição, seja expansiva ou ogival, retém "energia cinética destrutiva", pois não a energia cinética que incapacita o agressor, mas sim a distância penetrada no alvo e a quantidade de tecido destruído pelo projétil. Portanto, um projétil não possui energia suficiente para nocautear uma pessoa porque sua massa é milhares de vezes menor que a massa de um ser humano. Por exemplo, a massa de um projétil .40 S&W (11,66 g) é 6.432 vezes menor que a massa de um homem de 75 kg. A quantidade de energia depositada no corpo humano por um projétil é equivalente a ser atingido por uma bola de beisebol, de acordo com o cirurgião americano Douglas Lindsey, em seu estudo denominado “The Idolatry of Velocity, or Lies, Damn Lies, and Ballistics” (1980, p. 1068-1069). Assim, um projétil não pode simplesmente nocautear um homem. Se houvesse energia suficiente para fazer isto, então uma energia equivalente seria aplicada contra o atirador, e ele também seria “nocauteado”. Essa informação é corroborada por uma das maiores autoridades sobre ferimentos balísticos, o Coronel do Corpo Médico do Exército Americano e médico especialista em balística terminal Martin L. Fackler.

“Não há restrição legal para o uso da munição por forças policiais – a Convenção de Haia (1899) se aplica somente aos exércitos. Mas a sua aplicação é cercada de polêmica entre os defensores e críticos dos Direitos Humanos.” (Último Segundo, 2010).

Comentário nº 9: A Convenção de Haia se aplica somente às forças armadas dos países signatários e o que se proíbe, dentre outras coisas, é o emprego de armas, projéteis ou materiais calculados para causar sofrimento desnecessário. Então é importante frisar que o objetivo da munição expansiva é somente incapacitar imediatamente o agressor, mas jamais provocar sofrimento desnecessário.

“No exterior, a munição ponta oca é usada largamente pelas polícias dos Estados Unidos. Já na Inglaterra, foi utilizada, em 2005, para matar o brasileiro Jean Charles de Menezes, confundido com um terrorista dentro de uma estação de metrô em Londres.” (Último Segundo, 2010).

Comentário nº 10: Na Inglaterra a munição expansiva só é proibida para uso civil, conforme indica a Seção 5 (1A) do Ato de 1968, o que implica afirmar que não há proibição legal para o uso dessa munição por parte da polícia inglesa. Além disso, os chefes de polícia podem escolher qualquer tipo de munição que seja apropriado às necessidades operacionais dos policiais. O fato de o senhor Jean Charles ter sido morto não tem nenhuma relação com a munição utilizada pela polícia, mas com o ponto de impacto dos projéteis (sete disparos na cabeça e um no ombro). Certamente, qualquer pessoa morreria se atingida sete vezes na cabeça por qualquer tipo de projétil de qualquer calibre.

“O uso no Brasil dessa munição não é proibida pela Lei Federal n° 10.826/2003 e pelo decreto presidencial n° 5.123/2004, responsáveis por regulamentar as armas e munições no País. Ainda segundo a legislação, o Exército é o responsável por autorizar as munições que são usadas na federação, e cada órgão policial solicita os artefatos de acordo com sua necessidade. Segundo o Coronel Achiles Filho, assessor da Diretoria de Fiscalização de Produtos Controlados da corporação, ‘não existe proibição para o uso da munição ponta oca, somente restrição a calibres maiores para as polícias’.” (Último Segundo, 2010).

Comentário nº 11:
A legislação está correta, afinal quem sabe das suas necessidades e diz como a polícia tem que operar é a própria polícia.

“No entanto o texto original da Conferência afirma que ‘estão banidas [em guerras] as munições que se expandem no corpo humano, como as que possuem o seu interior oco’.” (Último Segundo, 2010).

Comentário nº 12: o texto original da Convenção de Haia (1899) não bane as munições que se expandem no corpo humano. A Declaração nº 3 afirma que os países contratantes concordam em se abster do uso de projéteis que expandem ou achatam facilmente no corpo humano. O texto original informa o seguinte: “The Contracting Parties agree to abstain from the use of bullets which expand or flatten easily in the human body, such as bullets with a hard envelope which does not entirely cover the core, or is pierced with incisions.”

Comentário nº 13: Em 1907 ocorreu a segunda conferência de Haia, cujo objetivo era modificar algumas partes e adicionar outras ao texto da primeira convenção de 1899, especialmente em relação à guerra naval. O texto da Convenção de Haia de 1907 informa que o direito dos beligerantes para adotar meios para ferir o inimigo não é ilimitado; que é especialmente proibido empregar veneno ou armas envenenadas; matar ou ferir à traição indivíduos pertencentes à nação ou exército hostil; matar ou ferir um inimigo que, tendo deposto suas armas ou que não tenha condições de se defender, tenha se rendido incondicionalmente; empregar armas, projéteis ou materiais calculados para causar sofrimento desnecessário.

Comentário nº 14: Mesmo com o advento da Convenção de Genebra (1864) e das Convenções de Haia (1899, 1907 e 1954) que tentaram diminuir a gravidade dos conflitos armados no mundo, a própria ONU relata o crescimento no número de mortos nesses conflitos, conforme o quadro 5.1. Por quê? Porque as convenções tentam evitar o sofrimento desnecessário supostamente provocado pelos projéteis expansivos, mas não são capazes de impedir o ferimento ou a morte dos combatentes com o uso das munições ogivais.

Human Development Report 2005 – Capítulo 5 – Violent Conflicts (http://hdr.undp.org/en/media/hdr05_po_chapter_51.pdf)

Comentário nº 15: Embora nenhuma munição seja capaz de incapacitar imediatamente o agressor sempre, certamente alguns tipos funcionam melhor que outros, e qualquer margem a favor do policial é desejável na autodefesa. É lógico que a falha em incapacitar pode variar de acordo com a gravidade do ferimento, lembrando que esta severidade é uma função do ponto de impacto, da profundidade da penetração e da quantidade de tecido destruído. Por isso, é seguro dizer que se um alvo for 100% destruído, então a incapacitação é certa. Se 50% do alvo for destruído, a incapacitação é menos provável. A incapacitação é ainda menos certa se 25% do alvo for destruído. Contudo, e voltando à realidade, a destruição provocada por um projétil de arma de fogo é bem menor que 1% do alvo, mas a comparação é inevitável. Assim, um projétil expansivo que destrua 0,07% do alvo (52 g de um homem com 75 kg) incapacitará com mais frequência do que aquele ogival que destrua 0,04% (30 g). De qualquer modo, esta diferença pode ser muito pequena, mas ela representa uma margem de vantagem que deve ser sempre favorável ao policial. Caso contrário, esta margem penderá para os criminosos que tentam matar policiais todos os dias.

É triste, mas a verdade é que os que estão contra os policiais não são apenas aqueles que empunham armas e, contrariando a própria Convenção de Haia, nos matam utilizando meios limitados apenas pela imaginação; que nos eliminam à traição ou mesmo quando já nos rendemos ou não temos condições de defesa; que usam as mesmas munições expansivas que alguns acham que devem ser banidas; que nos torturam e queimam em fornos improvisados no alto dos morros; que deixam filhos órfãos e esposas viúvas!

Muitos acreditam que a Declaração Universal dos Direitos Humanos não vale para os policiais que defendem diariamente a propriedade, a justiça, a liberdade e a paz de pessoas desconhecidas. Contudo, uma coisa é certa: criminosos jamais tornarão o mundo melhor! Felizmente, todos os policiais do mundo sabem disso! E quem não sabe ou não tem nada bom para dizer deveria, pelo menos, ficar em silêncio!

“Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade. Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na presente Declaração, sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação. Todo indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal. Ninguém será submetido a tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes.”

sábado, 4 de setembro de 2010

Entre o treinamento e o desespero!

Certamente você já ouviu o ditado: a propaganda é a alma do negócio! À primeira vista, a frase é simples, inocente e genial, como pode acreditar um estudante de publicidade que ainda acha que a maior invenção do mundo é o clipe para prender papel. Não discordo sobre a importância da publicidade e da propaganda nos empreendimentos comerciais e na vida pessoal. Mas o fato é que esta frase esconde uma questão intrigante: se a alma do negócio é a propaganda, qual a importância do produto em si? Sem a resposta correta para esta pergunta, cedo ou tarde, você vai comprar gato por lebre.

E uma das maiores propagandas que tenho notícia no meio policial diz respeito ao coldre de neoprene. A empresa Neoprene Brasil informa que o neoprene “é a combinação de uma fatia de borracha expandida sob alta pressão e temperatura, que quando vulcanizada é revestida com tecido dos dois lados ou de apenas um lado. Suas principais características são: flexibilidade, elasticidade, resistência e proteção térmica.”

Um bom coldre deve ser resistente, confortável, fácil de usar em qualquer circunstância e seguro. Embora os policiais acreditem que o coldre de neoprene proteja a arma contra a ferrugem (seu grande trunfo), isto não é verdade, pois nenhum coldre possui esta capacidade. De qualquer modo, o produto é vendido com ou sem presilha para cintos. Quanto ao último modelo, simplesmente me recuso a desperdiçar tempo precioso com considerações técnicas e táticas. Assim, se você possui um coldre desse tipo, considere a seguinte sugestão: jogue-o no lixo. Fazendo isso, você vai se livrar de metade do problema. Já a outra metade se revolverá quando você adquirir um produto de qualidade indiscutível.

Ops! Aqui tem outro problema! Num lugar onde as polícias se equivalem a indigentes em termos de equipamentos de uso pessoal e coletivo, adquirir algo de QUALIDADE INDISCUTÍVEL significa, invariavelmente, importar. A indigência não é uma falha dos policiais, mas do desconhecimento, do desinteresse, da inaptidão e da avareza dos responsáveis pelas aquisições de produtos destinados ao trabalho policial. A questão é que para preencher esta lacuna, os policiais acabam utilizando seus salários na aquisição dos equipamentos que precisam. E quando fazem isso, esbarram na pobreza do mercado nacional. Pessoalmente, não me importaria com a sobrevivência do mercado interno, desde que eu encontrasse os melhores equipamentos estrangeiros em cada esquina.

Então, eu penso numa bota Original Swat, Hi-tec Magnum ou Oakley, e alguém compra um calçado qualquer. Penso num colete tático Blackhawk, Eagle ou Leapers, e alguém me entrega um jaleco. Penso numa veste policial/militar 5.11, Gore-Tex Parka com camuflagens variadas, e alguém manda tingir uma gandola. Penso num bastão retrátil, e alguém compra uma tonfa de um metro. Penso numa arma Glock, Sig Sauer, CZ, Springfield, Heckler & Koch, Colt, Benelli ou Remington. Penso num sedan médio 2.0 ou superior adequadamente equipado para o trabalho policial, e alguém compra um camburão ou manda instalar um kit gás no carrinho 1.0 da polícia. Aí, penso num coldre Fobus, IMI, Blackhawk, Safariland, 5.11, Specter ou Uncle´s Mike, e alguém vende e faz propaganda de um produto de neoprene.

Mesmo assim, tentando melhorar o conforto, a própria segurança e a qualidade do trabalho que prestam ao país, a maioria dos policiais acaba adquirindo os produtos disponíveis nas parcas lojinhas de quinquilharias. Contudo, acreditando na propaganda boca a boca, o policial compra o tal coldre de neoprene. “Com ele, a arma não enferruja!”, “A arma fica firme na cintura!”, “Sempre que eu precisei, o coldre funcionou!”, “É muito confortável e nem parece que eu estou armado!”, “É ambidestro e compatível com várias armas curtas!”, “Quando eu treino o saque, o coldre nunca sai junto com a arma!”

Entretanto, caro colega, a diferença entre o treinamento e a vida real é o DESESPERO. E mesmo no treino, aqueles que usam coldres de neoprene acabam sacando, “sem querer”, suas armas e coldres ao mesmo tempo. Para piorar, na vida real, as coisas raramente ocorrem como você quer ou da forma como você treina.

Só para ilustrar esta real possibilidade, no Rio de Janeiro/RJ, um experiente policial federal reagiu durante um assalto. Ele sacou sua arma, mas o coldre de neoprene ficou preso nela. Mesmo assim, o policial conseguiu disparar UMA VEZ nos criminosos. Depois do primeiro disparo, a pistola falhou porque o coldre impediu o movimento do ferrolho (totalmente para trás ou para frente). Os criminosos revidaram e acertaram o policial, que só não foi assassinado porque os bandidos se deram por satisfeitos. Volto a lembrar: o desespero é a diferença entre o treino e a realidade.

Como policial, você provavelmente já experimentou aqueles sonhos recorrentes onde você está desarmado no meio de um tiroteio ou sua arma falha ou os projéteis caem no chão assim que saem do cano. E para transformar este sonho em realidade, basta você usar uma arma suja (ou de qualidade duvidosa) ou munição velha ou uma pochete “saque rápido” ou um coldre que não presta. Então, antes de gastar seu salário, verifique se o equipamento é o melhor possível e funciona na hora da AFLIÇÃO EXTREMA.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

O ofício do desalento

Após a última prova de tiro, os alunos, eufóricos e radiantes, se aglomeravam na expectativa de assistirem o vídeo produzido por um dos professores e que demonstrava uma pequena, mas importante fase do curso de formação policial, e porque não dizer, da vida de 600 futuros policiais.

Dias antes eu havia dito para alguns alunos que não existia um policial sequer que não tivesse passado por aquela academia e experimentado a ansiedade e a alegria que eles sentiriam em poucos instantes. Era tudo que meu coração podia dizer para aqueles novos e vibrantes colegas. E sobre as tristezas e os desânimos... Isso eu guardei só pra mim! Mas um amigo não mediu suas palavras ao me orientar no início da minha carreira. Ele disse: “Se o tiro for pra esquerda, corra pra direita! Se o tiro for pra direita, corra até o banco e saque o seu salário! Você não vai mudar o mundo! Ele sempre foi e sempre será assim!”

De qualquer forma, para ingresso na polícia, o candidato deve, conforme edital, possuir diploma de conclusão de curso superior. Se aprovado no concurso, ele executará investigações e operações policiais na prevenção e na repressão a ilícitos penais, bem como desempenhará outras atividades de interesse do Órgão. Mas antes disso, cada aspirante estuda, estuda, estuda e estuda. Treina, treina, treina e treina. Para muitos, são anos nesta rotina.

Então, há uma prova objetiva de conhecimentos gerais (língua portuguesa, informática, atualidades, raciocínio lógico, administração, microeconomia, contabilidade, direito e legislação especial). Segue-se uma prova discursiva. A avaliação psicológica identifica a capacidade de concentração e atenção, o raciocínio, o controle emocional, o relacionamento interpessoal, a capacidade de memória e as características de personalidade. Depois disso, é a vez do exame médico, que de tão criterioso possui norma própria. O exame de aptidão física inclui testes de barra fixa, impulsão horizontal, corrida e natação. Os policiais mais antigos precisaram, além disso, correr 100m, saltar sobre uma barra horizontal, subir 7m numa corda e saltar em distância. Logo é a vez da investigação social requisitar informações pessoais e certidões infindáveis.

Primeira etapa concluída, vem o curso de formação profissional, em regime de semi-internato e/ou internato, exigindo-se do aluno tempo integral com frequência obrigatória e dedicação exclusiva. Dedicação que o acompanhará pelo resto da vida “e, se necessário, com o sacrifício da própria vida”. É o que diz o Juramento do Policial.

Durante mais de quatro meses, cada futuro policial estuda técnicas de abordagem, armamento e tiro (disciplina que utiliza mais de 1.000 tiros por aluno), atividade física policial, balística, bombas e explosivos, controle de produtos químicos, segurança privada, crimes cibernéticos, crimes violentos, criminalística, defesa pessoal, direção operacional, direitos humanos, ética e deontologia policial, gerenciamento de crises, identificação papiloscópica, incêndio florestal, inteligência policial, crime organizado, estudo da polícia, investigação policial, informática, lavagem de dinheiro, arquivologia, comunicação social, organização administrativa da polícia, defesa institucional, imigração, meio ambiente, repressão a entorpecentes, crimes fazendários, polícia judiciária, crimes previdenciários, pronto socorrismo, radiocomunicação, regime jurídico, regime disciplinar, segurança aeroportuária, segurança de dignitários, sistema nacional de armas, técnicas de domínio tático, entrevista e interrogatório, tráfico ilícito de armas e vigilância. Os mais antigos ainda estagiavam durante 5 dias na unidade de operações especiais. Semanalmente, todos cantam o Hino Nacional e o Hino da Polícia durante as solenidades de hasteamento das bandeiras. Todos cantam, todos vibram, todos os dias!

Depois do curso de formação e da escolha de lotação, que ocorre de acordo com a nota obtida durante o curso, os novos policiais são nomeados e tomam posse, deixando para trás familiares saudosos, porém orgulhosos. Cada um recebe um kit (uma pistola Glock 9mm; três carregadores; um par de algemas; a carteira funcional que garante livre porte de arma e franco acesso aos locais sob fiscalização da polícia, sendo assegurada, quando em serviço, prioridade em todos os tipos de transportes e comunicações, públicos ou privados, devendo as autoridades prestar-lhe todo o apoio ou auxílio necessários ao desempenho de suas funções; senhas de acesso aos sistemas, etc.). Eles são apresentados aos policiais mais antigos quando tomam conhecimento que possuem 4 horas semanais para a prática de atividade física e um programa institucional anual de capacitação em armamento e tiro com 400 tiros. Durante o trabalho, erros e acertos são cometidos, e experiências adquiridas. E com o tempo suas vidas se ajustam.

Aí, no dia 30 de junho, abri um e-mail institucional e li o conteúdo do Ofício nº XXX, de junho de 2010, emitido por um dos nossos parceiros na luta contra o crime e a violência. Imediatamente, lembrei da frase do meu amigo e de outras que já ouvi (“Você dá muito valor pra isso tudo!”, “Se eu você fosse, não estaria nem aí!”, “O negócio é prestar outro concurso!”, “A solução é esperar minha próxima encarnação!”).

O ofício dizia o seguinte: “Informo a V.Sª que o acesso dos membros dessa corporação às dependências da XXXXXXXX, portando arma de fogo, encontra-se disciplinado pelo art. 3º da Portaria N.000000000, de 12/2008, e Portaria n.00000, de 04/2005, cópia anexa. Assim, salvo na hipótese em que os policiais se encontrem em escolta de detentos ou testemunhas, na qual é permitido o acesso com arma de fogo aos prédios desta Seccional, o ingresso das pessoas autorizadas a portarem arma de fogo institucional nas instalações da XXXXXXXX será admitido, desde que a arma seja entregue, sob cautela, à Seção de Segurança, Vigilância e Transportes, localizada no edifício XXXXXXXX – Av. XXXXXXXX XXXX – X andar. Sendo assim, solicito que a presente orientação seja repassada para o conhecimento dos comandados dessa corporação. Certo da atenção de V.Sª, colho o ensejo para renovar protestos de estima e apreço.”

Agora eu pergunto: como manter o entusiasmo e acreditar que desempenhamos tarefas importantes para o país onde vivemos quando até nosso parceiro está contra nós? O que dizer aos 600 novos policiais federais cujos olhos ainda brilham? O que dizer aos 600.000 policiais civis e militares que ainda lutam? Aos 12.000 policiais federais que ainda tentam? Aos 13.000 policiais rodoviários federais que ainda acreditam? Aos 75.000 guardas civis que ainda vigiam? Aos 280.000 militares das Forças Armadas que ainda protegem? Aos milhares de agentes penitenciários que ainda procuram manter criminosos onde eles devem estar? E o que dizer àqueles que estão longe e ainda se orgulham de nós?

A verdade é que nenhum policial brasileiro vai a um órgão público por simples lazer. Todos estão lá porque estão trabalhando! Policiais portam armas porque criminosos portam armas, e esta é a segunda melhor forma de defesa contra eles (a primeira é a prevenção). E armas de fogo estão mais seguras nas mãos de policiais do que numa gaveta de uma seção de vigilância e transportes. Os cidadãos e nossos parceiros não devem temer nossas armas; eles devem se precaver contra as armas empunhadas por pessoas que não têm compromissos com a vida, a liberdade e a justiça!

Cada policial acredita que é “forte na linha avançada”. E ele o é, pois apesar das adversidades e do fogo amigo, ele reclama e insiste para que seu trabalho tenha as condições de excelência que ele deseja. Portanto, ninguém deve tornar o trabalho policial mais difícil e desalentador do que já é. Para isto, já existem aqueles que tramam na escuridão dos esconderijos. O que se espera, é que aqueles homens que têm o poder nas mãos usem este privilégio divino para melhorar a vida daqueles que lutam contra o crime e a violência todos os dias.

E se isso não ocorrer, talvez eu tenha que considerar a possibilidade do meu amigo ser um sábio! Mas na dúvida, em agosto teremos um treinamento de armamento e tiro em Uberlândia/MG.